terça-feira, 21 de novembro de 2017

LEO NO SERIDÓ

Leonard Cohen foi

encontrado ontem,
assobiando um blues,
num banco de praça
em Carnaúba dos Dantas.
Vendo ao longe barracas de feira
cobertas com plásticos azuis
que brilhavam ao sol da uma da tarde.
E, mais perto, em disparada diante do banco,
rumo sabe-se lá para onde, levas de bicicletas
Monark com selin gasto e aros já meio entortados.


Leonard Cohen viu bares com pouca luz
e muitos pinguços, mesas de sinuca de arestas
desgastadas, moças de short, alpercatas estragadas,
caminhonetes pintadas com as cores da bandeira
do Brasil e um sem número de lembrancinhas 
de N. S. das Vitórias. Desencontrado do momento e
do lugar, Leonard Cohen estranhamente 
combinava com tudo - a luz de filme do cinema novo,
o ruge-ruge da tarde de feira, a velha barbearia na esquina.


Não havia highway nem dinners ao alcance
da visão de Leonard Cohen sentado num banco
de praça em Carnaúba dos Dantas.
Talvez houvesse, quando muito, quem sabe?
um resto de solo de sax de alguém 
ensaiando Royal Cinema num quarto inexato
coberto de telhas cruas e encarnadas.
E Leonard Cohen, entre marchantes, feirantes,
sernatejos e flores de plástico, pensou ter visto
Edward Hooper tomando uma lapada num
morre-em-pé, vulgo boinho, ali na esplanada
que se abre como uma big farm de vento
aos pés do Monte do Galo. 


segunda-feira, 16 de outubro de 2017

NÓS E OS ESPANHÓIS


A propósito do nosso sombrio momento histórico e de uma série de livros da editora Contexto

É certo que estamos todos tristes. Não que certa melancolia não nos acrescente algo. Mas é de outra natureza essa sombra sobre nossos sentimentos - nada  a ver com a estranha alegria de ser triste de que falava o poeta português. É – esperamos – um desapontamento demarcado, uma apatia ocasional, uma escuridão cercada por um muro cheio de cacos de vidro chamado momento histórico.

Tudo é cinza em torno do verde/amarelo que nos roubaram pra enfeitar Patos de Tróia. E chutamos pelo caminho restos de projetos de país, papéis amassados com planos grandiosos que, entre retas e círculos, de alguma maneira vínhamos desenhando com algum sucesso. Faliu o Brasil Grande, quebrou o País do Futuro, furou-se o balão do Milagre Consumista, travou a máquina do Gigante Acordado. Tudo se esvaiu num ralo que mistura descrença ideológica com hipocrisia política, num escorrer rápido e precipitado como jamais imagináramos – sem nos dar tempo sequer de parar a correnteza para segurar algum elemento primordial que não precisa ser jogado fora junto com a água suja do banho do continental bebê.

Foi bem neste clima que me caiu às mãos um livro – sempre eles – capaz de, se não restaurar o que a realidade suja destruiu, ao menos lembrar que esse tipo de processo pode não ser propriedade particular de nosso apego infantil ao subdesenvolvimento. Foi um dos livros da série sobre nacionalidades que a editora Contexto publica. Uma bela série, onde se pode ler “tudo sobre” Os Ingleses, Os Espanhóis, Os Portugueses, Os Franceses, Os Russos – e outros, num total, acho, de dez título. Vá ao site, escolha os que lhe interessam e é capaz de, comprando uns cinco, ganhar o sexto. Vale cada centavo: cada livro traz uma síntese histórica, social e cultural de cada povo, como ele se uniu e como ameaça se desunir no dia a dia, vantagens e fraquezas, momentos de alta e de baixa.

Digo isso com base em Os Espanhóis, o único que li até agora – mas que foi justamente o livro que me devolveu um pouco de – como dizer, esperança? Não, caça aí outra palavra nas vizinhanças dessas – no errático Brasil de 2017. Descobri – ignorante como sou, e isso não é piada autodepreciativa pra me elevar o conceito em efeito contrário – que em certos aspectos, estamos bem à frente. O recente imbróglio em torno da independência da Catalunha não me deixa mentir.

O livrinho vai fundo nas bases desse e de outros movimentos separatistas hispânicos, além de cutucar as feridas espanholas como quem abre a golpes de foice as veias abertas da América Latina. Suportar um regime como o do general Franco por décadas – e só ver este regime cair quando seu patrono de fato morreu, bateu as botas – é de triturar qualquer coração civil, só pra deixar a coisa num clima bem Milton Nascimento dos anos 80. Desculpe, mas fomos ligeiramente melhores, se é possível traçar escalas de valores em matéria de ditadura. O fato é que nossos déspotas (os mais recentes) caíram antes – ou, melhor dizendo, duraram menos em termos de paciência cidadã. Os espanhóis tiveram que velar o presunto de Franco para poder pedir a palavra e dizer “ai”.


O efeito Guerra Civil é de uma absurda capacidade de gerar dor. Basta lembra a expulsão ou o sacrifício puro e simples de toda a boa inteligência  do país – escritores, artistas, cientistas – vitimada pelas botas dos seguidores de Franco. Sem falar nas levas de guerreiros republicanos entregues aos campos nazistas. É tanto sofrimento condensado que, por um instante, entre uma página e outra, a gente até acalenta a ideia de que o Brasil não terá sido tão cruel com sua gente. Será? E a nossa singela escravidão?

O fato é que, fechando a exposição do que é ser espanhol – e a síntese revela-se tão difícil quando a nossa eterna busca pela “identidade nacional” – o autor não se faz de bonzinho: diz, pura e simplesmente, que o que mantém a Espanha unida (porque, segundo ele, há camadas inteiras da população incapazes de se comunicar minimamente com outras; e a divisão pro e anti-independência da Catalunha taí pra provar) é alguma coisa como o medo... de outra guerra civil.


O que une os espanhóis é algo como a consciência de que tempos muito piores já foram vividos. É uma mistura de temor ancestral com conforto possível. Bem classe média brasileira com medo de não ter dinheiro pra pagar o colégio do filho, não? Mas é a isso mesmo que se chega após umas tantas trezentas páginas que passam por figuras tão distintas quanto Don Juan e El Cid, Felipe González e a cigana Carmem. O amigo arrisca aí uma síntese entre Chacrinha e, argh, Jair Bolsonaro? Pobre Espanha, miserável Brasil. Talvez o grande problema seja o mundo inteiro. Toc, toc, toc.

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

SÓ NOS RESTA O VERÃO






Este ano, vamos cobrar uma velha dívida dos cariocas

Os cariocas são minha última esperança. O verão carioca. Os modismos do verão carioca. Nunca eles foram tão necessários - porque ousados, irreverentes, loucos e irresponsáveis. É disso que a família brasileira mais precisa agora, nesta triste reta final não apenas de um ano, mas de uma série deles ao longo dos quais fomos atingidos por péssimas notícias encadeadas, ondas de intolerância compactadas e um bafo de atraso como jamais imaginamos. Pois ninguém melhor do que os cariocas para dar um chega pra lá nisso aí.

E eles nos devem isso: durante anos, décadas, séculos, fomos obedientes e fiéis seguidores das invenções que os cariocas nos traziam a cada verão: teve o do topless, o da lata, o do primeiro Rock in Rio, o do "Carnaval no fogo", que foi tão bom que virou livro, com esse título aí, escrito por Ruy Castro. Se durante tanto tempo fomos leais súditos dos verões cariocas mesmo morando a quilômetros de distância - em lugares onde havia outros modismos mas sem a menor chance de concorrer com aqueles propagados pela máquina de informações que vinha do Jardim Botânico, o bairro - então não será abuso nenhum cobrar a conta agora.

É assim mesmo: contas se cobram em momentos difíceis, quando tá todo mundo por um fio. E nesta hora em que nossa malemolência tropical está sendo ameaçada como nunca imaginamos pela rigidez de pastores milionários ou aspirantes a tanto, por arremedos de políticos que tisnam uma atividade que originalmente é das mais necessárias e por subcelebridades que não se conformam com o anonimato depois de famas fúteis justo naqueles libertários anos 80, então vamos passar a régua e exigir a conta: cariocas, ao trabalho, já – que dezembro está estourando aí.


Que nos apresentem, como contrapartida a tanta agressividade autorizada, burrice proclamada e moralismo de ocasião um verão escandaloso, performático, fútil como tem que ser mas divertido como se espera – numa palavra, bárbaro, para espantar os caretas de uma vez.

Um verão selvagem é o que pode nos salvar – ou, pra também não falar em termos tão definitivos que de fato não combinam com a estação – ao menos deter um pouco o neonazismo brazuca como um bloco de carnaval que para o trânsito impaciente da avenida Presidente Vargas.

Então, cariocas, vocês nos devem um baita de um verão. Usem o que for preciso: um novo biquíni, um point inesperado, um movimento que coloque aquela gente toda na praia diante de um adversário comum  (apitos sempre podem ser recuperados), o Cristo, o calçadão, Leila Diniz, a Rocinha, a Globo, o diabo. Mas nos entreguem aquele verão atrevido, barulhento e determinado a fazer a diferença que fez valer ao Rio a fama de capital cultural de um país em ruínas.



sexta-feira, 28 de abril de 2017

Pare

Enquanto é tempo. Mais será que ainda dá?

Na verdade, a gente devia ter parado há muito tempo. Logo na primeira hora, quando o português inicial abordou o índio original. Diante dos espelhinhos reluzentes, este poderia ter respondido àquele: - No, thanks. Além de antecipadamente bilíngue, seria um eticamente excelente ponto de partida para o que se chamaria Brazil - ops, Brasil.

Outras oportunidades de parar vieram e não aproveitamos. Na independência, ante aquele arranjo que se de um lado continha as arrogantes cortes de Lisboa mas por outro mantinha aqui um dos seus principais representantes, poderíamos ter dito: - Peraí, Pedro. Para tudo e vamos organizar essa soberania direito.

Muito antes disso, quando D. João III inventou aquelas que seriam a semente de tanto patrimonialismo no futuro Brasil - as tais Capitanias Hereditárias - algum conselheiro real, se não por interesse próprio ao menos por algum desconfiômetro natural, poderia ter tido: - Para, meu rey. Além de não dar certo, isso pode dar muito errado. Na escola aprendemos que só duas deram certo - Pernambuco e São Vicente, pois não? E por aí paramos. Neste caso, deveríamos ter ido adiante e estudado mais para ver se, no futuro, homens e mulheres feitos e estudados, conseguiríamos parar a roda que as capitanias puderam para, por assim dizer, funcionar. 

Quando as Diretas Já não passaram no Legislativo, em 25 de abril de 1984, o que deveríamos ter feito ao invés de embarcar na canoa parada da tal Nova República? Parado tudo. Naquela época nem era tão estanho assim - faltava foco, para usar uma palavra muito ao gosto de gente que não gosta de parar. 

Quando Tancredo parou de funcionar como organismo vivo e ser humano pensante em cima do momento da posse como presidente escolhido indiretamente num arranjo que não fora parado em tempo o quê deveríamos ter feito? Parado tudo. Quando Sarney emburrou e bateu o pezinho amuado exigindo 5 anos de mantato? Para tudo.
Quando o Plano Real começou a fazer água na confluência nem um pouco parada dos interesses do galinheiro das finanças com a nossa eterna bagunça política em tempos de ACM, era pra gente fazer o quê? Parar tudo. Vamos repensar. Neste caso, de certa forma, até que o fizemos.

Lula se elegeu finalmente - fora "parado" tantas vezes antes - e veio o processo geral da redistribuição de renda. Mas nem Lula foi capaz de parar os mecanismos gerais do sistema - e se não fora ele, não dá pra acreditar que nem um dos demais seria. Porque, se a velha ordem definitivamente está morrendo, Lula foi o que de melhor ela produziu. Faltou o quê a Lula e ao PT? Fazer mais? Necas. Faltou parar.

Parar certos mecanismos que se para outros - falo dos demais partidos, tradicionais grupos políticos e econômicos - eram aceitos, jamais o seriam para uma legenda partidária que veio da pobre base social do país. Faltou Lula e o PT dizerem, no primeiro dia de governo: - Parou. 

Antes mesmo, já na primeira negociação do primeiro custo de campanha: - Para, para, para que desse jeito não é mais possível.

E assim fomos, sem parar.

Até o dia de hoje. 

quarta-feira, 8 de março de 2017

OS INFERNOS DE ROTH





Ok, pode se escandalizar. Mas admita que você também pode se divertir com duas das mais nefastas criaturas literárias dos EUA


Dante que me perdoe, mas ninguém sabe construir um inferno melhor do que Philip Roth. Inferninhos, pra ser mais exato. Não daqueles de arrebalde ou beira de estrada. Não do tipo mal iluminado e cheio de figuras estranhas. Nada de bares suspeitos. Outro inferninho – pessoal, interno, internalizado, mas igualmente inferninho, pois que acelerado, disparado, caótico, sem limites. Um inferninho que faz da própria sordidez uma festa dionisíaca de misérias morais expostas. Você, eu, o leitor, nós nos divertimos em meio à repugnância – e, nisso, dissecamos o processo do sórdido da vez.

Que começou sendo Portnoy e, alguns anos depois, burilou seu próprio (mau) caráter a tal ponto que se tornou ainda pior – ou melhor, conforme a perspectiva de quem lê de fato o personagem. Virou Sabbath. Se o primeiro começava como um adolescente equipado com uma mente masturbatória insaciável – na medida exata da reação à repressão da cultura judaica ainda que não tão ortodoxa mas tanto pior quanto mais relativizada pelo meio (no caso, a classe média americana) – o segundo, com o perdão da extensão da frase (que quem já leu Roth não vai estranhar tanto, aposto) termina com o ocaso da mesma alma nefasta nos dias de velhice safada. Só mudaram o nome e ligeiras circunstâncias de endereço e profissão, se é que se pode falar assim.

Nem Bukowski foi tão longe. O caso é que Bukowski meio que se comprazia nas suas orgias, sugeria uma espécie de prazer superior em meio às maratonas alcóolico-sexuais. Deixava um certo rastro de superioridade em meio à miséria da raça, apesar de nem sempre se preocupar em reduzi-la ou julgá-la (muito pelo contrário). E ainda por cima fechava o porre com uma boa dose de niilismo que parecia justificar tudo. Não é o que acontece com Alex Pornoll e Mickey Sabbath, os personagens de dois dos principais livros de Phillip Roth, “O Complexo de Portnoy” e “O Teatro de Sabbath”. Eles não enxergam redenção alguma no que fazem, nem no nível existencial de sarjeta, se vocês me entendem. Pra eles, nada daquilo faz sentido algum. Daí os livros fazerem muito sentido pra quem os lê aqui do outro lado.





Como se sabe, ou não (eu não sabia até a velha biblioteca da Câmara dos deputados, logo ele; e uns vídeos banais de YouTube me informarem gentilmente), “O Complexo do Potnoy” é o primeiro dos mais importantes livros de Roth – e também o primeiro em que críticos literários que foram seus primeiros apoiadores tiveram imediatamente a providência primeira de lhe retirar aquele mesmo esteio inicial. Porque não suportavam as taras do monstruoso personagem. Curioso que justo críticos literários não tenham conseguido descolar o personagem do livro em si – ou, muito mais grave, do autor. Levaram tudo e todos a sério demais – e é preciso dizer que os dois livros aqui referidos são, antes de qualquer coisa, autênticas catedrais do bom humor.

Roth ficou na dele e escreveu uma série de outros livros sem tocar no assunto, como quem assovia uma valsa vienense em meio a um bacanal romano. Pois bem. Anos depois, sai-se com “O Teatro de Sabbath”, um compêndio de memórias e registros de um personagem ainda mais perverso, sexual e socialmente falando. Sabbath soa como Portnoy na velhice, como já disse aqui. Os livros se encadeiam perfeitamente, de maneira que o segundo foi uma espécie de resposta de Roth a quem se escandalizou com aquilo que parecia um escritor promissor até o lançamento do primeiro.
Confundiram o próprio Roth com Portnoy e com Sabbatn – o que não é tão difícil, já que a biografia dos três tem pontos em comum. Mas, para além de olhos esbugalhados de indignação letrada, por trás de cordilheiras de trepadas e rios de sêmen derramados por páginas e páginas, o que parece mesmo incomodar ambos – Portnoy e Sabbath – é a repressão cultural (muito além do murinho sexual, embora esse faça parte do pacote todo). É contra a convenção da tradição judaica, por sua vez cimentada pelos padrões do american away of life contra o qual os redutos em que vivem só aparentemente parecem se confrontar, que nossos dois tarados de estimação se põem a reagir.



E nisso, por serem tal qual são, imperdoáveis que nem um Trump enfurecido diante do quadrado em branco do twitter, é que podemos, junto com Roth, projetar neles todo o nosso potencial de malfeitos. Portnoy e Sabbath são como aqueles cadáveres sem nome que os estudantes de medicina usam para estudar o funcionamento do organismo humano. Eis a medicina da literatura – tantas vezes mais honesta que a de fato. E este último comentário bem que poderia vir de um dos dois personagens. Mas, como não sou nenhum deles, melhor parar por aqui.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Listão 2016 do Leitor Bagunçado



Desde o ano passado, evidências preocupantes já alertavam: o Leitor Bagunçado está ficando organizado demais. O apelido sapecado a título de me absolver desta mania feia de ler livros sem direção – ao mesmo tempo em que me conferia certo verniz livre-pensador – faz cada vez menos sentido. 

Tá difícil manter a (má) fama. A tradicional lista de livros lidos ao longo do ano é o bastante para, ano após ano, dinamitar aquela reputação durante construída.

O que fazer? Render-se às evidências, publicar a lista de 2016 – como sempre, com algum atraso – e, apesar dos pesares, manter o apelido nem que seja a título de chacota. Uma a mais não fará diferença. 

Pior seria mudar pra Leitor Organizado que, além de soar mal, sugere um ordenamento meio cacete que a esta altura dos fatos só cai bem em gente tipo Michel Temer – toc, toc, toc. 

Dito isso, vamos a parcas observações sobre a lista de 2016, que começou com muito bem com  “Um beijo e tchau” do desorganizado-mor (amém) Alex Nascimento e terminou, agorinha mesmo (ufa) com o primeiro livro da série Wild Cards, escrita por um punhado de feras das narrativas fantásticas que só não se torna uma bagunça literária porque tem um editor-geral, George R.R. Martin.

Pois são justamente as séries de livros, essa mania que parece ter surgido ao mesmo tempo em que as séries de TV (ilusão, talvez, já que basta fuçar um pouco pra descobrir que ambas são bem antigas), que estão fazendo do Leitor Bagunçado um cara muito mais organizadinho. E 2016 foi o ano das séries, trilogias e quejandos. 

Os três livros do “Millenium” de Stieg Larsson me jogaram sem dó nem piedade nesse mundo de narrativas que atravessam livros como delinquente que foge da polícia atropelando o trânsito. Não cheguei a ler o quarto livro da série, escrito por um amigo de Larsson após a morte deste. Mas tracei uma tetralogia, esta bem mais “lenta” do que as aventuras despirocadas de Lisbeth Salander: a série clássica de Yukio Missima, aberta com “Neve de Primavera” e encerrada com “A Queda do Anjo”. Margherite Duras adorou. Eu, que gosto da francesa desde 1985, não gostei muito. Subjetividade demais até pra alguém bem pouco objetivo como este Leitor Bagunçado. Mas fui até o fim, mantendo o hábito de nunca abandonar um livro pelo meio – eles não merecem, por piores que sejam.

Nem está na lista, mas pra me comunicar melhor com o mundo do meu filho Bernardo, de 9 anos, reli o primeiro Harry Potter – e gostei bem mais do que quando o fiz pela primeira vez, numa época ainda sem sombra de filhos. Devo continuar. Pra aprimorar pelo menos o inglês de leitura, também entrei na onda Bernardo e li os dois primeiros livros da série Percy Jackson, em que Rick Riordan tem a brilhante ideia de juntar o mundo adolescente pós-ipad e a mitologia grega. 

Nessa seara ainda meio adolescente, um romance juvenil com uma premissa ímpar: um garoto/garota que todos os dias acorda no corpo de alguém de sua idade, vivendo seus 17 anos em situações tão semelhantes (porque marcadas pela embalagem da mesma geração) quando diferentes (porque os dramas de cada um são os mais diversos). "Every Day" é mesmo muito original, e no meu caso mais ainda por ter sido a primeira floresta de letras em inglês que enfrentei munido de dicionário on line pelo menos até a primeira metade – depois disso, o vocabulário se calcifica e a gramática faz de tudo uma fruição só.

Teve poesia – e das boas. Tinha que vir da lavra feminina, muito bem representada pela minha amiga Jeanne Araújo, potiguar e seridoense como eu, cuja poesia conheci bem cedo e já farejando o tanto que poderia render. E como rendeu, em “Corpo Vadio” e “Monte de Vênus”, livros em que Jeanne usa a sensualidade como espada em fogo para abrir sua clareira particular nos canaviais cerrados da boa poesia. Jeanne incendeia propositadamente as próprias carnes de papel para extrair do que escreve uma pureza quase intocável. Parece Hilda Hilst, uma de suas predileções, mas é outra coisa, de uma natureza muito mais telúrica do que sexual. Quando nada porque seus versos parecem surgir no papel depois de socados num pilão mitológico instalado na dureza resistente da paisagem seridoense. A geografia em torno molda uma poesia, sabemos. E a outra poeta que acompanha Jeanne na minha lista confirma isso: foi um apanhado da poesia feita por Elizabeth Bishop quando de suas temporadas no Brasil (em tradução de Paulo Henriques Britto).

Em 2016, aqui graças à Biblioteca da Câmara dos Deputados (esse tesouro onde não canso de descobrir pepitas literárias, mesmo as mais conhecidas), finalmente li Saul Bellow, assim como retornei a Paul Auster. 

Do acervo pessoal, recuperei um Eduardo Gianetti da Fonseca que muito me consolou (via conhecimento, o que nunca é alienante mesmo sendo analgésico) diante da situação brasileira que só se agravou ao longo do ano. Era um velho livro que sempre foi um dos preferidos de Rejane – e que sempre esnobei, admito. Estava enganado – e como feliz penitência já estou com o novo livro de Gianetti (Trópicos Utópicos, lançado ano passado) pra incluir na lista de 2017.

Uma descoberta: o português Valter Hugo Mãe, que, embora a comparação soe redutora, pareceu-me uma feliz mistura de Saramago com Guimarães Rosa. Uma recuperação: “A Viagem de Theo”, compêndio narrativo que passa pelas religiões de todo o mundo e de que muito havia ouvido falar anos atrás. Uma decepção: “O Escaravelho do Diabo”. Não era pra tanto mas, admito, posso ter lido com 40 anos de atraso. Uma atualização: “Cleo e Daniel”, também lido muito depois da época em que marcou corações e cabeças; também sem muito impacto, o que certamente se explica pela extemporaneidade. Mas, enfim, grandes livros devem sobreviver ao painel histórico e cultural em que foram lançados, não?

Segue a lista:

·                     WILD CARDS LIVRO 1 / O COMEÇO DE TUDO - Editado por George R. R. Martin
·                     AS ILHAS DA CORRENTE - Esnest Hemingway
·                     ADEUS, HEMINGWAY - Leonardo Padura
·                     O FILHO DE MIL HOMENS - Valter Hugo Mãe
·                     CLEO E DANIEL - Roberto Freire
·                     CIDADEZINHAS - John Updike
·                     DEFIZ 75 ANOS - Rubem Alves
·                     MILLENIUM 3 - A RAINHA DO CASTELO DE AR - Stieg Larsson
·                     PERCY JACKSON - THE LIGHTNING THIEF - Rick Riordan
·                     A NOITE DO MEU BEM - Ruy Castro
·                     COELHO CORRE - John Updike
·                     MILLENIUM 2 - A MENINA QUE BRINCAVA COM FOGO - Stieg Larsson
·                     RIMBAUD - Jean-Baptiste Baronian
·                     VÍCIOS PÚBLICOS, BENEFÍCIOS PRIVADOS? - Eduardo Gianetti da Fonseca
·                     CORPO VADIO - Jeanne Araújo
·                     MONTE DE VÊNUS - Jeanne Araújo
·                     MILLENIUM 1 - OS HOMENS QUE NÃO AMAVAM AS MULHERES - Stieg Larsson
·                     PERCY JACKSON / THE SEA OF MONSTERS - Rick Riordan
·                     POEMAS DO BRASIL - Elizabeth Bishop (trad: P.H. Bitto)
·                     O PLANETA DO SR. SAMMLER - Saul Bellow
·                     LEVIATÃ - Paul Auster
·                     EVERY DAY - David Levithan
·                     O ESCARAVELHO DO DIABO - Lúcia Machado de Almeida
·                     A QUEDA DO ANJO - Yukio Mishima
·                     O TEMPLO DA AURORA - Yukio Mishima
·                     CAVALO SELVAGEM - Yukio Mishima
·                     NEVE DE PRIMAVERA - Yukio Mishima
·                     OS ÚLTIMOS DIAS DOS NOSSOS PAIS - Joël Dicker
·                     AS DUNAS VERMELHAS - Nei Leandro de Castro
·                     A VIAGEM DE THÉO - Catherine Clément
·                     CARLA LESCAUT - Cefas Carvalho
·                     AS PEQUENAS HISTÓRIAS - Osair Vasconcelos
·                     UM BEIJO E TCHAU - Alex Nascimento


segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Já deu um aperto na sua pós-verdade hoje?


Apertem os cintos: estamos entrando na era da pós-verdade

Por Carlos Castilho, do Observatório da Imprensa, em 28/09/2016 na edição 921

Pós verdade parece mais uma expressão de impacto para chamar a atenção de um público saturado de informações e inclinado para a alienação noticiosa. Mas o fato é que estamos diante de um fenômeno que já começou a mudar nossos comportamentos e valores em relação aos conceitos tradicionais de verdade, mentira, honestidade e desonestidade , credibilidade e dúvida.
As evidências desta nova era estão nas manchetes de jornais, em declarações como as do candidato republicano Donald Trump ou nas dos procuradores e acusados na Lava Jato. Se antes havia verdade e mentira, agora temos verdade, meias verdades, mentira e afirmações que podem ser verdadeiras, conforme afirma o escritor norte-americano Ralph Keyes, o autor do livro The Post Truth Era: Dishonesty and Deception in Contemporary Life (St. Martin’s Press, 2004. ISBN 978-0-312-30648-9).
Quando Trump afirmou num discurso que o presidente Barack Obama foi um dos fundadores do Estado Islâmico, até os ultraconservadores norte-americanos acharam que ela estava exagerando. Mas o candidato republicano não se abalou, nem mesmo na televisão, quando explicou que Obama permitiu o surgimento do grupo radical islâmico porque este cresceu no vácuo politico deixado no Iraque pelo que Trump classificou de fracassos da diplomacia do presidente norte-americano. A polêmica criada em torno da afirmação gerou a percepção de que ela poderia ser verdadeira. Foi o suficiente para que Trump saísse ileso da discussão.
Os conservadores transformaram a insegurança pública num dos seus carros chefes na campanha pela implantação da doutrina do medo social, como forma de domesticar a população. Mas eles negam a evidência estatística de que na maioria dos grandes centros urbanos do planeta a incidência de crimes diminuiu em relação ao número de habitantes. A explicação para a discrepância entre a sensação de insegurança e as estatísticas criminais é complexa e exige uma boa dose de esforço e isenção. É mais fácil partir para aquilo que uma parte do publico quer ouvir.
A “cognição preguiçosa”
É um caso típico de aplicação da teoria da “cognição preguiçosa”, criada pelo psicólogo e prêmio Nobel Daniel Kahneman, para quem as pessoas tendem a ignorar fatos, dados e eventos que obriguem o cérebro a um esforço adicional.
Aqui no Brasil, a pós verdade é nítida no caso das investigações da Lava Jato. Separar o joio do trigo no emaranhado de versões e contra versões produzidas pelas delações premiadas é bem complicado. Há poucas dúvidas sobre a existência de esquemas de propinas, caixa dois eleitoral, superfaturamento, formação de cartéis e enriquecimento de suspeitos, mas provar cada um deles com base em evidências é uma operação complexa e demorada. Em alguns casos até inviável dada a sofisticação dos esquemas adotados pelos suspeitos de corrupção.
Mas como existe o interesse político envolvendo a questão e como existe a “cognição preguiçosa”, as convicções passam a ocupar o espaço das evidências e provas. A dicotomia jurídica clássica entre o legal e o ilegal passa a ser substituída por justificativas tipo “domínio do fato”, ou seja, convicções construídas a partir da repetição massiva de percepções individuais ou corporativas, pelos meios de comunicação.
Segundo a revista The Economist, o mundo contemporâneo está substituindo os fatos por indícios, percepções por convicções, distorções  por vieses. Estamos saindo da dicotomia tradicional entre certo ou errado, bom ou mau, justo ou injusto, fatos ou versões, verdade ou mentira para ingressarmos numa era de avaliações fluidas, terminologias vagas ou juízos baseados mais em sensações do que em evidências. A verossimilhança ganhou mais peso que a comprovação.
A pós verdade, um termo já incorporado ao vocabulário da mídia mundial, é parte de um processo inédito provocado essencialmente pela avalancha de informações gerada pelas  novas tecnologias de informação e comunicação (TICs). Com tanta informação ao nosso redor é inevitável que surjam dezenas e até centenas de versões sobre um mesmo fato. A consequência também inevitável foi a relativização dos conceitos e sentenças.
Mas o que parecia ser um fenômeno positivo, ao eliminar os absurdos da dicotomia clássica num mundo cada vez mais complexo e diverso, acabou gerando uma face obscura na mesma moeda. Os especialistas em informação enviesada ou distorcida (spin doctors no jargão norte-americano), aproveitaram-se das incertezas e inseguranças provocadas pela quebra dos paradigmas dicotômicos para criar a pós verdade, ou seja, uma pseudo-verdade apoiada em indícios e convicções já que os fatos tornaram-se demasiado complexos.
A herança de Goebbels
Diante das dificuldades crescentes para materializar a verdade por conta da avalanche informativa, especialmente na politica e na econômica, criaram-se as pós verdades, ou factoides (no jargão brasileiro), onde a repetição e a insistência passam a ocupar o espaço das evidências.
Na era da pós verdade, as versões ganharam mais importância do que os fatos, o que não é bom e nem mau. É simplesmente uma realidade. O que chamamos de fatos, na verdade são representações de um fato, dado ou evento desenvolvidas pela mente de cada indivíduo.
Assim, teoricamente, podemos ter um número de representações de um mesmo fato igual ao número de seres humanos no planeta Terra. E como as TICs permitem a disseminação massiva destas representações ou percepções, fica fácil intuir a complexidade da avaliação de fatos, dados ou eventos.  “Uma mentira repetida mil vezes vira verdade”,  a controvertida máxima cunhada pelo chefe da propaganda nazista, Joseph Goebbels, tornou-se preocupantemente atual.
Os meios de comunicação, principalmente a imprensa, ganharam um papel protagônico no fenômeno da pós-verdade porque a circulação de mensagens passou a ser o principal mecanismo de produção de novos conhecimentos numa economia digital movida a inovação permanente. A relevância conquistada pelos meios de comunicação os transformou em agentes fundamentais no processo que prioriza uma forma de descrever a realidade. Quando a imprensa norte-americana endossou a tese da existência de armas de destruição maciça no Iraque de Saddam Hussein, ela  deixou de lado a verificação dos fatos e foi decisiva na transformação de uma possibilidade em certeza acima de suspeitas.
Teoricamente a pós verdade pode ser usada tanto pela esquerda como pela direita no terreno politico, mas como a imprensa joga um papel fundamental no processo, os rumos obviamente serão determinados pela ação de jornais, revistas, meios audiovisuais e pelas redes sociais. A imprensa portanto, não é uma observadora mas uma protagonista do processo de transformação de mentiras ou meias verdades em fatos socialmente aceitos.
A pós verdade e o jornalismo
A pós verdade é apenas um dos itens da era digital que estão abalando nossas crenças e valores. Nós jornalistas e toda a sociedade estamos vivendo um momento de insegurança e incertezas porque estamos passando de um contexto social para outro.  Esta insegurança não é um fenômeno inédito na humanidade porque já aconteceu antes quando grandes inovações tecnológicas alteraram radicalmente o contexto social da época. Basta ver o que ocorreu após a invenção da pólvora, dos tipos móveis por Gutemberg, da máquina a vapor e dos processos de produção industrial.
Um dos grandes, talvez o maior de todos, dilemas enfrentados pela sociedade atual, é a necessidade de conviver com a complexidade do mundo contemporâneo. Tomemos o caso da polêmica científica sobre o meio ambiente. É um tema complexo onde o bombardeio informativo confunde as pessoas comuns com afirmações contraditórias entre cientistas e pesquisadores. Do ponto de vista dos cientistas é natural que existam posicionamentos distintos mas para o público, acostumado pela imprensa a esperar verdades absolutas, as contradições e divergências geram incertezas, que acabam conduzindo ao descrédito generalizado.
A pós verdade coloca para nós jornalistas o desafio da repensar a credibilidade e os parâmetros profissionais para avaliar dados, fatos e eventos. Não é uma casualidade o fato da credibilidade da imprensa, em países como os Estados Unidos, estar hoje num dos pontos mais baixos de sua história. O leitor está cada vez mais confuso e desconfiado em relação à imprensa. É uma resistência intuitiva ao fenômeno da complexidade informativa gerada pela internet.
A pós verdade é talvez o maior desafio para o jornalismo contemporâneo porque ela afeta a relação de credibilidade entre nós e o público. A nossa atividade está baseada na confiança das pessoas de que o que publicamos é verdadeiro. Quando uma nova conjuntura informativa interfere nesta confiabilidade, temos serias razões para nos preocupar, e muito, sobre o futuro da profissão.