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No caso de McEwan, chega a parecer uma repetição: também no seu mais que conhecido "Reparação", singramos mares de culpa mal digerida e ressentimentos guardados nos bolsos dos personagens para apenas e somente ao final descobrir que o livro é, em si mesmo, um gigantesco e emocionado pedido de desculpas: a própria materialização deste reparo emocional que dá título ao romance. No filme feito a partir do livro essa resolução surge ainda mais afirmativa, forte, acachapante. Neste "Serena", cujo lançamento mundial se deu numa das festas literárias de Paraty, o batuta McEwan nos enrola da primeira até praticamente a última página - e o sabor dessa mistificação é a pimenta do livro, muito além da idéia de que se trata de uma brincadeira com o gênero do romance de espionagem, que é a forma como o título foi vendido no mercado editorial. Ao final da leitura, a gente percebe que esse papo de exercício de narrativa de guerra fria, essa emulação gaiata de John Le Carrè era mais uma piada de Ian McEwan pra despistar o leitor. Exatamente como Hitchcock fazia no lançamento dos seus filmes - ou ao menos do seu filme mais impactante (embora, certamente, não o melhor), o "Psicose" que está de volta à mesa dos assuntos (mas este é outro assunto, para um próximo livro das aventuras do Leitor Bagunçado).
O nosso Hatoum, naturalmente, ventila outras atmosferas nas suas histórias filtradas pelas memórias familiares de um clã libanês recontextualizando a vida na Amazônia brasileira. Sai Londres, entra Belém do Pará. "Relato de um certo Oriente" é um saboroso texto quase impressionista, que se lê como se estivesse fechando os olhos para entrar num sonho sonhado por outro alguém, uma dissertação onírica disfarçada de saga familiar. Não tem como não lembrar da Macondo de García Marquez lendo Milton Hatoum, mas não é bem disso que se trata. Onde o Nobel latino saturava páginas e páginas com pequenas e gigantescas lendas de aldeia, empanturrando nossos olhos de caminhos de contos, Hatoum investe muito mais no cheiro literário exalado pelos seus personagens. Dá-se muito pouco no seu "Relato", mas sente-se muito a cada vez que se vira uma página. Se o leitor de repente se ver envolvido por uma bruma de calor, umidade e cheiro de roupas velhas não será por acaso: é obra da escrita do autor.
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Só não deixa de ser curiosa a equivalência metalinguística de dois livros tão distantes no tempo e no lugar e tão próximos na qualidade e no enlevo proporcionado.
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