terça-feira, 3 de junho de 2014

O ano da indecisão

Numa galáxia muito, muito distante, milênios e milênios depois, Hermenegildo recordou a grande marca do longínquo ano de 2014. O ano da grande dúvida. Do dilema, da indecisão. O país, uma terra que então se chamava Brasil, só tinha dois assuntos: Copa e protesto. E era um ou outro - não dava para ocupar dois lugares ao mesmo tempo no espaço, numa estranha reconstituição da lei da física aplicada à realidade de uma pátria e de um povo. Hermenegildo, o indeciso, sentiu durante dias e dias no cérebro as pontadas da mais pendular das dúvidas. Ir para a rua protestar, ou se acabar nos estádios a torcer? Júbilo padrão fifa ou revolta tipo black bloc? Copa ou protesto? Protesto ou Copa?

Hermenegildo pensou, pensou, pensou e, gol!, achou uma solução. Brilhante como uma partida decidida no quadragésimo quarto minuto do segundo tempo. Copa e protesto, sim, mas em dias alternados. Como não tinha pensado nisso antes? Copa e protesto, protesto e Copa, um num dia, outro no outro. Dia sim, Copa; dia não, protesto e assim por diante até junho se acabar - e com ele um dos mais dramáticos problemas que um ser humano de origem brasileira em 2014, chamado Hermenegildo, poderia enfrentar. Acabou, tudo resolvido.

E assim se faria: a partir do dia 12 de junho de 2014, Hermenegildo atirar-se-ia, com a força tensa das mesóclises, à sua manifesta persona cívico-cidadã. De corpo e alma, alma e corpo, seria protesto na terça, Copa na quarta, Brasil X Quem quer que fosse na quinta, protesto contra tudo o que estava ali na sexta. Copa, protesto, protesto, Copa - naturalmente que cada um com seu kit específico acomodado em duas mochilas facilmente identificáveis, verde-e-amarelo brazuca uma, preto-e-cinza de cobrir o rosto em outra. Copa hoje, protesto amanhã, verde-e-amarelo depois, preto-e-cinza semana que vem, amor à camisa na segunda, camisa cobrindo o rosto na terça. Só um detalhe botou tudo a perder naquele inesquecível junho de 2014: ok, copa num dia, protesto no outro, mas qual deles escolher para o primeiro dia, o 12 de junho, a abertura do período tão especial?

Hermenegildo pensou, pensou, pensou e não achou solução. Mesmo assim, desde então, sempre que acorda e abre a janela no Planeta XYZ, milênios depois, lembra com saudade daquele país, daquela Copa e daqueles protestos.

domingo, 27 de abril de 2014

O Barulho voltou!

Tantos anos depois, o barulho dos Clowns continua tinindo de bom. Está de volta - e vejam só, começando a temporada por Brasília, aqui no Teatro da Caixa do Setor Bancário - o a esta altura clássico "Muito Barulho por Quase Nada", a recriação da comédia de Shakespeare com elementos ainda mais mundanos do que aqueles que o bardo não tinha pudor algum de manusear. "Muito Barulho" foi durante certo tempo quase um cartão de visitas do grupo potiguar de teatro que infla nosso ego miserável e mesquinho toda vez que Marcos França, sua voz e estampa primeira, encerra cada apresentação proclamando, na razão inversa de nossa vergonha estadual de sermos quem de fato e apesar do que quer que seja, somos e seremos: "somos os Clowns de Shakespeare, de Natal, Rio Grande do Norte".

Como é bom ouvir novamente essa declaração de princípios que vem ao final de cada noite. Melhor ainda quando ela vem fechar uma das sessões da nova temporada de "Muito Barulho", durante a qual se constata, entre gargalhadas vocais e tantas outras mentais - essas quantas vezes tão mais poderosas do que aquelas - o quanto os nossos palhaços pop-profundos e filhos proclamados de Poti estão cada vez mais afinados. É claro que quem viu a primeira montagem de "Muito Barulho", em tempos heroicos da Casa da Ribeira lá na cidade-sede das nossas lamúrias conjugadas com o bairrismo envergonhado que a proclamação de Marcos França tritura no ar, vai lembrar dos ecos de João Júnior abrindo a cena com aquela cacofonia de tentar pronunciar o nome do autor e do grupo, tirando desde o início qualquer casca de falsa solenidade apenas por tratar-se do cara que, dizem, e não são poucos, e menos ainda desimportantes, construiu por sobre seus ombros a dramaturgia desde velho e alquebrado Ocidente paracristão. Mas, com o perdão das frases mal contidas e dos juízos aos borbotões, impõem-se no centro da sala como diria aquele outro responsável por invenções outras e de nós mais próximas, a constatação vibrante entre risos quase ininterruptos do quanto a turma dos nossos Clowns pegou, anos depois, tal texto à unha.

Dito diretamente, baby: eles estão mais afinados do que nunca - e só dá pena que o pessoal de Natal, seu público primeiro e fiel, formado tantas vezes por eles mesmos,  não esteja aqui em BSB Citi - que é como gosto de chamar essa cidade que quanto mais se quer cosmopolita se flagra rural, e isso é sempre muito bom - pra conferir e se estupefar com tal constatação junto comigo. Eles estão cortantes, afiados, velozes, instantâneos nas ações, reações, citações, diluições e consequências sobre consequências de cada frase, gesto, cena. O camarada Shakespeare tem, claro,  carradas de méritos ao fornecer ao grupo a palavra, mas não subestime nos Clowns de Poti a posse absoluta do controle do gesto. Porque sobressai aos olhos que em tantos momentos da nova montagem - decerto que na inicial também assim o fosse, mas é que a memória, essa danada, turva os contornos - o silêncio súbito, o engano gestual sozinho, a performance muda em solo seja igual ao verbo do clássico autor em efeito, ao sublinhar defeitos e feitos.

O elenco, por força do tempo, mudou, mas os substitutos de César e Titina estão ali à altura, com Margareth e Leonardo cerzindo na medida as costuras desse enredo de comédia de mal entendidos. Por mais que o gaguejar de João Júnior tenha se tornado um momento ímpar no teatro potiguar - tanto quanto João Marcelino abrindo "Quem Matou Paulinho?" cantando Summertime - é notável a qualidade da atualização do nosso Joel "Hamlet", com sua satírica presença. Marcos e Renata Kaiser, Benedito e Beatriz, naturalmente, dominam a maior parte do espetáculo - e a gente fica intrigado em não lembrar em como a interação deles eram tão excelente já na primeira montagem.

O tempo de convivência, os outros espetáculos, a travessia do "Ricardo III", a resistência dura e crua do "Hamlet", tudo isso deve ter contribuído para que hoje, numa nova montagem com esse gosto de clássico do clássico, todos eles mais Paulinha e Dudu estejam tão exatos na performance que não seria nada surpreendente que, numa noite dessas - e eles ainda têm um final de semana, o próximo,  apresentação aqui em Brasília; enquanto no meio da semana rodam meio mundo de Mato Grosso a sabe-se mais onde - o elenco deste novo e mesmo e muito melhor "Muito Barulho" perca por completo o fator da gravidade e saia voando em cena aberta, tal a fluidez da peça, a celeridade feliz da encenação, o verniz suado deste grupo que nos honra a auto-reputação. Eles são os Clowns de Shakespeare, de Natal, Rio Grande do Norte. E nós que lhe somos conterrâneos curvadinhos de vergonha - justificada ou não - estaremos sempre gratos por isso.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Sorvete de agonia





Na praia do noticiário, o sabor do verão de um ano tão esperado

2004, o ano dos anos, da Copa das Copas, prometia muito pra começar tão mesquinho. Falta tudo neste mais que abreviado final de verão. Falta  água, e sem ela mais um par de andorinhas ao menos, sabe-se, verão algum se faz. Faltam médicos, como em qualquer estação de qualquer outro bem menos esperado ano. Situação que piora com o anúncio da criação, burocracia empresarial à parte, da mui prestimosa agência turística DEM Viagens, companhia que, embora tenha acabado de ser aberta por Ronald Caiado, ex-médico, ex-parlamentar e agora travel agence com muito orgulho, não para de embarcar centenas de médicos cubanos dissidentes das ditaduras dos grotões brazucas rumo aos bem mais agradáveis labores de Miami.

Também, com o pacote oferecido, não hay cubano que resista: a oferta cobre inscrição no Mais Médicos (com total serviço de despachante), traslado entre o posto de trabalho abandonado e o gabinete partidário mais conveniente, serviço de assessoria de imprensa, horário reservado no Jornal Nacional, assistência jurídica mais ou menos – a embaixada americana pode, no entender na DEM Viagens, ofuscar o espetáculo com suas facilidades jurídicas quando se trata de quem vira as costas aos irmãos Castro – e ainda, de quebra, meio como um plus, um emprego temporário aqui mesmo no Brasil só enquanto os detalhes administrativos são resolvidos. Coisa rápida. Dá pra dizer não, coração? 

Em compensação, o verão não está para peixe pros black blocs – o que, pra início de conversa, é muito natural se a gente lembrar que, de saída, aquelas roupas pretas e capotes não menos sombrios não combinam nem um pouco com o rigor do calor tropical. Cool é ser terror man contra o sistema em terras climaticamente ao menos temperadas, mas a rapaziada de burca voluntária sempre pode estourar umas bombas em favor da nossa mudança rumo ao hemisfério norte. Pode ser que, na tentativa, um cinegrafista incansável seja atingido por um rojão desorientado, mas o que seria isso diante da hecatombe política representada pela nossa transferência imediata, na base da birra infantil geológica, para a parte superior do globo terrestre?

Falando nisso, os Black blocs tanto fizeram que arranjaram um adversário superior ao tíbio governo em vigor ou a qualquer outro partido ou linha política possível: mexer com cinegrafistas e fotógrafos pode ser muito mais arriscado do que cutucar, por exemplo, a atávica vocação violenta da polícia nativa. As lentes da parte ora ferida de morte são muito mais audaciosas do que os vãos mas agora redivivos coquetéis molotov de antanho, dependendo apenas  da intensidade do embate. E, com a morte do cinegrafista Santiago, parece que quando ambos os grupos se encontram – o que, por dever de ofício dos cinegrafistas e fotógrafos; e por anseio de publicidade dos black blocs, é algo tão freqüente quanto natural – o clima pesa como um equipamento de transmissão ao vivo do tempo da tevê a válvula.

Tudo isso debaixo de um calor de 40 graus em certas praças cariocas, com uma sensação térmica de arroto solar, e imagine-se o que o futuro dirá desse verão de tão aguardado ano. Com o acréscimo da falta de chuvas que assombra dez entre dez reservatórios de água não do Nordeste acostumado a tais ausências, mas do interior paulista onde a palavra racionamento deixa de ser um vocábulo apropriado ao sotaque nordestino para ganhar a saxonicamente enrolada prosódia local. E nem dá pra fugir de tudo isso comprando um pacote da DEM Viagens, cujas promoções se limitam ao porte da nacionalidade cubana. Só chamando os black blocs para implodir o rio Amazonas, criando um afluente incidental que despeje, qual a interminável transposição do São Francisco, uns novos riachos entre Sorocaba e Presidente Prudente. Mas, ao contrário das empreiteiras, os black blocs nunca agem sob estímulo financeiro: o jeito é convencê-los de que uma multidão de índios ameaça fritar e comer Edward Snowden misturado com farinha feita de papéis altamente sigilosos às margens da ilha de Marajó. O efeito das bombas certamente se fará sentir na irrigação dos últimos vales de São Borja – e, sendo assim, todos darão adeus ao racionamento. Todos, menos os nordestinos, claro. 

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Dira from cinema





Enquanto estava todo mundo de olho na sereia, a quarentona chegou e nhac! Quando "Amores roubados" entrou no ar, foi Dira Paes - e não Ísis Valverde - quem entrou em órbita. Ascendente. O que é uma tremenda injustiça: não com a Valverde, mas com a Paes mesmo. O espanto e o encantamento da marmanjada com Dira Paes nos primeiros dias de exibição da série são tão naturais quanto sintomáticos: o brasileiro médio ou não vê mais filmes  - brasileiros, pelo menos - ou tem uma memória desse tamanhinho. Porque faz tempo que a Dira fogosa e exuberante  - espetacular, numa palavra - que estamos vendo na televisão faz moradia no cinema. 

Mas quem danado vai admitir que saiu de casa para assistir a "Ó, Paí, Ó", filme de Monique Gardenberg com total tempero baiano onde Dira faz e acontece como uma brasileira que se jacta de viver entre Salvador e Europa? Ali ela está jorgiamadiana como soa nos melhores momentos, uma nova Gabriela contemporânea, entre blocos afro e mocós do Pelourinho. Em "Celeste e Estrela", Dira é a personagem-título de um dos melhores - porque simples, cotidiano e pouco afetado - filmes feitos sobre a vida em Brasília. Aqui ela é uma maluquete que deseja ser atriz, cineasta, roteirista, ecologista e mais uma lista infindável de ocupações quanto mais cool melhor. Pior para o Estrela do título, um rapaz gordinho que ela docemente faz de refém de sua sedutora, embora fútil, pessoa. Na sessão das Diras mais tentadoras tem a bem resolvida personagem de "À beira do caminho", um cheiro vívido de mulher sempre presente na vida de um caminhoneiro destroçado pelo destino.



Existe também a Dira bem comportada, mas nos padrões Dira Paes, que se entenda bem. É assim numa pontinha que ela transforma em saborosa participação em "Meu tio matou um cara", de Jorge Furtado. E aquela mãe de família absolutamente goianizada de "Dois filhos de Francisco", de Breno Silveira? Agora, se o caso é radicalizar, então é preciso recorrer a outro cineasta que sempre conta nos seus filmes com uma Dira barra-pesada, de deixar essa dos "Amores roubados"  comendo poeira no estradão. É Cláudio Assis e quem, ao contrário dos jornalistas neófitos que redigem (!) os portais de notícias da internet, costuma ver filmes em escala vai saber os títulos de cor: "Amarelo manga", onde, salvo engano, ela faz uma evangélica às voltas com o diabo no corpo (e se não for isso, não será nada de menor voltagem, podem estar certos); e "Baixio das bestas", que não dá nem pra recomendar: ultrarrealista no retrato sombrio que faz do mesmo sertão de "Amores roubados", o filme maltrata demais a nossa nova garota brasileira - que, está provado, não precisa ser sempre de Ipanema, podendo muito bem ser amazônica, mineira ou nordestina. Dira, por sinal, veio do Pará. E desde sempre está muito além da Solineuza, personagem televisivo que é o máximo que a memória coletiva em tempos de rede social é capaz de alcançar  


Ligue a TV



Acaba hoje, em (mais) tragédia ou (menos) compaixão a série "Amores roubados", que o roteirista George Moura adaptou da lenda urbana de Recife registrada originalmente por Carneiro Vilela e agora recriada esplendidamente em tratamento pop-grego-nordestino pelo estilo a esta altura já característico de José Luiz Villamarim. Quem viu fica com a impressão de que programas de TV como esses - e o "Canto da Sereia" do ano passado - trazem para a televisão brasileira atual respingos de marcos teatrais do Brasil do passado recente, como a "Gota d´água" que Chico e Ruy Guerra transpuseram das profundezas trágicas da Grécia clássica para a violência crônica já vigente nos morros cariocas dos anos 70. É uma enchente de dramaturgia cortante num veículo que, em programação aberta, naturalmente tende mais ao descartável indolor. 

Mas "Amores roubados" atualiza outros elementos. Temos aqui - embora o capítulo final possa nos contrariar - dois coronéis globalizados que, traídos pelas respectivas esposas, sinal dos tempos, não resolvem o problema descarregando as espingardas nas madames. A honra ainda é lavada com sangue, mas o sangue do pé de lã. Porque os neocoronéis das vinículas do sertão continuam brutos - embora muito mais bem vestidos - mas ainda amam. Ou, melhor dizendo, agora amam. A sensibilidade, o afeto, o apego à maneira deles se impõe como um elemento civilizador, agrega-se ao jantar bem posto, ao vinho bem escolhido, ao corte de cabelo estudado. Ou talvez não seja nada disso - apenas não fica bem para um pós-coronel que exporta de Juazeiro para as europas sair matando a mulher só porque ela deu uma pulada de muro tão comum de Berlim a Tóquio. A série, de qualquer maneira, registra uma mudança - e comprova que não está retratando o sertão modernizado apenas por incluir modelos de carros tão caros em cenas rodadas nas estradas mais arcaicas do interior do Nordeste. Reações, sentimentos e posturas também mudam, nos dizem os autores. 

Se o telespectador reparar bem, o verdadeiro vilão da série está bem disfarçado na sua condição de sedutor contumaz: é o próprio Leandro Dantas, exterminador sentimental que faz miséria nos corpos e corações femininos que encontra pela frente, pela simples satisfação de exercitar, para além do prazer das camas, o jogo da conquista. Ele mesmo define isso muito claramente numa cena, quando explica ao escada Fortunato que esse é o jogo: seduzir ou ser seduzido. Villamarim usou na série o xote "Romance da lua, lua", antigo e já clássico sucesso da vertente nordestina da MPB dos anos 80 cantado por Amelinha. Poderia, com o bom gosto que tem para sonorizar sua dramaturgia, ter usado um outro clássico, de Zé Ramalho, "Kamikaze", que bem define em ritmo, palavras e sugestões o Leandro Dantas de Kauã Raymond: "Um cavalheiro, nunca um cowboy / um verdadeiro kamikaze / um avião destruidor de lares / um passeio pelos ares / um megaton de poucas esperanças / bombas e lembranças / e quando eu de lá voltar / não sei se poderei ficar / ali onde deixei você / deixando tudo pra viver".





Entre nós, potiguares, há um motivo à parte para acompanhar a série e ele se chama César Ferrário, que a exemplo de Titina Medeiros em 2012 nos inflou mais uma vez o orgulho ao se apresentar como Bigode de Arame. Um capanga tão globalizado quanto seus chefes, que por fora se enfeita com capacetes militares e óculos sessentistas, numa composição neotropicalista que, embora vista sua figura com as batas rotas que a contracultura deixou nos brechós, por dentro é o mais legítimo guardião da trágica tradição: para Bigode, a solução é sempre matar. À sua maneira, César fez um Antônio das Mortes transposto para certa bossalidade dos dias atuais: um matador (de cangaceiros sexuais?) que tropeça na própria sombra, atrapalhado como um Didi Mocó sem noção da própria defasagem histórica, um espelho quebrado, colorido e reluzente do que um dia foram as sombras da violência atávica dos grandes sertões: o assassino de aluguel. E no meio de tudo isso ainda tivemos Dira Paes, mas ela merece um papo à parte. 

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Devagar com 2014



Meu 2014 começou em 1958. Não voltei a uma era passada na esperança de fugir de um dos mais aguardados anos dos últimos tempos. Foi 1958 que veio até a minha pessoa, personificado com charme, beleza, dramaticidade, precisão e elegância na figura de um clássico absoluto. Para minha sorte - e de mais alguns felizardos de outras capitais brasileiras onde tal manifestação se repita, e tomara que sejam muitas - uma sala de cinema de Brasília está exibindo uma reprise (inclusive mui curiosa, mas isso explico mais tarde) do inigualável "Vertigo", o nosso "Um corpo que cai", suprassumo do suspense de bom gosto do velhote Alfredão. Já disse em outras redes e repito: não haveria melhor presente de aniversário antecipado que eu pudesse ganhar. Que Copa, que nada! Eleições?, bah! Não gosto de futebol, política às vezes pode dar coceira: o grande barato deste 2014 mal saído das fraldas pode acabar sendo este singelo marco inicial, de uma reprise no cinema, sala escura, tela grande, imersão total, de um Hitchcock da mais excelente extração. 

É claro que, como tanta gente, eu já cansei de ver e rever este filme em VHS, DVD e até nas finadas sessões clássicas das antigas noites de domingo da era da exclusividade da TV aberta. Mas ver "Um corpo que cai" no cinema, convenhamos, não é algo para qualquer dia. O máximo que lembro em termos de comparação ocorreu em 1984, quando quatro filmes do mestre do suspense - título pequeno, porque existe ali um mestra da beleza narrativa e pictórica que vai muito além dos sustos - voltaram a ser exibidos nos cinemas. Foi essa mostra por sinal que estabeleceu entre nosotros certo culto diante de "Janela indiscreta" (e "Psicose", informo só por curiosidade, não fazia parte deste pacote). Não vi nenhum na época e nem consigo recordar por quais motivos. Mais recentemente, acho que por ocasião do aniversário redondo de um desses grandes estúdios americanos, voltaram alguns filmes em reprise - lembro de "Bonnie and Clyde" que, acho, revi sim no prazer do cinema como ele deve ser. 

A reprise em cartaz em Brasília no Itaú CasaPark (sessões às 21h30, numa sala só) tem como curiosidade contrastante as legendas em português de Portugal: é motivo para um travo de riso no meio da dramática - mais do que suspense, vi-me tomado pelo drama ao assistir ao filme na tela grande - história. Você está prestando atenção na forma como Hitch consegue envolver a nós do lado de cá da tela ao mesmo tempo em que enrola seu protagonista (que "cai" também metaforicamente ao engolir uma história montada para sugerir ser o que não é) enquanto se molha numa chuva de próclises, ênclises e até mesóclises graças à tradução portuga. Pior mesmo é quando James Stewart obriga Kim Novak a experimentar um "fato" contra a própria vontade. Não sabe o que é um "fato", gajo? Direto pro google lusitado, então.

Mas isso são distrações: para além da fotografia que parece fazer de cada imagem que se vê na tela uma construção clássica impregnada no painel do nosso imaginário - Kim Novak diante da Golden Gate, o cabelo louro combinando com o vermelho da estrutura da ponte é um desses cartões postais cinematográficos de vida eterna - temos Hitch usando sua arma primordial: o poder da narrativa. Tudo em "Um corpo que cai" remete à vulnerabilidade distraída que o ser humano costuma apresentar diante de uma boa história. É um filme que, suspense à parte, mostra como é possível, usando apenas uma intrigante, sugestiva e marcante narrativa levar um nosso semelhante a fazer as maiores barbaridades - ou a cometer as mais vergonhosas mancadas. É disso que se trata: o poder de uma história, a capacidade de envolvimento de um determinado clima audiovisual, o alcance de uma composição feita com a junção convincente de várias peças soltas quando postas para funcionar em conjunto. 

E tudo isso captado, editado e formatado em 1958, com direito às ruas de São Francisco em textura de postal antigo, com seus carros, prédios, ladeiras em cores aquereladas. Por isso, amigos, recomendo, indico, apelo: deixem 2014 em paz por enquanto e sigam direto para 1958. 

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Maratona Orlando



 Não posso contar tudo porque não dá pra contar tudo. Também não tem como enfeixar todas as impressões dispersas em uma frase, sentença ou avaliação restrita e inteligente. Não se trata de responder na lata com aquela opinião matadora quando alguém pergunta, tão na lata quanto: - E aí, como é que foi... Não é questão de falta de domínio da linguagem, de escassez de opinião ou de ausência de objetividade: é que, sendo uma pessoa do tipo tão vulnerável aos estímulos visuais, não consigo mesmo encaixotar em períodos verbais a intensidade daqueles a que fui exposto junto com Rejane, Cecília e Bernardo durante uma viagem de férias de seis dias em Orlando, EUA, a cidade famosa pelo complexo de parques temáticos da Disney e dos estúdios Universal. Tudo o que posso fazer aqui é salpicar gotas dispersas de sensações, cacos de encantamento mais do q ue naturais para quem passou a infância consumindo histórias em quadrinhos e similares, perdigotos descontrolados que o também natural deslumbramento faz chover da mente ainda congestionada.

Só não me peçam distanciamento, contenção, pé atrás ou qualquer outra postura que implique em uma abordagem meio blasé diante do que vi, ouvi, senti. Dá não, coração: desde a mais tenra idade, quando deixava minha aldeia de 14 mil habitantes no Seridó potiguar para visitar a metropolitana Caicó, minha cabeça virava. Imagine quando ia a Campina Grande!  O gigantismo urbano é algo que sempre me atraiu, e se você pretende entender melhor como é que isso se dá na cabeça de uma criança, experimente ler uma HQ do Homem Aranha, qualquer uma, prestando atenção nas cenas que se passam no ruge-ruge da cidade: eram aqueles prédios, aquele povo na rua, aquele agitação incessante que me fascinavam. E os parques da Disney e da Universal – sobretudo o Adventure Land, na Universal, na parte dedicada aos heróis Marvel  - condensa, empacota, sintetiza tudo isso e coloca você lá dentro, bem no meio das fachadas traçadas a lápis, da explosão de cores em forma de minicidade, enquanto o visitante se desvia das motos em que os super-heróis transitam de tempos e tempos. Sem falar no brinquedo 4D do Spider Man, aquela visita ao paraíso que me vi fazendo três vezes. Ainda bem que não tinha fila.
Falando em filas, desconfie delas. Ou melhor, não acredite tanto assim naquelas placas que indicam quanto tempo você vai levar para chegar à atração principal. Às vezes está lá 30 minutos, mas é entrar na fila e você percebe que, como diz o ditado, a fila anda, e anda rápido – e algumas vezes há atrações pra lhe distrair enquanto você está na fila. E o que é melhor, às vezes a atração da fila consegue até superar a atração principal, ao menos pra mim. Foi o caso do brinquedo chamado, salvo engano, A Grande Corrida do Cinema: a promessa, cumprida, é de que você vai, dentro do seu trenzinho, transitar por alguns dos maiores clássicos dessa arte americana. De fato, um gangster à James Cagney vai seqüestrar o carrinho em que você passeia, um tiroteio vai  lhe pegar no meio do caminho, Alien, o oitavo pass ageiro, vai borrifar sua cabeça com aquele bafo que só ele tem, e a bruxa de O Mágico de Oz vai lhe jogar imprecações antes de permitir que a viagem continue. Ocorre que, antes de passar por tudo isso, você vai esperar na fila que dá voltas numa simulação de uma sala de cinema onde todos esses filmes e mais outros são projetados numa tela de tamanho real, lhe dando a chance de ver trechos dessas produções que há muito não se consegue ver numa sala escura de verdade. O passeio é ótimo, mas ainda acho que a projeção – e no final do passeio você vai ver mais um pouco – não tem preço.
Orlando, a cidade em si, acabou ajudando meu coração provinciano a entender Brasília um pouco melhor: é uma cidade absolutamente plana, esquadrinhada por ruas que mais parecem auto-estradas. Entendi melhor o choque que tanta gente experimenta ao conhecer Brasília. Orlando é Brasília elevada ao cubo. Ninguém nas ruas. Ninguém. Calçadas, quando existem, são iguais às de Brasília – aquela trilha de cimento estreita entre faixas de grama. Aí você entra num out-let, num shopping ou mesmo numa daquelas gigantes lojas “de rua” (como a livraria do tamanho de uma loja de material de construção brasileira) e descobre onde as pessoas se escondem. Só não conseguimos mesmo foi entender onde as pessoas moram. É, moram. Porque tudo o que vimos, numa cidade que além de plana é de prédios predominantemente baixos, com uma ou outra torre sobressaindo, foram ins talações comerciais. Claro que não podemos dizer que “conhecemos” Orlando: os lugares por onde passamos, presumo, é que são assim. Deve haver uma cidade mais normal além do horizonte imediato, mas este não vimos.
E se dá pra fazer alguma tentativa de ser objetivo, arrisco dizer que o que mais me chamou atenção nas pessoas – nas quais também reparei, em busca daqueles pontos em comum que nos faz a mesma humanidade embora dispersa por países tão diferentes – foi um certo espírito assertivo. A assertividade americana, se posso dizer assim. Eles podem até não ser, mas parecem muito assertivos em tudo o que fazem: desde o negão que me ajudou a embarcar na conexão Miami-Orlando, explicando com firmeza, atenção e educação três vezes para que eu tivesse cuidado quando fosse retirar uma bolsa do bagageiro superior do avião, até a garota que, numa loja massa de quadrinhos em que infelizmente não pude me demorar, saiu do caixa – do caixa – para me explicar onde ficava uma loja de brinquedos que procurávamos para Bernardo. Atenciosos, educados, sorridentes, relaxad os (mas atentos ao trabalho, fosse ele qual fosse) e, numa palavra, assertivos: foi assim que os norte-americanos de Orlando me pareceram. Se alguém de coração menos provinciano do que o meu me disser que isso é porque se trata de uma cidade turística, vou entender perfeitamente. Mas por favor não me negue o prazer do deslumbramento, porque ele pode ser muito valioso num tempo em que desfazer de tudo e de todos no Facebook parecer ser a máxima sensação de prazer que alguém pode experimentar. Fico – e feliz – com o provincianismo, que me faz manter nos olhos um encantamento a ser despertado cada vez que vejo algo que sendo diferente é também bonito, interessante e estimulante. E a assertividade, aqui como lá, pode ser tudo: quem disse que o negão do bagageiro tinha a obrigação de sair do canto dele e dar tanta atenção a um passageiro desconhecido... idem para a garota do caixa.
Voltei com a impressão de que com assertividade a gente tanto pode atender bem um turista – a Copa vem aí, faça sua parte – quando construir um país. Dá trabalho, leva tempo, exige esforço e paciência (outra característica que vi muito entre os nativos gringos) mas acaba acontecendo. Se eles têm defeitos – um monte, e a manchete dos jornais e telejornais nos dias em que estivemos lá foi mais um daqueles massacres malucos em escolas – têm também qualidades como a assertividade. E, em viagem, desculpe aí mas tenho que defender meu ponto de vista, prefiro reparar mais nas qualidades do que nos defeitos. Na vida, em geral, também. Talvez seja isso o que esteja mais em falta entre nós, brasileiros.

terça-feira, 26 de novembro de 2013

Ê, Goyaz!



O cenário em volta é de filme de época, meio novela das seis meio conto de Tolstoi. Um ar metade Escrava Isaura, metade Crime e Castigo. Bruma, luar e silêncio. Continentais pedras no chão e uma torre gótica no alto. Luz amarela, que vem de postes fantasiados de lampião. É possível ouvir o canto mais pra melódico do que para rítmico dos saltos das sandálias das moças tocando o chão no que descem a ladeira. Onze da noite, os vultos – não fantasmagóricos, mas animados – começam a surgir e se solidificar em pequenos grupos na dança dessa descida. O destino é a Igreja do Rosário, que apesar do nome tipicamente colonial-brasileiro tem a aparência de uma Notre Dame tropicalizada tanto quanto possível no coração do Goyaz. E aqui se clarifica o completo da locação: estamos na Cidade de Goiás, ou Goiás Velho como eles não gostam de ser chamados – apesar do apelo poético deste outro nome; mas vai ver os habitantes já vivem saturados de poesia apenas pelo fato de residir nesta cidade mágica. Aqui, o acontecimento da noite é uma serenata.

Goyaz, a cidade, por estes dias e estas noites ganhou uma camada humana a mais entre seus becos e casario que parece desenhado a lápis de tão bonito – e no entanto se trata de um lugar habitado como qualquer outro, o que prova que a poesia não é nenhum delírio; embora felizmente o seja mas essa é outra questão. Os habitantes a mais de que se fala são os coralistas, palavra que nem sei se existe mas que aqui casa muito bem com a mais célebre figura da cidade, a poeta Cora Coralina – aquela que ensinou a sábia arte de viver enquanto entre nós esteve, ao misturar panelões de doces com o exercício da poesia, depois de retornar ao casarão onde nasceu uma vez tendo feito  crescer os filhos de outra etapa da vida que soube tão graciosamente encerrar para recomeçar à sua maneira. Os coralistas, pois então, casam com Cora e dão um retoque no fim de semana de uma Goyaz que realiza assim como um informal encontro de grupos corais.

Você está descendo malemolente a ladeira da Igreja do Rosário e é meio que elevado do chão pelo misterioso canto que vem não se sabe bem de onde. São os coralistas na igreja, cantando um repertório de clássica MPB radiofônica.  No dia seguinte, tarde-noite de sábado, eles estarão na praça, espantando com suas vozes o insuportável – e absolutamente alienígena – barulho repetitivo e poluído que vem de alto falantes cuspidores de funks feios, sujos, grosseiros e impacientes. Sim, Goyaz, apesar de a visão de 360 graus em torno sugerir tanta história e tamanha carga de sensibilidade urbana, também tem seus defeitos. Nada que um coral não possa interromper uma vez ou outra. 

Antes de retornar à serenata improvisada que saiu qual cortejo levando música às janelas da cidade, é preciso lembrar que Goyaz é aquele tipo de lugar onde tudo parece muito parado, nenhuma surpresa à vista além da placidez decorrente da contemplação de suas casas, museus e monumentos, inclusive os naturais, como a cadeia de montanhas da Serra Dourada que tudo cerca como se desejasse conter entre muros verdes essa poesia emanada no local.  Mas não é bem isso, como provam seus restaurantes mineiramente escondidos no meio do casario, sem maiores placas, apelos e gritos gráficos. É preciso andar em Goyaz, calmamente como um de seus doces velhinhos caipiras, para farejar seus perfumes bem guardados.

E é aí que a surpresa pode tocar no ombro: aguardando um pouco o apetite chegar para um jantar, sentamos num banquinho em frente ao terminal turístico quando um cartaz colado na fachada do cine-teatro ali em frente nos chama a atenção. Pessoas começam a chegar, recebem um folheto da recepcionista postada no local e entram para assistir a alguma coisa. A curiosidade nos moveu do banco e fomos lá: era uma apresentação de um grupo de dança de Goiânia, show gratuito, teatro lotado, um pequeno acontecimento artístico feito sem alarde, uma hora de sensibilidade pura que não precisa constar dos roteiros turísticos. Algo que é feito primeiramente para o morador da cidade de Goiás. Nós, visitantes, temos mais é que pedir licença se quisermos assistir também.

Um espetáculo sobre a trajetória do rock and roll em Goiânia – Yes, man – com uma dança contemporânea coalhada de efeitos cênicos e turbinada por sombras típicas da estética dos anos 80. Belo show, ainda mais porque em determinado número o som falhou – e a companhia de dança continuou como se nada tivesse acontecido. Profissionalismo anhanguera. Persistência bandeirante, índios escravizados à parte. Torrente de aplausos no final. Ainda com o som pifado, um número solo de uma bailarina que logo perde a condição solitária, uma vez que o público não demora a cantar para fazê-la continuar dançando a letra mais que conhecida da balada “Pais e Filhos”, clássico da Legião Urbana. Somente no próximo número o som retorna, encerrando uma noite de alguma transcendência, que é como se pode qualificar essas coisas que não estão previstas mas, uma vez acontecendo, derrubam muralhas da parte cronicamente apática do nosso ser.

Faltava conferir a serenata, esta sim prevista, de hora marcada, mas de detalhes incertos, como que para manter o espírito vivo da poesia que sai melhor quando se improvisa, livre de normas rituais. Aquelas sombras da noite que se solidificavam em grupos foram aumentando, enchendo o pátio da fachada da Igreja do Rosário. Uns violões, do tipo que não dava para saber mesmo quantos eram e onde estavam: bastava que fosse como eram, uma espécie de rede de notas sobre as quais aquelas dezenas de pessoas vindas de várias direções poderiam pular qual criança, usando a voz, a noite, a potência do luar e o cenário em volta como propulsores de uma emoção musical capaz de anular a gravidade da rotina.

A certa altura, qual procissão religiosa de que Goyaz é também notória – o cortejo dos encapuzados na Semana Santa é o marco número um do município – começamos a caminhada, calma, lenta, musicada por velhas canções de um Brasil quase tão antigo quando as paredes em volta. Sempre que se encontra uma janela aberta com um morador à espreita, dá-se o presente de incalculável valor que é parar e cantar só para ele – ou eles, caso frequente em que uma família aguardava o momento de ser  homenageada com tal exercício de doação.  Palmas, agradecimentos, e novamente o grupo se desloca, devagar, como que saboreando o gostinho de pisar em cada pedra, gravar em cada porta a nota de uma voz, o carimbo sertanejo de um canto.  Ê, Goyaz!

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Águas profundas


Em cinema, literatura, às vezes até na música - quando se trata de um tipo de canção de natureza mais narrativa - existe uma pré-condição, um condicionamento prévio sem o qual nada se sustenta. É bem conhecido e chama-se "suspensão da descrença". Graça a esse instrumento narrativo - espécie de pacto não formalizado entre o autor e seu público, seja qual for o meio empregado - acreditamos, ou fingimos acreditar sem prejuízo para os fatos narrados, nos maiores absurdos. O Superman com oito anos suspendendo um carro apenas com uma mão. Cientistas com jeitão de super-heróis construindo uma geringonça gigante capaz de evitar que um meteoro ainda mais hiperbólico destrua a Terra. Dona Flor tendo que dar conta do maridão certinho que acabou de chegar da farmácia e ao mesmo tempo do fantasma do finado marido anterior que se foi desta para melhor mas não esqueceu do prazer de certos momentos. João Grilo e Chicó enganando uma cidade inteira com as lorotas mais improváveis apenas para conseguir matar a fome de cada dia.

Como diz o nome daquele festival de filmes, é tudo verdade. A gente acredita em tudo: basta que o capítulo inicial do livro, ou as primeiras sequencias do filmes ativem aquela maquininha de condicionamento mental que a gente carrega na mente como se fora um projetor paralelo no escurinho das possibilidades - a tal "suspensão da descrença". Foi isso o que não aconteceu comigo durante a primeira meia hora deste celebrado "Capitão Phillips": o mecanismo da suspensão da descrença, habitualmente tão capaz de nos fazer passar por cima de impossibilidades reais para embarcar na oportunidade de acompanhar uma boa história travou legal, como diria um garoto, bem no início do filme, exatamente naquele ponto onde ele tinha, precisava funcionar.

Passei o resto do filme incomodado com um elemento narrativo que me pareceu improvável: como é que os americanos, esse povo tão fascinado pelo uso de armas de fogo, não carrega nem uma dessas espingardas de bala de borracha que a PM brazuca usa e abusa nos tais protestos de rua, ao realizar a travessia marítima por uma região tão perigosa? Eu, na minha sacrossanta ignorância - a quem não canso de prestar minhas homenagens, pois dela advém, além de certa humildade muito providencial, também o entusiasmo quando sou apresentado a alguma novidade - não sabia que a marinha mercante não usa armas de fogo. Tudo bem: não precisa ser um navio militarizado pela ótica do mundo pós-Bush-Iraque, mas nem uma armazinha assim pra efeito de qualquer coisa acontecer? Nem alguma coisinha simples, tipo o bacamarte do Urtigão? Tenho que pedir ao amigo Carlos de Souza pra perguntar ao pai dele, que passou a vida navegando na marinha mercante, se é assim mesmo.

Porque aqui não se trata apenas de um caso em que a suspensão da descrença não funcionou - para mim, só posso falar por mim, porque o que mais vejo, leio e ouço é o pessoal empolgado com o filme. Aqui o que temos é um troço mais maluco ainda: um caso de suspensão da descrença que não funciona num filme... inspirado em fatos reais, de amplo conhecimento público, com os protagonistas de fato dando milhares de entrevistas no embalo do lançamento do filme. Então, em princípio, eu não teria mesmo do que duvidar - o pessoal todo daquele barcão, tripulado por vinte homens bem alimentados ou parrudos de chope, que seja, não conseguiu mesmo dar conta de quatro magricelas famélicos e expoliados da mais clássica África envolva em guerras, tráfico e banditismo. E armas, nem pensar... Sabe qual é o problema? A danada da suspensão da descrença não quer saber se o filme vem de fatos reais ou não: ela precisa existir na condição de gatilho narrativo sem o qual a história não consegue ser disparada. A questão é menos o fundo verídico do fato do que a superfície narrativa sobre o qual ele é distribuído em forma de cenas, diálogos e situações. 

 
Talvez tenha faltado uma cena - uma daquelas cenas que os roteiristas detestam ter que escrever - com uma explicação minimamente didática sobre o fato de a marinha mercante não querer papo com armas, nem preventivamente. Tudo bem que a possibilidade de um tripulante dar cabo de um pirata usando uma arma ancestral - os próprios braços - ainda assim ficaria no ar, mas já seria um alento. A oposição entre o navio gigantesco e a canoa raquítica pode e é sim pungente do ponto de vista da mensagem visual, mas a construção do caso - precisamente a arquitetura da suspensão da descrença - precisa passar por águas bem mais profundas do que a rasa navegação entre as bacias das metáforas.

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Nem ouro nem prata




Diante da ambição que é o fenômeno Serra Pelada, a gente que aprecia o cinema de Heitor Dhalia entra no cinema com uma expectativa no olhar e uma dúvida na cabeça: que filme veremos? Alguma coisa com a pronúncia visual que é tão própria do cineasta - ia dizer "cineasta pernambucano", mas a folha corrida que ele vem construindo não permite este tipo de classificação que a outros, sem demérito, constitui uma legitimidade - ou algo que, sendo mais ambicioso, poda aqui e ali sua verve tão particular?

Na primeira cena, "Serra Pelada", o filme, deixa o público cativo de Dhalia animado com a chance de a primeira opção vencer. O super-close de Juliano Cazarré sendo inquirido por um policial dá o tom de dramaticidade quase gráfica que é tão particular do cineasta de "O Cheiro do Ralo". Mas o filme prossegue e, depois de uma muito bem montada sequencia de abertura em que o próprio nome da produção serve de veículo para situar quem nasceu depois de 1990, vai-se o Heitor Dhalia do enxuto, milimétrico e sensível "À Deriva". Fica, na tela, um bom filme, sim - aquele tipo de filme que tem tudo pra cair nas graças do público brasileiro, ao remeter a um certo cinema brasileiro dos anos 70, quando o tema de preferência era o drama policial, o tratamento passava necessariamente por um molho de sensualidade morena e a linguagem atingia em cheio tanto a garotada zona sul quanto o ancião de subúrbio; e do interior do país quando lá chegavam as últimas e desgastadas cópias. Com os bônus que bons filmes têm obrigação de oferecer: neste caso, é bonito ver uma atriz televisiva como Sophie Charlotte se esforçando para ir além do padrão que o video oferece ao país, assim como é impressionante constatar como, em pouquíssimas cenas, o gênio habitual Wagner Moura é capaz de arrebatar a mais burocrática plateia.

No final das contas, "Serra Pelada" é como uma mistura, batida na medida para conscientizar e entreter, de duas referências recentes do cinema brasileiro - ambas, não por acaso, também fortemente calcadas naquilo que enchia salas nos anos 70: pense em "Cidade de Deus" misturado com o primeiro "Tropa de Elite". De ambos, "Serra Pelada" utiliza a abordagem semidocumental e uma coloração tecno-realista que o selo da produtora de Fernando Meirelles jamais deixa de exercitar. Imagine então aqueles dois filmes - embora o segundo não pertença à O2 - embebidos numa calda mínima de introspecção desenhada em imagens, que tem sido o forte de Heitor Dhalia, e você chegará bem perto. Fica claro que é muito elemento para um filme só: perde o Dhalia que fareja a intimidade (como vimos em "À Deriva"), que namora a excentricidade (como mostra "O Cheiro do Ralo") ou que investe no que as sombras têm de poesia (conforme o nem sempre lembrado "Nina"). 

Claro que o diretor tem todo o direito de frequentar outras praias com suas câmeras e sua forma de contar históricas e extrair emoção da arte cinematográfica. "Serra Pelada" segue tal caminho, jogando um especialista do minimalismo nos barrancos de um grande painel social de um dramático momento brasileiro. Mas quando o filme termina, fica a impressão de que ele é bom mesmo é na arte de lapidar pepitas raras, daquelas que passariam imperceptíveis nas mãos de garimpeiros de imagens menos atentos como esses que hoje, ontem, sempre, enchem os cinemas do país. Ou, o que é bem pior, fazem os tão mal afamados filmes nacionais.

domingo, 13 de outubro de 2013

Canção do absoluto



Na poça de chuva da noite anterior,
Cecília bate o pé em brincadeira ritmada:

-Tudo, nada, tudo, nada
 Tudo, nada, tudo, nada

Cecília, onde você aprendeu isso?
Na casa de Solange 
(nossa empregada)

2008*


A passagem de ano
foi tenebrosamente rara.
Choveram pedras goianas,
seixos de estrada velha
sobre os telhados na aguada.
Relâmpagos perfilizaram as serras
como refletores pré-programados
para um temporal espetáculo.
Por fim, qual champanhe final,
faltou luz - e a verdadeira
eletricidade se fez em
blecaute natural.
Receita para começar 
o ano
no mais fértil nada.

*Fazenda Manduzazan, Cidade de Goiás, feriadão de fim de ano. Se fosse na passagem de 2009 para 2010 seria absolutamente premonitório do ano difícil que tivemos. Mas 2009 foi beleza, a calmaria antes da tempestade que, felizmente, também ficou para trás.

Bioderrapadas

Acabei de ler o artigo semanal de Caetano Veloso no Globo e não entendi nada: quer dizer que biografia não autorizada de Sarney pode - mas de Gloria Perez não? Um é ser humano e pode sair machucado e o outro não? Isso parece fala do velho George Bush: quem não for meu amigo é o diabo e pode ser destruído sem mais nem menos. Não tenho tido muita paciência para essa discussão sobre biografias-liberdades-privacidades-direitos (porque quando a história explode demais na rede social causa uma sensação de mídia saturada que mela tudo), mas esse reducionismo não me parece digno do artista Caetano. Talvez tenha a ver com o empreendedor Caetano, que também existe - e tem todo o direito de existir, que fique claro - mas sem que uma coisa comprometa de tal maneira a outra. Ficou confuso? Vai lá no Globo virtual e lê o artigo: garanto que não vai ficar mais claro do que isso. Gostaria de saber a opinião sobre tudo isso de um cara como Tom Zé, o último tropicalista não pragmático, se é que ainda o é.