Acabei de ler o artigo semanal de Caetano Veloso no Globo e não entendi
nada: quer dizer que biografia não autorizada de Sarney pode - mas de
Gloria Perez não? Um é ser humano e pode sair machucado e o outro não?
Isso parece fala do velho George Bush: quem não for meu amigo é o diabo e
pode ser destruído sem mais nem menos. Não tenho tido muita paciência
para essa discussão sobre biografias-liberdades-privacidad es-direitos
(porque quando a história explode demais na rede social causa uma
sensação de mídia saturada que mela tudo), mas esse reducionismo não me
parece digno do artista Caetano. Talvez tenha a ver com o empreendedor
Caetano, que também existe - e tem todo o direito de existir, que fique
claro - mas sem que uma coisa comprometa de tal maneira a outra. Ficou
confuso? Vai lá no Globo virtual e lê o artigo: garanto que não vai
ficar mais claro do que isso. Gostaria de saber a opinião sobre tudo
isso de um cara como Tom Zé, o último tropicalista não pragmático, se é
que ainda o é.
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domingo, 13 de outubro de 2013
sexta-feira, 4 de outubro de 2013
Fala sério, Marina Silva
Acabo
de conferir aqui num portal da rede (com r minúsculo) que é aquilo
mesmo de que desconfiava no post anterior: Marina Silva deu uma
entrevista hoje para dizer que dirá em outra entrevista amanhã se vai ou
não disputar a Presidência da República. Jornalistas têm cometido
muitas gafes, pra não dizer idiotices puras e simples, nos últimos
meses, e estrelado involuntariamente o
ranking do "pior das redes sociais", quase sempre merecidamente. Mas
hoje, li agora há pouco num portal, depois de Marina dizer que que só
vai decidir amanhã, uma jornalista não identificada soltou um sonoro
"fala sério". Pois eu acho que essa jornalista externou, de supetão,
quase sem querer de tão natural, o que vai pela mente de grande parte
dos brasileiros diante do comunicado de Marina.
A imprensa brasileira, que de uns tempos pra cá pegou a feia mania de dizer que fala em nome do país (me exclua fora dessa, por favor) com suas manchetes tipo sermão de padre formado nos seminários do Instituto Millênio, bem que poderia dar destaque à expressão da jornalista. Não só dar destaque: aderir, tomar como sua esse sintomático "fala sério", estampá-lo em manchete e enfiar goela abaixo dos leitores e assinantes (por uma dessas cancelei dias atrás minha assinatura do Correio Braziliense, mas esse é outro papo). "Fala sério" é o mínimo que se pode dizer diante deste cozinha-galo de Marina, que, eu acho, está começando a brincar com aqueles quase 20% de votos que obteve há pouco menos de quatro anos.
Mas, por outro lado, estamos no terreno da política, onde até o mais sonhático dos militantes não tem como abrir mão de táticas: só posso acreditar que amanhã, sabadão, Marina Silva vai descer do salto com que seu círculo de assessores a calçou e anunciar, na antepenúltima hora, em lance sensacional e emocionante, já por si mesmo carregado de um arrebatamento que se traduz em votos e novas adesões que, sim, vai sair candidata pelo PPS, PTB, Solidariedade, Contrariedade, Pros ou Contras, não importa. O suspense, a demora, o bico-doce de quem se faz de difícil teria sido apenas para confeitar na medida certa o bolo do tão esperado anúncio - que, claro, já faria o efeito de angariar simpatias e votos. Meios alternativos de fazer o mesmo que a "velha" política que a candidata soberbamente diz que veio para eliminar. Tudo legítimo, se não contrariasse a construção do próprio discurso que ela mais e mais vezes faz questão de declamar. Se não for assim, a insondabilidade do pensamento e da estratégia política da candidata a coloca a distância suficiente de ser compreendida por qualquer eleitor, seja ou não seu simpatizante. E como se pode aderir a quem não se compreende?
Acho que a Justiça Eleitoral está errada em negar o registro do partido de Marina (enquanto as fraudes dos outros vão ficando pelo caminho); não voto em Marina, pelo menos a princípio; mas considero que o movimento à que ela se põe à frente existe de fato, socialmente falando, e por isso deve ter sua expressão partidária reconhecida (assinaturas à parte, o que é quase outra história e também diz muito sobre a candidata e seu séquito prematuro). Mas lamento que a ex-senadora do PT tenha enveredado por um caminho tão sinuosamente individualista em termos políticos que beira a autoproclamação absoluta, sem o lastro de um movimento organizado como ocorreu com o partido pela qual ela se notabilizou. Alfredo Sirkis que o diga (leiam os portais). Agora triste, decepcionante mesmo, foi ver uma figura como Domingos Dutra levado a trocar o PT pelo partido de Paulinho da Força em meio às aluviões desta confusão toda. Também vi hoje que o pedetista histórico Miro Teixeira - com quem não simpatizo nem antipatizo - resolveu entrar para o Pros (ele que é sempre tão contra), também ele à deriva depois da decisão da justiça eleitoral sobre a Rede - agora, sim, com maiúscula mas sem registro.
Acho que Marina tem grande responsabilidade neste vespeiro de abelhas tontas a que assistimos. E prorrogar até o último minuto o seu anúncio não ajuda em nada a melhorar o estado das coisas. Não há nada de errado em que o que é alternativo seja também algo razoável - é da vida, essa evidência que dividimos todos e da qual a boa política é também uma extensão. Dito isso, ou tudo isso, só me resta repetir esse chavão batido que hoje uma jornalista anônima transformou de chofre numa reação tão autêntica quanto original diante da massadas de Marina Silva: fala sério, candidata!
A imprensa brasileira, que de uns tempos pra cá pegou a feia mania de dizer que fala em nome do país (me exclua fora dessa, por favor) com suas manchetes tipo sermão de padre formado nos seminários do Instituto Millênio, bem que poderia dar destaque à expressão da jornalista. Não só dar destaque: aderir, tomar como sua esse sintomático "fala sério", estampá-lo em manchete e enfiar goela abaixo dos leitores e assinantes (por uma dessas cancelei dias atrás minha assinatura do Correio Braziliense, mas esse é outro papo). "Fala sério" é o mínimo que se pode dizer diante deste cozinha-galo de Marina, que, eu acho, está começando a brincar com aqueles quase 20% de votos que obteve há pouco menos de quatro anos.
Mas, por outro lado, estamos no terreno da política, onde até o mais sonhático dos militantes não tem como abrir mão de táticas: só posso acreditar que amanhã, sabadão, Marina Silva vai descer do salto com que seu círculo de assessores a calçou e anunciar, na antepenúltima hora, em lance sensacional e emocionante, já por si mesmo carregado de um arrebatamento que se traduz em votos e novas adesões que, sim, vai sair candidata pelo PPS, PTB, Solidariedade, Contrariedade, Pros ou Contras, não importa. O suspense, a demora, o bico-doce de quem se faz de difícil teria sido apenas para confeitar na medida certa o bolo do tão esperado anúncio - que, claro, já faria o efeito de angariar simpatias e votos. Meios alternativos de fazer o mesmo que a "velha" política que a candidata soberbamente diz que veio para eliminar. Tudo legítimo, se não contrariasse a construção do próprio discurso que ela mais e mais vezes faz questão de declamar. Se não for assim, a insondabilidade do pensamento e da estratégia política da candidata a coloca a distância suficiente de ser compreendida por qualquer eleitor, seja ou não seu simpatizante. E como se pode aderir a quem não se compreende?
Acho que a Justiça Eleitoral está errada em negar o registro do partido de Marina (enquanto as fraudes dos outros vão ficando pelo caminho); não voto em Marina, pelo menos a princípio; mas considero que o movimento à que ela se põe à frente existe de fato, socialmente falando, e por isso deve ter sua expressão partidária reconhecida (assinaturas à parte, o que é quase outra história e também diz muito sobre a candidata e seu séquito prematuro). Mas lamento que a ex-senadora do PT tenha enveredado por um caminho tão sinuosamente individualista em termos políticos que beira a autoproclamação absoluta, sem o lastro de um movimento organizado como ocorreu com o partido pela qual ela se notabilizou. Alfredo Sirkis que o diga (leiam os portais). Agora triste, decepcionante mesmo, foi ver uma figura como Domingos Dutra levado a trocar o PT pelo partido de Paulinho da Força em meio às aluviões desta confusão toda. Também vi hoje que o pedetista histórico Miro Teixeira - com quem não simpatizo nem antipatizo - resolveu entrar para o Pros (ele que é sempre tão contra), também ele à deriva depois da decisão da justiça eleitoral sobre a Rede - agora, sim, com maiúscula mas sem registro.
Acho que Marina tem grande responsabilidade neste vespeiro de abelhas tontas a que assistimos. E prorrogar até o último minuto o seu anúncio não ajuda em nada a melhorar o estado das coisas. Não há nada de errado em que o que é alternativo seja também algo razoável - é da vida, essa evidência que dividimos todos e da qual a boa política é também uma extensão. Dito isso, ou tudo isso, só me resta repetir esse chavão batido que hoje uma jornalista anônima transformou de chofre numa reação tão autêntica quanto original diante da massadas de Marina Silva: fala sério, candidata!
quarta-feira, 4 de setembro de 2013
Nas redes da burocracia
A burocracia da Justiça Eleitoral tem sido o maior cabo eleitoral de Marina Silva. Se depender de seus carimbos viciados na velha política, cedo ou tarde todos vamos cair de simpatias pela candidata ex-petista, verde-alternativa e evagélico-sem-ranço. Explico: tenho mais de uma ressalva à maneira como Marina se comporta politicamente desde que deixou o PT à sombra de um explícito ressentimento causado pela opção do partido em priorizar um projeto de distribuição de renda associado ao crescimento econômico do país. Considero a crítica pura de Marina relevante - e estou ciente de que tais ressalvas não partem apenas dela, mas também de figuras como Leonardo Boff, dono das melhores referências quando se trata de analisar a realidade do país e de toda gente. Discordo dos métodos; da defecção e da denúncia que a mim soa fácil; do oposicionismo conveniente. Considero que, dentro do PT - e relevado o inconformismo pessoal decorrente de uma já distante disputa entre ministros de Lula, com ela de um lado e Dilma Houssef de outro - Marina teria mais a acrescentar, legitimidade maior para travar a luta interna tão necessária a que um partido outrora pequeno se mantenha fiel à sua essência uma vez alcançado o poder.
Esse preâmbulo todo é necessário para situar o real adversário da hora, seja de Marina, do PT, da continuidade desse projeto de país (contestações e avaliações à parte), até mesmo dos outros concorrentes como Aécio e Eduardo Campos: quem está do outro lado do balcão, porque se trata de um balcão tanto literal quanto metafórico, é a Justiça Eleitoral. Numa sentença: os obstáculos burocráticos que a Justiça Eleitoral tem criado para a criação do partido de Marina são ilegítimos diante da demanda social que existe, de fato, para a criação da legenda. Você pode, assim como eu, discordar dos gestos de Marina, torcer a cara para a candidatura dela, achar como muitos que o aspecto de chororô da candidata não é muito alvissareiro, que evidentemente o conteúdo "sonhático" de suas postulações encontra forte obstáculo na real política do país etc etc etc; mas você precisa concordar comigo - que não pretendo votar em Marina para presidente; mas tampouco me encontro em grau de empolgação diante de Dilma - quanto ao fato de que a Justiça Eleitoral está sendo mais rigorosa com ela do que a nova política no horizonte do país admite. Ou tanto quanto compraz, em derradeira instância, àquela mesma real política em processo de vencimento.
Para algum lugar há de escorrer a energia cidadã que busca se expressar por meio do partido de Marina Silva. Não adianta o instrumento burocrático de uma conferência de assinaturas se interpor. Não lembro de ter visto - prazos e demais figuras à parte - tal rigor quando Kassab foi criar um PSD que, diante de qualquer olhar desprevenido, não encontra um mínimo de demanda social quando comparado à Rede da ex-senadora do Acre. Kassab e PSD fizeram tudo conforme manda o manual, mas que o deus da boa política nos livre de um partido que normativamente está em dia com a papelada mas socialmente se encontra distante da mais elementar noção de cidadania e representatividade.
segunda-feira, 26 de agosto de 2013
Mais médicos, menos jornalistas
Essa polêmica dos médicos está erigida sobre uma obviedade tão evidente (a esta altura não serei mais um a banalizar o velho "ululante" de Nelsão), que dispensa até maiores reflexões, textos, palpites. Parece o tipo do assunto diante do qual é mais inteligente reduzir tudo à sua essência do que ficar inflando controvérsia onde não existe. Ou não deveria existir, caso não houvesse, agora sim, uma doença chamada desonestidade intelectual.
Assim: 1) faltam médicos na rede pública e isso é gritante, sobretudo no interior, especialmente onde a medicina tem uma função mais geral do que nas cada vez mais sofisticadas tecnoclínicas que excitam os superpoderes da categoria nas metrópoles; 2) falta estrutura de trabalho para os médicos, yes, sobretudo nos mesmíssimos lugares descritos no item anterior, o que rende uma bela desculpa para os profissionais que não sentem o menor apelo para dar as costas ao ultra-qualquer coisa que cospe exames a preço de ouro e encarar a carência até de papel higiênico no postinho público do grotão.
Dito isso, sacramentado o que todo mundo está cansado de saber, espanadas as hipocrisias de ambos os lados - doutores e governos - temos então o programa Mais Médicos produzindo histerias ideológicas em conselhos e aeroportos. Temos mais: uma outra categoria profissional cuja função social é mediar as complicadas relações entre classes, profissões, instâncias e demandas. Nós, os jornalistas - que nos encontramos metidos até o pescoço na tal "polêmica", mesmo sem usar jaleco ou sem nunca termos ido a Cuba, a não ser para férias em Varadero e similares, claro.
Na edição desse domingo do Correio Braziliense, jornalistas escrevem, numa reportagem de título auto-explicativo ("O apelo eleitoral do Mais Médicos"): "A avaliação é de que críticas, neste momento, podem não ser compreendidas pela população que sofre com a falta de médicos no país". Eu, leitor, ex-redator deste mesmíssimo jornal, me atrevo a substituir palavras (e lembro de Rubem Alves, que diz que pensar é brincar com as palavras, essa só aparente inutilidade): "A avaliação é de que críticas ÀS ENTIDADES MÉDICAS, neste momento, podem não ser compreendidas pelos JORNALISTAS que NÃO sofrem com a falta de médicos no país."
Assim: 1) faltam médicos na rede pública e isso é gritante, sobretudo no interior, especialmente onde a medicina tem uma função mais geral do que nas cada vez mais sofisticadas tecnoclínicas que excitam os superpoderes da categoria nas metrópoles; 2) falta estrutura de trabalho para os médicos, yes, sobretudo nos mesmíssimos lugares descritos no item anterior, o que rende uma bela desculpa para os profissionais que não sentem o menor apelo para dar as costas ao ultra-qualquer coisa que cospe exames a preço de ouro e encarar a carência até de papel higiênico no postinho público do grotão.
Dito isso, sacramentado o que todo mundo está cansado de saber, espanadas as hipocrisias de ambos os lados - doutores e governos - temos então o programa Mais Médicos produzindo histerias ideológicas em conselhos e aeroportos. Temos mais: uma outra categoria profissional cuja função social é mediar as complicadas relações entre classes, profissões, instâncias e demandas. Nós, os jornalistas - que nos encontramos metidos até o pescoço na tal "polêmica", mesmo sem usar jaleco ou sem nunca termos ido a Cuba, a não ser para férias em Varadero e similares, claro.
Na edição desse domingo do Correio Braziliense, jornalistas escrevem, numa reportagem de título auto-explicativo ("O apelo eleitoral do Mais Médicos"): "A avaliação é de que críticas, neste momento, podem não ser compreendidas pela população que sofre com a falta de médicos no país". Eu, leitor, ex-redator deste mesmíssimo jornal, me atrevo a substituir palavras (e lembro de Rubem Alves, que diz que pensar é brincar com as palavras, essa só aparente inutilidade): "A avaliação é de que críticas ÀS ENTIDADES MÉDICAS, neste momento, podem não ser compreendidas pelos JORNALISTAS que NÃO sofrem com a falta de médicos no país."
quarta-feira, 21 de agosto de 2013
Suprema entropia
Um colega dos tempos da residência universitária em Natal, Josenildo, comunista até o tutano dos ossos; adversário da televisão que dizia servir só pra passar propaganda; inflexível defensor de uma revolução geral que passasse tanto pela Química que era seu objeto de estudo quanto pela Sociologia de muitos outros e a Comunicação da nossa parte, tinha especial predileção pela palavra "entropia". Qualquer chance de usá-la e nosso caicoense vermelho preferido sapecava a palavra, como quem ejeta no ar um argumento incontestável: é a entropia!
Josenildo, de quem não tenho notícias há anos, teve esta semana, continue a ser ou não o comunista férreo de 1985, uma chance daquelas de definir uma situação à sua maneira. Só ela mesma, a entropia, para explicar, numa palavra, o inesperado ataque do jornalista Ricardo Noblat ao presidente do STF, Joaquinzão Barbosa. Depois do show do mensalão e suas mil e uma interpretações, eis que o jornalista dirige toda sua verve de detonador de reputação para aquele que minutos atrás era o tal menino pobre que iria mudar o Brasil. Não tenho simpatias por Barbosão, mas Noblat chegou às raias do assédio moral ao dizer que lhe falta "educapção de berço". Pensei na mãe de família sacrificada que criou o filho Barbosinha e seus irmãos com dificuldades e hoje o vê presidindo a mais alta corte judicial do país. E a entropia não termina aí, visto que ato contínuo a jornalista Miriam Leitão saiu em defesa de Barbosa, entornando de vez o caldo dessa... entropia.
Entropia é uma palavrinha do tipo que impressiona à primeira pronúncia e, como tantas assim, tem um batalhão de significados complicados atrás de si para lhe garantir essa aura de autoridade meio imprecisa. Vem do mundo das substâncias, explica processos químicos que ocorrem quando um meio passa bruscamente de uma condição para outra. Tem a ver com níveis de temperatura e pressão. Decorre das perdas que tais mudanças acarretam. Não por acaso, nosso estudante de Química e comunista de carteirinha surrada Josenildo a descobrira e dela se apropriara como quem ocupa um latifúndio improdutivo. Não por acaso também, de tão cifrada a palavra logo virou instrumento de metáfora. Não por acaso ainda, transposta para a área da comunicação a entropia significa alguma coisa sobre resultados imprevisíveis de um processo marcado por muitas variáveis. E o que Noblat, Leitão e Barbosão têm a ver com isso?
Os três são movidos pelo ego de ofícios ultracompetitivos onde tem mais espaço quem fala mais alto - independente do talento na construção das sentenças (e aqui esta palavra está em seu sentido não necessariamente jurídico, embora de parte dos jornalistas exista sempre o desejo de extrapolar tal limite semânico). Quanto tantas vaidades se juntam no mesmo espaço - a folha do jornal, a coluna na televisão, o plenário do Supremo, o show da TV Justiça, a guerra de análises na internet - alguma imprevisibilidade há de escorrer dos veios das contradições que são inerentes a todos os processos, incluindo os políticos e aqueles relativos à comunicação. A entropia nasce dessas fendas que aparecem nas mais sólidas rochas. E quem conhece sabe que Noblat, Leitão e Barbosão são cada um uma pedreira em particular.
Josenildo, de quem não tenho notícias há anos, teve esta semana, continue a ser ou não o comunista férreo de 1985, uma chance daquelas de definir uma situação à sua maneira. Só ela mesma, a entropia, para explicar, numa palavra, o inesperado ataque do jornalista Ricardo Noblat ao presidente do STF, Joaquinzão Barbosa. Depois do show do mensalão e suas mil e uma interpretações, eis que o jornalista dirige toda sua verve de detonador de reputação para aquele que minutos atrás era o tal menino pobre que iria mudar o Brasil. Não tenho simpatias por Barbosão, mas Noblat chegou às raias do assédio moral ao dizer que lhe falta "educapção de berço". Pensei na mãe de família sacrificada que criou o filho Barbosinha e seus irmãos com dificuldades e hoje o vê presidindo a mais alta corte judicial do país. E a entropia não termina aí, visto que ato contínuo a jornalista Miriam Leitão saiu em defesa de Barbosa, entornando de vez o caldo dessa... entropia.
Entropia é uma palavrinha do tipo que impressiona à primeira pronúncia e, como tantas assim, tem um batalhão de significados complicados atrás de si para lhe garantir essa aura de autoridade meio imprecisa. Vem do mundo das substâncias, explica processos químicos que ocorrem quando um meio passa bruscamente de uma condição para outra. Tem a ver com níveis de temperatura e pressão. Decorre das perdas que tais mudanças acarretam. Não por acaso, nosso estudante de Química e comunista de carteirinha surrada Josenildo a descobrira e dela se apropriara como quem ocupa um latifúndio improdutivo. Não por acaso também, de tão cifrada a palavra logo virou instrumento de metáfora. Não por acaso ainda, transposta para a área da comunicação a entropia significa alguma coisa sobre resultados imprevisíveis de um processo marcado por muitas variáveis. E o que Noblat, Leitão e Barbosão têm a ver com isso?
Os três são movidos pelo ego de ofícios ultracompetitivos onde tem mais espaço quem fala mais alto - independente do talento na construção das sentenças (e aqui esta palavra está em seu sentido não necessariamente jurídico, embora de parte dos jornalistas exista sempre o desejo de extrapolar tal limite semânico). Quanto tantas vaidades se juntam no mesmo espaço - a folha do jornal, a coluna na televisão, o plenário do Supremo, o show da TV Justiça, a guerra de análises na internet - alguma imprevisibilidade há de escorrer dos veios das contradições que são inerentes a todos os processos, incluindo os políticos e aqueles relativos à comunicação. A entropia nasce dessas fendas que aparecem nas mais sólidas rochas. E quem conhece sabe que Noblat, Leitão e Barbosão são cada um uma pedreira em particular.
quarta-feira, 17 de julho de 2013
IMPORTADOS
Somos contra a importação de médicos. Terminantemente
contra. Também não admitimos a importação da dignidade. Somos igualmente
refratários à importação de tratamento igualitário para todos. E absolutamente
avessos à importação de qualquer forma de reserva aos historicamente menos
favorecidos em universidades, no mercado de trabalho, no painel geral de
possibilidade de ascensão social e outras subjetividades do tipo. Contra a
importação do bom senso, não à importação dos direitos iguais, veto à participação
no debate público de quem não tem prestígio nos meios de comunicação.
Nem por isso você precisa nos taxar de intolerantes,
politicamente fechados ou xenófobos. Somos totalmente favoráveis à importação
de carros de luxo, perfumes, roupitchas e outros supérfluos que de uma hora
para outra, você sabe, tornam-se absolutamente necessários. É o tipo da importação
que não machuca ninguém, não altera nada, não coloca pobres contra ricos, não
provoca manifestações de qualquer espécie. Também somos favorabilíssimos à
importação do bom gosto, do jeito exclusivo de se viver, da fama e da fortuna –
para quem tem berço capaz de acomodar bem essas virtudes natas.
Dito isso, tudo é negociável, que é pra que ninguém pense
que somos o retrato emoldurado do atraso: que tal, por exemplo, substituir essa
absurda importação de médicos pela saudável exportação dos doentes? Eles vão
achar o máximo sair dos rincões que por sinal deveriam ser mantidos
ecologicamente intocáveis e serem jogados no seio da civilização. Cada posto de
saúde no grotão mais renitente poderia se transformar em posto de recrutamento.
Algo assim como um neo-pau de arara. Uma alternativa não só de saúde mas também
de vida para esse pessoal. Uma gente doente que, assim como as criancinhas miseráveis
do Nordeste que tantos europeus caridosos tentam sem sucesso adotar, poderia
ter ao menos uma chance na vida. Sem precisar de médico, de cotas ou das tais
políticas públicas. Curtiu?
quarta-feira, 26 de junho de 2013
Embolou
Contra
tudo o que está aí, aqui estou eu. Mastigando exoesqueletos do quinto milênio
da correção política que fizeram a gentileza de suportar as agruras do nosso
tempo só pra antecipar entre nós os avanços neocivilizatórios. E engasgando com
chicletes sabor clichê a cada página virada, cada click no face, cada passo à
frente no cursor do twitter. Melhor não começar pelo óbvio: vamos, antes, ao
que ninguém esperava (nem a turma do quinto milênio; ou sobretudo a turma do
quinto milênio). É Obama, o ex-ban-ban-ban da modernidade enfiada à força nas
cucas dinossáuricas dos caretas. Quem, me diga, quem poderia imaginar que uma
personalidade tão-tão da política pop planetária passaria tão assim-assim
da condição de mito vivo para a de lixo
roto? Como é que se dá uma transformação dessa escala? Não é pra desconfiar de
que, independente do sujeito, há que se buscar melhores explicações nos
processos? Vejo o mergulho subterrâneo da reputação de Obama e me vem à mente a
figura de Marina Silva. Quem ainda vai ligar o nome à pessoa? O quanto do
desconhecido e inesperado fundamentalismo espião de um Obama poderia encontrar
ressonância num possível manifestar das firmes convicções de uma Marina
presidenta? Não estou sendo claro? – então está muito bem, que o propósito nem esse.
Quer clareza? Vá ler as placas da manifestação mais próxima.
Na
capa do Correio Braziliense e na
primeira página interna do jornal, surge um extraterrestre: é Dilma, rindo. Em
duas – duas! – fotos. Na capa e lá dentro. Na capa, ao lado de Joaquim Barbosa,
que de comediante não tem nada. Lá dentro com os representantes dos
manifestantes que não têm representantes – esqueça esses detalhes e vá direto
ao ponto – inclusive inclinando levemente a cabeça para um lado, numa expressão
que além do riso denota também um certo espírito meio Brasil carinhoso. O que
João Santana não fizer multidão nenhuma nas ruas será capaz de realizar.
Pessoal, eu apoio Dilma, viu? (não viu? Leia o post “Assim a meta estoura”, de
umas premonitórias semanas atrás) Mas dispenso esse riso pré-eleitoral: prefiro
que ela demita o adesista global Paulo Bernardo e passe a ouvir mais um santo
entronizado no Palácio do Planalto chamado Gilberto Carvalho. Precisa ir pra
rua pra conseguir isso? Vou não, coração – que a idade dinossáurica implanta desconfianças
de tal ordem no meu espírito que me permito assistir a tudo com o pé direito
atrás. Se você quer ir, vá sossegado, que eu não vou jamais lhe tomar à força a
bandeira invisível que você carrega às vezes sem notar.
E
se não vou, pior pra mim, que perco amigos, contatos, reputação. Emprego?
Seguramente não, que este eu consegui na disputa legítima do concurso público
que agora também deram para difamar . E ainda tenho que ficar me explicando –
supremo prazer para quem tem o mau hábito de corrigir o outro de dez em dez
minutos. Fazer o quê, se o brasileiro teve um surto de cidadania e um bando de
gente à sua volta resolveu que quer ser Edward Snowden a qualquer custo... Cada
povo tem o uiquiliquis (thanks, Mussum) que
merece, diria o cínico – mas se há algo que me causa repulsa é a figura do
cínico; então retiremos o que por último foi dito. Até porque, se é para
dividir a humanidade em turmas, se é para contemplar a multiplicidade de
questões e estilos, dinamitando com um novo web-iluminismo certo bipartidarismo
prático que levamos anos – e muito sangue – para construir, vamos partir logo para a facilidade do bolebolenses
x saramandistas. Sim, cada geração tem o “Anos Rebeldes” que é capaz de
entender – sai pra lá, cínico de bosta, você já não foi expulso desse post, não
lhe tomamos a bandeira debaixo de porrada? Ora... Eu só fico me perguntando –
eu, meu dinossaurismo renitente e minhas perguntas! – quem fará, ou já fez mas
nem notou, o papel de liga camponesa do atual momento político. E veja que
agosto nem chegou, com o julgamento dos embargos do mensalildo, esse menino
fofinho que a gente trata a pão de ló, belezura que sempre pode crescer e gerar
filhos, netos, bisnetos. Tem importância não; agora e logo mais, contra tudo o
que está aí, eu ainda estou aqui. Pode me tomar a bandeira rasgada e baixar a
porrada.
terça-feira, 18 de junho de 2013
O protesto, a política e o consumo
Abaixo, trecho de entrevista do professor José Garcez Ghirardhi, publicado no caderno "Aliás" do Estadão desse domingo. É a avaliação que mais se aproxima do que penso sobre a onda de protestos. A mim, ao contrário de muita gente, as manifestações - mesmo pacíficas, não é este o ponto; e não acredito que ninguém em sã consciência seja favorável a repressão policial - inspiram mais apreensão do que entusiasmo. Ainda acredito, apesar de tudo, na democracia representativa (consciente de que ela é limitada), no exercício dos três poderes, na institucionalização que a cidadania precisa ter, na tolerância e na ponderação. E, diante dos primeiros protestos, minha primeira impressão era de que, por mais legítimo que seja o grito pró-educação e saúde pública, há aí um modismo avassalador - e tão mais potente quanto mais antipático passa a parecer qualquer questionamento dirigido a ele. O que o professor da entrevista faz (íntegra agora só buscando no Google, digite o nome do professor, "aliás" e "Estadão" que cai lá) é, como especialista muito superior à minha baça pessoa, configurar muito melhor a questão: os protestos podem ser sintomas do que chama de redução do exercício da política uma forma peculiar de consumo. Vejo isso a torto e a direito nas minhas vizinhanças pessoais e profissionais. O fato é que o novo manifestante será cada vez mais celebrado como o distinto, o esclarecido, o intelectualmente superior, o descolado. E, em meio à política e tudo o mais, o que vejo dia após dia é que as pessoas são capazes de se matar para parecerem superior aos seus vizinhos. Nem que seja só um pouquinho ("eu sou mais avançado que você, viu?") Passarei a respeitá-los mais ainda quando, no caso dos estudantes, fecharem suas matrículas nas escolas particulares mais disputadas e se juntarem aos alunos das escolas públicas (esses, felizmente, beneficiados com a movimentação toda). E pra fechar, lembro uma feliz frase que acabei de ler no excelente livro "O Fole Roncou", de Carlos Marcelo e Rosualdo Rodrigues (o tema não tem nada a ver com os protestos, mas a frase, dita por Luiz Gonzaga em outro contexto, o musical, é matadora): "Cuidado com a moda. Ela passa." Segue o trecho da entrevista:
Por que a dinâmica dos protestos mudou?
Tem a ver com a forma como estão se organizando as relações sociais hoje em dia. As pessoas conseguem se unir para uma ação pontual, com interesse específico e efêmero, mas não construir projetos consensuais. Isso ocorre porque a relação de consumo se tornou a relação matricial da nossa sociedade. Quando você compra um produto, está desinteressado de todo o longo processo que o levou às suas mãos, envolvendo escolhas, sacrifícios de pessoas, etc. E assim que aquilo satisfaz sua necessidade imediata, você o descarta sem preocupar também com consequências. De certa maneira, há uma relação de consumo com a política hoje. As pessoas estão consumindo política, não produzindo política. Elas não se envolvem nos processos de negociação, nem têm participação efetiva nas tomadas de decisão. Quando vem um resultado - um produto - que elas não gostam, reclamam com enorme intensidade. Mas depois, na hora de construir, que é muito mais difícil, pois pressupõe articulação de interesses diferentes, não conseguem avançar.
quarta-feira, 10 de outubro de 2012
Joaquim, O Igual
Quantas condenações um homem precisa decretar para sair da condição de inimigo racial para a de reparador-geral da República Multicor Brasileira? Quem assiste ao julgamento do mensalão no STF mal tem dedos suficientes para contar. A eloquência condenatória do ministro Joaquim o eleva, dia após dia, à condição de alma cívica que deixou as catacumbas do silêncio imposto às minorias atrevidas e vai galgando, qual um preconceito apressado a cavalgar um cavalo branco, as alturas do estrelato da conveniência. Tivemos o espetáculo do crescimento e agora temos o show da Justiça. Chegou a hora de passar o Brasil a limpo - e se o primeiro balde de água sanitária queimar as toxinas que o PT espalhou por aí, tanto melhor. Quem quer saber do custo da campanha eleitoral que resultou em dois mandatos que enfim colocariam o país no eixo das possibilidades gerais, inclusive para a minoria cujo representante hoje lhe serve de chicote jurídico?
Sim, ó sim, a Justiça (a brasileira, sobretudo) tem que ser cega, agir numa espécie de escuridão que lhe permite ser tão severa quanto possível for. E é isso o que Joaquim, O Novo Igual entre nós e a imprensa mainstream, tem feito. Só isso: de tanto despolitizar as circunstâncias dos criminosos, termina por repolitizar tudo. Ele e seus pares, beijinhos e carinhos sem fim à parte. Neste caso, um recorte leva ao outro: e não é de estranhar, afinal estamos num país em construção chamado Brasil, cujas fraturas não deixaram de ficar expostas graças a um julgamento transmitido em tempo real. O presente vingativo e espetaculoso da TV Justiça não tira de cartaz o país real que um certo condenado em especial vinha ajudando a refazer. Aguardem as cenas dos próximos capítulos para testar a nova jurisprudência do olho by olho.
Condenados à parte e inocentes abstraídos, emerge de tudo o novo mito vivo chamado Joaquim, O Igual. Diante dele e de sua prédica no julgamento, temos o tempo todo a impressão de estar vivendo dentro de um livro pop-irônico de Tom Wolfe. Nâo há escritor melhor para perfilar, com as cores das contradições mais ofuscantes, o caso do menino pobre reportado pela revista rica que representa o conservadorismo político no Brasil. Somente ele e sua contrarreforma política à maneira do Judiciário para fazer aquela revista rever seus conceitos e colocar a conveniência na frente da parcialidade. Joaquim, O Igual, é o marco zero da Justiça brazuca. Depois dele, nada será como antes. Ele é a cota que cabe, na medida certa admitida pelo atraso esclarecido. Para que todos os brasileiros sejam iguais, é preciso que tenham no mínimo a estatura Dele. Ao menos, claro, na breve eternidade que vai reger o país enquanto Ele durar.
quarta-feira, 15 de agosto de 2012
Golpistas
Cada época tem o vilão mais conveniente aos interesses de quem vive de mercantilizar o ódio coletivo
Numa era
muito distante, quando um certo José Dirceu não incomodava uma mosca e portanto
não tinha motivos para ser tratado como inimigo público número um do país, a moda
era odiar os cirurgiões plásticos. Nem os políticos conseguiam tamanha
unanimidade ao contrário quanto eles – até porque, naqueles primórdios, o
sistema não permitia que houvesse políticos na completa acepção da palavra e no
inteiro exercício de suas funções. José Dirceu, aliás, fez o que pode pra mudar
isso – mas essa é outra história, com outros personagens. A figura que nos
interessa aqui é a do cirurgião plástico, autêntico ou pirata, que assombrou o
país nas páginas da revista Manchete ou na escalada do Jornal Nacional. Pois
esta semana, ele voltou.
O país que
tinha o afamado Ivo Pitanguy tinha também Hosmany Ramos, seu oposto e seu
inverso. Tínhamos o médico e o monstro: o primeiro era modelo internacional da
medicina estética brazuca e o segundo o golpista que se infiltrou na alta
sociedade – veja como o tempo muda as palavras, há quanto tempo você não lia
essa expressão “alta sociedade”? – carioca para conquistar prestígio e ocultar
sua sina criminosa. Pitanguy nunca deixou de ser clássico, mas Hosmany foi
parar na cadeia, de onde, decorridos tantos anos, já deve ter saído. Como nunca
mais esquartejou uma cliente com seu bisturi ensandecido, também nunca mais
ouvimos falar dele.
Até porque a
fila anda e tempos atrás o posto de Hosmany foi tomado por um desses novatos
estabanados como costumam ser os iniciantes sem sorte. O nome dele é Marcelo
Caron, sua área de atuação fica entre Taguatinga, no Distrito Federal, e
Goiânia, com passagens por Campinas, onde especializou-se em golpes financeiros
contra o Sistema Único de Saúde. Mas a especialidade mais – digo, menos –
reconhecida desse Caron eram lipoaspirações que faziam a cliente entrar na
mesa de operações e de lá passar direto à UTI, com prazo de uns dias para ser
transferida ao cemitério. Caron era médico, de fato - mas não tinha a especialização em cirurgia
plástica, hobby pra ele e desgraça para quem o procurava em busca de um
tratamento. Acabou tendo o registro de médico cassado e submergindo sob uma
montanha de processos criminais.
Esta semana,
Caron reapareceu, pasmen, numa blitz policial lá em Canguaretama, RN.
Descobriu-se que ele, oficialmente preso em regime semiaberto, “mora” na praia
de Pipa, ali pertinho, onde é até dono de uma pousada. No momento da prisão,
estava realizando essa atividade tão prosaica pra qualquer um que não é nem
cirurgião plástico e muito menos condenado por matar suas pacientes: voltar
para casa. O mundo está cheio de pessoas impressionantes, seja por suas
qualidade ou seus defeitos, porque tanto uma coisa quanto outra é capaz de
chocar pelo menos à primeira vista. Pois tanto quanto Caron voltando pra casa,
impressiona o caso do policial rodoviário que o identificou apenas por lembrar
das notícias sobre ele na televisão. Caron foi parar na delegacia, mas,
soube-se depois, poderá, sim, continuar morando em Pipa, mesmo sendo um preso
em regime semiaberto condenado em Goiás. Isso lembra ou não uma novela de
Gilberto Braga no horário nobre?
Antes que
alguém solte um indignado Brazil-zil-zil, convém lembrar que a ressurreição de
figuras como o cirurgião plástico golpista no país da impunidade servindo de
roteiro para histórias que nem a ficção criou com tanto apuro não é privilégio
aqui de baixo do Equador. Se fosse assim, não haveria casos igualmente bestiais
como o de um certo Paolo Gabriele, um sujeito cujas intenções são uma grande
interrogação e cujo procedimento vale por um livro de Dan Brown. Por estes dias, ficamos sabendo que
este italiano – que vem a ser, pela função que ocupa, talvez a mais suspeita pessoa do planeta, pois mais
do que um mordomo, é o próprio mordomo do papa – surrupiou uns documentos que
comprovam fraudes não na banca de bicho de Carlos Cachoeira ou nos contratos da
Delta, mas no próprio Vaticano, tá bom pra você?
Pra gente
ver como, sem perceber, perdemos tempo se formos dar bola ao noticiário geral
que tenta colocar uma emoção que seja no julgamento do tal mensalão. Enquanto a
velha mídia quer provocar torcicolos nos nossos pescoços fazendo a gente olhar
na marra para a modorra que tem sido o plenário do STF, temos aí – nesta mesma
imprensa, que não pode tudo – histórias como a de Marcelo Caron e Paolo Gabriele,
exumando velhos fantasmas dos tempos em que o culpado só podia ser o mordomo, Hosmany Ramos era o fim e também o máximo
– e quando um certo José Dirceu estava fazendo o caminho inverso, saindo da
clandestinidade que um tempo sem política, no sentido legítimo da palavra, o obrigou a abraçar.
quarta-feira, 1 de agosto de 2012
Ode a Roberto
O grande
escândalo do mensalão é a figura de Roberto Jefferson, sozinha. Diante de sua
empáfia permanente, desde a era Collor até os dias de STF atuais, a gente é
tentado a imaginar o efeito que faria uma espetada de agulha fina na bolha
daquela soberba em forma de ser humano. Quando ele era balofo como um factoide dos
anos 90, ficava ainda mais fácil: parecia que, ao mínimo atrito entre a ponta
do alfinete e a epiderme plastificada da criatura, ouviríamos aquele fuuuuu que
anima as crianças e o voo ao infinito e além daquele resto de pele que reside
por baixo da vaidade de Roberto Jefferson.
O tempo
passou, ele silenciou o plenário da Câmara dos Deputados denunciando o mensalão
e, evidentemente, aquela soberba de animador de auditório político de terceira
continuou sendo mais e mais inflada. Tanto quanto tenta de todas as maneiras
aspirar a substância do que quer que seja José Dirceu, a grande, velha e
igualmente soberba imprensa brasileira trata de manter cheinho como um balão de
aniversário a figura de Roberto. E ele, claro, faz a sua parte: evoca, como um
titereiro de encomenda feita a si mesmo, figuras de outras áreas que lhe
confiram a credibilidade audiovisual necessária ao show. Roberto pretende ser
algo assim como o Galvão Bueno da política, o Faustão do voto, o Alexandre
Garcia da eleição. Mais remotamente, um Flávio Cavalcanti dos bons costumes.
O julgamento no STF vai ser aproximando e Roberto surfa na onda que ele mesmo levanta, com o auxílio fanático da mídia antipetista. É uma foto atrás da outra, um facebook informal retocando a sanha quase evangélica e semipop do autor da denúncia. Até a doença é solidária a essa acepção – enquanto Roberto ignora que o verdadeiro câncer, o tumor que se infiltra e vai necrosando tudo por onde passa, não é o mal em si, mas ele mesmo. Roberto é essa reprodução incontrolável de células de vaidade e dano político, um germe plantado no coração de um processo de oportunidade e amadurecimento do país que ele quase conseguiu deter. Milhões de brasileiros teriam sido prejudicados, mas não há uma palavra boa como mensalão para tornar essa evidência algo facilmente assimilável.
Ode a Andressa
Andressa Mendonça é linda, cara, arrogante e suja. Mas o que mais dói é perceber que, espanada de suas circunstâncias eventuais como todo o escândalo em que se meteu com o maridão da hora, o Cachoeira, ela é quase a composição perfeita do ideal de aparência e comportamento em vigor entre certa parte do mulheril atual. Andressa parece um genérico de todas as meninas recém-formadas nos mil e um cursos de Direito em vigor nas faculdades do país. Lembra um avatar das milhares de neoburguesas que consomem o que podem e o que não podem nas lojas de grifes das dasluzes autênticas ou copiadas desta mesmíssima nação. Evoca a neomiss Brasil, a garota de aparente bom-tom e bom gosto – aquela que jamais vai citar qualquer coisa menos ofensiva do que o “Pequeno Príncipe” quando se pergunta qual o seu livro de cabeceira. Andressa Mendonça, pois sim, não está sozinha – e aí é que reside a sua, digo, a nossa, danação coletiva.
Diante de Andressa Mendonça, esteja ela usando pulseiras que custam muito mais do que o rim imprestável do crack man da primeira esquina ou personalíssimas algemas de prata encomendadas a um desingner da PF, a tentação imediata é sair por aí em busca de algo o mais natural possível. Um belo exemplar de moça bicho grilo, por exemplo – o que não vai ser nada fácil. Em frente às fotos de Andressa na banca de jornais, o cérebro busca automaticamente uma compensação naqueles tempos em que mulher bonita tinha alguma coisa a ver com transgressão. Você vê Andressa e pensa em Leila Diniz, é inevitável.
Confrontado com a maneira doce e meiga com que Andressa tenta chantagear um juiz federal – e, ao fim das contas, o faz, mesmo depois de denunciada, como o leitor pode conferir agora mesmo no site da revista (argh) Veja – não há com não sentir saudade dos tempos em que o cúmulo do atrevimento em termos de mulher e comportamento era uma grávida pop star brazuca ir à praia de biquíni. Ou soltar uns palavrões, também. Agora tente o amigo imaginar essa bonequinha de luxo abrasileirada que é Andressa deixando escapar um termo de baixo calão de sua boquinha desejável. Definitivamente, para mulheres como Andressa, desacato à autoridade – ou a quem quer que seja, como o povo brasileiro, a quem ela julga que Cachoeira não causou mal algum – é algo que se pratica com classe. A mesma classe que explica o fato dessa mulherada que a tem como espelho involuntário andar por aí com bolsas de 5 mil reais a unidade: nada mais proporcional a quem pode, a qualquer momento, precisar dispor de 100 mil pra pagar uma fiança que a permita sair da delegacia para entrar na loja mais próxima e mais cara. Volta, Leila!
sábado, 5 de novembro de 2011
Eu e o SUS, o SUS e eu
Muito antes do câncer, vem a dor de garganta. Quem não a teve? Antes da laringite adulta que pode indicar coisa pior, quase todo infante teve sua cota de faringite a implorar por atenção médica. O agora tão discutido – felizmente, embora por vias tortas – Sistema Único de Saúde ainda nem existia – sim, já houve tempos piores sem ele – quando fui atendido em uma unidade situada em suntuoso prédio na cidade de Campina Grande, grande Paraíba, para me ver livre do que os colegas da sexta série ginasial muito antes do aparecimento do CQC e de Rafinha Bastos, chamavam de “tosse de cachorro”.
Os médicos do bisavô do SUS – esse instituto que, quando implantado, teve pelo menos a ambição de oferecer atendimento universal, um tabu da era privatista atual – receitaram um remédio que quase matou o paciente. Mas efetivamente curou a tosse, embora tenha me garantido um trauma pelos muitos e muitos anos subseqüentes. Na impossibilidade de cirurgia para remoção das amídalas – o sonho dourado da minha mãe que sempre foi chegada a um bisturi – devido à fila medida em anos-luz de distância, receitaram-me o martírio de 15 injeções de Bezetacil (ou seria Benzapen que, noves fora o “z” ou o “s” e os detalhes médicos, em termos de dor e trauma, dá no mesmo?). O tratamento era já então de tal maneira traumático para o paciente de 12 anos que o médico recomendou aplicação de 15 em 15 dias, em braços alternados – atenção para esses detalhes, sem os quais eu provavelmente teria sofrido gangrena nos ombros e não estaria aqui pra contar essa história.
Era um tratamento desproporcional para a resistência física e à dor de um menino de tal idade. Mesmo com as injeções marcadas de 15 em 15 dias, aquele dia que ia me apavorando à medida que se aproximava no calendário e durante o qual, com toda certeza, aprontaria um escândalo ao ser arrastado por minha mãe para a farmácia. Mesmo sendo em braços alternados, e não havia outro jeito, porque além da incisão lacerante da aplicação havia a dor macilenta dos dias seguintes, quando o braço aplicado inchava como se houvera sido mordido por marimbondo caboclo. Pra efeito de informação, sei que hoje não se aplica essa injeção a não ser nas nádegas, mesmo em adultos – eu mesmo tive que relembrar o martírio há pouco tempo, felizmente em dose única. O fato é que sobrevivi, caso contrário não estaria aqui contando a história – detalhe: depois de 11 injeções, o tratamento foi dado por encerrado. Deveria odiar o SUS, pois não? Nem que fosse por um tipo de ódio que mistura aversão política com fracassos pessoais em nada relacionados com os tentáculos do poder público, como tem se tornado tão comum hoje em dia. .
Toda criança daqueles distantes anos 70 que de alguma maneira se arrumaram na vida adulta acabaram, naturalmente, nos braços de um plano de saúde privado no final do milênio e pelo novo século em curso. Como as coisas práticas da vida, é o tipo do processo que acontece quase sem que se perceba. Não lembro de ter contratado jamais um plano desses – embora não queira ter aqui a hipocrisia de afirmar que não o desejaria caso não tivesse um. Ocorre que no pacote profissional de cada emprego ele sempre veio como salário indireto, o que me livrou das horas de espera perdidas nos prontos-socorros públicos que, nós, classe média assentada ou ascendentes a essa condição tão bem conhecemos felizmente só por ouvir falar.
Mas a experiência prática não esgota nada, a não ser para quem tem a arrogância pequena de se contentar com a explicação mais fácil, rápida e aparentemente indolor – ou seja, infelizmente, para grande parte das pessoas (e o twitter está aí para provar isso na timeline de qualquer usuário). Para quem luta pra fugir desse grupo, há mais informações, circunstâncias, ponderações e curiosidades do que supõe o mero desabafo em 140 caracteres. Tenho colegas dos tempos universitários que fizeram da construção do SUS suas vidas – os mesmos que hoje fazem da tentativa possível de melhoria do sistema o motivo imediato de saírem de casa todos os dias. Com Guia Bezerra, conterrânea que não sabe quem é Arnaldo Antunes (chega a ser engraçado, mas a graça aqui é outra) de tão enfurnada que vive no mundo do serviço social associado ao atendimento de quem só tem o SUS para se socorrer ali na região de Canguaretama (RN) e adjacências.
É por meio desses colegas e da informação geral que circula por aí se você não restringir seu mundo intelectual à leitura distraída da “Veja” que qualquer um pode ficar sabendo que há áreas específicas em que o SUS é, sim, fera. Se o sistema é falho no atendimento geral e imediato do tipo virose tropical de verão – um papel que a rede privada, na falta de concorrência pública, vem assumindo, diga-se que já com certa negligência diante do consumidor adoentado – é sabido que ele tem sido também de excelência em áreas especializadas pelos quais os convênios particulares não se interessam, por questão de escala, em assumir. Convém lembrar que, antes do qualquer coisa, o setor privado de saúde é um ator econômico movido pelas variáveis próprias dessa condição.
Claro que há as questões gritantes na rede pública, como o salário médio de um médico em torno dos R$ 1.600 – um valor obviamente ridículo, injusto e desproporcional. Mas qual foi o médico que não adestrou na precariedade do SUS suas ferramentas de diagnóstico, seu estágio inicial, seu contato com o mundo real de vírus e bactérias que dizimam populações sem recursos antes de fugir para o ar rarefeito das clínicas e hospitais especializados que às vezes lembram mais hotéis do que unidades de saúde, inclusive no preço cobrado e na renda embutida no que deles extraem os grandes convênios particulares? O questionamento feito por meio do twitter sobre o ex-presidente Lula ter ido se tratar num grande e caro hospital e não numa unidade do SUS – que ele, numa evidente bravata de quem está por cima e respira bajulação por todos os lados, dissera ser “quase perfeito” – tem sua legitimidade. Mas me refiro aqui ao questionamento em si, isolando dele, como num procedimento laboratorial que nem todo mundo faz, deseja ou se importa em fazer, o víeis de preconceito social embutido na, vá lá, denúncia. Lula é questionado pelo que disse e deve estar sujeito a isso como qualquer um de nós, simpatizantes ou não de sua figura. O riso de escárnio está fora desse padrão – aí já estaremos no terreno aberto do apedrejamento movido por outros condicionantes.
Mas tão legítimo quando o questionamento público da sua bravata – desde, repito, que seja feita com o distanciamento que o preconceito social quase nunca permite – é também o questionamento do questionamento. Ficou confuso? Não é o caso: se qualquer brasileiro tem legitimidade para dizer que, se disse que o SUS era perfeito, Lula deveria ter recorrido a ele e não ao Sírio-Libanês, também está coberto de legitimidade quem fareja nessa sentença um último desdém para com o presidente da República que veio do operariado, originário do Nordeste rural, proveniente do Zé Povinho sem título universitário e por aí afora. Senão, como disse o colunista do Correio Braziliense, por que não fizeram a mesma cobrança quando o José Alencar vice-presidente proveniente do mundo da indústria se viu às voltas com o combate dos múltiplos cânceres que afinal o levaram?
Razão pela qual o caso Lula-SUS-twitter revela-se um daqueles episódios emblemáticos que fazem todo mundo parar para pensar, um instante depois da piada pronta, sobre afinal de que se está falando. No mínimo, vai servir para abastecer – ou variar um pouco – a pauta de um jornalismo mais preocupado com a eloqüência da manchete do que com a informação real, deitada em berço esplêndido ou decadente à espera de um repórter honesto que a tire daquele lugar. Claro que, no final das contas, por mais que a reportagem recoloque as coisas minimamente no lugar – como dizem ter ocorrido no caso Lula-SUS – sempre se pode esperar o seu contrário do editorial assumido com esse título ou diluído no tom dos textos: o SUS não funciona, e pronto. E como, para além da denúncia, é conveniente que não funcione: quanto mais morre o sistema único de saúde, mais cresce o aparato privado da doença.
O que nos leva ao ponto mais límpido – e ocultado com lixo hospitalar – dessa discussão: não basta que o SUS realmente não preste em seu funcionamento, estrutura, salários e falibilidade total; é preciso destruí-lo na última mas importante e singular porção do que ele representa: a intervenção pública, geral e universal. O que me leva a declarar o oposto: se o SUS, pelo qual tanto se lutou, é hoje um fracasso total, é defensável até o último minuto pelo conceito que contém. Este conceito é uma promessa de democracia real no tratamento de saúde que, embora não concretizada no dia a dia dos ambulatórios (mas vista em muitos tratamentos especializados), merece ser salva dessa UTI mercantilista que nos tira o sangue, a sensibilidade, o raciocínio e até a sagacidade de um brasileiro que, francamente, já foi mais esperto em não se deixar enganar pelo primeiro twitter que lhe cai na timeline.
Tá certo: conceito não cura ninguém. Não mesmo, individualmente falando. Mas não há nação de pé sem um conceito mínimo de cidadania por trás para sustentar a dignidade do seu povo. Quanto à bravata, é de se concluir: daí ao SUS o que é do SUS e a Lula o que é de Lula, noves fora os preconceitos mais insuspeitos que andam aí na rede social ou nas ruas.
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