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segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Coppola, o retorno

 
É muito apropriado que Tetro (DVD Versátil, 2009) seja a narração de um resgate, já que o próprio filme representa isso mesmo para quem o assiste: a volta de Francis Ford Coppola ao cinema, não por acaso com um drama em branco e preto que trata de um relacionamento entre irmãos. Qualquer lembrança de Rumble Fish (título original tão melhor que o quase slogan de rebeldia O selvagem da motocicleta) não terá sido ocasional, fica claro de cara. Tem o branco e preto, tem o tema do desencontro entre irmãos onde o mais novo se projeta nos mistérios do mais velho e tem, ainda, alusões visuais que também ligam os pontos, como a primeira imagem, um superclose do protagonista se deixando iluminar ao brilho de uma lâmpada incandescente onde um inseto agoniza fascinado por tanta luz. A cara do cinema de F.F. Coppola.

É a mesma luz que o cineasta projetou no Rumble Fish sobre o rosto de um novato e atônito Nicholas Cage - a não ser que eu tenha apenas imaginado uma cena que de fato não existe no filme, como já me aconteceu com outra de Deus e o diabo na terra do sol (alguém trocando a cruz por um facão nas mãos de Geraldo Del Rey, minifilme que me ficou na memória mas, descobri depois, é uma alegoria que o filme não traz, ao menos não literalmente assim).

Enfim, na subjetividade de imagens superpostas, sugeridas ou confundidas que o melhor cinema provoca e estimula, Tetro é este retorno, feliz retorno. Coppola, aqui neste registro de drama familiar plasmado por um certo tom de romance de formação, não é naturalmente - nem poderia, a esta altura dos fatos do mundo do cinema e do entretenimento - o gladiador em câmeras dos épicos do fracasso da fase Apocalypse Now. 




Também não poderia ser mais o muralista ambicioso - e felizmente delirante como o cinema nunca mais tem sido - de O fundo do coração. Temos, no retorno, um Coppola de meios tons onde não obstante a marca do autor consciente persiste, por exemplo, nas vinhetas que expressam o inconsciente dos personagens, construídas em quadros que, por deliciosamente artificiais (inclusive com uso correto dos recursos da informática), lembram claramente os mares de papel com que ele ilustrou esse segundo filme aqui citado. 



O interessante é ver como, mesmo trabalhando em escala menor do que aquele que o fez um grande cineasta - embora, lembre-se, o grandioso naqueles filmes tantas vezes servisse para destacar o dilema íntimo, a delicadeza contida nos painéis - Coppola retorna com um filme multimídia. Nunca deixa de ser ele mesmo, com baixo ou nenhum orçamento: Tetro mixa, com estilo do vinicultor apurado que o cineasta também é, cinema, música e dança - e com enxertos de teatro. Parece que a última vez que se viu isso dessa forma mínima e ao mesmo tempo tão envolvente foi naqueles velhos filmes oitocentista de Carlos Saura - e esqueça a fase dos musicais arrasa-quarteirão do cinema convencional americano que este é outro capítulo. 

Enfim, com Tetro, volta Coppola, e com Coppola, volta certo  cinema dos anos 80 que tanta falta faz hoje em dia, sem desprezar o que foi feito de lá pra cá. Mas, super-heróis subtraídos (e gosto de alguns, sempre faço questão de lembrar), onde você poderia ver um autêntico drama familiar rodado numa Buenos Aires com a tepidez de La Boca e adjacências, com atores como Vincent Gallo (que você viu onde mesmo? No a esta altura já clássico A casa dos espíritos, como o odioso filho bastardo que adere à ditadura).




Ou  Carmem Maura, a serelepe protagonista de Mulheres à beira de um ataque de nervos aqui quase irreconhecível - mas em desempenho absolutamente digno, atuando quase que sem que os pés toquem no chão - como a crítica literária singularmente conhecida como "Alone". Sem falar em Maribel Verdú, que lembrará vagamente um distante Sedução (Belle Epoque, 1992, dir. Fernando Trueba), caso você tenha passado ao largo de algo mais cru, como E sua mãe também, este mais recente. 

Definitivamente, não se faz mais este tipo de filme. Nem com esse elenco, tampouco com essa envergadura de vanguarda do passado, esse passado tão desprezado pela pressa das impacientes narrativas atuais.  

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Águas profundas


Em cinema, literatura, às vezes até na música - quando se trata de um tipo de canção de natureza mais narrativa - existe uma pré-condição, um condicionamento prévio sem o qual nada se sustenta. É bem conhecido e chama-se "suspensão da descrença". Graça a esse instrumento narrativo - espécie de pacto não formalizado entre o autor e seu público, seja qual for o meio empregado - acreditamos, ou fingimos acreditar sem prejuízo para os fatos narrados, nos maiores absurdos. O Superman com oito anos suspendendo um carro apenas com uma mão. Cientistas com jeitão de super-heróis construindo uma geringonça gigante capaz de evitar que um meteoro ainda mais hiperbólico destrua a Terra. Dona Flor tendo que dar conta do maridão certinho que acabou de chegar da farmácia e ao mesmo tempo do fantasma do finado marido anterior que se foi desta para melhor mas não esqueceu do prazer de certos momentos. João Grilo e Chicó enganando uma cidade inteira com as lorotas mais improváveis apenas para conseguir matar a fome de cada dia.

Como diz o nome daquele festival de filmes, é tudo verdade. A gente acredita em tudo: basta que o capítulo inicial do livro, ou as primeiras sequencias do filmes ativem aquela maquininha de condicionamento mental que a gente carrega na mente como se fora um projetor paralelo no escurinho das possibilidades - a tal "suspensão da descrença". Foi isso o que não aconteceu comigo durante a primeira meia hora deste celebrado "Capitão Phillips": o mecanismo da suspensão da descrença, habitualmente tão capaz de nos fazer passar por cima de impossibilidades reais para embarcar na oportunidade de acompanhar uma boa história travou legal, como diria um garoto, bem no início do filme, exatamente naquele ponto onde ele tinha, precisava funcionar.

Passei o resto do filme incomodado com um elemento narrativo que me pareceu improvável: como é que os americanos, esse povo tão fascinado pelo uso de armas de fogo, não carrega nem uma dessas espingardas de bala de borracha que a PM brazuca usa e abusa nos tais protestos de rua, ao realizar a travessia marítima por uma região tão perigosa? Eu, na minha sacrossanta ignorância - a quem não canso de prestar minhas homenagens, pois dela advém, além de certa humildade muito providencial, também o entusiasmo quando sou apresentado a alguma novidade - não sabia que a marinha mercante não usa armas de fogo. Tudo bem: não precisa ser um navio militarizado pela ótica do mundo pós-Bush-Iraque, mas nem uma armazinha assim pra efeito de qualquer coisa acontecer? Nem alguma coisinha simples, tipo o bacamarte do Urtigão? Tenho que pedir ao amigo Carlos de Souza pra perguntar ao pai dele, que passou a vida navegando na marinha mercante, se é assim mesmo.

Porque aqui não se trata apenas de um caso em que a suspensão da descrença não funcionou - para mim, só posso falar por mim, porque o que mais vejo, leio e ouço é o pessoal empolgado com o filme. Aqui o que temos é um troço mais maluco ainda: um caso de suspensão da descrença que não funciona num filme... inspirado em fatos reais, de amplo conhecimento público, com os protagonistas de fato dando milhares de entrevistas no embalo do lançamento do filme. Então, em princípio, eu não teria mesmo do que duvidar - o pessoal todo daquele barcão, tripulado por vinte homens bem alimentados ou parrudos de chope, que seja, não conseguiu mesmo dar conta de quatro magricelas famélicos e expoliados da mais clássica África envolva em guerras, tráfico e banditismo. E armas, nem pensar... Sabe qual é o problema? A danada da suspensão da descrença não quer saber se o filme vem de fatos reais ou não: ela precisa existir na condição de gatilho narrativo sem o qual a história não consegue ser disparada. A questão é menos o fundo verídico do fato do que a superfície narrativa sobre o qual ele é distribuído em forma de cenas, diálogos e situações. 

 
Talvez tenha faltado uma cena - uma daquelas cenas que os roteiristas detestam ter que escrever - com uma explicação minimamente didática sobre o fato de a marinha mercante não querer papo com armas, nem preventivamente. Tudo bem que a possibilidade de um tripulante dar cabo de um pirata usando uma arma ancestral - os próprios braços - ainda assim ficaria no ar, mas já seria um alento. A oposição entre o navio gigantesco e a canoa raquítica pode e é sim pungente do ponto de vista da mensagem visual, mas a construção do caso - precisamente a arquitetura da suspensão da descrença - precisa passar por águas bem mais profundas do que a rasa navegação entre as bacias das metáforas.

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Flores raras, fracas e fortes




Tem o apelo de duas personalidades marcantes e verdadeiras, assim como o atrativo de testemunhar as entranhas de um relacionamento tempestuoso. Tem o pano de fundo histórico composto pelos bastidores de um livro vencedor do prêmio Pulitzer e da idealização e construção do Parque do Flamengo, cartão postal urbano da cidade do Rio de Janeiro. Tem a curiosidade de saber como se davam os casamentos homossexuais no Brasil dos anos 50 na elite de uma cidade que já era então capital cultural do país, além de ser de fato sua cidade primeira. Tem Glória Pires, uma atriz que, como o argentino Ricardo Darín, é sempre uma garantia de um excelente filme - só o fato de estar lá, no elenco, já adianta que se trata de algo bem trabalhado, refletido, elaborado. E tem a assinatura de Bruno Barreto, um cineasta que não tem pudor de realizar filmes de extração mediana no que a palavra tem de bom: é um narrador metódico e comedido, cujos filmes, sem abrir mão de se comunicar com o total da plateia, enxertam poesia e sensibilidade nos casos que levam para a tela do cinema.

Mas tem algo mais do que tudo isso ao final da projeção dessas "Flores Raras" em cartaz desde sexta-feira: tem um conto sensível sobre a perda. Mais que isso: sobre a capacidade de lidar com a perda. Mais ainda: sobre o jogo de falsas aparências que esse lidar comporta. Temos a arquiteta autodidata e trator humano por formação que é a brasileira Lota de Macedo Soares e seu caso de amor com a poeta norte-americana Elizabeth Bishop. Temos, na brasileira, a força, o ímpeto, a arrogância de uma elite econômica e cultural que até hoje dita - ou imagina que o faz - seus princípios a partir da para sempre capital cultural do país. Temos, na americana, a fragilidade do poeta, o espírito trincado em dor da alcoólatra, a insegurança de quem lida com o sentimento antes de se aproximar do martelo bruto da vida. 

Temos este relacionamento e seus enganos: veremos - e é preciso dizer sem estragar o prazer narrativo de quem, não conhecendo os detalhes da história, ainda não foi ao cinema para vê-la - a força que aquela fraqueza pode ter, e vice-versa. Lota é uma pessoa tão completa dentro de sua auto-afirmação de fundo mimado que, no limite, corre mais riscos do que a bebum Elizabeth e sua constante proximidade da morte. Parece, o tempo inteiro, que Elizabeth vai morrer tragicamente na próxima cena. Parece, a todo momento, que Lota é como um daqueles postes de iluminação que ela colocou no Parque do Flamengo, altos, sólidos, concretos e inflexíveis a ponto de suportar as piores tempestades, iluminando os sobreviventes com um certo desdém de quem vive no alto. 

Mas Lota não sabe perder - e Elizabeth é, ao contrário, especialista na matéria. Por isso aqui a fraqueza aparente é a resistência mais firme, e vice-versa. Depois deste filme, a gente nunca mais verá os fortes e os fracos com o mesmo olhar de antes. Ao menos não os forte e fracos manifestos, desses que se destacam nos consultórios, nos ambientes de trabalho ou nas passeatas.

sexta-feira, 2 de março de 2012

A arte do silêncio



Há filmes que são uma evocação (“Cinema Paradiso”), como há outros que são uma epopeia (“O poderoso chefão”). Há filmes que são um poema (“O Carteiro e o poeta”), como há filmes que são um ensaio (“A árvore da vida”). Há filmes que são uma fantasia (“O mágico de Oz”) e há outros que são uma denúncia (“São Salvador, o martírio de um povo”). Há filmes que são um libelo (“Cabra marcado pra morrer”) e há filmes que são um hino (“Hair”).


"O Artista” é um estudo. Nada professoral, nunca pedante, jamais formal, de maneira alguma didático, mas um estudo, sempre, mesmo quando não parece – e quase sempre isso acontece. É um compassado estudo áudio e visual sobre como uma mudança de tecnologia pode interferir na poesia narrativa e na magia encantatória de uma arte como o cinema. Filmado em branco e preto, naquele formato dos filmes mudos e praticamente sem falas (mas com ruídos e intervenções sonoras meticulosamente precisas para sensibilizar a audição visual do público), “O artista” passa como uma valsa dos anos 30 na nossa frente, dançando na sua melodia evolutiva muito própria, enquanto discorre, disfarçadamente como um mágico de calçadão, sobre os mecanismos internos de seu artesanato.

Se fosse literatura, “O artista” seria uma novela, de páginas com entrelinhamento bem diluído, como aqueles textos que, por ocuparem pouco espaço no papel têm o poder de fazer mais vívidas cada uma de suas palavras. São os artifícios deste estudo que lembra, no enredo, na aparência e na combinação de seus vários elementos um  cruzamento de “O garoto” com “Farrapo humano”, mas batido numa tigela tal de culinária cinematográfica que a calda final resulta mais fluida assim como o verso soa mais etéreo que a prosa. Chapliniano pelas artes de um cão que só falta falar em cena – o que não seria menos lírico num filme que se vale tão bem dos sons do silêncio – “O artista” tem o poder de decantar, enquanto é projetado, todo a algaravia do cinemão atual, toda a potência estéril de mil “Velozes e furiosos”, todo o ribombar inútil de toneladas de “Transformers”.

“O artista”, o filme que é um estudo, só é professoral neste sentido de pedir silêncio na sala para que a aula de cinema seja o mais completa quanto for possível. Pena que o barulho dos dentes cravejando pipocas de adultos infantilizados na fila ao lado nem sempre permita a totalidade da imersão. Mas seria querer demais.

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Crônica do pai-cinéfilo



O leitor bagunçado que é o autor desse blogue idem também é, ou tornou-se, por circunstâncias familiares, um cinéfilo em igual condição. Cinéfilo bagunçado é aquele que lê todas as resenhas e assiste a um por cento dos filmes sugeridos, quase sempre no horário em que é possível, quase nunca de acordo com a preferência pelo filme mas pela disponibilidade que a vida oferece, eventualmente sim, casando necessidade com expectativa. A vida deste cinéfilo se divide entre A.F e D.F, antes e depois dos filhos. Ao que já pude ouvir de quase todo mundo, isso acontece com quase toda gente: a parte da humanidade que, gostando de filmes ou não, torna-se pai de família. A gente perde a dependência química da visão de sagas em celulóide – hoje, em digital, mas neste caso o meio não interfere na mensagem – de tão poucas chances tem de se manter fiel a ela. Mamadeiras, quebra-cabeças e chamados insistentes de “papai, papai!” num tom de voz que indica que a convocação é pra ontem ocupam o lugar daquela sessão vespertina que parecia um hábito até a chegada do advento da paternidade.

Tudo isso pra dizer, sem firulas em tatibitate de adulto, que a paternidade responsável, infelizmente, não combina com o hábito de se manter em dia com o que de melhor – ou pior, dependendo da temporada – o cinema mundial tem a oferecer aos nossos olhos fatigados do imediato pós-parto. De maneira que o pai-cinéfilo (ou o ex-cinéfilo que foi assaltado pela condição de se tornar pai) costuma contrariar mesmo o gosto da maioria de aficionados por cinema que não é pai de meninos pequenos (no caso dos grandes, dizem que depois de fazer 14 os filhos são tomados por uma estranha mas providencial vergonha de andar perto dos seus progenitores, a conferir). A gente costuma vibrar com um filmeco qualquer que um expectador menos mutilado em seu hábito de ir ao cinema não considera mais do que banal – ou ruim mesmo. E quando vem aquele filme super-esperado, coberto de elogios, portador das mais abalizadas opiniões quanto aos cortes de linguagem que promove, o pai-cinéfilo pena tanto pra conseguir ver que... pode muito bem sair decepcionado, por mero excesso de expectativa. Ou então não entender mesmo umas partes, que a paternidade responsável tem dessas coisas: você assiste tanto ao DVD dos três mosqueteiros da Disney (Pateta, Mickey e Cia) que acaba ficando um pouco prejudicado mesmo quando se trata de sensibilidade estética e inteligência audiovisual.

Mas – sempre tem um mas, mesmo nas profundezas da vida de pai de duas crianças de seis e quatro anos numas férias de fim/início de ano que parecem não acabar nunca – o horizonte das possibilidades pode se abrir quando você menos espera. A mãe dos meninos de repente é tomada por um acesso de generosidade e libera você para uma sessão de... “Cavalo de Guerra” às... 21 horas, o que significa que você não vai voltar pra casa antes das 23. Ou então é o espírito das férias fora da sua cidade de moradia que permite uma quebra dos hábitos. Ou então é a própria programação de cinema das crianças que lhe leva de roldão como as águas das enchentes da temporada. O caso é que, por uma ou outra dessas circunstâncias, as portas dos cinemas se abriram pra mim neste final de 2011 e início de 2012 – e foi tanta emoção que até agora estou sem condições de julgar o que vi. Apenas vi, o que não é pouco. Vamos à crônica propriamente dita do pai-cinéfilo em ação:

O “Cavalo de Guerra” foi como um daqueles repleis que a vida vez em quando oferece: você com 4.6 rodados tem a chance de entrar no cinema e se sentir de novo com 1.9. É a volta do velho Spielberg pra quem gosta – e não para quem acha brega. Dizem que todo homem tem direito a chorar, no máximo, quatro vezes durante o ano. Levando em conta que vou chorar lá pra novembro, na formatura de Bernardo no Jardim de Infância da Escola Sagrada Família Menino Deus (como chorei na formatura de Cecília), restam dois prantinhos preu administrar, já que o segundo eu já gastei, claro, vendo “Cavalo de Guerra”. É o conforto do cinemão do cara que reinventou a arte de entreter e emocionar as grandes platéias em algum ponto da passagem dos anos 70 para os 80. É o cinema que não tem medo de levantar a cortina pesada da trilha sonora emotiva quando o personagem – mais uma vez, e obrigatoriamente, um garoto em rito de passagem, como aquele distante Christian Bale em “Império do Sol”, o meu preferido – vive seu momento decisivo. É a evocação de um sentimentalismo que o cinismo contemporâneo pisou em cima, esfregou o sapato e depois chutou para a sarjeta. É o filmão que lhe toma três horas do seu dia sem que você perceba que se passaram mais que dez minutos. É o filme de painéis, de horizontes, de pinturas de guerra que tanto abordam as tragédias humanas em língua média quanto trazem a sínteses desses acontecimento que de tão grandes para sempre esmagam a humanidade. E ainda tem a dolorosa cena do cavalo enredado no arame farpado das trincheiras que dividem aquela outra raça em facções em disputa – e a conseqüente e inesperada união momentânea que livra o animal irracional do suplício e por um instante abstrai dos racionais em seu entorno o instinto de aniquilação mútua. Para o cinéfilo que não é mais pai de meninos pequenos pode até parecer piegas, óbvio, metaforicamente pobre demais. Mas só pra eles.

A maratona cinematográfica acidental da passagem 2011-2012 também incluiu um outro filme do qual restou apenas o nome: “Missão Impossível- O Protocolo Fantasma”. Nomão pomposo, sessão de ingressos disputadíssimos no shopping natalense, a expectativa de ver um mero filme “de espionagem” que é como a gente chamava o gênero na infância, um Tom Cruise ancião vestindo uma malha falsa de juventude forçada e mais nada. Não consigo lembrar de uma mísera cena. É o contrário do que aconteceu com “Alvin e os Esquilos 3” (segure sua onda, eu avisei que isso é a crônica de um pai-cinéfilo), que enxertou quase à revelia várias e várias sequências nas minhas memórias de freqüentador agora eventual da sala de projeção. Tem uma explicação: fui obrigado por meus filhos a assistir duas vezes – eu disse duas, é sério – ao filme das férias. Nem a minha simpatia também eventual por “Saimon” que vira “Simon” me livra do trauma de rever tudo aquilo de novo – e eu nem preciso contar que, de volta a Brasília, Cecília e Bernardo já voltaram a ver o mesmíssimo filme no cinema mais duas outras vezes, felizmente sem a minha supervisão, que aproveitei pra conferir outras atrações em cartaz, o que explica o fato de repentinamente eu ter a impressão de morar num cinema. Tchau, esquilos: até o capítulo 4, e que demore muito (lembrando que, neste ínterim, teremos Madagascar 3 e, viva! um respiro, “A Ameaça Fantasma” de volta em 3D).

Pois bem, enquanto Cecília e Bernardo arrastavam Rejane e Ivone pra mais duas sessões esquilosas já aqui em BSB Citi, obtive uma licença para ver “Dois Coelhos” (se aparecer mais um filme com bicho no nome eu saio correndo pro meu home cinema) e, ufa, “Os Descendentes”. Do primeiro, que vi sem ter lido uma linha a respeito, logo entendi tratar-se de um cruzamento de Tarantino com “Lost”, aquele negócio de mostrar algo aqui e só  mais em seguida revelar os antecedentes da cena, dando a ela um novo significado. Não é tão novo assim. Lembra também o mexicano Iñarritu (é assim que escreve? Claro que não, mas você entendeu) de “Babel” e quejandos. Não é ruim – e tem uma Alessandra Negrini na plenitude de suas capacidades, pra ficar no tucanês cinematográfico – mas também não é essa batata quente toda. Soa exibicionista. E se trata, principalmente, daquele tipo de filme a que você se sente obrigado a assistir de novo, pra conferir os truques narrativos em que caiu na primeira vez em que o viu. Tem uma última referência, que não vi ninguém fazer, que é Jorge Furtado. É como se fosse um filme do cineasta gaúcho rodado numa câmera equipada com um bate-estaca. Perde-se um pouco de inteligência contemplativa no processo. Sai-se da sala entre confuso e vazio: um videoclip de água poluída é o filme, com diria o compositor baiano.




E o que dizer de “Os Descendentes”? Em tudo que leio sobre o filme, sinto exatamente isso: uma falta do que dizer. Todo mundo gosta, é da mesma lavra do diretor do saboroso “Sideways”, um ou outro fica forçando uma barra pra se mostrar, “enquanto crítico”, superior ao cineasta (caso da moça da Veja, aquela que treina seus vastos dons estilísticos usando filmes como pretextos), mas o fato é que este é o tipo da produção que rouba as palavras dos comentaristas. É um filme de imersão, uma piscina narrativa que lhe envolve tanto que você vai perdendo a capacidade perceptiva de analisar com distanciamento – e se é assim, é ótimo, ora. É o que mais você espera do clássico cinema contador de histórias em imagens que os americanos desenvolveram à exaustão. Em casos assim, dane-se o crítico: a fruição do espetáculo áudio-visual (e estamos falando de um filme bem pouco espetaculoso, com sua trama comum e seus personagens quase patéticos de tão normais) é muito superior às medidas da régua usada pelo analista. E ainda tem um quitute para a parte masculina da platéia: ou você não acha que aquela forma destrambelhada de George Clooney correr quando fica sabendo que foi traído pela mulher é um desfavor a esta parte da raça? Só perder para o andar trôpego e ridículo de Chico Buarque nas ruas do Rio que aparecem no primeiro daquela série de DVDs em que o músico e compositor brasileiro revê sua trajetória. Pois é: Clooney e Chico, dois dos maiores queridinhos da mulherada, precisam ter um defeito bem à vista, daqueles que nem desviando o olhar dá pra deixar de notar, pra compensar o resto da humanidade que veste calças (com o perdão da imagem no final da frase que, mesmo tendo perdido completamente o sentido desde 1968 em Paris, ainda quebra um galho se o caso é destituir os artistas em questão de um mínimo do fascínio que nossas mulheres insistem em lhes dedicar).

Esqueci alguma coisa? Falei sobre “O Protocolo Fantasma” que poderia se chamar “O Filme Fantasma”? Então é isso: mesmo carente de  cinema em tela grande, o fato é que, com a qualidade da projeção cada vez menos condizente com minha miopia quase cinquentona, ando preferindo ver os filmes em casa, no conforto e na definição do DVD-Blue Ray, do que no sufoco de filas e barulhos paralelos do cinema. E em casa pelos meus olhos passaram, tema para outras conversas, desde um velho e pessimista Elvis Presley (antecipando a onda revisionista dos filmes pró-indígenas americanos de meados dos anos 80), “Estrela de Fogo”, até a elegância anticomunista de “A Insustentável Leveza do Ser”, de que eu mal me lembrava. Voltando ao cinema propriamente dito e pra encerrar o papo, esqueci de dizer que no caso do “Tom Cruise Fantasma” ainda tiver que assistir tudo com dublagem de português, esse fenômeno Classe C que depõe contra a própria, mas isso é outra história.