domingo, 27 de abril de 2014
quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014
Sorvete de agonia
Na praia do noticiário, o sabor do verão de um ano tão esperado
2004, o ano
dos anos, da Copa das Copas, prometia muito pra começar tão mesquinho. Falta
tudo neste mais que abreviado final de verão. Falta água, e sem ela mais um par de andorinhas ao
menos, sabe-se, verão algum se faz. Faltam médicos, como em qualquer estação de
qualquer outro bem menos esperado ano. Situação que piora com o anúncio da
criação, burocracia empresarial à parte, da mui prestimosa agência turística
DEM Viagens, companhia que, embora tenha acabado de ser aberta por Ronald
Caiado, ex-médico, ex-parlamentar e agora travel agence com muito orgulho, não
para de embarcar centenas de médicos cubanos dissidentes das ditaduras dos
grotões brazucas rumo aos bem mais agradáveis labores de Miami.
Também, com
o pacote oferecido, não hay cubano que resista: a oferta cobre inscrição no
Mais Médicos (com total serviço de despachante), traslado entre o posto de
trabalho abandonado e o gabinete partidário mais conveniente, serviço de
assessoria de imprensa, horário reservado no Jornal Nacional, assistência
jurídica mais ou menos – a embaixada americana pode, no entender na DEM
Viagens, ofuscar o espetáculo com suas facilidades jurídicas quando se trata de
quem vira as costas aos irmãos Castro – e ainda, de quebra, meio como um plus,
um emprego temporário aqui mesmo no Brasil só enquanto os detalhes
administrativos são resolvidos. Coisa rápida. Dá pra dizer não, coração?
Em
compensação, o verão não está para peixe pros black blocs – o que, pra início
de conversa, é muito natural se a gente lembrar que, de saída, aquelas roupas
pretas e capotes não menos sombrios não combinam nem um pouco com o rigor do
calor tropical. Cool é ser terror man contra o sistema em terras climaticamente
ao menos temperadas, mas a rapaziada de burca voluntária sempre pode estourar
umas bombas em favor da nossa mudança rumo ao hemisfério norte. Pode ser que,
na tentativa, um cinegrafista incansável seja atingido por um rojão
desorientado, mas o que seria isso diante da hecatombe política representada
pela nossa transferência imediata, na base da birra infantil geológica, para a
parte superior do globo terrestre?
Falando
nisso, os Black blocs tanto fizeram que arranjaram um adversário superior ao
tíbio governo em vigor ou a qualquer outro partido ou linha política possível:
mexer com cinegrafistas e fotógrafos pode ser muito mais arriscado do que
cutucar, por exemplo, a atávica vocação violenta da polícia nativa. As lentes
da parte ora ferida de morte são muito mais audaciosas do que os vãos mas agora
redivivos coquetéis molotov de antanho, dependendo apenas da intensidade do embate. E, com a morte do
cinegrafista Santiago, parece que quando ambos os grupos se encontram – o que,
por dever de ofício dos cinegrafistas e fotógrafos; e por anseio de publicidade
dos black blocs, é algo tão freqüente quanto natural – o clima pesa como um
equipamento de transmissão ao vivo do tempo da tevê a válvula.
Tudo isso
debaixo de um calor de 40 graus em certas praças cariocas, com uma sensação
térmica de arroto solar, e imagine-se o que o futuro dirá desse verão de tão
aguardado ano. Com o acréscimo da falta de chuvas que assombra dez entre dez
reservatórios de água não do Nordeste acostumado a tais ausências, mas do
interior paulista onde a palavra racionamento deixa de ser um vocábulo
apropriado ao sotaque nordestino para ganhar a saxonicamente enrolada prosódia
local. E nem dá pra fugir de tudo isso comprando um pacote da DEM Viagens,
cujas promoções se limitam ao porte da nacionalidade cubana. Só chamando os black
blocs para implodir o rio Amazonas, criando um afluente incidental que despeje,
qual a interminável transposição do São Francisco, uns novos riachos entre
Sorocaba e Presidente Prudente. Mas, ao contrário das empreiteiras, os black
blocs nunca agem sob estímulo financeiro: o jeito é convencê-los de que uma
multidão de índios ameaça fritar e comer Edward Snowden misturado com farinha
feita de papéis altamente sigilosos às margens da ilha de Marajó. O efeito das
bombas certamente se fará sentir na irrigação dos últimos vales de São Borja –
e, sendo assim, todos darão adeus ao racionamento. Todos, menos os nordestinos, claro.
sexta-feira, 17 de janeiro de 2014
Dira from cinema
Enquanto estava todo mundo de olho na sereia, a quarentona chegou e nhac! Quando "Amores roubados" entrou no ar, foi Dira Paes - e não Ísis Valverde - quem entrou em órbita. Ascendente. O que é uma tremenda injustiça: não com a Valverde, mas com a Paes mesmo. O espanto e o encantamento da marmanjada com Dira Paes nos primeiros dias de exibição da série são tão naturais quanto sintomáticos: o brasileiro médio ou não vê mais filmes - brasileiros, pelo menos - ou tem uma memória desse tamanhinho. Porque faz tempo que a Dira fogosa e exuberante - espetacular, numa palavra - que estamos vendo na televisão faz moradia no cinema.
Mas quem danado vai admitir que saiu de casa para assistir a "Ó, Paí, Ó", filme de Monique Gardenberg com total tempero baiano onde Dira faz e acontece como uma brasileira que se jacta de viver entre Salvador e Europa? Ali ela está jorgiamadiana como soa nos melhores momentos, uma nova Gabriela contemporânea, entre blocos afro e mocós do Pelourinho. Em "Celeste e Estrela", Dira é a personagem-título de um dos melhores - porque simples, cotidiano e pouco afetado - filmes feitos sobre a vida em Brasília. Aqui ela é uma maluquete que deseja ser atriz, cineasta, roteirista, ecologista e mais uma lista infindável de ocupações quanto mais cool melhor. Pior para o Estrela do título, um rapaz gordinho que ela docemente faz de refém de sua sedutora, embora fútil, pessoa. Na sessão das Diras mais tentadoras tem a bem resolvida personagem de "À beira do caminho", um cheiro vívido de mulher sempre presente na vida de um caminhoneiro destroçado pelo destino.
Existe também a Dira bem comportada, mas nos padrões Dira Paes, que se entenda bem. É assim numa pontinha que ela transforma em saborosa participação em "Meu tio matou um cara", de Jorge Furtado. E aquela mãe de família absolutamente goianizada de "Dois filhos de Francisco", de Breno Silveira? Agora, se o caso é radicalizar, então é preciso recorrer a outro cineasta que sempre conta nos seus filmes com uma Dira barra-pesada, de deixar essa dos "Amores roubados" comendo poeira no estradão. É Cláudio Assis e quem, ao contrário dos jornalistas neófitos que redigem (!) os portais de notícias da internet, costuma ver filmes em escala vai saber os títulos de cor: "Amarelo manga", onde, salvo engano, ela faz uma evangélica às voltas com o diabo no corpo (e se não for isso, não será nada de menor voltagem, podem estar certos); e "Baixio das bestas", que não dá nem pra recomendar: ultrarrealista no retrato sombrio que faz do mesmo sertão de "Amores roubados", o filme maltrata demais a nossa nova garota brasileira - que, está provado, não precisa ser sempre de Ipanema, podendo muito bem ser amazônica, mineira ou nordestina. Dira, por sinal, veio do Pará. E desde sempre está muito além da Solineuza, personagem televisivo que é o máximo que a memória coletiva em tempos de rede social é capaz de alcançar
Ligue a TV
Acaba hoje, em (mais) tragédia ou (menos) compaixão a série "Amores roubados", que o roteirista George Moura adaptou da lenda urbana de Recife registrada originalmente por Carneiro Vilela e agora recriada esplendidamente em tratamento pop-grego-nordestino pelo estilo a esta altura já característico de José Luiz Villamarim. Quem viu fica com a impressão de que programas de TV como esses - e o "Canto da Sereia" do ano passado - trazem para a televisão brasileira atual respingos de marcos teatrais do Brasil do passado recente, como a "Gota d´água" que Chico e Ruy Guerra transpuseram das profundezas trágicas da Grécia clássica para a violência crônica já vigente nos morros cariocas dos anos 70. É uma enchente de dramaturgia cortante num veículo que, em programação aberta, naturalmente tende mais ao descartável indolor.
Mas "Amores roubados" atualiza outros elementos. Temos aqui - embora o capítulo final possa nos contrariar - dois coronéis globalizados que, traídos pelas respectivas esposas, sinal dos tempos, não resolvem o problema descarregando as espingardas nas madames. A honra ainda é lavada com sangue, mas o sangue do pé de lã. Porque os neocoronéis das vinículas do sertão continuam brutos - embora muito mais bem vestidos - mas ainda amam. Ou, melhor dizendo, agora amam. A sensibilidade, o afeto, o apego à maneira deles se impõe como um elemento civilizador, agrega-se ao jantar bem posto, ao vinho bem escolhido, ao corte de cabelo estudado. Ou talvez não seja nada disso - apenas não fica bem para um pós-coronel que exporta de Juazeiro para as europas sair matando a mulher só porque ela deu uma pulada de muro tão comum de Berlim a Tóquio. A série, de qualquer maneira, registra uma mudança - e comprova que não está retratando o sertão modernizado apenas por incluir modelos de carros tão caros em cenas rodadas nas estradas mais arcaicas do interior do Nordeste. Reações, sentimentos e posturas também mudam, nos dizem os autores.
Se o telespectador reparar bem, o verdadeiro vilão da série está bem disfarçado na sua condição de sedutor contumaz: é o próprio Leandro Dantas, exterminador sentimental que faz miséria nos corpos e corações femininos que encontra pela frente, pela simples satisfação de exercitar, para além do prazer das camas, o jogo da conquista. Ele mesmo define isso muito claramente numa cena, quando explica ao escada Fortunato que esse é o jogo: seduzir ou ser seduzido. Villamarim usou na série o xote "Romance da lua, lua", antigo e já clássico sucesso da vertente nordestina da MPB dos anos 80 cantado por Amelinha. Poderia, com o bom gosto que tem para sonorizar sua dramaturgia, ter usado um outro clássico, de Zé Ramalho, "Kamikaze", que bem define em ritmo, palavras e sugestões o Leandro Dantas de Kauã Raymond: "Um cavalheiro, nunca um cowboy / um verdadeiro kamikaze / um avião destruidor de lares / um passeio pelos ares / um megaton de poucas esperanças / bombas e lembranças / e quando eu de lá voltar / não sei se poderei ficar / ali onde deixei você / deixando tudo pra viver".
Entre nós, potiguares, há um motivo à parte para acompanhar a série e ele se chama César Ferrário, que a exemplo de Titina Medeiros em 2012 nos inflou mais uma vez o orgulho ao se apresentar como Bigode de Arame. Um capanga tão globalizado quanto seus chefes, que por fora se enfeita com capacetes militares e óculos sessentistas, numa composição neotropicalista que, embora vista sua figura com as batas rotas que a contracultura deixou nos brechós, por dentro é o mais legítimo guardião da trágica tradição: para Bigode, a solução é sempre matar. À sua maneira, César fez um Antônio das Mortes transposto para certa bossalidade dos dias atuais: um matador (de cangaceiros sexuais?) que tropeça na própria sombra, atrapalhado como um Didi Mocó sem noção da própria defasagem histórica, um espelho quebrado, colorido e reluzente do que um dia foram as sombras da violência atávica dos grandes sertões: o assassino de aluguel. E no meio de tudo isso ainda tivemos Dira Paes, mas ela merece um papo à parte.
quinta-feira, 9 de janeiro de 2014
Devagar com 2014
Meu 2014 começou em 1958. Não voltei a uma era passada na esperança de fugir de um dos mais aguardados anos dos últimos tempos. Foi 1958 que veio até a minha pessoa, personificado com charme, beleza, dramaticidade, precisão e elegância na figura de um clássico absoluto. Para minha sorte - e de mais alguns felizardos de outras capitais brasileiras onde tal manifestação se repita, e tomara que sejam muitas - uma sala de cinema de Brasília está exibindo uma reprise (inclusive mui curiosa, mas isso explico mais tarde) do inigualável "Vertigo", o nosso "Um corpo que cai", suprassumo do suspense de bom gosto do velhote Alfredão. Já disse em outras redes e repito: não haveria melhor presente de aniversário antecipado que eu pudesse ganhar. Que Copa, que nada! Eleições?, bah! Não gosto de futebol, política às vezes pode dar coceira: o grande barato deste 2014 mal saído das fraldas pode acabar sendo este singelo marco inicial, de uma reprise no cinema, sala escura, tela grande, imersão total, de um Hitchcock da mais excelente extração.
É claro que, como tanta gente, eu já cansei de ver e rever este filme em VHS, DVD e até nas finadas sessões clássicas das antigas noites de domingo da era da exclusividade da TV aberta. Mas ver "Um corpo que cai" no cinema, convenhamos, não é algo para qualquer dia. O máximo que lembro em termos de comparação ocorreu em 1984, quando quatro filmes do mestre do suspense - título pequeno, porque existe ali um mestra da beleza narrativa e pictórica que vai muito além dos sustos - voltaram a ser exibidos nos cinemas. Foi essa mostra por sinal que estabeleceu entre nosotros certo culto diante de "Janela indiscreta" (e "Psicose", informo só por curiosidade, não fazia parte deste pacote). Não vi nenhum na época e nem consigo recordar por quais motivos. Mais recentemente, acho que por ocasião do aniversário redondo de um desses grandes estúdios americanos, voltaram alguns filmes em reprise - lembro de "Bonnie and Clyde" que, acho, revi sim no prazer do cinema como ele deve ser.
A reprise em cartaz em Brasília no Itaú CasaPark (sessões às 21h30, numa sala só) tem como curiosidade contrastante as legendas em português de Portugal: é motivo para um travo de riso no meio da dramática - mais do que suspense, vi-me tomado pelo drama ao assistir ao filme na tela grande - história. Você está prestando atenção na forma como Hitch consegue envolver a nós do lado de cá da tela ao mesmo tempo em que enrola seu protagonista (que "cai" também metaforicamente ao engolir uma história montada para sugerir ser o que não é) enquanto se molha numa chuva de próclises, ênclises e até mesóclises graças à tradução portuga. Pior mesmo é quando James Stewart obriga Kim Novak a experimentar um "fato" contra a própria vontade. Não sabe o que é um "fato", gajo? Direto pro google lusitado, então.
Mas isso são distrações: para além da fotografia que parece fazer de cada imagem que se vê na tela uma construção clássica impregnada no painel do nosso imaginário - Kim Novak diante da Golden Gate, o cabelo louro combinando com o vermelho da estrutura da ponte é um desses cartões postais cinematográficos de vida eterna - temos Hitch usando sua arma primordial: o poder da narrativa. Tudo em "Um corpo que cai" remete à vulnerabilidade distraída que o ser humano costuma apresentar diante de uma boa história. É um filme que, suspense à parte, mostra como é possível, usando apenas uma intrigante, sugestiva e marcante narrativa levar um nosso semelhante a fazer as maiores barbaridades - ou a cometer as mais vergonhosas mancadas. É disso que se trata: o poder de uma história, a capacidade de envolvimento de um determinado clima audiovisual, o alcance de uma composição feita com a junção convincente de várias peças soltas quando postas para funcionar em conjunto.
E tudo isso captado, editado e formatado em 1958, com direito às ruas de São Francisco em textura de postal antigo, com seus carros, prédios, ladeiras em cores aquereladas. Por isso, amigos, recomendo, indico, apelo: deixem 2014 em paz por enquanto e sigam direto para 1958.
quarta-feira, 18 de dezembro de 2013
Maratona Orlando
Não
posso contar tudo porque não dá pra contar tudo. Também não tem como
enfeixar todas as impressões dispersas em uma frase, sentença ou
avaliação restrita e inteligente. Não se trata de responder na lata com
aquela opinião matadora quando alguém pergunta, tão na lata quanto: - E
aí, como é que foi... Não é questão de falta de domínio da linguagem, de
escassez de opinião ou de ausência de objetividade: é que, sendo uma
pessoa do tipo tão vulnerável aos estímulos visuais, não consigo mesmo
encaixotar em períodos verbais a intensidade daqueles a que fui exposto
junto com Rejane, Cecília e Bernardo durante uma viagem de férias de
seis dias em Orlando, EUA, a cidade famosa pelo complexo de parques
temáticos da Disney e dos estúdios Universal. Tudo o que posso fazer
aqui é salpicar gotas dispersas de sensações, cacos de encantamento mais
do q
ue naturais para quem passou a infância consumindo histórias em
quadrinhos e similares, perdigotos descontrolados que o também natural
deslumbramento faz chover da mente ainda congestionada.
Só
não me peçam distanciamento, contenção, pé atrás ou qualquer outra
postura que implique em uma abordagem meio blasé diante do que vi, ouvi,
senti. Dá não, coração: desde a mais tenra idade, quando deixava minha
aldeia de 14 mil habitantes no Seridó potiguar para visitar a
metropolitana Caicó, minha cabeça virava. Imagine quando ia a Campina
Grande! O gigantismo urbano é
algo que sempre me atraiu, e se você pretende entender melhor como é que
isso se dá na cabeça de uma criança, experimente ler uma HQ do Homem
Aranha, qualquer uma, prestando atenção nas cenas que se passam no
ruge-ruge da cidade: eram aqueles prédios, aquele povo na rua, aquele
agitação incessante que me fascinavam. E os parques da Disney e da
Universal – sobretudo o Adventure Land, na Universal, na parte dedicada
aos heróis Marvel - condensa, empacota, sintetiza tudo isso e coloca você lá dentro, bem
no meio das fachadas traçadas a lápis, da explosão de cores em forma de
minicidade, enquanto o visitante se desvia das motos em que os
super-heróis transitam de tempos e tempos. Sem falar no brinquedo 4D do
Spider Man, aquela visita ao paraíso que me vi fazendo três vezes. Ainda
bem que não tinha fila.
Falando
em filas, desconfie delas. Ou melhor, não acredite tanto assim naquelas
placas que indicam quanto tempo você vai levar para chegar à atração
principal. Às vezes está lá 30 minutos, mas é entrar na fila e você
percebe que, como diz o ditado, a fila anda, e anda rápido – e algumas
vezes há atrações pra lhe distrair enquanto você está na fila. E o que é
melhor, às vezes a atração da fila consegue até superar a atração
principal, ao menos pra mim. Foi o caso do brinquedo chamado, salvo
engano, A Grande Corrida do Cinema: a promessa, cumprida, é de que você
vai, dentro do seu trenzinho, transitar por alguns dos maiores clássicos
dessa arte americana. De fato, um gangster à James Cagney vai
seqüestrar o carrinho em que você passeia, um tiroteio vai lhe
pegar no meio do caminho, Alien, o oitavo pass
ageiro, vai borrifar sua cabeça com aquele bafo que só ele tem, e a
bruxa de O Mágico de Oz vai lhe jogar imprecações antes de permitir que a
viagem continue. Ocorre que, antes de passar por tudo isso, você vai
esperar na fila que dá voltas numa simulação de uma sala de cinema onde
todos esses filmes e mais outros são projetados numa tela de tamanho
real, lhe dando a chance de ver trechos dessas produções que há muito
não se consegue ver numa sala escura de verdade. O passeio é ótimo, mas
ainda acho que a projeção – e no final do passeio você vai ver mais um
pouco – não tem preço.
Orlando,
a cidade em si, acabou ajudando meu coração provinciano a entender
Brasília um pouco melhor: é uma cidade absolutamente plana,
esquadrinhada por ruas que mais parecem auto-estradas. Entendi melhor o
choque que tanta gente experimenta ao conhecer Brasília. Orlando é
Brasília elevada ao cubo. Ninguém nas ruas. Ninguém. Calçadas, quando
existem, são iguais às de Brasília – aquela trilha de cimento estreita
entre faixas de grama. Aí você entra num out-let, num shopping ou mesmo
numa daquelas gigantes lojas “de rua” (como a livraria do tamanho de uma
loja de material de construção brasileira) e descobre onde as pessoas
se escondem. Só não conseguimos mesmo foi entender onde as pessoas
moram. É, moram. Porque tudo o que vimos, numa cidade que além de plana é
de prédios predominantemente baixos, com uma ou outra torre
sobressaindo, foram ins
talações comerciais. Claro que não podemos dizer que “conhecemos”
Orlando: os lugares por onde passamos, presumo, é que são assim. Deve
haver uma cidade mais normal além do horizonte imediato, mas este não
vimos.
E
se dá pra fazer alguma tentativa de ser objetivo, arrisco dizer que o
que mais me chamou atenção nas pessoas – nas quais também reparei, em
busca daqueles pontos em comum que nos faz a mesma humanidade embora
dispersa por países tão diferentes – foi um certo espírito assertivo. A
assertividade americana, se posso dizer assim. Eles podem até não ser,
mas parecem muito assertivos em tudo o que fazem: desde o negão que me
ajudou a embarcar na conexão Miami-Orlando, explicando com firmeza,
atenção e educação três vezes para que eu tivesse cuidado quando fosse
retirar uma bolsa do bagageiro superior do avião, até a garota que, numa
loja massa de quadrinhos em que infelizmente não pude me demorar, saiu
do caixa – do caixa – para me explicar onde ficava uma loja de
brinquedos que procurávamos para Bernardo. Atenciosos, educados,
sorridentes, relaxad
os (mas atentos ao trabalho, fosse ele qual fosse) e, numa palavra,
assertivos: foi assim que os norte-americanos de Orlando me pareceram.
Se alguém de coração menos provinciano do que o meu me disser que isso é
porque se trata de uma cidade turística, vou entender perfeitamente.
Mas por favor não me negue o prazer do deslumbramento, porque ele pode
ser muito valioso num tempo em que desfazer de tudo e de todos no
Facebook parecer ser a máxima sensação de prazer que alguém pode
experimentar. Fico – e feliz – com o provincianismo, que me faz manter
nos olhos um encantamento a ser despertado cada vez que vejo algo que
sendo diferente é também bonito, interessante e estimulante. E a
assertividade, aqui como lá, pode ser tudo: quem disse que o negão do
bagageiro tinha a obrigação de sair do canto dele e dar tanta atenção a
um passageiro desconhecido... idem para a garota do caixa.
Voltei
com a impressão de que com assertividade a gente tanto pode atender bem
um turista – a Copa vem aí, faça sua parte – quando construir um país.
Dá trabalho, leva tempo, exige esforço e paciência (outra característica
que vi muito entre os nativos gringos) mas acaba acontecendo. Se eles
têm defeitos – um monte, e a manchete dos jornais e telejornais nos dias
em que estivemos lá foi mais um daqueles massacres malucos em escolas –
têm também qualidades como a assertividade. E, em viagem, desculpe aí
mas tenho que defender meu ponto de vista, prefiro reparar mais nas
qualidades do que nos defeitos. Na vida, em geral, também. Talvez seja
isso o que esteja mais em falta entre nós, brasileiros.
terça-feira, 26 de novembro de 2013
Ê, Goyaz!
O cenário em
volta é de filme de época, meio novela das seis meio conto de Tolstoi. Um ar
metade Escrava Isaura, metade Crime e Castigo. Bruma, luar e silêncio.
Continentais pedras no chão e uma torre gótica no alto. Luz amarela, que vem de
postes fantasiados de lampião. É possível ouvir o canto mais pra melódico do
que para rítmico dos saltos das sandálias das moças tocando o chão no que
descem a ladeira. Onze da noite, os vultos – não fantasmagóricos, mas animados –
começam a surgir e se solidificar em pequenos grupos na dança dessa descida. O
destino é a Igreja do Rosário, que apesar do nome tipicamente
colonial-brasileiro tem a aparência de uma Notre Dame tropicalizada tanto
quanto possível no coração do Goyaz. E aqui se clarifica o completo da locação:
estamos na Cidade de Goiás, ou Goiás Velho como eles não gostam de ser chamados
– apesar do apelo poético deste outro nome; mas vai ver os habitantes já vivem
saturados de poesia apenas pelo fato de residir nesta cidade mágica. Aqui, o acontecimento
da noite é uma serenata.
Goyaz, a
cidade, por estes dias e estas noites ganhou uma camada humana a mais entre
seus becos e casario que parece desenhado a lápis de tão bonito – e no entanto
se trata de um lugar habitado como qualquer outro, o que prova que a poesia não
é nenhum delírio; embora felizmente o seja mas essa é outra questão. Os
habitantes a mais de que se fala são os coralistas, palavra que nem sei se existe
mas que aqui casa muito bem com a mais célebre figura da cidade, a poeta Cora
Coralina – aquela que ensinou a sábia arte de viver enquanto entre nós esteve,
ao misturar panelões de doces com o exercício da poesia, depois de retornar ao
casarão onde nasceu uma vez tendo feito
crescer os filhos de outra etapa da vida que soube tão graciosamente
encerrar para recomeçar à sua maneira. Os coralistas, pois então, casam com
Cora e dão um retoque no fim de semana de uma Goyaz que realiza assim como um
informal encontro de grupos corais.
Você está
descendo malemolente a ladeira da Igreja do Rosário e é meio que elevado do
chão pelo misterioso canto que vem não se sabe bem de onde. São os coralistas
na igreja, cantando um repertório de clássica MPB radiofônica. No dia seguinte, tarde-noite de sábado, eles
estarão na praça, espantando com suas vozes o insuportável – e absolutamente
alienígena – barulho repetitivo e poluído que vem de alto falantes cuspidores
de funks feios, sujos, grosseiros e impacientes. Sim, Goyaz, apesar de a visão
de 360 graus em torno sugerir tanta história e tamanha carga de sensibilidade
urbana, também tem seus defeitos. Nada que um coral não possa interromper uma
vez ou outra.
Antes de
retornar à serenata improvisada que saiu qual cortejo levando música às janelas
da cidade, é preciso lembrar que Goyaz é aquele tipo de lugar onde tudo parece
muito parado, nenhuma surpresa à vista além da placidez decorrente da
contemplação de suas casas, museus e monumentos, inclusive os naturais, como a
cadeia de montanhas da Serra Dourada que tudo cerca como se desejasse conter
entre muros verdes essa poesia emanada no local. Mas não é bem isso, como provam seus
restaurantes mineiramente escondidos no meio do casario, sem maiores placas,
apelos e gritos gráficos. É preciso andar em Goyaz, calmamente como um de seus
doces velhinhos caipiras, para farejar seus perfumes bem guardados.
E é aí que a
surpresa pode tocar no ombro: aguardando um pouco o apetite chegar para um
jantar, sentamos num banquinho em frente ao terminal turístico quando um cartaz
colado na fachada do cine-teatro ali em frente nos chama a atenção. Pessoas
começam a chegar, recebem um folheto da recepcionista postada no local e entram
para assistir a alguma coisa. A curiosidade nos moveu do banco e fomos lá: era
uma apresentação de um grupo de dança de Goiânia, show gratuito, teatro lotado,
um pequeno acontecimento artístico feito sem alarde, uma hora de sensibilidade
pura que não precisa constar dos roteiros turísticos. Algo que é feito
primeiramente para o morador da cidade de Goiás. Nós, visitantes, temos mais é
que pedir licença se quisermos assistir também.
Um
espetáculo sobre a trajetória do rock and roll em Goiânia – Yes, man – com uma
dança contemporânea coalhada de efeitos cênicos e turbinada por sombras típicas
da estética dos anos 80. Belo show, ainda mais porque em determinado número o
som falhou – e a companhia de dança continuou como se nada tivesse acontecido. Profissionalismo
anhanguera. Persistência bandeirante, índios escravizados à parte. Torrente de
aplausos no final. Ainda com o som pifado, um número solo de uma bailarina que
logo perde a condição solitária, uma vez que o público não demora a cantar para
fazê-la continuar dançando a letra mais que conhecida da balada “Pais e Filhos”,
clássico da Legião Urbana. Somente no próximo número o som retorna, encerrando
uma noite de alguma transcendência, que é como se pode qualificar essas coisas
que não estão previstas mas, uma vez acontecendo, derrubam muralhas da parte
cronicamente apática do nosso ser.
Faltava
conferir a serenata, esta sim prevista, de hora marcada, mas de detalhes
incertos, como que para manter o espírito vivo da poesia que sai melhor quando
se improvisa, livre de normas rituais. Aquelas sombras da noite que se
solidificavam em grupos foram aumentando, enchendo o pátio da fachada da Igreja
do Rosário. Uns violões, do tipo que não dava para saber mesmo quantos eram e
onde estavam: bastava que fosse como eram, uma espécie de rede de notas sobre
as quais aquelas dezenas de pessoas vindas de várias direções poderiam pular
qual criança, usando a voz, a noite, a potência do luar e o cenário em volta
como propulsores de uma emoção musical capaz de anular a gravidade da rotina.
A certa
altura, qual procissão religiosa de que Goyaz é também notória – o cortejo dos
encapuzados na Semana Santa é o marco número um do município – começamos a
caminhada, calma, lenta, musicada por velhas canções de um Brasil quase tão antigo
quando as paredes em volta. Sempre que se encontra uma janela aberta com um
morador à espreita, dá-se o presente de incalculável valor que é parar e cantar
só para ele – ou eles, caso frequente em que uma família aguardava o momento de
ser homenageada com tal exercício de
doação. Palmas, agradecimentos, e
novamente o grupo se desloca, devagar, como que saboreando o gostinho de pisar
em cada pedra, gravar em cada porta a nota de uma voz, o carimbo sertanejo de
um canto. Ê, Goyaz!
quinta-feira, 14 de novembro de 2013
Águas profundas
Em cinema, literatura, às vezes até na música - quando se trata de um tipo de canção de natureza mais narrativa - existe uma pré-condição, um condicionamento prévio sem o qual nada se sustenta. É bem conhecido e chama-se "suspensão da descrença". Graça a esse instrumento narrativo - espécie de pacto não formalizado entre o autor e seu público, seja qual for o meio empregado - acreditamos, ou fingimos acreditar sem prejuízo para os fatos narrados, nos maiores absurdos. O Superman com oito anos suspendendo um carro apenas com uma mão. Cientistas com jeitão de super-heróis construindo uma geringonça gigante capaz de evitar que um meteoro ainda mais hiperbólico destrua a Terra. Dona Flor tendo que dar conta do maridão certinho que acabou de chegar da farmácia e ao mesmo tempo do fantasma do finado marido anterior que se foi desta para melhor mas não esqueceu do prazer de certos momentos. João Grilo e Chicó enganando uma cidade inteira com as lorotas mais improváveis apenas para conseguir matar a fome de cada dia.
Como diz o nome daquele festival de filmes, é tudo verdade. A gente acredita em tudo: basta que o capítulo inicial do livro, ou as primeiras sequencias do filmes ativem aquela maquininha de condicionamento mental que a gente carrega na mente como se fora um projetor paralelo no escurinho das possibilidades - a tal "suspensão da descrença". Foi isso o que não aconteceu comigo durante a primeira meia hora deste celebrado "Capitão Phillips": o mecanismo da suspensão da descrença, habitualmente tão capaz de nos fazer passar por cima de impossibilidades reais para embarcar na oportunidade de acompanhar uma boa história travou legal, como diria um garoto, bem no início do filme, exatamente naquele ponto onde ele tinha, precisava funcionar.
Passei o resto do filme incomodado com um elemento narrativo que me pareceu improvável: como é que os americanos, esse povo tão fascinado pelo uso de armas de fogo, não carrega nem uma dessas espingardas de bala de borracha que a PM brazuca usa e abusa nos tais protestos de rua, ao realizar a travessia marítima por uma região tão perigosa? Eu, na minha sacrossanta ignorância - a quem não canso de prestar minhas homenagens, pois dela advém, além de certa humildade muito providencial, também o entusiasmo quando sou apresentado a alguma novidade - não sabia que a marinha mercante não usa armas de fogo. Tudo bem: não precisa ser um navio militarizado pela ótica do mundo pós-Bush-Iraque, mas nem uma armazinha assim pra efeito de qualquer coisa acontecer? Nem alguma coisinha simples, tipo o bacamarte do Urtigão? Tenho que pedir ao amigo Carlos de Souza pra perguntar ao pai dele, que passou a vida navegando na marinha mercante, se é assim mesmo.
Porque aqui não se trata apenas de um caso em que a suspensão da descrença não funcionou - para mim, só posso falar por mim, porque o que mais vejo, leio e ouço é o pessoal empolgado com o filme. Aqui o que temos é um troço mais maluco ainda: um caso de suspensão da descrença que não funciona num filme... inspirado em fatos reais, de amplo conhecimento público, com os protagonistas de fato dando milhares de entrevistas no embalo do lançamento do filme. Então, em princípio, eu não teria mesmo do que duvidar - o pessoal todo daquele barcão, tripulado por vinte homens bem alimentados ou parrudos de chope, que seja, não conseguiu mesmo dar conta de quatro magricelas famélicos e expoliados da mais clássica África envolva em guerras, tráfico e banditismo. E armas, nem pensar... Sabe qual é o problema? A danada da suspensão da descrença não quer saber se o filme vem de fatos reais ou não: ela precisa existir na condição de gatilho narrativo sem o qual a história não consegue ser disparada. A questão é menos o fundo verídico do fato do que a superfície narrativa sobre o qual ele é distribuído em forma de cenas, diálogos e situações.
Talvez tenha faltado uma cena - uma daquelas cenas que os roteiristas detestam ter que escrever - com uma explicação minimamente didática sobre o fato de a marinha mercante não querer papo com armas, nem preventivamente. Tudo bem que a possibilidade de um tripulante dar cabo de um pirata usando uma arma ancestral - os próprios braços - ainda assim ficaria no ar, mas já seria um alento. A oposição entre o navio gigantesco e a canoa raquítica pode e é sim pungente do ponto de vista da mensagem visual, mas a construção do caso - precisamente a arquitetura da suspensão da descrença - precisa passar por águas bem mais profundas do que a rasa navegação entre as bacias das metáforas.
quarta-feira, 30 de outubro de 2013
Nem ouro nem prata
Diante da ambição que é o fenômeno Serra Pelada, a gente que aprecia o cinema de Heitor Dhalia entra no cinema com uma expectativa no olhar e uma dúvida na cabeça: que filme veremos? Alguma coisa com a pronúncia visual que é tão própria do cineasta - ia dizer "cineasta pernambucano", mas a folha corrida que ele vem construindo não permite este tipo de classificação que a outros, sem demérito, constitui uma legitimidade - ou algo que, sendo mais ambicioso, poda aqui e ali sua verve tão particular?
Na primeira cena, "Serra Pelada", o filme, deixa o público cativo de Dhalia animado com a chance de a primeira opção vencer. O super-close de Juliano Cazarré sendo inquirido por um policial dá o tom de dramaticidade quase gráfica que é tão particular do cineasta de "O Cheiro do Ralo". Mas o filme prossegue e, depois de uma muito bem montada sequencia de abertura em que o próprio nome da produção serve de veículo para situar quem nasceu depois de 1990, vai-se o Heitor Dhalia do enxuto, milimétrico e sensível "À Deriva". Fica, na tela, um bom filme, sim - aquele tipo de filme que tem tudo pra cair nas graças do público brasileiro, ao remeter a um certo cinema brasileiro dos anos 70, quando o tema de preferência era o drama policial, o tratamento passava necessariamente por um molho de sensualidade morena e a linguagem atingia em cheio tanto a garotada zona sul quanto o ancião de subúrbio; e do interior do país quando lá chegavam as últimas e desgastadas cópias. Com os bônus que bons filmes têm obrigação de oferecer: neste caso, é bonito ver uma atriz televisiva como Sophie Charlotte se esforçando para ir além do padrão que o video oferece ao país, assim como é impressionante constatar como, em pouquíssimas cenas, o gênio habitual Wagner Moura é capaz de arrebatar a mais burocrática plateia.
No final das contas, "Serra Pelada" é como uma mistura, batida na medida para conscientizar e entreter, de duas referências recentes do cinema brasileiro - ambas, não por acaso, também fortemente calcadas naquilo que enchia salas nos anos 70: pense em "Cidade de Deus" misturado com o primeiro "Tropa de Elite". De ambos, "Serra Pelada" utiliza a abordagem semidocumental e uma coloração tecno-realista que o selo da produtora de Fernando Meirelles jamais deixa de exercitar. Imagine então aqueles dois filmes - embora o segundo não pertença à O2 - embebidos numa calda mínima de introspecção desenhada em imagens, que tem sido o forte de Heitor Dhalia, e você chegará bem perto. Fica claro que é muito elemento para um filme só: perde o Dhalia que fareja a intimidade (como vimos em "À Deriva"), que namora a excentricidade (como mostra "O Cheiro do Ralo") ou que investe no que as sombras têm de poesia (conforme o nem sempre lembrado "Nina").
Claro que o diretor tem todo o direito de frequentar outras praias com suas câmeras e sua forma de contar históricas e extrair emoção da arte cinematográfica. "Serra Pelada" segue tal caminho, jogando um especialista do minimalismo nos barrancos de um grande painel social de um dramático momento brasileiro. Mas quando o filme termina, fica a impressão de que ele é bom mesmo é na arte de lapidar pepitas raras, daquelas que passariam imperceptíveis nas mãos de garimpeiros de imagens menos atentos como esses que hoje, ontem, sempre, enchem os cinemas do país. Ou, o que é bem pior, fazem os tão mal afamados filmes nacionais.
domingo, 13 de outubro de 2013
Canção do absoluto
Na poça de chuva da noite anterior,
Cecília bate o pé em brincadeira ritmada:
-Tudo, nada, tudo, nada
Tudo, nada, tudo, nada
Cecília, onde você aprendeu isso?
Na casa de Solange
(nossa empregada)
2008*
A passagem de ano
foi tenebrosamente rara.
Choveram pedras goianas,
seixos de estrada velha
sobre os telhados na aguada.
Relâmpagos perfilizaram as serras
como refletores pré-programados
para um temporal espetáculo.
Por fim, qual champanhe final,
faltou luz - e a verdadeira
eletricidade se fez em
blecaute natural.
Receita para começar
o ano
no mais fértil nada.
*Fazenda Manduzazan, Cidade de Goiás, feriadão de fim de ano. Se fosse na passagem de 2009 para 2010 seria absolutamente premonitório do ano difícil que tivemos. Mas 2009 foi beleza, a calmaria antes da tempestade que, felizmente, também ficou para trás.
Bioderrapadas
Acabei de ler o artigo semanal de Caetano Veloso no Globo e não entendi
nada: quer dizer que biografia não autorizada de Sarney pode - mas de
Gloria Perez não? Um é ser humano e pode sair machucado e o outro não?
Isso parece fala do velho George Bush: quem não for meu amigo é o diabo e
pode ser destruído sem mais nem menos. Não tenho tido muita paciência
para essa discussão sobre biografias-liberdades-privacidad es-direitos
(porque quando a história explode demais na rede social causa uma
sensação de mídia saturada que mela tudo), mas esse reducionismo não me
parece digno do artista Caetano. Talvez tenha a ver com o empreendedor
Caetano, que também existe - e tem todo o direito de existir, que fique
claro - mas sem que uma coisa comprometa de tal maneira a outra. Ficou
confuso? Vai lá no Globo virtual e lê o artigo: garanto que não vai
ficar mais claro do que isso. Gostaria de saber a opinião sobre tudo
isso de um cara como Tom Zé, o último tropicalista não pragmático, se é
que ainda o é.
sexta-feira, 4 de outubro de 2013
Fala sério, Marina Silva
Acabo
de conferir aqui num portal da rede (com r minúsculo) que é aquilo
mesmo de que desconfiava no post anterior: Marina Silva deu uma
entrevista hoje para dizer que dirá em outra entrevista amanhã se vai ou
não disputar a Presidência da República. Jornalistas têm cometido
muitas gafes, pra não dizer idiotices puras e simples, nos últimos
meses, e estrelado involuntariamente o
ranking do "pior das redes sociais", quase sempre merecidamente. Mas
hoje, li agora há pouco num portal, depois de Marina dizer que que só
vai decidir amanhã, uma jornalista não identificada soltou um sonoro
"fala sério". Pois eu acho que essa jornalista externou, de supetão,
quase sem querer de tão natural, o que vai pela mente de grande parte
dos brasileiros diante do comunicado de Marina.
A imprensa brasileira, que de uns tempos pra cá pegou a feia mania de dizer que fala em nome do país (me exclua fora dessa, por favor) com suas manchetes tipo sermão de padre formado nos seminários do Instituto Millênio, bem que poderia dar destaque à expressão da jornalista. Não só dar destaque: aderir, tomar como sua esse sintomático "fala sério", estampá-lo em manchete e enfiar goela abaixo dos leitores e assinantes (por uma dessas cancelei dias atrás minha assinatura do Correio Braziliense, mas esse é outro papo). "Fala sério" é o mínimo que se pode dizer diante deste cozinha-galo de Marina, que, eu acho, está começando a brincar com aqueles quase 20% de votos que obteve há pouco menos de quatro anos.
Mas, por outro lado, estamos no terreno da política, onde até o mais sonhático dos militantes não tem como abrir mão de táticas: só posso acreditar que amanhã, sabadão, Marina Silva vai descer do salto com que seu círculo de assessores a calçou e anunciar, na antepenúltima hora, em lance sensacional e emocionante, já por si mesmo carregado de um arrebatamento que se traduz em votos e novas adesões que, sim, vai sair candidata pelo PPS, PTB, Solidariedade, Contrariedade, Pros ou Contras, não importa. O suspense, a demora, o bico-doce de quem se faz de difícil teria sido apenas para confeitar na medida certa o bolo do tão esperado anúncio - que, claro, já faria o efeito de angariar simpatias e votos. Meios alternativos de fazer o mesmo que a "velha" política que a candidata soberbamente diz que veio para eliminar. Tudo legítimo, se não contrariasse a construção do próprio discurso que ela mais e mais vezes faz questão de declamar. Se não for assim, a insondabilidade do pensamento e da estratégia política da candidata a coloca a distância suficiente de ser compreendida por qualquer eleitor, seja ou não seu simpatizante. E como se pode aderir a quem não se compreende?
Acho que a Justiça Eleitoral está errada em negar o registro do partido de Marina (enquanto as fraudes dos outros vão ficando pelo caminho); não voto em Marina, pelo menos a princípio; mas considero que o movimento à que ela se põe à frente existe de fato, socialmente falando, e por isso deve ter sua expressão partidária reconhecida (assinaturas à parte, o que é quase outra história e também diz muito sobre a candidata e seu séquito prematuro). Mas lamento que a ex-senadora do PT tenha enveredado por um caminho tão sinuosamente individualista em termos políticos que beira a autoproclamação absoluta, sem o lastro de um movimento organizado como ocorreu com o partido pela qual ela se notabilizou. Alfredo Sirkis que o diga (leiam os portais). Agora triste, decepcionante mesmo, foi ver uma figura como Domingos Dutra levado a trocar o PT pelo partido de Paulinho da Força em meio às aluviões desta confusão toda. Também vi hoje que o pedetista histórico Miro Teixeira - com quem não simpatizo nem antipatizo - resolveu entrar para o Pros (ele que é sempre tão contra), também ele à deriva depois da decisão da justiça eleitoral sobre a Rede - agora, sim, com maiúscula mas sem registro.
Acho que Marina tem grande responsabilidade neste vespeiro de abelhas tontas a que assistimos. E prorrogar até o último minuto o seu anúncio não ajuda em nada a melhorar o estado das coisas. Não há nada de errado em que o que é alternativo seja também algo razoável - é da vida, essa evidência que dividimos todos e da qual a boa política é também uma extensão. Dito isso, ou tudo isso, só me resta repetir esse chavão batido que hoje uma jornalista anônima transformou de chofre numa reação tão autêntica quanto original diante da massadas de Marina Silva: fala sério, candidata!
A imprensa brasileira, que de uns tempos pra cá pegou a feia mania de dizer que fala em nome do país (me exclua fora dessa, por favor) com suas manchetes tipo sermão de padre formado nos seminários do Instituto Millênio, bem que poderia dar destaque à expressão da jornalista. Não só dar destaque: aderir, tomar como sua esse sintomático "fala sério", estampá-lo em manchete e enfiar goela abaixo dos leitores e assinantes (por uma dessas cancelei dias atrás minha assinatura do Correio Braziliense, mas esse é outro papo). "Fala sério" é o mínimo que se pode dizer diante deste cozinha-galo de Marina, que, eu acho, está começando a brincar com aqueles quase 20% de votos que obteve há pouco menos de quatro anos.
Mas, por outro lado, estamos no terreno da política, onde até o mais sonhático dos militantes não tem como abrir mão de táticas: só posso acreditar que amanhã, sabadão, Marina Silva vai descer do salto com que seu círculo de assessores a calçou e anunciar, na antepenúltima hora, em lance sensacional e emocionante, já por si mesmo carregado de um arrebatamento que se traduz em votos e novas adesões que, sim, vai sair candidata pelo PPS, PTB, Solidariedade, Contrariedade, Pros ou Contras, não importa. O suspense, a demora, o bico-doce de quem se faz de difícil teria sido apenas para confeitar na medida certa o bolo do tão esperado anúncio - que, claro, já faria o efeito de angariar simpatias e votos. Meios alternativos de fazer o mesmo que a "velha" política que a candidata soberbamente diz que veio para eliminar. Tudo legítimo, se não contrariasse a construção do próprio discurso que ela mais e mais vezes faz questão de declamar. Se não for assim, a insondabilidade do pensamento e da estratégia política da candidata a coloca a distância suficiente de ser compreendida por qualquer eleitor, seja ou não seu simpatizante. E como se pode aderir a quem não se compreende?
Acho que a Justiça Eleitoral está errada em negar o registro do partido de Marina (enquanto as fraudes dos outros vão ficando pelo caminho); não voto em Marina, pelo menos a princípio; mas considero que o movimento à que ela se põe à frente existe de fato, socialmente falando, e por isso deve ter sua expressão partidária reconhecida (assinaturas à parte, o que é quase outra história e também diz muito sobre a candidata e seu séquito prematuro). Mas lamento que a ex-senadora do PT tenha enveredado por um caminho tão sinuosamente individualista em termos políticos que beira a autoproclamação absoluta, sem o lastro de um movimento organizado como ocorreu com o partido pela qual ela se notabilizou. Alfredo Sirkis que o diga (leiam os portais). Agora triste, decepcionante mesmo, foi ver uma figura como Domingos Dutra levado a trocar o PT pelo partido de Paulinho da Força em meio às aluviões desta confusão toda. Também vi hoje que o pedetista histórico Miro Teixeira - com quem não simpatizo nem antipatizo - resolveu entrar para o Pros (ele que é sempre tão contra), também ele à deriva depois da decisão da justiça eleitoral sobre a Rede - agora, sim, com maiúscula mas sem registro.
Acho que Marina tem grande responsabilidade neste vespeiro de abelhas tontas a que assistimos. E prorrogar até o último minuto o seu anúncio não ajuda em nada a melhorar o estado das coisas. Não há nada de errado em que o que é alternativo seja também algo razoável - é da vida, essa evidência que dividimos todos e da qual a boa política é também uma extensão. Dito isso, ou tudo isso, só me resta repetir esse chavão batido que hoje uma jornalista anônima transformou de chofre numa reação tão autêntica quanto original diante da massadas de Marina Silva: fala sério, candidata!
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