sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Ligue a TV



Acaba hoje, em (mais) tragédia ou (menos) compaixão a série "Amores roubados", que o roteirista George Moura adaptou da lenda urbana de Recife registrada originalmente por Carneiro Vilela e agora recriada esplendidamente em tratamento pop-grego-nordestino pelo estilo a esta altura já característico de José Luiz Villamarim. Quem viu fica com a impressão de que programas de TV como esses - e o "Canto da Sereia" do ano passado - trazem para a televisão brasileira atual respingos de marcos teatrais do Brasil do passado recente, como a "Gota d´água" que Chico e Ruy Guerra transpuseram das profundezas trágicas da Grécia clássica para a violência crônica já vigente nos morros cariocas dos anos 70. É uma enchente de dramaturgia cortante num veículo que, em programação aberta, naturalmente tende mais ao descartável indolor. 

Mas "Amores roubados" atualiza outros elementos. Temos aqui - embora o capítulo final possa nos contrariar - dois coronéis globalizados que, traídos pelas respectivas esposas, sinal dos tempos, não resolvem o problema descarregando as espingardas nas madames. A honra ainda é lavada com sangue, mas o sangue do pé de lã. Porque os neocoronéis das vinículas do sertão continuam brutos - embora muito mais bem vestidos - mas ainda amam. Ou, melhor dizendo, agora amam. A sensibilidade, o afeto, o apego à maneira deles se impõe como um elemento civilizador, agrega-se ao jantar bem posto, ao vinho bem escolhido, ao corte de cabelo estudado. Ou talvez não seja nada disso - apenas não fica bem para um pós-coronel que exporta de Juazeiro para as europas sair matando a mulher só porque ela deu uma pulada de muro tão comum de Berlim a Tóquio. A série, de qualquer maneira, registra uma mudança - e comprova que não está retratando o sertão modernizado apenas por incluir modelos de carros tão caros em cenas rodadas nas estradas mais arcaicas do interior do Nordeste. Reações, sentimentos e posturas também mudam, nos dizem os autores. 

Se o telespectador reparar bem, o verdadeiro vilão da série está bem disfarçado na sua condição de sedutor contumaz: é o próprio Leandro Dantas, exterminador sentimental que faz miséria nos corpos e corações femininos que encontra pela frente, pela simples satisfação de exercitar, para além do prazer das camas, o jogo da conquista. Ele mesmo define isso muito claramente numa cena, quando explica ao escada Fortunato que esse é o jogo: seduzir ou ser seduzido. Villamarim usou na série o xote "Romance da lua, lua", antigo e já clássico sucesso da vertente nordestina da MPB dos anos 80 cantado por Amelinha. Poderia, com o bom gosto que tem para sonorizar sua dramaturgia, ter usado um outro clássico, de Zé Ramalho, "Kamikaze", que bem define em ritmo, palavras e sugestões o Leandro Dantas de Kauã Raymond: "Um cavalheiro, nunca um cowboy / um verdadeiro kamikaze / um avião destruidor de lares / um passeio pelos ares / um megaton de poucas esperanças / bombas e lembranças / e quando eu de lá voltar / não sei se poderei ficar / ali onde deixei você / deixando tudo pra viver".





Entre nós, potiguares, há um motivo à parte para acompanhar a série e ele se chama César Ferrário, que a exemplo de Titina Medeiros em 2012 nos inflou mais uma vez o orgulho ao se apresentar como Bigode de Arame. Um capanga tão globalizado quanto seus chefes, que por fora se enfeita com capacetes militares e óculos sessentistas, numa composição neotropicalista que, embora vista sua figura com as batas rotas que a contracultura deixou nos brechós, por dentro é o mais legítimo guardião da trágica tradição: para Bigode, a solução é sempre matar. À sua maneira, César fez um Antônio das Mortes transposto para certa bossalidade dos dias atuais: um matador (de cangaceiros sexuais?) que tropeça na própria sombra, atrapalhado como um Didi Mocó sem noção da própria defasagem histórica, um espelho quebrado, colorido e reluzente do que um dia foram as sombras da violência atávica dos grandes sertões: o assassino de aluguel. E no meio de tudo isso ainda tivemos Dira Paes, mas ela merece um papo à parte. 

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Devagar com 2014



Meu 2014 começou em 1958. Não voltei a uma era passada na esperança de fugir de um dos mais aguardados anos dos últimos tempos. Foi 1958 que veio até a minha pessoa, personificado com charme, beleza, dramaticidade, precisão e elegância na figura de um clássico absoluto. Para minha sorte - e de mais alguns felizardos de outras capitais brasileiras onde tal manifestação se repita, e tomara que sejam muitas - uma sala de cinema de Brasília está exibindo uma reprise (inclusive mui curiosa, mas isso explico mais tarde) do inigualável "Vertigo", o nosso "Um corpo que cai", suprassumo do suspense de bom gosto do velhote Alfredão. Já disse em outras redes e repito: não haveria melhor presente de aniversário antecipado que eu pudesse ganhar. Que Copa, que nada! Eleições?, bah! Não gosto de futebol, política às vezes pode dar coceira: o grande barato deste 2014 mal saído das fraldas pode acabar sendo este singelo marco inicial, de uma reprise no cinema, sala escura, tela grande, imersão total, de um Hitchcock da mais excelente extração. 

É claro que, como tanta gente, eu já cansei de ver e rever este filme em VHS, DVD e até nas finadas sessões clássicas das antigas noites de domingo da era da exclusividade da TV aberta. Mas ver "Um corpo que cai" no cinema, convenhamos, não é algo para qualquer dia. O máximo que lembro em termos de comparação ocorreu em 1984, quando quatro filmes do mestre do suspense - título pequeno, porque existe ali um mestra da beleza narrativa e pictórica que vai muito além dos sustos - voltaram a ser exibidos nos cinemas. Foi essa mostra por sinal que estabeleceu entre nosotros certo culto diante de "Janela indiscreta" (e "Psicose", informo só por curiosidade, não fazia parte deste pacote). Não vi nenhum na época e nem consigo recordar por quais motivos. Mais recentemente, acho que por ocasião do aniversário redondo de um desses grandes estúdios americanos, voltaram alguns filmes em reprise - lembro de "Bonnie and Clyde" que, acho, revi sim no prazer do cinema como ele deve ser. 

A reprise em cartaz em Brasília no Itaú CasaPark (sessões às 21h30, numa sala só) tem como curiosidade contrastante as legendas em português de Portugal: é motivo para um travo de riso no meio da dramática - mais do que suspense, vi-me tomado pelo drama ao assistir ao filme na tela grande - história. Você está prestando atenção na forma como Hitch consegue envolver a nós do lado de cá da tela ao mesmo tempo em que enrola seu protagonista (que "cai" também metaforicamente ao engolir uma história montada para sugerir ser o que não é) enquanto se molha numa chuva de próclises, ênclises e até mesóclises graças à tradução portuga. Pior mesmo é quando James Stewart obriga Kim Novak a experimentar um "fato" contra a própria vontade. Não sabe o que é um "fato", gajo? Direto pro google lusitado, então.

Mas isso são distrações: para além da fotografia que parece fazer de cada imagem que se vê na tela uma construção clássica impregnada no painel do nosso imaginário - Kim Novak diante da Golden Gate, o cabelo louro combinando com o vermelho da estrutura da ponte é um desses cartões postais cinematográficos de vida eterna - temos Hitch usando sua arma primordial: o poder da narrativa. Tudo em "Um corpo que cai" remete à vulnerabilidade distraída que o ser humano costuma apresentar diante de uma boa história. É um filme que, suspense à parte, mostra como é possível, usando apenas uma intrigante, sugestiva e marcante narrativa levar um nosso semelhante a fazer as maiores barbaridades - ou a cometer as mais vergonhosas mancadas. É disso que se trata: o poder de uma história, a capacidade de envolvimento de um determinado clima audiovisual, o alcance de uma composição feita com a junção convincente de várias peças soltas quando postas para funcionar em conjunto. 

E tudo isso captado, editado e formatado em 1958, com direito às ruas de São Francisco em textura de postal antigo, com seus carros, prédios, ladeiras em cores aquereladas. Por isso, amigos, recomendo, indico, apelo: deixem 2014 em paz por enquanto e sigam direto para 1958. 

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Maratona Orlando



 Não posso contar tudo porque não dá pra contar tudo. Também não tem como enfeixar todas as impressões dispersas em uma frase, sentença ou avaliação restrita e inteligente. Não se trata de responder na lata com aquela opinião matadora quando alguém pergunta, tão na lata quanto: - E aí, como é que foi... Não é questão de falta de domínio da linguagem, de escassez de opinião ou de ausência de objetividade: é que, sendo uma pessoa do tipo tão vulnerável aos estímulos visuais, não consigo mesmo encaixotar em períodos verbais a intensidade daqueles a que fui exposto junto com Rejane, Cecília e Bernardo durante uma viagem de férias de seis dias em Orlando, EUA, a cidade famosa pelo complexo de parques temáticos da Disney e dos estúdios Universal. Tudo o que posso fazer aqui é salpicar gotas dispersas de sensações, cacos de encantamento mais do q ue naturais para quem passou a infância consumindo histórias em quadrinhos e similares, perdigotos descontrolados que o também natural deslumbramento faz chover da mente ainda congestionada.

Só não me peçam distanciamento, contenção, pé atrás ou qualquer outra postura que implique em uma abordagem meio blasé diante do que vi, ouvi, senti. Dá não, coração: desde a mais tenra idade, quando deixava minha aldeia de 14 mil habitantes no Seridó potiguar para visitar a metropolitana Caicó, minha cabeça virava. Imagine quando ia a Campina Grande!  O gigantismo urbano é algo que sempre me atraiu, e se você pretende entender melhor como é que isso se dá na cabeça de uma criança, experimente ler uma HQ do Homem Aranha, qualquer uma, prestando atenção nas cenas que se passam no ruge-ruge da cidade: eram aqueles prédios, aquele povo na rua, aquele agitação incessante que me fascinavam. E os parques da Disney e da Universal – sobretudo o Adventure Land, na Universal, na parte dedicada aos heróis Marvel  - condensa, empacota, sintetiza tudo isso e coloca você lá dentro, bem no meio das fachadas traçadas a lápis, da explosão de cores em forma de minicidade, enquanto o visitante se desvia das motos em que os super-heróis transitam de tempos e tempos. Sem falar no brinquedo 4D do Spider Man, aquela visita ao paraíso que me vi fazendo três vezes. Ainda bem que não tinha fila.
Falando em filas, desconfie delas. Ou melhor, não acredite tanto assim naquelas placas que indicam quanto tempo você vai levar para chegar à atração principal. Às vezes está lá 30 minutos, mas é entrar na fila e você percebe que, como diz o ditado, a fila anda, e anda rápido – e algumas vezes há atrações pra lhe distrair enquanto você está na fila. E o que é melhor, às vezes a atração da fila consegue até superar a atração principal, ao menos pra mim. Foi o caso do brinquedo chamado, salvo engano, A Grande Corrida do Cinema: a promessa, cumprida, é de que você vai, dentro do seu trenzinho, transitar por alguns dos maiores clássicos dessa arte americana. De fato, um gangster à James Cagney vai seqüestrar o carrinho em que você passeia, um tiroteio vai  lhe pegar no meio do caminho, Alien, o oitavo pass ageiro, vai borrifar sua cabeça com aquele bafo que só ele tem, e a bruxa de O Mágico de Oz vai lhe jogar imprecações antes de permitir que a viagem continue. Ocorre que, antes de passar por tudo isso, você vai esperar na fila que dá voltas numa simulação de uma sala de cinema onde todos esses filmes e mais outros são projetados numa tela de tamanho real, lhe dando a chance de ver trechos dessas produções que há muito não se consegue ver numa sala escura de verdade. O passeio é ótimo, mas ainda acho que a projeção – e no final do passeio você vai ver mais um pouco – não tem preço.
Orlando, a cidade em si, acabou ajudando meu coração provinciano a entender Brasília um pouco melhor: é uma cidade absolutamente plana, esquadrinhada por ruas que mais parecem auto-estradas. Entendi melhor o choque que tanta gente experimenta ao conhecer Brasília. Orlando é Brasília elevada ao cubo. Ninguém nas ruas. Ninguém. Calçadas, quando existem, são iguais às de Brasília – aquela trilha de cimento estreita entre faixas de grama. Aí você entra num out-let, num shopping ou mesmo numa daquelas gigantes lojas “de rua” (como a livraria do tamanho de uma loja de material de construção brasileira) e descobre onde as pessoas se escondem. Só não conseguimos mesmo foi entender onde as pessoas moram. É, moram. Porque tudo o que vimos, numa cidade que além de plana é de prédios predominantemente baixos, com uma ou outra torre sobressaindo, foram ins talações comerciais. Claro que não podemos dizer que “conhecemos” Orlando: os lugares por onde passamos, presumo, é que são assim. Deve haver uma cidade mais normal além do horizonte imediato, mas este não vimos.
E se dá pra fazer alguma tentativa de ser objetivo, arrisco dizer que o que mais me chamou atenção nas pessoas – nas quais também reparei, em busca daqueles pontos em comum que nos faz a mesma humanidade embora dispersa por países tão diferentes – foi um certo espírito assertivo. A assertividade americana, se posso dizer assim. Eles podem até não ser, mas parecem muito assertivos em tudo o que fazem: desde o negão que me ajudou a embarcar na conexão Miami-Orlando, explicando com firmeza, atenção e educação três vezes para que eu tivesse cuidado quando fosse retirar uma bolsa do bagageiro superior do avião, até a garota que, numa loja massa de quadrinhos em que infelizmente não pude me demorar, saiu do caixa – do caixa – para me explicar onde ficava uma loja de brinquedos que procurávamos para Bernardo. Atenciosos, educados, sorridentes, relaxad os (mas atentos ao trabalho, fosse ele qual fosse) e, numa palavra, assertivos: foi assim que os norte-americanos de Orlando me pareceram. Se alguém de coração menos provinciano do que o meu me disser que isso é porque se trata de uma cidade turística, vou entender perfeitamente. Mas por favor não me negue o prazer do deslumbramento, porque ele pode ser muito valioso num tempo em que desfazer de tudo e de todos no Facebook parecer ser a máxima sensação de prazer que alguém pode experimentar. Fico – e feliz – com o provincianismo, que me faz manter nos olhos um encantamento a ser despertado cada vez que vejo algo que sendo diferente é também bonito, interessante e estimulante. E a assertividade, aqui como lá, pode ser tudo: quem disse que o negão do bagageiro tinha a obrigação de sair do canto dele e dar tanta atenção a um passageiro desconhecido... idem para a garota do caixa.
Voltei com a impressão de que com assertividade a gente tanto pode atender bem um turista – a Copa vem aí, faça sua parte – quando construir um país. Dá trabalho, leva tempo, exige esforço e paciência (outra característica que vi muito entre os nativos gringos) mas acaba acontecendo. Se eles têm defeitos – um monte, e a manchete dos jornais e telejornais nos dias em que estivemos lá foi mais um daqueles massacres malucos em escolas – têm também qualidades como a assertividade. E, em viagem, desculpe aí mas tenho que defender meu ponto de vista, prefiro reparar mais nas qualidades do que nos defeitos. Na vida, em geral, também. Talvez seja isso o que esteja mais em falta entre nós, brasileiros.

terça-feira, 26 de novembro de 2013

Ê, Goyaz!



O cenário em volta é de filme de época, meio novela das seis meio conto de Tolstoi. Um ar metade Escrava Isaura, metade Crime e Castigo. Bruma, luar e silêncio. Continentais pedras no chão e uma torre gótica no alto. Luz amarela, que vem de postes fantasiados de lampião. É possível ouvir o canto mais pra melódico do que para rítmico dos saltos das sandálias das moças tocando o chão no que descem a ladeira. Onze da noite, os vultos – não fantasmagóricos, mas animados – começam a surgir e se solidificar em pequenos grupos na dança dessa descida. O destino é a Igreja do Rosário, que apesar do nome tipicamente colonial-brasileiro tem a aparência de uma Notre Dame tropicalizada tanto quanto possível no coração do Goyaz. E aqui se clarifica o completo da locação: estamos na Cidade de Goiás, ou Goiás Velho como eles não gostam de ser chamados – apesar do apelo poético deste outro nome; mas vai ver os habitantes já vivem saturados de poesia apenas pelo fato de residir nesta cidade mágica. Aqui, o acontecimento da noite é uma serenata.

Goyaz, a cidade, por estes dias e estas noites ganhou uma camada humana a mais entre seus becos e casario que parece desenhado a lápis de tão bonito – e no entanto se trata de um lugar habitado como qualquer outro, o que prova que a poesia não é nenhum delírio; embora felizmente o seja mas essa é outra questão. Os habitantes a mais de que se fala são os coralistas, palavra que nem sei se existe mas que aqui casa muito bem com a mais célebre figura da cidade, a poeta Cora Coralina – aquela que ensinou a sábia arte de viver enquanto entre nós esteve, ao misturar panelões de doces com o exercício da poesia, depois de retornar ao casarão onde nasceu uma vez tendo feito  crescer os filhos de outra etapa da vida que soube tão graciosamente encerrar para recomeçar à sua maneira. Os coralistas, pois então, casam com Cora e dão um retoque no fim de semana de uma Goyaz que realiza assim como um informal encontro de grupos corais.

Você está descendo malemolente a ladeira da Igreja do Rosário e é meio que elevado do chão pelo misterioso canto que vem não se sabe bem de onde. São os coralistas na igreja, cantando um repertório de clássica MPB radiofônica.  No dia seguinte, tarde-noite de sábado, eles estarão na praça, espantando com suas vozes o insuportável – e absolutamente alienígena – barulho repetitivo e poluído que vem de alto falantes cuspidores de funks feios, sujos, grosseiros e impacientes. Sim, Goyaz, apesar de a visão de 360 graus em torno sugerir tanta história e tamanha carga de sensibilidade urbana, também tem seus defeitos. Nada que um coral não possa interromper uma vez ou outra. 

Antes de retornar à serenata improvisada que saiu qual cortejo levando música às janelas da cidade, é preciso lembrar que Goyaz é aquele tipo de lugar onde tudo parece muito parado, nenhuma surpresa à vista além da placidez decorrente da contemplação de suas casas, museus e monumentos, inclusive os naturais, como a cadeia de montanhas da Serra Dourada que tudo cerca como se desejasse conter entre muros verdes essa poesia emanada no local.  Mas não é bem isso, como provam seus restaurantes mineiramente escondidos no meio do casario, sem maiores placas, apelos e gritos gráficos. É preciso andar em Goyaz, calmamente como um de seus doces velhinhos caipiras, para farejar seus perfumes bem guardados.

E é aí que a surpresa pode tocar no ombro: aguardando um pouco o apetite chegar para um jantar, sentamos num banquinho em frente ao terminal turístico quando um cartaz colado na fachada do cine-teatro ali em frente nos chama a atenção. Pessoas começam a chegar, recebem um folheto da recepcionista postada no local e entram para assistir a alguma coisa. A curiosidade nos moveu do banco e fomos lá: era uma apresentação de um grupo de dança de Goiânia, show gratuito, teatro lotado, um pequeno acontecimento artístico feito sem alarde, uma hora de sensibilidade pura que não precisa constar dos roteiros turísticos. Algo que é feito primeiramente para o morador da cidade de Goiás. Nós, visitantes, temos mais é que pedir licença se quisermos assistir também.

Um espetáculo sobre a trajetória do rock and roll em Goiânia – Yes, man – com uma dança contemporânea coalhada de efeitos cênicos e turbinada por sombras típicas da estética dos anos 80. Belo show, ainda mais porque em determinado número o som falhou – e a companhia de dança continuou como se nada tivesse acontecido. Profissionalismo anhanguera. Persistência bandeirante, índios escravizados à parte. Torrente de aplausos no final. Ainda com o som pifado, um número solo de uma bailarina que logo perde a condição solitária, uma vez que o público não demora a cantar para fazê-la continuar dançando a letra mais que conhecida da balada “Pais e Filhos”, clássico da Legião Urbana. Somente no próximo número o som retorna, encerrando uma noite de alguma transcendência, que é como se pode qualificar essas coisas que não estão previstas mas, uma vez acontecendo, derrubam muralhas da parte cronicamente apática do nosso ser.

Faltava conferir a serenata, esta sim prevista, de hora marcada, mas de detalhes incertos, como que para manter o espírito vivo da poesia que sai melhor quando se improvisa, livre de normas rituais. Aquelas sombras da noite que se solidificavam em grupos foram aumentando, enchendo o pátio da fachada da Igreja do Rosário. Uns violões, do tipo que não dava para saber mesmo quantos eram e onde estavam: bastava que fosse como eram, uma espécie de rede de notas sobre as quais aquelas dezenas de pessoas vindas de várias direções poderiam pular qual criança, usando a voz, a noite, a potência do luar e o cenário em volta como propulsores de uma emoção musical capaz de anular a gravidade da rotina.

A certa altura, qual procissão religiosa de que Goyaz é também notória – o cortejo dos encapuzados na Semana Santa é o marco número um do município – começamos a caminhada, calma, lenta, musicada por velhas canções de um Brasil quase tão antigo quando as paredes em volta. Sempre que se encontra uma janela aberta com um morador à espreita, dá-se o presente de incalculável valor que é parar e cantar só para ele – ou eles, caso frequente em que uma família aguardava o momento de ser  homenageada com tal exercício de doação.  Palmas, agradecimentos, e novamente o grupo se desloca, devagar, como que saboreando o gostinho de pisar em cada pedra, gravar em cada porta a nota de uma voz, o carimbo sertanejo de um canto.  Ê, Goyaz!

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Águas profundas


Em cinema, literatura, às vezes até na música - quando se trata de um tipo de canção de natureza mais narrativa - existe uma pré-condição, um condicionamento prévio sem o qual nada se sustenta. É bem conhecido e chama-se "suspensão da descrença". Graça a esse instrumento narrativo - espécie de pacto não formalizado entre o autor e seu público, seja qual for o meio empregado - acreditamos, ou fingimos acreditar sem prejuízo para os fatos narrados, nos maiores absurdos. O Superman com oito anos suspendendo um carro apenas com uma mão. Cientistas com jeitão de super-heróis construindo uma geringonça gigante capaz de evitar que um meteoro ainda mais hiperbólico destrua a Terra. Dona Flor tendo que dar conta do maridão certinho que acabou de chegar da farmácia e ao mesmo tempo do fantasma do finado marido anterior que se foi desta para melhor mas não esqueceu do prazer de certos momentos. João Grilo e Chicó enganando uma cidade inteira com as lorotas mais improváveis apenas para conseguir matar a fome de cada dia.

Como diz o nome daquele festival de filmes, é tudo verdade. A gente acredita em tudo: basta que o capítulo inicial do livro, ou as primeiras sequencias do filmes ativem aquela maquininha de condicionamento mental que a gente carrega na mente como se fora um projetor paralelo no escurinho das possibilidades - a tal "suspensão da descrença". Foi isso o que não aconteceu comigo durante a primeira meia hora deste celebrado "Capitão Phillips": o mecanismo da suspensão da descrença, habitualmente tão capaz de nos fazer passar por cima de impossibilidades reais para embarcar na oportunidade de acompanhar uma boa história travou legal, como diria um garoto, bem no início do filme, exatamente naquele ponto onde ele tinha, precisava funcionar.

Passei o resto do filme incomodado com um elemento narrativo que me pareceu improvável: como é que os americanos, esse povo tão fascinado pelo uso de armas de fogo, não carrega nem uma dessas espingardas de bala de borracha que a PM brazuca usa e abusa nos tais protestos de rua, ao realizar a travessia marítima por uma região tão perigosa? Eu, na minha sacrossanta ignorância - a quem não canso de prestar minhas homenagens, pois dela advém, além de certa humildade muito providencial, também o entusiasmo quando sou apresentado a alguma novidade - não sabia que a marinha mercante não usa armas de fogo. Tudo bem: não precisa ser um navio militarizado pela ótica do mundo pós-Bush-Iraque, mas nem uma armazinha assim pra efeito de qualquer coisa acontecer? Nem alguma coisinha simples, tipo o bacamarte do Urtigão? Tenho que pedir ao amigo Carlos de Souza pra perguntar ao pai dele, que passou a vida navegando na marinha mercante, se é assim mesmo.

Porque aqui não se trata apenas de um caso em que a suspensão da descrença não funcionou - para mim, só posso falar por mim, porque o que mais vejo, leio e ouço é o pessoal empolgado com o filme. Aqui o que temos é um troço mais maluco ainda: um caso de suspensão da descrença que não funciona num filme... inspirado em fatos reais, de amplo conhecimento público, com os protagonistas de fato dando milhares de entrevistas no embalo do lançamento do filme. Então, em princípio, eu não teria mesmo do que duvidar - o pessoal todo daquele barcão, tripulado por vinte homens bem alimentados ou parrudos de chope, que seja, não conseguiu mesmo dar conta de quatro magricelas famélicos e expoliados da mais clássica África envolva em guerras, tráfico e banditismo. E armas, nem pensar... Sabe qual é o problema? A danada da suspensão da descrença não quer saber se o filme vem de fatos reais ou não: ela precisa existir na condição de gatilho narrativo sem o qual a história não consegue ser disparada. A questão é menos o fundo verídico do fato do que a superfície narrativa sobre o qual ele é distribuído em forma de cenas, diálogos e situações. 

 
Talvez tenha faltado uma cena - uma daquelas cenas que os roteiristas detestam ter que escrever - com uma explicação minimamente didática sobre o fato de a marinha mercante não querer papo com armas, nem preventivamente. Tudo bem que a possibilidade de um tripulante dar cabo de um pirata usando uma arma ancestral - os próprios braços - ainda assim ficaria no ar, mas já seria um alento. A oposição entre o navio gigantesco e a canoa raquítica pode e é sim pungente do ponto de vista da mensagem visual, mas a construção do caso - precisamente a arquitetura da suspensão da descrença - precisa passar por águas bem mais profundas do que a rasa navegação entre as bacias das metáforas.

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Nem ouro nem prata




Diante da ambição que é o fenômeno Serra Pelada, a gente que aprecia o cinema de Heitor Dhalia entra no cinema com uma expectativa no olhar e uma dúvida na cabeça: que filme veremos? Alguma coisa com a pronúncia visual que é tão própria do cineasta - ia dizer "cineasta pernambucano", mas a folha corrida que ele vem construindo não permite este tipo de classificação que a outros, sem demérito, constitui uma legitimidade - ou algo que, sendo mais ambicioso, poda aqui e ali sua verve tão particular?

Na primeira cena, "Serra Pelada", o filme, deixa o público cativo de Dhalia animado com a chance de a primeira opção vencer. O super-close de Juliano Cazarré sendo inquirido por um policial dá o tom de dramaticidade quase gráfica que é tão particular do cineasta de "O Cheiro do Ralo". Mas o filme prossegue e, depois de uma muito bem montada sequencia de abertura em que o próprio nome da produção serve de veículo para situar quem nasceu depois de 1990, vai-se o Heitor Dhalia do enxuto, milimétrico e sensível "À Deriva". Fica, na tela, um bom filme, sim - aquele tipo de filme que tem tudo pra cair nas graças do público brasileiro, ao remeter a um certo cinema brasileiro dos anos 70, quando o tema de preferência era o drama policial, o tratamento passava necessariamente por um molho de sensualidade morena e a linguagem atingia em cheio tanto a garotada zona sul quanto o ancião de subúrbio; e do interior do país quando lá chegavam as últimas e desgastadas cópias. Com os bônus que bons filmes têm obrigação de oferecer: neste caso, é bonito ver uma atriz televisiva como Sophie Charlotte se esforçando para ir além do padrão que o video oferece ao país, assim como é impressionante constatar como, em pouquíssimas cenas, o gênio habitual Wagner Moura é capaz de arrebatar a mais burocrática plateia.

No final das contas, "Serra Pelada" é como uma mistura, batida na medida para conscientizar e entreter, de duas referências recentes do cinema brasileiro - ambas, não por acaso, também fortemente calcadas naquilo que enchia salas nos anos 70: pense em "Cidade de Deus" misturado com o primeiro "Tropa de Elite". De ambos, "Serra Pelada" utiliza a abordagem semidocumental e uma coloração tecno-realista que o selo da produtora de Fernando Meirelles jamais deixa de exercitar. Imagine então aqueles dois filmes - embora o segundo não pertença à O2 - embebidos numa calda mínima de introspecção desenhada em imagens, que tem sido o forte de Heitor Dhalia, e você chegará bem perto. Fica claro que é muito elemento para um filme só: perde o Dhalia que fareja a intimidade (como vimos em "À Deriva"), que namora a excentricidade (como mostra "O Cheiro do Ralo") ou que investe no que as sombras têm de poesia (conforme o nem sempre lembrado "Nina"). 

Claro que o diretor tem todo o direito de frequentar outras praias com suas câmeras e sua forma de contar históricas e extrair emoção da arte cinematográfica. "Serra Pelada" segue tal caminho, jogando um especialista do minimalismo nos barrancos de um grande painel social de um dramático momento brasileiro. Mas quando o filme termina, fica a impressão de que ele é bom mesmo é na arte de lapidar pepitas raras, daquelas que passariam imperceptíveis nas mãos de garimpeiros de imagens menos atentos como esses que hoje, ontem, sempre, enchem os cinemas do país. Ou, o que é bem pior, fazem os tão mal afamados filmes nacionais.

domingo, 13 de outubro de 2013

Canção do absoluto



Na poça de chuva da noite anterior,
Cecília bate o pé em brincadeira ritmada:

-Tudo, nada, tudo, nada
 Tudo, nada, tudo, nada

Cecília, onde você aprendeu isso?
Na casa de Solange 
(nossa empregada)

2008*


A passagem de ano
foi tenebrosamente rara.
Choveram pedras goianas,
seixos de estrada velha
sobre os telhados na aguada.
Relâmpagos perfilizaram as serras
como refletores pré-programados
para um temporal espetáculo.
Por fim, qual champanhe final,
faltou luz - e a verdadeira
eletricidade se fez em
blecaute natural.
Receita para começar 
o ano
no mais fértil nada.

*Fazenda Manduzazan, Cidade de Goiás, feriadão de fim de ano. Se fosse na passagem de 2009 para 2010 seria absolutamente premonitório do ano difícil que tivemos. Mas 2009 foi beleza, a calmaria antes da tempestade que, felizmente, também ficou para trás.

Bioderrapadas

Acabei de ler o artigo semanal de Caetano Veloso no Globo e não entendi nada: quer dizer que biografia não autorizada de Sarney pode - mas de Gloria Perez não? Um é ser humano e pode sair machucado e o outro não? Isso parece fala do velho George Bush: quem não for meu amigo é o diabo e pode ser destruído sem mais nem menos. Não tenho tido muita paciência para essa discussão sobre biografias-liberdades-privacidades-direitos (porque quando a história explode demais na rede social causa uma sensação de mídia saturada que mela tudo), mas esse reducionismo não me parece digno do artista Caetano. Talvez tenha a ver com o empreendedor Caetano, que também existe - e tem todo o direito de existir, que fique claro - mas sem que uma coisa comprometa de tal maneira a outra. Ficou confuso? Vai lá no Globo virtual e lê o artigo: garanto que não vai ficar mais claro do que isso. Gostaria de saber a opinião sobre tudo isso de um cara como Tom Zé, o último tropicalista não pragmático, se é que ainda o é.

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Fala sério, Marina Silva

Acabo de conferir aqui num portal da rede (com r minúsculo) que é aquilo mesmo de que desconfiava no post anterior: Marina Silva deu uma entrevista hoje para dizer que dirá em outra entrevista amanhã se vai ou não disputar a Presidência da República. Jornalistas têm cometido muitas gafes, pra não dizer idiotices puras e simples, nos últimos meses, e estrelado involuntariamente o ranking do "pior das redes sociais", quase sempre merecidamente. Mas hoje, li agora há pouco num portal, depois de Marina dizer que que só vai decidir amanhã, uma jornalista não identificada soltou um sonoro "fala sério". Pois eu acho que essa jornalista externou, de supetão, quase sem querer de tão natural, o que vai pela mente de grande parte dos brasileiros diante do comunicado de Marina.

A imprensa brasileira, que de uns tempos pra cá pegou a feia mania de dizer que fala em nome do país (me exclua fora dessa, por favor) com suas manchetes tipo sermão de padre formado nos seminários do Instituto Millênio, bem que poderia dar destaque à expressão da jornalista. Não só dar destaque: aderir, tomar como sua esse sintomático "fala sério", estampá-lo em manchete e enfiar goela abaixo dos leitores e assinantes (por uma dessas cancelei dias atrás minha assinatura do Correio Braziliense, mas esse é outro papo). "Fala sério" é o mínimo que se pode dizer diante deste cozinha-galo de Marina, que, eu acho, está começando a brincar com aqueles quase 20% de votos que obteve há pouco menos de quatro anos.

Mas, por outro lado, estamos no terreno da política, onde até o mais sonhático dos militantes não tem como abrir mão de táticas: só posso acreditar que amanhã, sabadão, Marina Silva vai descer do salto com que seu círculo de assessores a calçou e anunciar, na antepenúltima hora, em lance sensacional e emocionante, já por si mesmo carregado de um arrebatamento que se traduz em votos e novas adesões que, sim, vai sair candidata pelo PPS, PTB, Solidariedade, Contrariedade, Pros ou Contras, não importa. O suspense, a demora, o bico-doce de quem se faz de difícil teria sido apenas para confeitar na medida certa o bolo do tão esperado anúncio - que, claro, já faria o efeito de angariar simpatias e votos. Meios alternativos de fazer o mesmo que a "velha" política que a candidata soberbamente diz que veio para eliminar. Tudo legítimo, se não contrariasse a construção do próprio discurso que ela mais e mais vezes faz questão de declamar. Se não for assim, a insondabilidade do pensamento e da estratégia política da candidata a coloca a distância suficiente de ser compreendida por qualquer eleitor, seja ou não seu simpatizante. E como se pode aderir a quem não se compreende?

Acho que a Justiça Eleitoral está errada em negar o registro do partido de Marina (enquanto as fraudes dos outros vão ficando pelo caminho); não voto em Marina, pelo menos a princípio; mas considero que o movimento à que ela se põe à frente existe de fato, socialmente falando, e por isso deve ter sua expressão partidária reconhecida (assinaturas à parte, o que é quase outra história e também diz muito sobre a candidata e seu séquito prematuro). Mas lamento que a ex-senadora do PT tenha enveredado por um caminho tão sinuosamente individualista em termos políticos que beira a autoproclamação absoluta, sem o lastro de um movimento organizado como ocorreu com o partido pela qual ela se notabilizou. Alfredo Sirkis que o diga (leiam os portais). Agora triste, decepcionante mesmo, foi ver uma figura como Domingos Dutra levado a trocar o PT pelo partido de Paulinho da Força em meio às aluviões desta confusão toda. Também vi hoje que o pedetista histórico Miro Teixeira - com quem não simpatizo nem antipatizo - resolveu entrar para o Pros (ele que é sempre tão contra), também ele à deriva depois da decisão da justiça eleitoral sobre a Rede - agora, sim, com maiúscula mas sem registro. 


Acho que Marina tem grande responsabilidade neste vespeiro de abelhas tontas a que assistimos. E prorrogar até o último minuto o seu anúncio não ajuda em nada a melhorar o estado das coisas. Não há nada de errado em que o que é alternativo seja também algo razoável - é da vida, essa evidência que dividimos todos e da qual a boa política é também uma extensão. Dito isso, ou tudo isso, só me resta repetir esse chavão batido que hoje uma jornalista anônima transformou de chofre numa reação tão autêntica quanto original diante da massadas de Marina Silva: fala sério, candidata!

domingo, 29 de setembro de 2013

Todo poder ao bandejão


Caiu no ruge-ruge do Facebook por estes dias a imagem de um bandejão de restaurante universitário, aquela placa metálica com divisões onde se coloca as porções de alimentos de um almoço ou jantar. A imagem mexeu com minhas memórias e ao fim de uma rápida investigação sobre o significado daquele apetrecho para as minhas décadas de vida terminei encarando o clássico bandejão quase como um troféu. O signo de uma luta travada com alegria, disposição, sacrifício e recompensas não apenas por mim, mas para muitos e muitos amigos com quem dividi a convivência tanto num internato onde cursei o segundo grau quanto - e principalmente, pela extensão do tempo e valor da experiência - as alamedas do Campus da UFRN, em Natal. 

A imagem do bandejão me jogou de chofre numa época muito diversa da atual - e aqui me refiro aos pontos em que essa diversidade resulta em prejuízo para os dias atuais. Diversa do ponto de vista pessoal, como é natural que seja, pois que os anos passam, a gente sai de uma condição para outra, escala empregos, aprimora afazeres, compõe currículos, vê nascer filhos, vê crescer tais filhos em velocidade de cruzeiro, muda de cidade (no meu caso), recomeça, cansa, reclama e segue em frente. O rio nunca é o mesmo, todo mundo sabe quando está diante de mais uma travessia. E é assim que o bandejão e tudo o que ele representa vai ficando para trás. 

A realidade social e coletiva da cidade e do país também contribuem para este movimento - este esquecimento. Qualquer um que viveu os picos da juventude nos meus temos de UFRN, década de 80, sabe dessas diferenças e, aqui e ali, lembrando delas, queria trazer alguma coisa de volta. Não digo aquela juventude numérica, que a resistência física mesmo impede, mas os sinais do momento que tanta falta fazem hoje. É aqui que o bandejão reina soberano no seu posto de troféu do tempo: visto hoje num post de facebook seu metal rude brilha como ouro ao nos lembrar do quanto menos individualistas éramos, da nossa sobrevivência em bandos arrancada aos centavos, do congraçamento que provávamos em detrimento da comida que, feita em enormes quantidades, naturalmente não podia proporcionar o paladar refinado dos cardápios caros - ou caseiros. Não importava: à frente do bandejão, a gente se alimentava também de outras matérias que andam muito em falta neste mundo mercantilizado de Pequim a Jucurutu, terra do amigo Vilmar, a quem nunca mais vi, ou Marcelino Vieira, cidade de Antônio Edson, companheiro da Residência Universitária que dormia sobre livros de medicina e a quem também nunca mais vi. 

Quem compartilhou no facebook a imagem sintomática do bandejão foi a amiga Guia Bezerra, conterrânea com quem passei a conviver apenas depois de passar a morar na residência dos universitários que não tinham teto em Natal e que foi, tão simbólica quanto aquele prato de metal, uma espécie de liderança informal no grupo todo. Ninguém melhor para nos trazer de volta a imagem do bandejão, com a legenda marota: "quem usou não esquece". O pior, Guia, é que muita gente que usou esquece sim. Eu mesmo não lembrava. Mas, ainda que não lembrando, sei que guardo dentro de mim o que posso chamar de "espírito do bandejão" - um certo senso de solidariedade misturado com humildade que me lembra o tempo todo, mesmo que nem sempre eu perceba claramente, a importância de caminhar junto com meus semelhantes na busca de vitórias que somente a carência anterior a ela é capaz de nos fazer perseguir. Mas é verdade, muita gente nem isso guardou: mudou de vida, como é natural, mas mudou também de pensamento, mal embalados pelos novos e falsos consensos que surgem em torno de competitividade, distinção e aparência. Para esses, é preciso exibir o bandejão o tempo todo, dar verdadeiras bandejadas em suas cabeças, na tentativa de acordar o melhor que tinham em si e de que também se esqueceram, junto com o instrumento onde anos atrás sequer tinham o direito de escolher o feijão a ser despejado no compartimento apropriado - era um funcionário do restaurante coletivo quem fazia isso, automaticamente e impessoalmente como tantas vezes é necessário, sem prejuízo para os traços individuais que todos e cada um também trazem em si. Por tudo isso, viva o bandejão!

Música ao longe


Brejeiro é o adjetivo que remete ao habitante das regiões chamadas de brejos, latitudes aquosas em meio a geografias habitualmente secas. A Paraíba tem um famoso brejo com o qual me familiarizei desde criança, não por conhecê-lo mas pelas quase diárias referências que meu pai, vendedor de mangaio por profissão, fazia a tal lugar. O brejo paraibano é uma região úmida e fria instalada nos costados altos de um estado que, de fato e simbolicamente, para todos evoca a imagem de um Nordeste árido. Mas o adjetivo brejeiro - que meu pai usava e abusava quando queria descrever certo tipo de pessoa pelo comportamento particular que apresentava, alguma coisa entre o sinuoso e o desconfiado (mas isso eu vim a entender melhor bem mais tarde, como explico ao final*) - ganhou outra conotação. Especialmente quanto aplicado à condição feminina, essa tal brejeirice tem a ver com um muito especial tipo de beleza regionalizada, quase uma etnia estética à parte, apegada às morenices de algumas regiões brasileiras, palavra que emula cheiros doces, peles retocadas pelo sol, e uma sensualidade imanente que surge pespegada a essa brasileira mesmo quando ela se ocupa das mais comezinhas tarefas do dia-a-dia. Pense na matas da Costa do Cacau baiana ou numa pequena enseada em Touros, no litoral potiguar, e você começará as ser tomado por essa atmosfera.

A brejeira é como a cabocla do romance que virou novela mais de uma vez. É como a Gabriela cravo e canela da mãe Bahia. É prima da guria dos gaúchos, numa linhagem que vai se ramificando pelo vasto país. Mas essa evocação sobre brejos primordiais como os romances de Jorge Amado está aqui a propósito não exatamente de uma especulação sobre a beleza física das brasileiras mais enraizadas e sim por causa de um outro elemento fortemente fincado nos solos que divididos da Amazônia aos pampas: a música. Dois discos lançados ainda recentemente trazem a música daquele que é pra mim o mais brejeiro dos artesãos instrumentais do Brasil. E aqui o adjetivo brejeiro precisa estar bem situado para não incorrer em significados menos exatos: é algo acima do tão esforçado e sempre tão menosprezado "cantor da terra" mas um tom abaixo de certa musicalidade hermética que se fecha na técnica e se reprime de emoções. Sem mais partituras vãs, aqui se fala de Dori Caymmi, arranjador de sucesso e cantor de extensão própria e timbre telúrico - e sim, eu sei, a conversa parece se referir mais ao outro Caymmi, seu pai. Todo poder a Dorival pai, mas é que o som de Dori filho me fala mais diretamente às células auditivas, talvez pelo fato de estar mais próximo da minha geração. Ou, dito de outro jeito: me fala de forma diferente e independente do classicismo paterno. Não gosto dessas coletâneas que juntam num mesmo disco os "sucessos" de um determinado artista, mas aqui e ali, por uma questão meramente prática, adquiro uma. E o assunto aqui é precisamente este "Dori Caymmi - O Cantador", que tem o benefício de trazer em 14 faixas "o melhor" do músico, alguma coisa difícil de conseguir de outra maneira, visto que a discografia deste filho de Dorival não é nada fácil de encontrar nas lojas, ainda mais agora nesta era de muitos downloads e poucos produtos físicos à venda. Em Natal, na mais recente temporada de férias, achei num sebo do Beco da Lama um LP de Dorival, original, que comprei com a avidez de quem adquire um stradivarius com número de série. Na casa de Titina e César, botei o bicho pra tocar e quase caio da banqueta em que estava sentado quando ouvi os primeiros versos de "Desafio" ("Éramos eu e um cavalo / No seu galope macio / Pulando cerca de arame, pisando morro de pedra, andando em leito de rio"). Na viagem para Brasília, de carro, não sei como, o disco sumiu. Pra minha sorte, foi lançada essa coletânea que contém, além da canção que até hoje me lembra a adaptação para a televisão do meu romance preferido de Jorge Amado ("Terras do sem fim"), outra brejeirices clássicas e de composição absolutamente perfeita, como "Na ribeira desse rio" e a não menos impressionante "Desenredo", com aquela sua perolada tristeza lusitana a reunir todas as dores do mundo no silêncio das Geraes ("Ê, Minas, ê, Minas / É hora de partir, eu vou / Vou me embora pra bem longe"). 


É como se eu tivesse recuperado o disco original perdido na viagem - mas na verdade eu bem que gostaria de esbarrar nele qualquer dia entre os cacarecos de casa. Só que minha sorte não havia acabado, ou, posso dizer, nossa sorte, caso o leitor se interesse por esse cancioneiro tão sensível e sofisticado em sua aparente simplicidade e saia também em busca de tais discos. Digo tais discos porque o segundo lance de sorte foi o lançamento deste outro "Caymmi", disco que Dori fez com os irmãos Nana e Danilo para lembrar o pai, dando prioridade a canções menos conhecidas. O danado mesmo é chamar de "menos conhecida" qualquer canção de Dorival, dono de tal brejeirice nas veias que qualquer coisa que compunha já saía do violão com cara não diria nem de clássico, mas de algo muito mais ligado à terra que nos habita tanto quanto a habitamos: fosse ela qual fosse, já era uma música com cara de "domínio público" - aqueles coisas tão retocadas em sua exatidão simplificada que à primeira audição soa como cantigas que, transmitidas de geração a geração, têm autoria tão remota quando difícil de descobrir. É uma música de vem dos céus e parece cruzar o corpo, as mãos e o violão de Dorival como um raio benfazejo, diluindo-se numa músicalidade chuvosa que nos molha a todos, brasileiros cientes das nossas mais atávicas origens (basta ouvir a buliçosa "Balaio grande", no pot-pourri de abertura). Não é mesmo por acaso que seu filho Dori, cujos discos infelizmente não se encontram assim-assim nas prateleiras das lojas de CDs que restaram, é pra mim esse mais brejeiro dos músicos da Terra de Santa Cruz.  

*Há estudos antropológicos que explicam a desconfiança mútua entre "brejeiros" e "sertanejos" no cenário paraibano - e este é também um tema predominante no clássico romance "A bagaceira", de José Américo de Almeida". 

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Nas redes da burocracia



A burocracia da Justiça Eleitoral tem sido o maior cabo eleitoral de Marina Silva. Se depender de seus carimbos viciados na velha política, cedo ou tarde todos vamos cair de simpatias pela candidata ex-petista, verde-alternativa e evagélico-sem-ranço. Explico: tenho mais de uma ressalva à maneira como Marina se comporta politicamente desde que deixou o PT à sombra de um explícito ressentimento causado pela opção do partido em priorizar um projeto de distribuição de renda associado ao crescimento econômico do país. Considero a crítica pura de Marina relevante - e estou ciente de que tais ressalvas não partem apenas dela, mas também de figuras como Leonardo Boff, dono das melhores referências quando se trata de analisar a realidade do país e de toda gente. Discordo dos métodos; da defecção e da denúncia que a mim soa fácil; do oposicionismo conveniente. Considero que, dentro do PT - e relevado o inconformismo pessoal decorrente de uma já distante disputa entre ministros de Lula, com ela de um lado e Dilma Houssef de outro - Marina teria mais a acrescentar, legitimidade maior para travar a luta interna tão necessária a que um partido outrora pequeno se mantenha fiel à sua essência uma vez alcançado o poder. 

Esse preâmbulo todo é necessário para situar o real adversário da hora, seja de Marina, do PT, da continuidade desse projeto de país (contestações e avaliações à parte), até mesmo dos outros concorrentes como Aécio e Eduardo Campos: quem está do outro lado do balcão, porque se trata de um balcão tanto literal quanto metafórico, é a Justiça Eleitoral. Numa sentença: os obstáculos burocráticos que a Justiça Eleitoral tem criado para a criação do partido de Marina são ilegítimos diante da demanda social que existe, de fato, para a criação da legenda. Você pode, assim como eu, discordar dos gestos de Marina, torcer a cara para a candidatura dela, achar como muitos que o aspecto de chororô da candidata não é muito alvissareiro, que evidentemente o conteúdo "sonhático" de suas postulações encontra forte obstáculo na real política do país etc etc etc; mas você precisa concordar comigo - que não pretendo votar em Marina para presidente; mas tampouco me encontro em grau de empolgação diante de Dilma - quanto ao fato de que a Justiça Eleitoral está sendo mais rigorosa com ela do que a nova política no horizonte do país admite. Ou tanto quanto compraz, em derradeira instância, àquela mesma real política em processo de vencimento. 

Para algum lugar há de escorrer a energia cidadã que busca se expressar por meio do partido de Marina Silva. Não adianta o instrumento burocrático de uma conferência de assinaturas se interpor. Não lembro de ter visto - prazos e demais figuras à parte - tal rigor quando Kassab foi criar um PSD que, diante de qualquer olhar desprevenido, não encontra um mínimo de demanda social quando comparado à Rede da ex-senadora do Acre. Kassab e PSD fizeram tudo conforme manda o manual, mas que o deus da boa política nos livre de um partido que normativamente está em dia com a papelada mas socialmente se encontra distante da mais elementar noção de cidadania e representatividade.