quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Clássicos do Sopão


Já cansei de dizer que se o Rio Grande do Norte tem um hino informal - e, sendo assim, muito mais próximo ao coração potiguar - há de ser "Royal Cinema", de Tonheca Dantas, músico cujo próprio nome já é uma melodia sentimental-seridoenses por si só. A valsa de Tonheca é o nosso clássico absoluto, nosso canto wagneriano adaptado aos penhascos rajados que demarcam o país do Seridó dentro da nação potiguar. E se faz ainda mais forte, evidente e clarividente quando executada pelo sax de ouro Ivanildo - por sinal, outro nome bastante comum na região, embora o músico aqui destacado, me informa J. Epifânio na contracapa do LP, seja um cearense bem adaptado ao lugar de Poti. 

Retomando: se "Royal Cinema" já é, tocada por qualquer outro, uma bandeira de emoção fincada no peito seridoense-potiguar, ganha estatura ainda maior quanto interpretada  por Ivanildo. E quando a gente vai além e ouve o LP inteiro onde Ivanildo gravou este petardo emotivo de alta concentrabilidade musical, aí então as palavras escapam como as notas que o toca-discos vai depersando como pétalas de papel no ar. O disco inteiro, com sua icônica capa laranja, é um marco da memória, uma liga intuitivo-emocional que congrega toda uma comunidade por um lado, e você com você mesmo por outro. 

No lado A tem esta "Siboney" que o video do YouTube destaca e outros clássicos do bolero latino. Mas tem também a "Rosa" de Pixingiuinha.  E você (digo, eu) quando ouve pela primeira vez a versão de Marisa Monte com arranjo de Ryuichi Sakamoto fica se perguntando porque aquilo soa tão próximo, sem conseguir lembrar, pelo acúmulo e desgaste do HD da cachola, que conhece a música desde muito antes, via Ivanildo, esse nosso didata informal, educador musical cujos discos, por sorte, eram muito populares nas casas do Seridó quando o seu universo musical ainda era uma galáxia confusa em busca de alguma harmonia. E este lado ainda tem "Nada além", de Custódio Mesquita pra coroar a audição. 

O lado B começa animadaço com a gafieira buliçosa "Kazarão", da lavra do próprio Ivanildo, seguida por uma seleção de sambas aberto por um Ataufo de boa cepa ("Leva meu samba"). E fecha com "Royal Cinema", o que faz você virar o disco e ouvir tudo de novo, aprisionado na singeleza maneira e no sentimento dolentemente puro contido nas notas do sax de ouro. Grande disco, vastas memórias. Um clássico definitivo para o Sopão e para muito mais gente, acredito.  

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Imagine se fosse aqui


O cidadão mais rico do planeta sai de casa pra votar e tudo o que encontra são filas. Na zona eleitoral mais abastada do planeta, máquinas de votar movidas a perfuradores medievais que...dão tilt. Na ilha mais platinada da galáxia, o "sistema", acredite, também fica fora do ar. E em lugares mais remotos, embora ainda nos domínios do país mais opulento da via láctea, aparelhos de votação promovem fraudes: você - você não, que é brasileiro e está fora dessa bagunça; eles, os americanos - vota em Obama e a máquina converte sua escolha para... como é mesmo o nome do perdedor? Ou faz o contrário. A ordem dos fatores não importa tanto quanto o efeito em si da fraude operada.  Tudo isso a gente leu nos jornalões ao longo do noticiário sobre as eleições americanas. Sempre, o tempo todo, gritando, implicando ao pé do ouvido, uma variação daquela perguntinha que de tão chata já vai virando piada - o destino de toda implicância associada ao exagero: "imagine se fosse no Brasil".

Se você é do tipo que lê jornal com a tevê ligada, é capaz de ter tido sua leitura atropelada por um muito interessante anúncio de televisão, daqueles que conseguem captar, mais do que qualquer jornalista intelectualmente superequipado, o espírito do momento. Ou, no caso, do futuro - o que é ainda mais difícil: o anúncio da cervejaria Brahma que se diverte em contestar, argumento por argumento, toda a campanha de senso comum sobre o desastre que será a Copa no Brasil, o eterno despreparado. Os anúncios da cerveja rebatem a autodepreciação de quem se julga superior ao país onde vive com afirmações enfáticas e antropologicamente elementares: teremos aeroportos cheios, sim, de torcedores animados; ruas congestionadas também, de brasileiros e estrangeiros vivendo a festa do campeonato. Um colunista na revista Época já havia dito o mesmo, contrariando meio mundo e o resto do que se escreve nessa publicação da editora Globo: que a Copa vai ter sim seu componente de bagunça brazuca, mas que ainda assim será a mais calorosa que já se viu, num evento que poderá até não ter o rigor planejado de um campeonato em terras alemãs, por exemplo, mas vai encantar os estrangeiros com as compensações que temos, como povo e nação, a oferecer em troca. Claro que ele disse tudo isso com outras palavras, mas o sentido era por aí. 

E no entanto não se lê, nas páginas do jornais, nenhum jornalista tendo ataques de indignação diante do sistema eleitoral que rege (?) a votação que escolhe o presidente dos zéua. Aquela síndrome do "a gente não sabermos escolher presidente / a gente não sabemos nem escovar os dentes" que soava divertida nos anos 80 e hoje é só um eco do conservadorismos de rockeiros saudosos da fama jamais é aplicada a qualquer nação do dito primeiro mundo. A gente fala grosso pra denunciar nossas mazelas de estimação, mas não temos gogó algum quando se trata de ficar pelo menos perplexos diante das filas que enfrentaram para votar em Mitt Romey os ricaços de Manhatan, do sistema fora do ar que trucidou a paciência dos velhinhos de Nova York Citi, dos cowboys do interiorzão americano que votaram num candidato só para a máquina registrar a escolha do outro. Imagine se fosse no Brasil. Imagine.

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Filmes tristes



Desde "Coração de luto", também amplamente conhecido como "Churrasquinho de mãe", um filme não me deixava tão triste, abatido, desesperançado. Não importa que, ao final de tantos desencontros, Luiz Gonzaga pai e Luiz Gonzaga filho acabem se entendendo. Encerrada a sessão, impõem-se as sombras do conflito, muito mais do que os clarões do desfecho. Não é que seja ruim, mas "Gonzaga - De pai para filho" é um dos filmes mais tristes dos últimos anos. 

Não é nem que seja melodramático - o que evidentemente ele é, e nem sempre isso é um defeito pra quem, como eu, é chegado ao gênero - mas a carga de infelicidade contida no novo Breno Silveira deixa (pelo menos pra mim; mas ouvi comentários semelhentes de desconhecidos ao deixar a sala) uma espécie de adesivo de sofrimento colado no juízo sentimental de quem o assistiu como poucas vezes acontece. O filme acaba na tela mas o mal estar lhe acompanha pelo resto do dia (pior pra mim que peguei a primeira sessão, às duas da tarde).

É como se "Gonzaga" fosse um melodrama aditivado, a um passo do desfalecimento puro e simples. Nem a participação muito especial de um cômico tarimbado como João Miguel, com aquela cara de nordestino pebado e metido numa enrascada de fazer o cabra se mijar de sufoco, consegue espanar tal  tristeza. Há por aí muito filme cabeça dotado também de uma angústia aniquiladora, coisa muito classuda e distanciada, mas este "Gonzaga" deixa qualquer um no chinelo: é quase sensorial em sua melancolia (e o uso desta palavra, juro, não é uma tentativa pura e simples de citação do filme de Lars Von Trier que eu nem vi; embora tenha visto um outro, também da leva dos filmes de chorar do cineasta nórdico, "Dançando no escuro", estrelado pela cantora pop Björk).

Não deixa de ser sintomático que, na enciclopédia dos filmes tristes brasileiros, este "Gonzaga" rime com ou me faça lembrar, de cara, aquele "Coração de luto": no antigo Teixeirinha, a dor vinha da perda da figura da mãe; neste é a ausência do pai, biológico ou não - não importa, a chave do filme se torce no final para demonstrar. É como se o diretor de "Dois filhos de Francisco" voltasse a assentar os tijolos de uma muralha chamada cinema-popular-sentimental-brasileiro que, a despeito do desprezo blasé de quem não liga mesmo para a comunicação direta com o povão, existe sim, é sólido e, embora fique esquecido durante décadas, quando reaparece demole com uma enxurrada de lágrimas os quebra-mares da mais avançadinha estética cinematográfica a se insinuar nas fitas brazucas.



Uma última nota sobre o filme (veja o trailer acima) vem, claro, da plateia: meus cabelos brancos nunca haviam se sentido tão jovens quanto no lugar onde se reuniram umas 40 pessoas para assistir ao filme sobre Gonzagão e Gonzaguinha. Foi a plateia mais, vá-lá, idosa que já vi na vida. Minto: a plateia de "Coração de luto" que lotava todas as sessões do velho cine Rex, em Parelhas-RN, provavelmente igualava com a deste filme recém-lançado - o que representa uma liga a mais entre as duas produções. Então: "Gonzaga - De pai pra filho" renova a - abaixa aí que lá vai um clichezão de arrepiar os cabelos - "linha evolutiva" do cinema popular brazileiro, atualizando para as plateias atuais o que "Coração de luto" representou. Dá até pra ir um pouquinho mais longe e dizer que se trata de um fenômeno de certo neotropicalismo bem apropriado ao Brasil atual que, enfim, começa a se aceitar como um país multifacetado (como queriam os tropicalistas antes de envelhecerem, certo, bem?). 

Mas tudo isso são elaborações a posteriori quase fúteis diante da tristeza do filme. Por mais que tente, não esqueço a frase que ouvi de uma espectadora ao final da sessão. Acompanhada pela mãe de seus 70 e tantos anos, não pude deixar de reparar quando ela comentou, na mesma sorveteria onde tentava, como eu, adoçar a alma após o amargo da exibição: "Ele (Gonzagão) nunca foi feliz. Teve sucesso mas não a felicidade". Poderia ser uma legenda inscrita no clip final que o filme exibe para mostrar a difícil mas afinal alcançada harmonia entre pai e filho no palco da música e da vida. 

No que este nordestino "Gonzaga" amazônico também estebelece laços com outro afluente do mesmo gênero do cinema popular brasileirão - os títulos de extração espírita. Pois "Gonzaga - De pai pra filho" consegue superar outro campeão de bilheteria, "Nosso lar", em sua saga de dor e sua teimosia em mostrar que, por mais difícil que seja, é irrenunciável a busca do entendimento entre gente desencontrada. A tristeza, diria o compositor quase citado ao longo deste texto, é senhora do filme. E os filmes populares brasileiros parecem cantar: "desde que o cinema é cinema é assim". 

*Abaixo, trecho do primeiro "Coração de luto", que teve uma refilmagem em cores alguns anos depois:



Terra








Com os pés bem firmes no chão do Conjunto Cultural da República, muita gente voou por sobre a Terra. Esse foi o efeito proporcionado pela exposição “A Terra vista do céu”, com as fotos do francês Yann Arthus-Bertrand encavaladas em tamanho ampliado, numa autêntica fila de imagens boiando sobre o pátio de concreto que serve de base ao museu e à biblioteca no centrão de Brasília. São imagens captadas do alto de helicópteros, aviões e – aqui a artimanha mais poética – balões. Panoramas que mostram o chão que pisamos, seja o Rio de Janeiro, um deserto chileno ou uma aldeia no Chade, de uma maneira incomum, sob um ponto de vista às vezes desconcertante, a partir de um olhar quase sempre inesperado. Basta dizer que esse chão, muitas vezes, mostram as fotos, pode não passar de água.

Mas o atrativo não vem apenas pelo fato de se tratar de fotografias captadas do alto – um plano elevado bem pouco fixo, que tanto podia ser o que parecem quilômetros da Terra, a ponto de fazer a imagem lembrar mais um mapa do que uma visão literal; quanto descer a uma distância segura e solidária o bastante para espelhar o encantamento mútuo entre a câmera e um olhar humano de fato aqui embaixo. Mas, dizia-se, o fascínio da distância em altitude é um primeiro atrativo quase irresistível, embora não esgote o interesse de quem contempla as fotos da exposição. Quando isso acontece, o curioso dá lugar ao gregário: é quanto nos pegamos vasculhando a paisagem em busca de algum referencial de dimensão que nos proporcione a medida certa daquelas aparições.

Quase sempre isso acontece quando se vê, em meio à paisagem física, uma intervenção humana – quando não o nosso próprio semelhante nas diversas formas que ele assume conforme a regionalidade enquadrada. E é aqui que “A Terra visto do céu” se faz mais o planeta com que lidamos no chão do dia-a-dia: quando há gente nas fotografias. São poucos, mas, de tão significativos, a pequenez dessa gente nas fotos converte-se em uma estranha forma de gigantismo. Somos imensos nas fotos de Bertrand, embora nelas apareçamos nas mais diminutas dimensões, aquelas que a paisagem requer. Há várias  leituras possíveis para quem se posta diante dos mil e um pôsteres da  mostra que passou semanas atraindo visitantes à Esplanada dos Ministérios em Brasília. Mas entre o libelo ecológico e o registro do quanto belo este planeta ainda pode ser em meio ao nosso desespero ambiental mal administrado, fico com o canto antropológico que as imagens evocam: a Terra vista do céu dá a nossa dimensão de homens, pequenos ou gigantes conforme a estatura do olhar que dirigimos a nós mesmos.

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Joaquim, O Igual



Quantas condenações um homem precisa decretar para sair da condição de inimigo racial para a de reparador-geral da República Multicor Brasileira? Quem assiste ao julgamento do mensalão no STF mal tem dedos suficientes para contar. A eloquência condenatória do ministro Joaquim o eleva, dia após dia, à condição de alma cívica que deixou as catacumbas do silêncio imposto às minorias atrevidas e vai galgando, qual um preconceito apressado a cavalgar um cavalo branco, as alturas do estrelato da conveniência. Tivemos o espetáculo do crescimento e agora temos o show da Justiça. Chegou a hora de passar o Brasil a limpo - e se o primeiro balde de água sanitária queimar as toxinas que o PT espalhou por aí, tanto melhor. Quem quer saber do custo da campanha eleitoral que resultou em dois mandatos que enfim colocariam o país no eixo das possibilidades gerais, inclusive para a minoria cujo representante hoje lhe serve de chicote jurídico?

Sim, ó sim, a Justiça (a brasileira, sobretudo) tem que ser cega, agir numa espécie de escuridão que lhe permite ser tão severa quanto possível for. E é isso o que Joaquim, O Novo Igual entre nós e a imprensa mainstream, tem feito. Só isso: de tanto despolitizar as circunstâncias dos criminosos, termina por repolitizar tudo. Ele e seus pares, beijinhos e carinhos sem fim à parte. Neste caso, um recorte leva ao outro: e não é de estranhar, afinal estamos num país em construção chamado Brasil, cujas fraturas não deixaram de ficar expostas graças a um julgamento transmitido em tempo real. O presente vingativo e espetaculoso da TV Justiça não tira de cartaz o país real que um certo condenado em especial vinha ajudando a refazer. Aguardem as cenas dos próximos capítulos para testar a nova jurisprudência do olho by olho.

Condenados à parte e inocentes abstraídos, emerge de tudo o novo mito vivo chamado Joaquim, O Igual. Diante dele e de sua prédica no julgamento, temos o tempo todo a impressão de estar vivendo dentro de um livro pop-irônico de Tom Wolfe. Nâo há escritor melhor para perfilar, com as cores das contradições mais ofuscantes, o caso do menino pobre reportado pela revista rica que representa o conservadorismo político no Brasil. Somente ele e sua contrarreforma política à maneira do Judiciário para fazer aquela revista rever seus conceitos e colocar a conveniência na frente da parcialidade. Joaquim, O Igual, é o marco zero da Justiça brazuca. Depois dele, nada será como antes. Ele é a cota que cabe, na medida certa admitida pelo atraso esclarecido. Para que todos os brasileiros sejam iguais, é preciso que tenham no mínimo a estatura Dele. Ao menos, claro, na breve eternidade que vai reger o país enquanto Ele durar.

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Revoltas de setembro



 

Inesperadas conexões entre o clima no Planalto Central e a explosão de crises que incendeiam as paixões políticas, aquecendo a já tórrida seca brasiliense
 
Folheando uma enciclopédia de História de papel como não se usa mais editar nem folhear, esbarro numa fotografia que, a despeito de ter sido feita há praticamente 50 anos, parece ter a data de ontem, ou de hoje, ou de amanhã é até possível dizer. A imagem é esta aí acima que ilustra o texto e só de bater o olho a gente identifica nela os anos de chumbo que nos marcaram a História a ferro, tortura e balas. O curioso é que há na impressão causada por esta foto um engano ligado ao tempo histórico – e ao mesmo tempo uma permanência ocasionada pelo tempo climático.

Explico: a solidez do tempo climático vem do fato de, tantos anos depois, Brasília viver ainda sob a mesma atmosfera envolva em brumas quentes daqueles incendiários tempos. Estou falando do clima propriamente dito também, é preciso ressaltar. Ocorre que, a despeito da primeira – e falsa, daqui a pouco se verá – impressão histórica, há na fotografia um fundo igualmente incômodo. Quem não vive ou viveu aqui verá na imagem apenas a violência das armas apontadas para algum lugar no centro do gramado seco da Esplanada dos Ministérios. Mas quem conhece Brasília por nela labutar e deleitar-se na vida corrente do cotidiano implacável verá, muito mais que capacetes, fuzis e tropas prontas a atacar, o rigor de outro exército, o da estiagem periódica que, vê-se na foto – e nem seria preciso ver para certificar-se – por aqui vigora até mesmo em momentos de intensa conflagração histórica.

Se a gente pensar bem, vai notar que à nossa mente arbitrária e subjetiva sempre parece que quando o mundo ou o país ou uma cidade está a se desdobrar nas dores intestinas de uma crise que entrará para os livros o clima atmosférico propriamente dito – ou outras circunstâncias da vida diária, menor, cotidiana – cessam de existir. Ledo engano, como se dizia antigamente, e como comprova a foto que motiva a postagem.

O segundo tópico, referente ao engano histórico, decorre do fato de a data da imagem não coincidir com os períodos mais ferrenhos da repressão militar que caiu sobre o país, sobretudo a partir da decretação do Ato Institucional 5. Pois ocorre que a imagem em questão é um flagrante do “levante dos sargentos”, um fato que é até pré-1964. Deu-se em 1963, nos embates que serviram de preâmbulo ao golpe, e tinha, vejam só, um aspecto bem mais legalista do que supõe a mera visão da foto (ao menos se a gente aspirar do episódio o caráter de quebra de hierarquia militar, mas poupemos o desinteressado leitor atual dos detalhes e minúcias).

Então: a imagem, datada – vejam só, novamente vejam só, de um 11 de setembro, o calendário sempre pronto a nos reservar numerológicas surpresas – mostra um instante da revolta dessa instância hierárquica intermediária do meio militar, nem tanto à cúpula nem totalmente desligada das bases, provocada, à guisa de estopim (que causas, naquele momento pré-deposição de Jango, vinham aos feixes) pelo impedimento da posse de sargentos eleitos para a Câmara Federal naquele princípio da década de 60.

“Em protesto, cerca de 500 sargentos, do Exército, Marinha e Aeronáutica sublevaram-se em Brasília na madrugada do dia 11 de setembro, ocupando os principais centros administrativos e o prédio da Rádio Nacional. Os rebeldes foram dominados em poucas horas, com um saldo de dois mortos”, diz o texto no volume final da série “Nosso Século”, da editora Abril. “O líder do levante dos sargentos, Antônio Prestes de Paula, chegou a ser aclamado pelos civis que se encontravam nas vizinhanças, no intantes em que foi preso. A UNE e o CGT manifestaram seu apoio aos sargentos. O país estava pegando fogo”, diz a enciclopédia histórica, ao que a gente é tentado a acrescentar: “Brasília é que estava pegando fogo”, como acontece em todo setembro, seja qual for – sargentos, mensalão, Lula x mídia – a crise da vez.

*Abaixo, outras imagens do levante com a seca de Brasília de coadjuvante:   
 
 
 

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

A vida na bruma



Acho que foi Luiz Fernando Veríssimo quem disse certa vez que, a despeito da corrupção que alimenta bolsos e jornais, Brasília é a cidade mais transparente do país. Mais que transparente, é ofuscante de tanta luminosidade, a ponto de irritar a visão que busca uma nesga de sombra que seja para descansar os olhos. Que, mesmo com tamanha superexposição, seus prédios privilegiam vidraças, buscam os raios solares, abrem-se à claridade como um inseto noturno se apaixona por um poste de luz. Pois no presente momento, Brasília, quem vê o Jornal Nacional já deve estar sabendo, é tudo menos isso.

Em setembro, quando a seca brasiliense se condensa em névoa , essa cidade é justamente o oposto da claridade – ainda que se mostre curiosamente mais e mais brilhante. Faz-se difícil de enxergar, turva suas tão conhecidas linhas, veste-se de subjetividade visual. Torna-se estranhamente sombria, dotada de um inesperado tipo de meio tom – uma bruma clara que evoca a cegueira branca do livro de Saramago que Fernando Meirelles transpôs para o cinema.

São dias em que Brasília parece uma foto em negativo dos fogs londrinos. Nisso e em tudo o mais, é preciso alertar o espectador distante que a visualiza pelo Jornal Nacional, nossa bruma de cerrado é em tudo diversa ao que aparenta. O tato costuma associar a névoa ao frio e à umidade – e aqui dá-se o oposto. Nossa bruma é o envoltório natural de um grande bafo quente – turbinado pela fumaça das queimadas, claro, e pela poluição concentrada no ar pela falta de chuvas.

Você acorda de manhã, olha pela janela e vê uma branquidão borrada. Tudo fica indefinido,  o plano e seus habitantes, a mata baixa e o traço do arquiteto. E o céu queda-se subtraído do azul habitualmente tão comentado. Tudo queima, irrita, chamusca. Vai-se a transparência. E o cenário urbano fica muito mais propício à má fama da cidade, com a bruma seca protegendo em sombras brancas os lobistas desconfiados entre os blocos da Esplanada dos Ministérios.  
 
É como se Brasília se tornasse o cenário de uma inusitada espécie de filme noir, onde a escuridão das tramas e dos personagens se vestisse de branco, desbravando um novo ambiente para suas tramas recorrentes de roubos, golpes e armadilhas. Antes que a primeira e aguardada chuva dilua essa imprecisão toda com um aguaceiro daqueles e traga de volta nossa luminosidade objetiva que quase cega os olhos do cronista.

* A foto que ilustra o post é de Elza Fiúza/Agência Brasil

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Aquém e além do Paradiso




Giuseppe Tornatore conquistou na maciota uma legião de admiradores com seu cinema memorialístico tipo torrão natal que fazia uma pequena cidade italiana parecer o espelho de um grotão global. Com “Cinema Paradiso” (1988), o cineasta conseguiu, ao mesmo tempo em que fazia uma sentimental ode à sétima arte, realizar também uma espécie de sonho implícito nas memórias de quem nasceu e cresceu no interior – seja da Itália, seja do Brasil. Aquela cidade, aquele cinema, aquele menino e aquele projecionista chamado Alfredo eram a recriação diante de nossos olhos abestalhados de um tempo e lugar onde nós mesmos, integrantes daquelas plateias hipnotizadas, havíamos habitado. Era mais que cinema, chegava a ser uma forma pagã e estética de religião. Um novo cult no cartaz, do tipo instantâneo e definitivo.

Tão cult que naturalmente eclipsou os filmes seguintes de Tornatore, como “O Homem das Estrelas”, “A Lenda do Pianista do Mar” e “Malena”. O primeiro ecoou como um quase natural desdobramento de “Paradiso”. O segundo,  crônica sobre um instrumentista num transatlântico, soou como uma novela literária diante do romance russo que foi o antecessor. O terceiro, no meu caso, nem cheguei a ver – só lembro dele já em vídeo ou DVD, hiato do cinema propriamente dito sempre é um desestímulo. Agora, encontro em Blue Ray a cópia estalando de nova do novo, ou mais recente, “Baarìa” que, pelo aspecto da embalagem e pelo teor dos trechos dos comentários que traz inscritos leva diretamente a “Cinema Paradiso”. Novamente Tornatore retorna à sua aldeia – o que, no caso dele, é quase certo que poderá corresponder à nossa.

Mas também há uma lei não escrita segundo a qual os fenômenos cult não se repetem assim-assim. E foi o que se deu. “Baarìa” é como se fosse “Cinema Paradiso” elevado à enésima potência: cada quadro é de uma composição milimetricamente bela; cada sequencia quase um filme por si só, mesmo com duração de cinco minutos; cada personagem retoca todos os tiques e toques que a gente começou a ver no mais cult filme do diretor; Morricone está de volta na trilha sonora; tem filme dentro do filme de novo, passagem de tempo e seus efeitos novamente, saga familiar outra vez. E no entanto não funciona como funcionou “Cinema Paradiso”.

Obstáculo local
 
A pergunta que fica martelando enquanto você tenta encontrar fruição em meio a tantos elementos é uma só: por que “Baarìa”, sendo visivelmente tão bem mais produzido e com um antecedente bem sucedido que lhe deu todas as coordenadas, não retira do espectador a mesma emoção de “Cinema Paradiso”? Enquanto o filme, demorado – aí pelas três horas que parecem durar cinco, o que já é um obstáculo – não acaba, os palpites vão se colocando entre você que o assiste e suas cenas quase inutilmente tão bem elaboradas. Desta vez, Tornatore se concentrou tanto nas coisas específicas de sua Itália natal que travou aquele elemento que pode fazer de uma obra de arte baseada na emoção local algo universal – um insumo muito particular capaz de fazer com que ao se falar de um quadrado,  componha-se um painel que diz respeito a um mosaico muito maior. Há muito de política interna italiana no filme, algo bem menos compartilhável do que a fruição do cinema em si que era evocada no “Paradiso”.

Para piorar, a estratégia narrativa do filme parte de um modelo que faz estancar os episódios: até a primeira meia hora, o que vemos são belas sequências interrompidas (por belos cortes, interessantes transições, mas nem isso diminui o incômodo) por outras, sem que uma deságue na seguinte. Você tem a impressão de estar assistindo a um conjunto de trailleres de futuros longas de Tornatore – como naquela proposição feita em literatura por outro italiano célebre, Ítalo Calvino (“Se um viajante numa noite de inverno”). No livro de Calvino, isso era a própria base tanto da investigação metaliterária quanto da fruição narrativa pura e simples. No filme de Tornatore – que, naturalmente, a certa altura felizmente abandona essa linguagem gaguejada – o que era para ser uma ilustração torna-se uma aporrinhação.

O resultado é um filme travado, que demora para envolver o espectador, por mais que o esplendor visual de cada sequência se imponha. É como algumas das  minisséries brasileiras feitas por Luiz Fernando Carvalho, como a adaptação de “A Pedra do Reino”: ele busca tanto a epifania audiovisual em cada cena que não consegue obtê-la em praticamente nenhuma, visto que, é sabido e corrente, pra se atingir um estado mínimo de transcendência em um momento da vida e da arte, é preciso muitos outros, anteriores e banais, que lhe sirvam a de contraponto, elevador e trampolim.
 
Caleidoscópico

“Baarìa”, ainda assim, é considerado por muitos críticos – como o nosso brazuca Luiz Carlos Merten, de “O Estado de São Paulo” – como o melhor filme de Tornatore. Eu, do meu canto no fundo desse cinema saturado de opiniões, diria que é o mais caleidoscópico. E que é justamente a ambição desmedia que retira dele o poder de fascinação que teve “Cinema Paradiso”.  O que o filme anterior conseguia da primeira à última cena – sobretudo na última, que também é citada em “Baarìa” – o mais recente até realiza, sim, mas no conjunto mínimo composto por cada sequência.

Como a primeira – que, não se sabe se propositadamente  ou não – cita, vejam só, o “E.T” de Spielberg: o menino que corre tanto pra comprar cigarros pra um adulto que repentinamente vê-se voando – e a gente, na plateia, junto com ele. É uma bela e instigante abertura, embora contaminada pela citação de outro cinema tão diverso, ou justamente por isso. Pena que não sustente este “Baarìa” no ar por inteiro.

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Golpistas



Cada época tem o vilão mais conveniente aos interesses de quem vive de mercantilizar o ódio coletivo


Numa era muito distante, quando um certo José Dirceu não incomodava uma mosca e portanto não tinha motivos para ser tratado como inimigo público número um do país, a moda era odiar os cirurgiões plásticos. Nem os políticos conseguiam tamanha unanimidade ao contrário quanto eles – até porque, naqueles primórdios, o sistema não permitia que houvesse políticos na completa acepção da palavra e no inteiro exercício de suas funções. José Dirceu, aliás, fez o que pode pra mudar isso – mas essa é outra história, com outros personagens. A figura que nos interessa aqui é a do cirurgião plástico, autêntico ou pirata, que assombrou o país nas páginas da revista Manchete ou na escalada do Jornal Nacional. Pois esta semana, ele voltou.

O país que tinha o afamado Ivo Pitanguy tinha também Hosmany Ramos, seu oposto e seu inverso. Tínhamos o médico e o monstro: o primeiro era modelo internacional da medicina estética brazuca e o segundo o golpista que se infiltrou na alta sociedade – veja como o tempo muda as palavras, há quanto tempo você não lia essa expressão “alta sociedade”? – carioca para conquistar prestígio e ocultar sua sina criminosa. Pitanguy nunca deixou de ser clássico, mas Hosmany foi parar na cadeia, de onde, decorridos tantos anos, já deve ter saído. Como nunca mais esquartejou uma cliente com seu bisturi ensandecido, também nunca mais ouvimos falar dele.

Até porque a fila anda e tempos atrás o posto de Hosmany foi tomado por um desses novatos estabanados como costumam ser os iniciantes sem sorte. O nome dele é Marcelo Caron, sua área de atuação fica entre Taguatinga, no Distrito Federal, e Goiânia, com passagens por Campinas, onde especializou-se em golpes financeiros contra o Sistema Único de Saúde. Mas a especialidade mais – digo, menos – reconhecida desse Caron eram  lipoaspirações que faziam a cliente entrar na mesa de operações e de lá passar direto à UTI, com prazo de uns dias para ser transferida ao cemitério. Caron era médico, de fato -  mas não tinha a especialização em cirurgia plástica, hobby pra ele e desgraça para quem o procurava em busca de um tratamento. Acabou tendo o registro de médico cassado e submergindo sob uma montanha de processos criminais.

Esta semana, Caron reapareceu, pasmen, numa blitz policial lá em Canguaretama, RN. Descobriu-se que ele, oficialmente preso em regime semiaberto, “mora” na praia de Pipa, ali pertinho, onde é até dono de uma pousada. No momento da prisão, estava realizando essa atividade tão prosaica pra qualquer um que não é nem cirurgião plástico e muito menos condenado por matar suas pacientes: voltar para casa. O mundo está cheio de pessoas impressionantes, seja por suas qualidade ou seus defeitos, porque tanto uma coisa quanto outra é capaz de chocar pelo menos à primeira vista. Pois tanto quanto Caron voltando pra casa, impressiona o caso do policial rodoviário que o identificou apenas por lembrar das notícias sobre ele na televisão. Caron foi parar na delegacia, mas, soube-se depois, poderá, sim, continuar morando em Pipa, mesmo sendo um preso em regime semiaberto condenado em Goiás. Isso lembra ou não uma novela de Gilberto Braga no horário nobre?

Antes que alguém solte um indignado Brazil-zil-zil, convém lembrar que a ressurreição de figuras como o cirurgião plástico golpista no país da impunidade servindo de roteiro para histórias que nem a ficção criou com tanto apuro não é privilégio aqui de baixo do Equador. Se fosse assim, não haveria casos igualmente bestiais como o de um certo Paolo Gabriele, um sujeito cujas intenções são uma grande interrogação e cujo procedimento vale por um livro de  Dan Brown. Por estes dias, ficamos sabendo que este italiano – que vem a ser, pela função que ocupa, talvez  a mais suspeita pessoa do planeta, pois mais do que um mordomo, é o próprio mordomo do papa – surrupiou uns documentos que comprovam fraudes não na banca de bicho de Carlos Cachoeira ou nos contratos da Delta, mas no próprio Vaticano, tá bom pra você?


Pra gente ver como, sem perceber, perdemos tempo se formos dar bola ao noticiário geral que tenta colocar uma emoção que seja no julgamento do tal mensalão. Enquanto a velha mídia quer provocar torcicolos nos nossos pescoços fazendo a gente olhar na marra para a modorra que tem sido o plenário do STF, temos aí – nesta mesma imprensa, que não pode tudo – histórias como a de Marcelo Caron e Paolo Gabriele, exumando velhos fantasmas dos tempos em que o culpado só podia ser o mordomo, Hosmany Ramos era o fim e também o máximo – e quando um certo José Dirceu estava fazendo o caminho inverso, saindo da clandestinidade que um tempo sem política, no sentido legítimo da palavra,  o obrigou a abraçar.

domingo, 5 de agosto de 2012

Um novo Tom Zé no terreiro



Também sou do clã - inclusive por questões de origem - do missionário teórico-musical Tom Zé, além de fã de Barretão (veja post anterior). E a edição do Globo deste domingo também traz boas novas sobre o bardo assimilado (e também desprezado, embora agora repescado) pelos bianos maiorais do recôncavo. E as tais palavras que estão no jornal são do maioral maior dentre eles. Caetano Veloso bota a viola no saco e mais uma vez se penitencia diante dos farrapos geniais de seu estranho conterrâneo expelido à face da terra entre os pedregulhos da Bahia-sertão. Leiam comigo:

"Como ali, na tese do 'lixo lógico' (é o novo CD de Tom Zé, que a coluna caetaniana analisa) surge a informação séria que se sabe cômica em seu deslocamento. Como pedir cachaça no avião (em 1968: hoje, cachaça, confirmando o profeta Tom Zé, é assunto de presidente dos Estados Unidos). E o tom com que os aspectos sensatos e os aspectos histriônicos são alternada ou concomitatemente revelados é a força artística de Tom Zé. Aqui mostrando-se rica como nunca, nas menções meio ocultas a nomes, timbres e cadência da época. E de agora. Talvez a intensidade com que isso acontece se desva ao tema ser a Tropicália. Diferentemente da bossa nova, a Tropicália é coisa de Tom Zé. Não só ele fez parte do movimento: ele realizou as obras mais ambiciosas no sentido de caracterizá-lo. É como se eu, Gil, Sérgio Dias e Rita Lee tivéssemos cada um partido para algo livre do projeto inicial: Tom Zé ficou com as questões centrais. E a biografia da Tropicália que ele apresenta nessa nova obra tem muito de autobiografia. (...) Essa versão radical da Tropicália como o choque entre uma mente pré-aristotélica e a terceira revolução industrial é fascinante."

Barretão reconstruído



Quem me conhece saber: gosto de Barretão e seus filmes, controvérsias sobre a produção e as mil e uma divisões do cinema brasileiro à parte. No perfil escrito para a edição deste domingo de O Globo, Cora Rónai - ou Cacá Diegues, a ambiguidade do texto não permite identificar precisamente a autoria - tem a felicidade de resumir o nem um pouco pacato cidadão. Leiam comigo:

"Luiz Carlos Barreto foi uma das maiores estrelas jornalísticas de 'O Cruzeiro' -  lembra o cineasta Cacá Diegues. "Ele chegou ao cinema justamente pelo texto (o roteiro de 'Assalto ao Trem Pagador') e pela luz (a fotografia de 'Vidas Secas' - em destaque na foto que ilustra o post). Cearense acariocado, filho de Assis Chateaubriand com o Partido Comunista, de Macunaíma com Padim Ciço, vagou pelos estádios do mundo atrás de Garrincha e Nilton Santos, cobriu cruzeiros chiques e tumultos proletários, flagrou Marilyn e os Kennedy, pescadores e pecadoras, até encontrar, numa longuíqua praia baiana, o cineasta Glauber Rocha com uma câmera na mão e muitas ideias na cabeça. Uma delas era trazer o sertanejo cosmopolita para o seio de uma revolução, chamada Cinema Novo. Não contente em apenas aderir, Luiz Carlos se tornou um de seus líderes mais importantes. O resté é História."

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Ode a Roberto



O grande escândalo do mensalão é a figura de Roberto Jefferson, sozinha. Diante de sua empáfia permanente, desde a era Collor até os dias de STF atuais, a gente é tentado a imaginar o efeito que faria uma espetada de agulha fina na bolha daquela soberba em forma de ser humano. Quando ele era balofo como um factoide dos anos 90, ficava ainda mais fácil: parecia que, ao mínimo atrito entre a ponta do alfinete e a epiderme plastificada da criatura, ouviríamos aquele fuuuuu que anima as crianças e o voo ao infinito e além daquele resto de pele que reside por baixo da vaidade de Roberto Jefferson.

O tempo passou, ele silenciou o plenário da Câmara dos Deputados denunciando o mensalão e, evidentemente, aquela soberba de animador de auditório político de terceira continuou sendo mais e mais inflada. Tanto quanto tenta de todas as maneiras aspirar a substância do que quer que seja José Dirceu, a grande, velha e igualmente soberba imprensa brasileira trata de manter cheinho como um balão de aniversário a figura de Roberto. E ele, claro, faz a sua parte: evoca, como um titereiro de encomenda feita a si mesmo, figuras de outras áreas que lhe confiram a credibilidade audiovisual necessária ao show. Roberto pretende ser algo assim como o Galvão Bueno da política, o Faustão do voto, o Alexandre Garcia da eleição. Mais remotamente, um Flávio Cavalcanti dos bons costumes.

O julgamento no STF vai ser aproximando e Roberto surfa na onda que ele mesmo levanta, com o auxílio fanático da mídia antipetista. É uma foto atrás da outra, um facebook informal retocando a sanha quase evangélica e semipop do autor da denúncia. Até a doença é solidária a essa acepção – enquanto Roberto ignora que o verdadeiro câncer, o tumor que se infiltra e vai necrosando tudo por onde passa, não é o mal em si, mas ele  mesmo. Roberto é essa reprodução incontrolável de células de vaidade e dano político, um germe plantado no coração de um processo de oportunidade e amadurecimento do país que ele quase  conseguiu deter. Milhões de brasileiros teriam sido prejudicados, mas não há uma palavra boa como mensalão para tornar essa evidência algo facilmente assimilável.

Ode a Andressa



Andressa Mendonça é linda, cara, arrogante e suja. Mas o que mais dói é perceber que, espanada de suas circunstâncias eventuais como todo o escândalo em que se meteu com o maridão da hora, o Cachoeira, ela é quase a composição perfeita do ideal de aparência e comportamento em vigor entre certa parte do mulheril atual. Andressa parece um genérico de todas as meninas recém-formadas nos mil e um cursos de Direito em vigor nas faculdades do país. Lembra um avatar das milhares de neoburguesas que consomem o que podem e o que não podem nas lojas de grifes das dasluzes autênticas ou copiadas desta mesmíssima nação. Evoca a neomiss Brasil, a garota de aparente bom-tom e bom gosto – aquela que jamais vai citar qualquer coisa menos ofensiva do que o “Pequeno Príncipe” quando se pergunta qual o seu livro de cabeceira. Andressa Mendonça, pois sim, não está sozinha – e aí é que reside a sua, digo, a nossa, danação coletiva.

Diante de Andressa Mendonça, esteja ela usando pulseiras que custam muito mais do que o rim imprestável do crack man da primeira esquina ou personalíssimas algemas de prata encomendadas a um desingner da PF, a tentação imediata é sair por aí em busca de algo o mais natural possível. Um belo exemplar de moça bicho grilo, por exemplo – o que não vai ser nada fácil. Em frente às fotos de Andressa na banca de jornais, o cérebro busca automaticamente uma compensação naqueles tempos em que mulher bonita tinha alguma coisa a ver com transgressão. Você vê Andressa e pensa em Leila Diniz, é inevitável.

Confrontado com a maneira doce e meiga com que Andressa tenta chantagear um juiz federal – e, ao fim das contas, o faz, mesmo depois de denunciada, como o leitor pode conferir agora mesmo no site da revista (argh) Veja – não há com não sentir saudade dos tempos em que o cúmulo do atrevimento em termos de mulher e comportamento era uma grávida pop star brazuca ir à praia de biquíni. Ou soltar uns palavrões, também. Agora tente o amigo imaginar essa bonequinha de luxo abrasileirada que é Andressa deixando escapar um termo de baixo calão de sua boquinha desejável. Definitivamente, para mulheres como Andressa, desacato à autoridade – ou a quem quer que seja, como o povo brasileiro, a quem ela julga que Cachoeira não causou  mal algum – é algo que se pratica com classe. A mesma classe que explica o fato dessa mulherada que a tem como espelho involuntário andar por aí com bolsas de 5 mil reais a unidade: nada mais proporcional a quem pode, a qualquer momento, precisar dispor de 100 mil pra pagar uma fiança que a permita sair da delegacia para entrar na loja mais próxima e mais cara. Volta, Leila!