quarta-feira, 10 de outubro de 2012
Joaquim, O Igual
Quantas condenações um homem precisa decretar para sair da condição de inimigo racial para a de reparador-geral da República Multicor Brasileira? Quem assiste ao julgamento do mensalão no STF mal tem dedos suficientes para contar. A eloquência condenatória do ministro Joaquim o eleva, dia após dia, à condição de alma cívica que deixou as catacumbas do silêncio imposto às minorias atrevidas e vai galgando, qual um preconceito apressado a cavalgar um cavalo branco, as alturas do estrelato da conveniência. Tivemos o espetáculo do crescimento e agora temos o show da Justiça. Chegou a hora de passar o Brasil a limpo - e se o primeiro balde de água sanitária queimar as toxinas que o PT espalhou por aí, tanto melhor. Quem quer saber do custo da campanha eleitoral que resultou em dois mandatos que enfim colocariam o país no eixo das possibilidades gerais, inclusive para a minoria cujo representante hoje lhe serve de chicote jurídico?
Sim, ó sim, a Justiça (a brasileira, sobretudo) tem que ser cega, agir numa espécie de escuridão que lhe permite ser tão severa quanto possível for. E é isso o que Joaquim, O Novo Igual entre nós e a imprensa mainstream, tem feito. Só isso: de tanto despolitizar as circunstâncias dos criminosos, termina por repolitizar tudo. Ele e seus pares, beijinhos e carinhos sem fim à parte. Neste caso, um recorte leva ao outro: e não é de estranhar, afinal estamos num país em construção chamado Brasil, cujas fraturas não deixaram de ficar expostas graças a um julgamento transmitido em tempo real. O presente vingativo e espetaculoso da TV Justiça não tira de cartaz o país real que um certo condenado em especial vinha ajudando a refazer. Aguardem as cenas dos próximos capítulos para testar a nova jurisprudência do olho by olho.
Condenados à parte e inocentes abstraídos, emerge de tudo o novo mito vivo chamado Joaquim, O Igual. Diante dele e de sua prédica no julgamento, temos o tempo todo a impressão de estar vivendo dentro de um livro pop-irônico de Tom Wolfe. Nâo há escritor melhor para perfilar, com as cores das contradições mais ofuscantes, o caso do menino pobre reportado pela revista rica que representa o conservadorismo político no Brasil. Somente ele e sua contrarreforma política à maneira do Judiciário para fazer aquela revista rever seus conceitos e colocar a conveniência na frente da parcialidade. Joaquim, O Igual, é o marco zero da Justiça brazuca. Depois dele, nada será como antes. Ele é a cota que cabe, na medida certa admitida pelo atraso esclarecido. Para que todos os brasileiros sejam iguais, é preciso que tenham no mínimo a estatura Dele. Ao menos, claro, na breve eternidade que vai reger o país enquanto Ele durar.
quarta-feira, 19 de setembro de 2012
Revoltas de setembro
Inesperadas conexões entre o clima no Planalto Central e a explosão de crises que incendeiam as paixões políticas, aquecendo a já tórrida seca brasiliense
Folheando
uma enciclopédia de História de papel como não se usa mais editar nem folhear, esbarro
numa fotografia que, a despeito de ter sido feita há praticamente 50 anos,
parece ter a data de ontem, ou de hoje, ou de amanhã é até possível dizer. A
imagem é esta aí acima que ilustra o texto e só de bater o olho a gente
identifica nela os anos de chumbo que nos marcaram a História a ferro, tortura
e balas. O curioso é que há na impressão causada por esta foto um engano ligado
ao tempo histórico – e ao mesmo tempo uma permanência ocasionada pelo tempo
climático.
Se a gente
pensar bem, vai notar que à nossa mente arbitrária e subjetiva sempre parece
que quando o mundo ou o país ou uma cidade está a se desdobrar nas dores
intestinas de uma crise que entrará para os livros o clima atmosférico
propriamente dito – ou outras circunstâncias da vida diária, menor, cotidiana –
cessam de existir. Ledo engano, como se dizia antigamente, e como comprova a
foto que motiva a postagem.
O segundo
tópico, referente ao engano histórico, decorre do fato de a data da imagem não
coincidir com os períodos mais ferrenhos da repressão militar que caiu sobre o
país, sobretudo a partir da decretação do Ato Institucional 5. Pois ocorre que
a imagem em questão é um flagrante do “levante dos sargentos”, um fato que é
até pré-1964. Deu-se em 1963, nos embates que serviram de preâmbulo ao golpe, e
tinha, vejam só, um aspecto bem mais legalista do que supõe a mera visão da
foto (ao menos se a gente aspirar do episódio o caráter de quebra de hierarquia
militar, mas poupemos o desinteressado leitor atual dos detalhes e minúcias).
Então: a
imagem, datada – vejam só, novamente vejam só, de um 11 de setembro, o
calendário sempre pronto a nos reservar numerológicas surpresas – mostra um
instante da revolta dessa instância hierárquica intermediária do meio militar, nem
tanto à cúpula nem totalmente desligada das bases, provocada, à guisa de estopim
(que causas, naquele momento pré-deposição de Jango, vinham aos feixes) pelo
impedimento da posse de sargentos eleitos para a Câmara Federal naquele
princípio da década de 60.
“Em
protesto, cerca de 500 sargentos, do Exército, Marinha e Aeronáutica
sublevaram-se em Brasília na madrugada do dia 11 de setembro, ocupando os
principais centros administrativos e o prédio da Rádio Nacional. Os rebeldes
foram dominados em poucas horas, com um saldo de dois mortos”, diz o texto no
volume final da série “Nosso Século”, da editora Abril. “O líder do levante dos
sargentos, Antônio Prestes de Paula, chegou a ser aclamado pelos civis que se
encontravam nas vizinhanças, no intantes em que foi preso. A UNE e o CGT
manifestaram seu apoio aos sargentos. O país estava pegando fogo”, diz a
enciclopédia histórica, ao que a gente é tentado a acrescentar: “Brasília é que
estava pegando fogo”, como acontece em todo setembro, seja qual for –
sargentos, mensalão, Lula x mídia – a crise da vez.
*Abaixo,
outras imagens do levante com a seca de Brasília de coadjuvante:
sexta-feira, 14 de setembro de 2012
A vida na bruma
Acho que foi
Luiz Fernando Veríssimo quem disse certa vez que, a despeito da corrupção que
alimenta bolsos e jornais, Brasília é a cidade mais transparente do país. Mais
que transparente, é ofuscante de tanta luminosidade, a ponto de irritar a visão
que busca uma nesga de sombra que seja para descansar os olhos. Que, mesmo com
tamanha superexposição, seus prédios privilegiam vidraças, buscam os raios
solares, abrem-se à claridade como um inseto noturno se apaixona por um poste
de luz. Pois no presente momento, Brasília, quem vê o Jornal Nacional já deve
estar sabendo, é tudo menos isso.
Em setembro,
quando a seca brasiliense se condensa em névoa , essa cidade é justamente o
oposto da claridade – ainda que se mostre curiosamente mais e mais brilhante. Faz-se
difícil de enxergar, turva suas tão conhecidas linhas, veste-se de
subjetividade visual. Torna-se estranhamente sombria, dotada de um inesperado
tipo de meio tom – uma bruma clara que evoca a cegueira branca do livro de
Saramago que Fernando Meirelles transpôs para o cinema.
São dias em
que Brasília parece uma foto em negativo dos fogs londrinos. Nisso e em tudo o
mais, é preciso alertar o espectador distante que a visualiza pelo Jornal
Nacional, nossa bruma de cerrado é em tudo diversa ao que aparenta. O tato
costuma associar a névoa ao frio e à umidade – e aqui dá-se o oposto. Nossa bruma
é o envoltório natural de um grande bafo quente – turbinado pela fumaça das queimadas,
claro, e pela poluição concentrada no ar pela falta de chuvas.
Você acorda
de manhã, olha pela janela e vê uma branquidão borrada. Tudo fica indefinido, o plano e seus habitantes, a mata baixa e o
traço do arquiteto. E o céu queda-se subtraído do azul habitualmente tão
comentado. Tudo queima, irrita, chamusca. Vai-se a transparência. E o cenário
urbano fica muito mais propício à má fama da cidade, com a bruma seca protegendo
em sombras brancas os lobistas desconfiados entre os blocos da Esplanada dos
Ministérios.
É como se Brasília se
tornasse o cenário de uma inusitada espécie de filme noir, onde a escuridão das
tramas e dos personagens se vestisse de branco, desbravando um novo ambiente
para suas tramas recorrentes de roubos, golpes e armadilhas. Antes que a
primeira e aguardada chuva dilua essa imprecisão toda com um aguaceiro daqueles
e traga de volta nossa luminosidade objetiva que quase cega os olhos do
cronista.
* A foto que ilustra o post é de Elza Fiúza/Agência Brasil
* A foto que ilustra o post é de Elza Fiúza/Agência Brasil
quinta-feira, 6 de setembro de 2012
Aquém e além do Paradiso
Giuseppe Tornatore conquistou na maciota uma legião de admiradores com seu cinema memorialístico tipo torrão natal que fazia uma pequena cidade italiana parecer o espelho de um grotão global. Com “Cinema Paradiso” (1988), o cineasta conseguiu, ao mesmo tempo em que fazia uma sentimental ode à sétima arte, realizar também uma espécie de sonho implícito nas memórias de quem nasceu e cresceu no interior – seja da Itália, seja do Brasil. Aquela cidade, aquele cinema, aquele menino e aquele projecionista chamado Alfredo eram a recriação diante de nossos olhos abestalhados de um tempo e lugar onde nós mesmos, integrantes daquelas plateias hipnotizadas, havíamos habitado. Era mais que cinema, chegava a ser uma forma pagã e estética de religião. Um novo cult no cartaz, do tipo instantâneo e definitivo.
Tão cult que
naturalmente eclipsou os filmes seguintes de Tornatore, como “O Homem das
Estrelas”, “A Lenda do Pianista do Mar” e “Malena”. O primeiro ecoou como um
quase natural desdobramento de “Paradiso”. O segundo, crônica sobre um instrumentista num
transatlântico, soou como uma novela literária diante do romance russo que foi
o antecessor. O terceiro, no meu caso, nem cheguei a ver – só lembro dele já em
vídeo ou DVD, hiato do cinema propriamente dito sempre é um desestímulo. Agora,
encontro em Blue Ray a cópia estalando de nova do novo, ou mais recente,
“Baarìa” que, pelo aspecto da embalagem e pelo teor dos trechos dos comentários
que traz inscritos leva diretamente a “Cinema Paradiso”. Novamente Tornatore
retorna à sua aldeia – o que, no caso dele, é quase certo que poderá
corresponder à nossa.
Mas também
há uma lei não escrita segundo a qual os fenômenos cult não se repetem
assim-assim. E foi o que se deu. “Baarìa” é como se fosse “Cinema Paradiso”
elevado à enésima potência: cada quadro é de uma composição milimetricamente
bela; cada sequencia quase um filme por si só, mesmo com duração de cinco
minutos; cada personagem retoca todos os tiques e toques que a gente começou a
ver no mais cult filme do diretor; Morricone está de volta na trilha sonora;
tem filme dentro do filme de novo, passagem de tempo e seus efeitos novamente,
saga familiar outra vez. E no entanto não funciona como funcionou “Cinema
Paradiso”.
Obstáculo local
A pergunta
que fica martelando enquanto você tenta encontrar fruição em meio a tantos
elementos é uma só: por que “Baarìa”, sendo visivelmente tão bem mais produzido
e com um antecedente bem sucedido que lhe deu todas as coordenadas, não retira
do espectador a mesma emoção de “Cinema Paradiso”? Enquanto o filme, demorado –
aí pelas três horas que parecem durar cinco, o que já é um obstáculo – não
acaba, os palpites vão se colocando entre você que o assiste e suas cenas quase
inutilmente tão bem elaboradas. Desta vez, Tornatore se concentrou tanto nas
coisas específicas de sua Itália natal que travou aquele elemento que pode
fazer de uma obra de arte baseada na emoção local algo universal – um insumo
muito particular capaz de fazer com que ao se falar de um quadrado, componha-se um painel que diz respeito a um
mosaico muito maior. Há muito de política interna italiana no filme, algo bem
menos compartilhável do que a fruição do cinema em si que era evocada no
“Paradiso”.
Para piorar, a estratégia narrativa do filme parte de um modelo que faz estancar os episódios: até a primeira meia hora, o que vemos são belas sequências interrompidas (por belos cortes, interessantes transições, mas nem isso diminui o incômodo) por outras, sem que uma deságue na seguinte. Você tem a impressão de estar assistindo a um conjunto de trailleres de futuros longas de Tornatore – como naquela proposição feita em literatura por outro italiano célebre, Ítalo Calvino (“Se um viajante numa noite de inverno”). No livro de Calvino, isso era a própria base tanto da investigação metaliterária quanto da fruição narrativa pura e simples. No filme de Tornatore – que, naturalmente, a certa altura felizmente abandona essa linguagem gaguejada – o que era para ser uma ilustração torna-se uma aporrinhação.
O resultado
é um filme travado, que demora para envolver o espectador, por mais que o
esplendor visual de cada sequência se imponha. É como algumas das minisséries brasileiras feitas por Luiz
Fernando Carvalho, como a adaptação de “A Pedra do Reino”: ele busca tanto a
epifania audiovisual em cada cena que não consegue obtê-la em praticamente
nenhuma, visto que, é sabido e corrente, pra se atingir um estado mínimo de
transcendência em um momento da vida e da arte, é preciso muitos outros,
anteriores e banais, que lhe sirvam a de contraponto, elevador e trampolim.
“Baarìa”, ainda assim, é considerado por muitos críticos – como o nosso brazuca Luiz Carlos Merten, de “O Estado de São Paulo” – como o melhor filme de Tornatore. Eu, do meu canto no fundo desse cinema saturado de opiniões, diria que é o mais caleidoscópico. E que é justamente a ambição desmedia que retira dele o poder de fascinação que teve “Cinema Paradiso”. O que o filme anterior conseguia da primeira à última cena – sobretudo na última, que também é citada em “Baarìa” – o mais recente até realiza, sim, mas no conjunto mínimo composto por cada sequência.
Como a
primeira – que, não se sabe se propositadamente ou não – cita, vejam só, o “E.T” de Spielberg:
o menino que corre tanto pra comprar cigarros pra um adulto que repentinamente
vê-se voando – e a gente, na plateia, junto com ele. É uma bela e instigante
abertura, embora contaminada pela citação de outro cinema tão diverso, ou
justamente por isso. Pena que não sustente este “Baarìa” no ar por inteiro.
quarta-feira, 15 de agosto de 2012
Golpistas
Cada época tem o vilão mais conveniente aos interesses de quem vive de mercantilizar o ódio coletivo
Numa era
muito distante, quando um certo José Dirceu não incomodava uma mosca e portanto
não tinha motivos para ser tratado como inimigo público número um do país, a moda
era odiar os cirurgiões plásticos. Nem os políticos conseguiam tamanha
unanimidade ao contrário quanto eles – até porque, naqueles primórdios, o
sistema não permitia que houvesse políticos na completa acepção da palavra e no
inteiro exercício de suas funções. José Dirceu, aliás, fez o que pode pra mudar
isso – mas essa é outra história, com outros personagens. A figura que nos
interessa aqui é a do cirurgião plástico, autêntico ou pirata, que assombrou o
país nas páginas da revista Manchete ou na escalada do Jornal Nacional. Pois
esta semana, ele voltou.
O país que
tinha o afamado Ivo Pitanguy tinha também Hosmany Ramos, seu oposto e seu
inverso. Tínhamos o médico e o monstro: o primeiro era modelo internacional da
medicina estética brazuca e o segundo o golpista que se infiltrou na alta
sociedade – veja como o tempo muda as palavras, há quanto tempo você não lia
essa expressão “alta sociedade”? – carioca para conquistar prestígio e ocultar
sua sina criminosa. Pitanguy nunca deixou de ser clássico, mas Hosmany foi
parar na cadeia, de onde, decorridos tantos anos, já deve ter saído. Como nunca
mais esquartejou uma cliente com seu bisturi ensandecido, também nunca mais
ouvimos falar dele.
Até porque a
fila anda e tempos atrás o posto de Hosmany foi tomado por um desses novatos
estabanados como costumam ser os iniciantes sem sorte. O nome dele é Marcelo
Caron, sua área de atuação fica entre Taguatinga, no Distrito Federal, e
Goiânia, com passagens por Campinas, onde especializou-se em golpes financeiros
contra o Sistema Único de Saúde. Mas a especialidade mais – digo, menos –
reconhecida desse Caron eram lipoaspirações que faziam a cliente entrar na
mesa de operações e de lá passar direto à UTI, com prazo de uns dias para ser
transferida ao cemitério. Caron era médico, de fato - mas não tinha a especialização em cirurgia
plástica, hobby pra ele e desgraça para quem o procurava em busca de um
tratamento. Acabou tendo o registro de médico cassado e submergindo sob uma
montanha de processos criminais.
Esta semana,
Caron reapareceu, pasmen, numa blitz policial lá em Canguaretama, RN.
Descobriu-se que ele, oficialmente preso em regime semiaberto, “mora” na praia
de Pipa, ali pertinho, onde é até dono de uma pousada. No momento da prisão,
estava realizando essa atividade tão prosaica pra qualquer um que não é nem
cirurgião plástico e muito menos condenado por matar suas pacientes: voltar
para casa. O mundo está cheio de pessoas impressionantes, seja por suas
qualidade ou seus defeitos, porque tanto uma coisa quanto outra é capaz de
chocar pelo menos à primeira vista. Pois tanto quanto Caron voltando pra casa,
impressiona o caso do policial rodoviário que o identificou apenas por lembrar
das notícias sobre ele na televisão. Caron foi parar na delegacia, mas,
soube-se depois, poderá, sim, continuar morando em Pipa, mesmo sendo um preso
em regime semiaberto condenado em Goiás. Isso lembra ou não uma novela de
Gilberto Braga no horário nobre?
Antes que
alguém solte um indignado Brazil-zil-zil, convém lembrar que a ressurreição de
figuras como o cirurgião plástico golpista no país da impunidade servindo de
roteiro para histórias que nem a ficção criou com tanto apuro não é privilégio
aqui de baixo do Equador. Se fosse assim, não haveria casos igualmente bestiais
como o de um certo Paolo Gabriele, um sujeito cujas intenções são uma grande
interrogação e cujo procedimento vale por um livro de Dan Brown. Por estes dias, ficamos sabendo que
este italiano – que vem a ser, pela função que ocupa, talvez a mais suspeita pessoa do planeta, pois mais
do que um mordomo, é o próprio mordomo do papa – surrupiou uns documentos que
comprovam fraudes não na banca de bicho de Carlos Cachoeira ou nos contratos da
Delta, mas no próprio Vaticano, tá bom pra você?
Pra gente
ver como, sem perceber, perdemos tempo se formos dar bola ao noticiário geral
que tenta colocar uma emoção que seja no julgamento do tal mensalão. Enquanto a
velha mídia quer provocar torcicolos nos nossos pescoços fazendo a gente olhar
na marra para a modorra que tem sido o plenário do STF, temos aí – nesta mesma
imprensa, que não pode tudo – histórias como a de Marcelo Caron e Paolo Gabriele,
exumando velhos fantasmas dos tempos em que o culpado só podia ser o mordomo, Hosmany Ramos era o fim e também o máximo
– e quando um certo José Dirceu estava fazendo o caminho inverso, saindo da
clandestinidade que um tempo sem política, no sentido legítimo da palavra, o obrigou a abraçar.
domingo, 5 de agosto de 2012
Um novo Tom Zé no terreiro
Também sou do clã - inclusive por questões de origem - do missionário teórico-musical Tom Zé, além de fã de Barretão (veja post anterior). E a edição do Globo deste domingo também traz boas novas sobre o bardo assimilado (e também desprezado, embora agora repescado) pelos bianos maiorais do recôncavo. E as tais palavras que estão no jornal são do maioral maior dentre eles. Caetano Veloso bota a viola no saco e mais uma vez se penitencia diante dos farrapos geniais de seu estranho conterrâneo expelido à face da terra entre os pedregulhos da Bahia-sertão. Leiam comigo:
"Como ali, na tese do 'lixo lógico' (é o novo CD de Tom Zé, que a coluna caetaniana analisa) surge a informação séria que se sabe cômica em seu deslocamento. Como pedir cachaça no avião (em 1968: hoje, cachaça, confirmando o profeta Tom Zé, é assunto de presidente dos Estados Unidos). E o tom com que os aspectos sensatos e os aspectos histriônicos são alternada ou concomitatemente revelados é a força artística de Tom Zé. Aqui mostrando-se rica como nunca, nas menções meio ocultas a nomes, timbres e cadência da época. E de agora. Talvez a intensidade com que isso acontece se desva ao tema ser a Tropicália. Diferentemente da bossa nova, a Tropicália é coisa de Tom Zé. Não só ele fez parte do movimento: ele realizou as obras mais ambiciosas no sentido de caracterizá-lo. É como se eu, Gil, Sérgio Dias e Rita Lee tivéssemos cada um partido para algo livre do projeto inicial: Tom Zé ficou com as questões centrais. E a biografia da Tropicália que ele apresenta nessa nova obra tem muito de autobiografia. (...) Essa versão radical da Tropicália como o choque entre uma mente pré-aristotélica e a terceira revolução industrial é fascinante."
Barretão reconstruído
Quem me conhece saber: gosto de Barretão e seus filmes, controvérsias sobre a produção e as mil e uma divisões do cinema brasileiro à parte. No perfil escrito para a edição deste domingo de O Globo, Cora Rónai - ou Cacá Diegues, a ambiguidade do texto não permite identificar precisamente a autoria - tem a felicidade de resumir o nem um pouco pacato cidadão. Leiam comigo:
"Luiz Carlos Barreto foi uma das maiores estrelas jornalísticas de 'O Cruzeiro' - lembra o cineasta Cacá Diegues. "Ele chegou ao cinema justamente pelo texto (o roteiro de 'Assalto ao Trem Pagador') e pela luz (a fotografia de 'Vidas Secas' - em destaque na foto que ilustra o post). Cearense acariocado, filho de Assis Chateaubriand com o Partido Comunista, de Macunaíma com Padim Ciço, vagou pelos estádios do mundo atrás de Garrincha e Nilton Santos, cobriu cruzeiros chiques e tumultos proletários, flagrou Marilyn e os Kennedy, pescadores e pecadoras, até encontrar, numa longuíqua praia baiana, o cineasta Glauber Rocha com uma câmera na mão e muitas ideias na cabeça. Uma delas era trazer o sertanejo cosmopolita para o seio de uma revolução, chamada Cinema Novo. Não contente em apenas aderir, Luiz Carlos se tornou um de seus líderes mais importantes. O resté é História."
quarta-feira, 1 de agosto de 2012
Ode a Roberto
O grande
escândalo do mensalão é a figura de Roberto Jefferson, sozinha. Diante de sua
empáfia permanente, desde a era Collor até os dias de STF atuais, a gente é
tentado a imaginar o efeito que faria uma espetada de agulha fina na bolha
daquela soberba em forma de ser humano. Quando ele era balofo como um factoide dos
anos 90, ficava ainda mais fácil: parecia que, ao mínimo atrito entre a ponta
do alfinete e a epiderme plastificada da criatura, ouviríamos aquele fuuuuu que
anima as crianças e o voo ao infinito e além daquele resto de pele que reside
por baixo da vaidade de Roberto Jefferson.
O tempo
passou, ele silenciou o plenário da Câmara dos Deputados denunciando o mensalão
e, evidentemente, aquela soberba de animador de auditório político de terceira
continuou sendo mais e mais inflada. Tanto quanto tenta de todas as maneiras
aspirar a substância do que quer que seja José Dirceu, a grande, velha e
igualmente soberba imprensa brasileira trata de manter cheinho como um balão de
aniversário a figura de Roberto. E ele, claro, faz a sua parte: evoca, como um
titereiro de encomenda feita a si mesmo, figuras de outras áreas que lhe
confiram a credibilidade audiovisual necessária ao show. Roberto pretende ser
algo assim como o Galvão Bueno da política, o Faustão do voto, o Alexandre
Garcia da eleição. Mais remotamente, um Flávio Cavalcanti dos bons costumes.
O julgamento no STF vai ser aproximando e Roberto surfa na onda que ele mesmo levanta, com o auxílio fanático da mídia antipetista. É uma foto atrás da outra, um facebook informal retocando a sanha quase evangélica e semipop do autor da denúncia. Até a doença é solidária a essa acepção – enquanto Roberto ignora que o verdadeiro câncer, o tumor que se infiltra e vai necrosando tudo por onde passa, não é o mal em si, mas ele mesmo. Roberto é essa reprodução incontrolável de células de vaidade e dano político, um germe plantado no coração de um processo de oportunidade e amadurecimento do país que ele quase conseguiu deter. Milhões de brasileiros teriam sido prejudicados, mas não há uma palavra boa como mensalão para tornar essa evidência algo facilmente assimilável.
Ode a Andressa
Andressa Mendonça é linda, cara, arrogante e suja. Mas o que mais dói é perceber que, espanada de suas circunstâncias eventuais como todo o escândalo em que se meteu com o maridão da hora, o Cachoeira, ela é quase a composição perfeita do ideal de aparência e comportamento em vigor entre certa parte do mulheril atual. Andressa parece um genérico de todas as meninas recém-formadas nos mil e um cursos de Direito em vigor nas faculdades do país. Lembra um avatar das milhares de neoburguesas que consomem o que podem e o que não podem nas lojas de grifes das dasluzes autênticas ou copiadas desta mesmíssima nação. Evoca a neomiss Brasil, a garota de aparente bom-tom e bom gosto – aquela que jamais vai citar qualquer coisa menos ofensiva do que o “Pequeno Príncipe” quando se pergunta qual o seu livro de cabeceira. Andressa Mendonça, pois sim, não está sozinha – e aí é que reside a sua, digo, a nossa, danação coletiva.
Diante de Andressa Mendonça, esteja ela usando pulseiras que custam muito mais do que o rim imprestável do crack man da primeira esquina ou personalíssimas algemas de prata encomendadas a um desingner da PF, a tentação imediata é sair por aí em busca de algo o mais natural possível. Um belo exemplar de moça bicho grilo, por exemplo – o que não vai ser nada fácil. Em frente às fotos de Andressa na banca de jornais, o cérebro busca automaticamente uma compensação naqueles tempos em que mulher bonita tinha alguma coisa a ver com transgressão. Você vê Andressa e pensa em Leila Diniz, é inevitável.
Confrontado com a maneira doce e meiga com que Andressa tenta chantagear um juiz federal – e, ao fim das contas, o faz, mesmo depois de denunciada, como o leitor pode conferir agora mesmo no site da revista (argh) Veja – não há com não sentir saudade dos tempos em que o cúmulo do atrevimento em termos de mulher e comportamento era uma grávida pop star brazuca ir à praia de biquíni. Ou soltar uns palavrões, também. Agora tente o amigo imaginar essa bonequinha de luxo abrasileirada que é Andressa deixando escapar um termo de baixo calão de sua boquinha desejável. Definitivamente, para mulheres como Andressa, desacato à autoridade – ou a quem quer que seja, como o povo brasileiro, a quem ela julga que Cachoeira não causou mal algum – é algo que se pratica com classe. A mesma classe que explica o fato dessa mulherada que a tem como espelho involuntário andar por aí com bolsas de 5 mil reais a unidade: nada mais proporcional a quem pode, a qualquer momento, precisar dispor de 100 mil pra pagar uma fiança que a permita sair da delegacia para entrar na loja mais próxima e mais cara. Volta, Leila!
terça-feira, 31 de julho de 2012
A pastoral da prefeita
Micarla de Souza, prefeita de Natal, é o oposto de Lula, aquele outro: sua impopularidade nunca consegue ser menor que 90%. É um caso clássico de alguém que vai não do zero ao cem, mas do cem ao zero – convém nunca esquecer que a garota foi eleita para comandar a capital potiguar num surto de celebridade aguda que assaltou a cidade quase toda num primeiro turno de péssima memória. Hoje, se você virar para a primeira pessoa que encontrar na cidade e perguntar em quem ela votou pra prefeito na última eleição, quase todo mundo vai dizer que não lembra, vai comentar o clima, vai escolher um buraco entre tantos para reclamar do descaso, essas trivialidades. Mas nada disso é novidade – incluindo a vertiginosa queda nos índices de simpatia angariados ou não pela prefeita em final de mandato. A novidade é o óbvio: Micarla vai trocar a política pela religião. Sai a prefeita, entra a pastora Micarla. No caso dela, soa coerente, natural, inevitável.
Mas vamos por parte: admito que simpatizei com Micarla quando ela, no meio do mandato e já adernando no quesito aprovação, exibiu-se aos jornalistas sendo batizada num ritual evangélico. Foi um festival de reprimendas, um banho de reprovação elegante, um afogamento de críticas. Todo mundo achou o fim da picada a borboleta se molhar nas águas mais que populistas dos ramos religiosos evangélicos para tentar salvar o que restava de sua imagem ressecada pela inoperância. O próprio ritual, com sua liturgia meio antigo testamento, soava desagradável para uma cidade onde o cartaz é o sol, o mar, o turismo pop sem aparentes ranços medievais. Pois me deu dó: lembrei da forma empolada e ritual – mais de um ritualismo diverso, de outro tipo de veneração – que a gente cansou de ver nos jornais locais quando, por exemplo, Vilma Maia ia a uma missa especial na nova catedral. Soava distinto, elegante, correto. Vilma, Gari, Henrique, Agripino, Geraldo Melo ou quem seja ganhavam uns pontinhos a mais na reputação quando submetiam sua popularidade política a uma horinha diante do arcebispo em vigor. Ninguém achava brega, tosco, ridículo.
Mas eu vou lhe dizer: como é difícil defender Micarla! Porque agora, justamente nesse instantinho em que ela capturou minha simpatia, ainda que apenas por comparação com os demais políticos do estado (fora, que eu saiba, Fernando Mineiro, que sabe polir sua antipatia aparente como ninguém; e neste ponto está muito certo ele), vem a notícia de que pretende, uma vez longe da prefeitura (ufa) trazer pra Natal um novo ramo evangélico. Tomara que dê muito trabalho e ela não tenha tempo pra mais nada. Mas se o critério para aquilatar por antecipação o número de seguidores for o da política, vai ser difícil. Só resta um consolo para a futura ex-prefeita de desevangélica memória: a triste mas realista análise feita por Ciro Gomes (calma, que a conexão se restabelece já já) numa entrevista que vi noite dessas na TV União, lá deles. Disse Ciro, daquela maneira incidental mas sempre enfática com que constrói seus raciocínios, que infelizmente parte do povo está canalizando para as igrejas evangélicas uma expectativa de melhoria de vida e de reorganização social que pertence, por natureza, à política. Política no sentido amplo e não no desprezível que, no lugar de resultar em crítica como aparentemente se pretende, ao fim e ao cabo termina em anulação da cidadania feita em nível consciente por quem precisa disso ou em escala de otário pra quem acha que está abafando. E foi pensando que estava abafando que mais de 60 por cento dos natalenses elegeram a futura pastora Micarla para “tomar conta de Natal”, só pra usar uma expressão bem apropriada a quem pensa política de um jeito que não faz justiça à completa acepção da palavra.
sábado, 28 de julho de 2012
Fórmula Midway
Natal pode até ser excluída da Copa, a se confirmarem determinadas previsões e certa torcida-contra, se afinal a Arena das Dunas não ficar pronta a tempo de receber o evento esportivo mundial de 2014. Mas desde já não existem motivos para lamentações: Natal já tem, e pode se jactar disso, uma das mais modernas, revolucionárias, criativas e espetaculares arenas esportivas de todo o planeta. Só muda o esporte. Sai o futebol, entra o automobilismo. O que se quer dizer aqui, sem mais prolegômenos, é que Natal tem o maior e mais movimentado autódromo in door de toda a galáxia: o estacionamento do shopping Midway Mall. Se você aprecia a velocidade, as ultrapassagens sensacionais e a emoção do risco sobre quatro rodas em estado bruto não precisa de nenhum Interlagos. Basta tentar estacionar ou sair das garagens do Midway, como se fora um motorista normal, desses que infelizmente precisam passar no shopping pra comprar uma coisa ou outra antes de ir pra casa, e pronto: sua diversão está garantida. Só falta mesmo um Galvão Bueno pra narrar os lances aos quais você, motorista leigo, vai se submeter entre os profissionais do circuito Midway.
O curioso é
que a cidade ainda não tenha despertado para este tesouro. Talvez pelo fato de
o estacionamento ser gratuito, tem neguinho subestimando a capacidade inclusive
financeira do negócio. Só isso explica o fato de ninguém ainda haver proposto
um Grande Prêmio da Hora da Saída do Midway Mall, uma prova das mais
instigantes, com duração de 30 minutos e bandeirinha de campeão para quem
conseguir gastar menos tempo para sair do estabelecimento no horário em que
todos tentam fazer o mesmo. Claro que o dia e horário ideal é um sábado à
noite: aquele frota tremenda, com a maior cara de gado de lata, cada rês de marca
famosa empurrando-se umas sobre as outras para sair o mais rápido possível do
mesmíssimo local onde umas duas horas antes o desafio era justamente o
contrário – ver quem conseguia entrar primeiro no shopping. E vale tudo no
Grande Prêmio da Hora da Saída do Midway Mall: fechar o adversário; correr nas
ruazinhas mais estreitas e encurvadas do, va lá, circuito; e naturalmente
buzinar sem constrangimento para o otário que está atrapalhando o bom andamento
da corrida bem na sua frente.
O desprezo
de Natal para com aquilo que há tempos vem sendo um exemplo insuperável de
velocidade em terreno só aparentemente limitado pela precaução e pelo bom senso
também implica em outro desperdício: no dia em que as autoridades municipais –
especialmente aquelas em vigor até janeiro próximo, ufa – descobrirem o
potencial dos deslocamentos nos cinco pisos de garagens do Midway prestarão
também um grande serviço ao país: dar uma aulinha de mobilidade urbana. Porque
mobilidade é o que não falta no estacionamento do maior shopping de Natal,
especialmente se você estiver lá num dos meses do verão. Aí sim é que a pressa
– esse valor tão absoluto quanto a posse e a pose – torna-se um imperativo no
circuito. Não há de ser nada, só um efeito colateral do calor turbinando
motores já naturalmente bem esquentados. E se uma das obsessões do país agora é
a capacidade de deslocamento em menor tempo possível, a bandeira da impaciência
sobre rodas, tem lugar melhor que este pra mostrar como resolver o problema? No
grito – ou na buzina, pra ser mais coerente. Então, da próxima vez que for até
lá comprar um DVD nas lojas Americanas, não esqueça o capacete. Além de
proteger contra naturais acidentes de percurso que nunca mereceram tanto este
nome, você ainda livrará seus ouvidos das buzinadas e xingamentos de quem,
infelizmente, e ainda que apelando para todo o potencial Ayrton Senna que
trazem consigo, não consegue chegar – digo, sair – na frente.
* Caso você sofra alguma avaria e precise recorrer aos boxes enquanto corre ou se defende dos velocistas no Circuito Midway, a dica é seguir o impagável anúncio de rua que ilustra a postagem, tão confiável quanto a pista em questão. A publicidade pode ser conferida in loco no cruzamento da rua Açu com avenida Afonso Pena, bairro Petrópolis.
Erosões e borboletas
A
oceanografia é um mistério, a limnologia não me dá bola, os fatores antrópicos
não moram na mesma rua que eu, e o balanço sedimentar não me sugere mais que
uma rede onde um desavisado de pés sujos de areia dormiu na noite passada. Sim,
nada manjo das explicações técnicas e científicas levantadas pelo pessoal da
área para explicar as causas, a gravidade e a necessidade de atenção para a
antimoda desde não-verão em Natal: a erosão costeira em Ponta Negra. Erosão
costeira é o máximo a que me permito em termos de terminologia, porque para o
meu pobre e saudosista dicionário o fenômeno que fez picadinho do calçadão da
praia poderia ser chamado mesmo é de voçoroca – por sua vez um termo pra lá de
técnico que aprendi nos tempos do Colégio Agrícola de Jundiaí, não muito
distante do local e do assunto em questão.
A fixação
com a terminologia devo a um artigo sobre o problema escrito pelo tampa Eugênio
Cunha numa edição dominical da velha Tribuna do Norte. Mas diante dos escombros
do passeio marítimo – olha o palavreado se metendo aí de novo! – não me vem à
cabeça nenhum sufixo acadêmico capaz de esquadrinhar com régua e compasso os
afundamentos da paisagem: vem, sim, a memória dos tempos em que enormes
buracões compunham verdadeiros cânions nos barrancos imediatamente anteriores à
praia de Ponta Negra. Quem conheceu a praia no início dos anos 80 há de se
recordar: não havia nem calçada, quanto mais calçadão. Muito menos pousadas,
hotelões e ônibus de traslado da CVC. Não é que fosse melhor – era diferente.
Mas como se trata da natureza, há sempre aquele elemento de (de)semelhança se
insinuando para que a gente não pense que, seres humanos, somos maiores do que o
ambiente.
Por este
princípio, a “erosão costeira” da Ponta Negra atual não passa de um remake
turbinado dos buracões que faziam o tabuleiro pré-praia dos anos 80 parecerem
uma mui particular espécie de superfície lunar. Ironia do tempo e da natureza:
marco da nossa imobilidade crônica, contra o qual temos de lutar como um antigo
pescador às voltas com o peso de suas redes – um buraco situado bem mais
embaixo. Mas, quer saber? O turista mesmo, este ser indiferente a erosões e
borboletas, tá nem aí: vista do balanço das ondas, a enseada continua tão
bonita que nem dá pra notar as pedras soltas da calçada espreguiçando-se areia
adentro como quem quer tomar um sol restaurador. Ou então é minha miopia
seletiva que só enxerga o que desejo ver, segundo o ângulo mais sentimental.
Uma placidez de praia de meio de ano que só é prejudicada mesmo – sobretudo
nesta época de marés baixas que fazem da areia um espelho do Morro do Careca –
quando sua caminhada é interrompida por um brutamontes de ferro requisitado
pelas obras. Há praias em que exótico é um velho navio encalhado onde menos se
espera. Na Ponta Negra erodida pelo tempo e pela memória, estranho é uma
retro-escavadeira trogloditando suas rodas na areia do mar.
domingo, 24 de junho de 2012
O canto dos cristais urbanos
Uma visita a um dos monumentos arquitetônicos e paisagísticos menos badalados de Brasilia e o que podem dizer seus oráculos emudecidos pela passagem do tempo histórico
Quem vê toda noite na tevê a arquitetura moderna de Brasília servindo de moldura para a crônica político-parlamentar do país, ou ainda se considera impactado pelas curvas em flor do prédio da catedral de Niemeyer, e assim pensa ter uma visão total do diferencial urbano da capital brasileira está repleto de impressões mas incompleto de possibilidades. Como toda cidade minimamente turística, a exposição selecionada e exacerbada de seus cartões postais mais consagrados entrega para o conjunto dos brasileiros que não vive aqui em Brasília uma visão editada, um videoclipe sempre interessante, mas naturalmente nunca tão desconcertante quando a sensação de estar de fato aqui, entre uma curva do arquiteto e um tronco de cerrado, vendo-se ora refletido nas vidraças do Palácio do Itamaraty ora escorrendo pelas calhas do Palácio da Justiça.
Artifício e natureza bruta, vastidão e concentração, verde e cinza, aspirada das distrações urbanas que caracterizam qualquer aglomerado humano Brasília é esse espelho de contrastes extremos. Mas nem o Palácio do Congresso nem a catedral ou mesmo o menos conhecido interior azulado de vitrais da Igreja Dom Bosco é capaz de compactar tudo isso e, por um efeito de síntese, projetar no ar na forma de uma perplexidade tão vívida que parece construída em argamassa de concreto essa condição de cidade de pedra rígida, arvoredo torto e ar semirrarefeito de umidade contada em gotas, senão em partículas. Brasília é muito mais Brasilia aqui: no espaço situado entre a Praça dos Cristais e o prédio do Quartel-General do Exército, no Setor Militar Urbano, região noroeste sob as asas do Plano Piloto.
Nada a ver com o fato de a cidade ter sido a moradia dos generais que se impuseram sobre o país durante a longa noite de conhecimento geral. Ou antes: tudo a ver, mas aqui a gente espana do ar o eventual determinismo histórico tão necessário à compreensão total da praça e do QG – cuja suntuosidade inicial obviamente decorre da megalomania do projeto dos militares em tempos durante os quais tal gigantismo foi moda governamental de Brasília a Moscou, num corte estilístico indiferente à temperatura ideológica de cada qual nas febres da guerra fria. Acontece que, tomada hoje, visitada nestes dias, usufruída num passeio com as crianças neste além-ano 2000, a leitura, ainda que com a pulga histórica pilheriando suas ironias ao pé do ouvido, consolida uma percepção muito maior, que inclui elementos outros como o cinema de ficção científica, a natureza em crise nas consciências ambientais confusas, o uso do espaço urbano colocado em questão por enchentes e desabamentos, os novos rigores do clima redesenhando o solo urbano, a potência da cidade- espetáculo e a própria força da imagem num mundo saturado por elas.
A Praça dos Cristais e o conjunto formado por ela e o QG do Exército, com seus jardins milimétricos, seus espelhos d’água de beleza quase metálica e seus salões cobertos por arcos de concreto recortado em curvas moles sugerem aos poucos visitantes que aparecem por lá numa tarde de sábado os frames vivos e em 4D de um filme de Ridley Scott, como podem fazer pensar sobre o falso controle do homem ecológico reunido em cúpulas presidenciais ou de mesa de bar sobre a força da natureza incontida – porque tudo nos jardins que Burle Marx projetou para a praça emana beleza, mas também domínio do homem sobre o verde. Outras conexões que a mente faz enquanto o olho mira o cristal de concreto no centro do lago e a pele sente o vento da vereda recriada entre as pedras da praça pelo jardineiro número um do país: a extensão de tudo, a escala do projeto, é de uma natureza quase escandalosa quanto se pensa as dimensões do mundo urbano atual, como moradias cada vez menores e espaços que, se maiores, são tanto mais inacessíveis à renda do cidadão comum.
A Praça dos Cristais, para além da beleza impactante por diferente com que se apresenta de cara ao visitante, consegue ainda nos distrair por algumas horas, ou enquanto se estiver lá, sobre as possibilidades que teríamos de manejar os elementos do clima e assim garantir a tranqüilidade do nosso cosmo, garantindo à atmosfera em volta o mesmo caráter bucólico que envolve o lugar e suas circunstâncias. E aqui chegamos ao elemento mais imediato, superficial mas potencialmente mais impactante, que é a primeira imagem do pai QG com seu obelisco fálico e seu domo feminino, casal arquitetônico que pariu o filho-praça ali em frente, com sua infância de verdejantes jardins e voadeiras garças. Este elemento é a visão em si, a imagem tão elaborada em componentes que realizam a plástica da beleza pelo contraste dos constituintes: a praça e o quartel, esquecidos dos roteiros turísticos rápidos que garantem ao visitante conhecer Brasília em 1 hora, são o tipo do lugar que recupera para olhares cansados de tanto ver a força da mera observação. Brasília se refaz aqui, livre das bacias que já não conseguem mais lavar os olhos saturados de quem não mais se incomoda com os desvãos da arquitetura moderna; se é que ainda se dá conta dela.
Um lugar onde a opressão do espaço aberto pode causar algum tipo de dependência nos olhares mais sensíveis. Onde Alberto Moravia, o escritor-viajante, reconfirmaria todas as impressões que teve da Brasília inicial de quando visitou a cidade nos anos 60. Um recanto de natureza tão domada que causa inveja e faz jorrar interrogações na mente apressada do militante ambientalista. Um quadro adornado por lagos artificiais cuja água tanto se presta ao projeto do paisagista que sugere uma matéria metálica no limite da artificialidade. Onde até a garça – de verdade! – engana o primeiro olhar do incauto visitante: posta no alto dos falsos cristais de pedra, elas sugerem à primeira vista o aspecto congelado dos anões de jardim, mas logo se lançam em vôos e produzem um novo instante de perplexidade para o deleite do visitante.
Juntos, o QG e sua praça minam cada pedaço da expectativa que você construiu ao sair de casa ou do hotel para conhecer este espaço tão pouco badalado. Os clichês sobre militarismo, Brasil Grande, anos 70, repressão e resistência, cultura e natureza caem todos diante da estranha beleza de se estar neste lugar recontextualizado pela passagem do tempo. O grandioso tornou-se tão raro de lá pra cá que reencontrá-lo obriga o enfastiado das eras superplanejadas a repensar escala e estética.Por mais estridentes que tenham sido – e foram – não chegam aqui os gritos dos torturados pelos mandatários que tiveram a quase exclusividade de desfrutar do QG e sua praça. Chega, é verdade, um tipo incomum de silêncio que talvez contenha aqueles urros, remixados pelo túnel de tempo que percorrem para alcançar o presente.
Barulho mais forte vem mesmo é dos soldados armados no entorno da praça, afinal, não esqueça, estamos no Setor Militar Urbano. Pois se a grandiosidade do conjunto, passados tantos anos, pode não mais emular a violência do projeto militar que gerou esse lugar, a mera presença viva e só aparentemente sutil dos guardinhas tem tudo para trazer os anos 70 de volta. Mas logo o vôo de uma garça vai lhe arrebatar de novo e delicadamente do cerne da história para o sofá da arquitetura – e a recontextualização fará o resto. Porque, superadas as bases das condições que permitiram e estimularam a era dos generais, restaram esses museus que funcionam hoje como documentos de beleza inusitada, com sua praça que parece suspensa no ar dos acontecimentos (esteja lá e verifique como todo o noticiário político atual vira água soprada no ar da sua mente indiferente) e seu quartel-general adornado por intervenções arquitetônicas que lhe dão a impressão de estar dentro dos dutos de uma flor de melífluo concreto.
Por diferente, por aberto tanto ao céu quanto à terra – este é um dos tantos lugares em Brasília onde o liliputiano habitante se sente diretamente em transição entre o solo e o firmamento – , por respingar um verde contado no encardido geral do concreto, por abrir rombos derrapantes onde o convencional só prevê linhas retas, por reconstruir em matéria artificial e humanamente controlada as veredas do Grande Sertão não muito longínquo de Guimarães Rosa, por tudo isso o QG do Exército e a Praça dos Cristais podem ser uma subestimada síntese pouco conhecida dos mistérios urbanos e audiovisuais de Brasília. E você ainda pode dar migalhas de pão dormido aos peixes do lago, esses seres ainda mais inocentes do que nós das transformações históricas, econômicas e sociais que se passaram ao largo das pedras da praça.
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