quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Aquém e além do Paradiso




Giuseppe Tornatore conquistou na maciota uma legião de admiradores com seu cinema memorialístico tipo torrão natal que fazia uma pequena cidade italiana parecer o espelho de um grotão global. Com “Cinema Paradiso” (1988), o cineasta conseguiu, ao mesmo tempo em que fazia uma sentimental ode à sétima arte, realizar também uma espécie de sonho implícito nas memórias de quem nasceu e cresceu no interior – seja da Itália, seja do Brasil. Aquela cidade, aquele cinema, aquele menino e aquele projecionista chamado Alfredo eram a recriação diante de nossos olhos abestalhados de um tempo e lugar onde nós mesmos, integrantes daquelas plateias hipnotizadas, havíamos habitado. Era mais que cinema, chegava a ser uma forma pagã e estética de religião. Um novo cult no cartaz, do tipo instantâneo e definitivo.

Tão cult que naturalmente eclipsou os filmes seguintes de Tornatore, como “O Homem das Estrelas”, “A Lenda do Pianista do Mar” e “Malena”. O primeiro ecoou como um quase natural desdobramento de “Paradiso”. O segundo,  crônica sobre um instrumentista num transatlântico, soou como uma novela literária diante do romance russo que foi o antecessor. O terceiro, no meu caso, nem cheguei a ver – só lembro dele já em vídeo ou DVD, hiato do cinema propriamente dito sempre é um desestímulo. Agora, encontro em Blue Ray a cópia estalando de nova do novo, ou mais recente, “Baarìa” que, pelo aspecto da embalagem e pelo teor dos trechos dos comentários que traz inscritos leva diretamente a “Cinema Paradiso”. Novamente Tornatore retorna à sua aldeia – o que, no caso dele, é quase certo que poderá corresponder à nossa.

Mas também há uma lei não escrita segundo a qual os fenômenos cult não se repetem assim-assim. E foi o que se deu. “Baarìa” é como se fosse “Cinema Paradiso” elevado à enésima potência: cada quadro é de uma composição milimetricamente bela; cada sequencia quase um filme por si só, mesmo com duração de cinco minutos; cada personagem retoca todos os tiques e toques que a gente começou a ver no mais cult filme do diretor; Morricone está de volta na trilha sonora; tem filme dentro do filme de novo, passagem de tempo e seus efeitos novamente, saga familiar outra vez. E no entanto não funciona como funcionou “Cinema Paradiso”.

Obstáculo local
 
A pergunta que fica martelando enquanto você tenta encontrar fruição em meio a tantos elementos é uma só: por que “Baarìa”, sendo visivelmente tão bem mais produzido e com um antecedente bem sucedido que lhe deu todas as coordenadas, não retira do espectador a mesma emoção de “Cinema Paradiso”? Enquanto o filme, demorado – aí pelas três horas que parecem durar cinco, o que já é um obstáculo – não acaba, os palpites vão se colocando entre você que o assiste e suas cenas quase inutilmente tão bem elaboradas. Desta vez, Tornatore se concentrou tanto nas coisas específicas de sua Itália natal que travou aquele elemento que pode fazer de uma obra de arte baseada na emoção local algo universal – um insumo muito particular capaz de fazer com que ao se falar de um quadrado,  componha-se um painel que diz respeito a um mosaico muito maior. Há muito de política interna italiana no filme, algo bem menos compartilhável do que a fruição do cinema em si que era evocada no “Paradiso”.

Para piorar, a estratégia narrativa do filme parte de um modelo que faz estancar os episódios: até a primeira meia hora, o que vemos são belas sequências interrompidas (por belos cortes, interessantes transições, mas nem isso diminui o incômodo) por outras, sem que uma deságue na seguinte. Você tem a impressão de estar assistindo a um conjunto de trailleres de futuros longas de Tornatore – como naquela proposição feita em literatura por outro italiano célebre, Ítalo Calvino (“Se um viajante numa noite de inverno”). No livro de Calvino, isso era a própria base tanto da investigação metaliterária quanto da fruição narrativa pura e simples. No filme de Tornatore – que, naturalmente, a certa altura felizmente abandona essa linguagem gaguejada – o que era para ser uma ilustração torna-se uma aporrinhação.

O resultado é um filme travado, que demora para envolver o espectador, por mais que o esplendor visual de cada sequência se imponha. É como algumas das  minisséries brasileiras feitas por Luiz Fernando Carvalho, como a adaptação de “A Pedra do Reino”: ele busca tanto a epifania audiovisual em cada cena que não consegue obtê-la em praticamente nenhuma, visto que, é sabido e corrente, pra se atingir um estado mínimo de transcendência em um momento da vida e da arte, é preciso muitos outros, anteriores e banais, que lhe sirvam a de contraponto, elevador e trampolim.
 
Caleidoscópico

“Baarìa”, ainda assim, é considerado por muitos críticos – como o nosso brazuca Luiz Carlos Merten, de “O Estado de São Paulo” – como o melhor filme de Tornatore. Eu, do meu canto no fundo desse cinema saturado de opiniões, diria que é o mais caleidoscópico. E que é justamente a ambição desmedia que retira dele o poder de fascinação que teve “Cinema Paradiso”.  O que o filme anterior conseguia da primeira à última cena – sobretudo na última, que também é citada em “Baarìa” – o mais recente até realiza, sim, mas no conjunto mínimo composto por cada sequência.

Como a primeira – que, não se sabe se propositadamente  ou não – cita, vejam só, o “E.T” de Spielberg: o menino que corre tanto pra comprar cigarros pra um adulto que repentinamente vê-se voando – e a gente, na plateia, junto com ele. É uma bela e instigante abertura, embora contaminada pela citação de outro cinema tão diverso, ou justamente por isso. Pena que não sustente este “Baarìa” no ar por inteiro.

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Golpistas



Cada época tem o vilão mais conveniente aos interesses de quem vive de mercantilizar o ódio coletivo


Numa era muito distante, quando um certo José Dirceu não incomodava uma mosca e portanto não tinha motivos para ser tratado como inimigo público número um do país, a moda era odiar os cirurgiões plásticos. Nem os políticos conseguiam tamanha unanimidade ao contrário quanto eles – até porque, naqueles primórdios, o sistema não permitia que houvesse políticos na completa acepção da palavra e no inteiro exercício de suas funções. José Dirceu, aliás, fez o que pode pra mudar isso – mas essa é outra história, com outros personagens. A figura que nos interessa aqui é a do cirurgião plástico, autêntico ou pirata, que assombrou o país nas páginas da revista Manchete ou na escalada do Jornal Nacional. Pois esta semana, ele voltou.

O país que tinha o afamado Ivo Pitanguy tinha também Hosmany Ramos, seu oposto e seu inverso. Tínhamos o médico e o monstro: o primeiro era modelo internacional da medicina estética brazuca e o segundo o golpista que se infiltrou na alta sociedade – veja como o tempo muda as palavras, há quanto tempo você não lia essa expressão “alta sociedade”? – carioca para conquistar prestígio e ocultar sua sina criminosa. Pitanguy nunca deixou de ser clássico, mas Hosmany foi parar na cadeia, de onde, decorridos tantos anos, já deve ter saído. Como nunca mais esquartejou uma cliente com seu bisturi ensandecido, também nunca mais ouvimos falar dele.

Até porque a fila anda e tempos atrás o posto de Hosmany foi tomado por um desses novatos estabanados como costumam ser os iniciantes sem sorte. O nome dele é Marcelo Caron, sua área de atuação fica entre Taguatinga, no Distrito Federal, e Goiânia, com passagens por Campinas, onde especializou-se em golpes financeiros contra o Sistema Único de Saúde. Mas a especialidade mais – digo, menos – reconhecida desse Caron eram  lipoaspirações que faziam a cliente entrar na mesa de operações e de lá passar direto à UTI, com prazo de uns dias para ser transferida ao cemitério. Caron era médico, de fato -  mas não tinha a especialização em cirurgia plástica, hobby pra ele e desgraça para quem o procurava em busca de um tratamento. Acabou tendo o registro de médico cassado e submergindo sob uma montanha de processos criminais.

Esta semana, Caron reapareceu, pasmen, numa blitz policial lá em Canguaretama, RN. Descobriu-se que ele, oficialmente preso em regime semiaberto, “mora” na praia de Pipa, ali pertinho, onde é até dono de uma pousada. No momento da prisão, estava realizando essa atividade tão prosaica pra qualquer um que não é nem cirurgião plástico e muito menos condenado por matar suas pacientes: voltar para casa. O mundo está cheio de pessoas impressionantes, seja por suas qualidade ou seus defeitos, porque tanto uma coisa quanto outra é capaz de chocar pelo menos à primeira vista. Pois tanto quanto Caron voltando pra casa, impressiona o caso do policial rodoviário que o identificou apenas por lembrar das notícias sobre ele na televisão. Caron foi parar na delegacia, mas, soube-se depois, poderá, sim, continuar morando em Pipa, mesmo sendo um preso em regime semiaberto condenado em Goiás. Isso lembra ou não uma novela de Gilberto Braga no horário nobre?

Antes que alguém solte um indignado Brazil-zil-zil, convém lembrar que a ressurreição de figuras como o cirurgião plástico golpista no país da impunidade servindo de roteiro para histórias que nem a ficção criou com tanto apuro não é privilégio aqui de baixo do Equador. Se fosse assim, não haveria casos igualmente bestiais como o de um certo Paolo Gabriele, um sujeito cujas intenções são uma grande interrogação e cujo procedimento vale por um livro de  Dan Brown. Por estes dias, ficamos sabendo que este italiano – que vem a ser, pela função que ocupa, talvez  a mais suspeita pessoa do planeta, pois mais do que um mordomo, é o próprio mordomo do papa – surrupiou uns documentos que comprovam fraudes não na banca de bicho de Carlos Cachoeira ou nos contratos da Delta, mas no próprio Vaticano, tá bom pra você?


Pra gente ver como, sem perceber, perdemos tempo se formos dar bola ao noticiário geral que tenta colocar uma emoção que seja no julgamento do tal mensalão. Enquanto a velha mídia quer provocar torcicolos nos nossos pescoços fazendo a gente olhar na marra para a modorra que tem sido o plenário do STF, temos aí – nesta mesma imprensa, que não pode tudo – histórias como a de Marcelo Caron e Paolo Gabriele, exumando velhos fantasmas dos tempos em que o culpado só podia ser o mordomo, Hosmany Ramos era o fim e também o máximo – e quando um certo José Dirceu estava fazendo o caminho inverso, saindo da clandestinidade que um tempo sem política, no sentido legítimo da palavra,  o obrigou a abraçar.

domingo, 5 de agosto de 2012

Um novo Tom Zé no terreiro



Também sou do clã - inclusive por questões de origem - do missionário teórico-musical Tom Zé, além de fã de Barretão (veja post anterior). E a edição do Globo deste domingo também traz boas novas sobre o bardo assimilado (e também desprezado, embora agora repescado) pelos bianos maiorais do recôncavo. E as tais palavras que estão no jornal são do maioral maior dentre eles. Caetano Veloso bota a viola no saco e mais uma vez se penitencia diante dos farrapos geniais de seu estranho conterrâneo expelido à face da terra entre os pedregulhos da Bahia-sertão. Leiam comigo:

"Como ali, na tese do 'lixo lógico' (é o novo CD de Tom Zé, que a coluna caetaniana analisa) surge a informação séria que se sabe cômica em seu deslocamento. Como pedir cachaça no avião (em 1968: hoje, cachaça, confirmando o profeta Tom Zé, é assunto de presidente dos Estados Unidos). E o tom com que os aspectos sensatos e os aspectos histriônicos são alternada ou concomitatemente revelados é a força artística de Tom Zé. Aqui mostrando-se rica como nunca, nas menções meio ocultas a nomes, timbres e cadência da época. E de agora. Talvez a intensidade com que isso acontece se desva ao tema ser a Tropicália. Diferentemente da bossa nova, a Tropicália é coisa de Tom Zé. Não só ele fez parte do movimento: ele realizou as obras mais ambiciosas no sentido de caracterizá-lo. É como se eu, Gil, Sérgio Dias e Rita Lee tivéssemos cada um partido para algo livre do projeto inicial: Tom Zé ficou com as questões centrais. E a biografia da Tropicália que ele apresenta nessa nova obra tem muito de autobiografia. (...) Essa versão radical da Tropicália como o choque entre uma mente pré-aristotélica e a terceira revolução industrial é fascinante."

Barretão reconstruído



Quem me conhece saber: gosto de Barretão e seus filmes, controvérsias sobre a produção e as mil e uma divisões do cinema brasileiro à parte. No perfil escrito para a edição deste domingo de O Globo, Cora Rónai - ou Cacá Diegues, a ambiguidade do texto não permite identificar precisamente a autoria - tem a felicidade de resumir o nem um pouco pacato cidadão. Leiam comigo:

"Luiz Carlos Barreto foi uma das maiores estrelas jornalísticas de 'O Cruzeiro' -  lembra o cineasta Cacá Diegues. "Ele chegou ao cinema justamente pelo texto (o roteiro de 'Assalto ao Trem Pagador') e pela luz (a fotografia de 'Vidas Secas' - em destaque na foto que ilustra o post). Cearense acariocado, filho de Assis Chateaubriand com o Partido Comunista, de Macunaíma com Padim Ciço, vagou pelos estádios do mundo atrás de Garrincha e Nilton Santos, cobriu cruzeiros chiques e tumultos proletários, flagrou Marilyn e os Kennedy, pescadores e pecadoras, até encontrar, numa longuíqua praia baiana, o cineasta Glauber Rocha com uma câmera na mão e muitas ideias na cabeça. Uma delas era trazer o sertanejo cosmopolita para o seio de uma revolução, chamada Cinema Novo. Não contente em apenas aderir, Luiz Carlos se tornou um de seus líderes mais importantes. O resté é História."

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Ode a Roberto



O grande escândalo do mensalão é a figura de Roberto Jefferson, sozinha. Diante de sua empáfia permanente, desde a era Collor até os dias de STF atuais, a gente é tentado a imaginar o efeito que faria uma espetada de agulha fina na bolha daquela soberba em forma de ser humano. Quando ele era balofo como um factoide dos anos 90, ficava ainda mais fácil: parecia que, ao mínimo atrito entre a ponta do alfinete e a epiderme plastificada da criatura, ouviríamos aquele fuuuuu que anima as crianças e o voo ao infinito e além daquele resto de pele que reside por baixo da vaidade de Roberto Jefferson.

O tempo passou, ele silenciou o plenário da Câmara dos Deputados denunciando o mensalão e, evidentemente, aquela soberba de animador de auditório político de terceira continuou sendo mais e mais inflada. Tanto quanto tenta de todas as maneiras aspirar a substância do que quer que seja José Dirceu, a grande, velha e igualmente soberba imprensa brasileira trata de manter cheinho como um balão de aniversário a figura de Roberto. E ele, claro, faz a sua parte: evoca, como um titereiro de encomenda feita a si mesmo, figuras de outras áreas que lhe confiram a credibilidade audiovisual necessária ao show. Roberto pretende ser algo assim como o Galvão Bueno da política, o Faustão do voto, o Alexandre Garcia da eleição. Mais remotamente, um Flávio Cavalcanti dos bons costumes.

O julgamento no STF vai ser aproximando e Roberto surfa na onda que ele mesmo levanta, com o auxílio fanático da mídia antipetista. É uma foto atrás da outra, um facebook informal retocando a sanha quase evangélica e semipop do autor da denúncia. Até a doença é solidária a essa acepção – enquanto Roberto ignora que o verdadeiro câncer, o tumor que se infiltra e vai necrosando tudo por onde passa, não é o mal em si, mas ele  mesmo. Roberto é essa reprodução incontrolável de células de vaidade e dano político, um germe plantado no coração de um processo de oportunidade e amadurecimento do país que ele quase  conseguiu deter. Milhões de brasileiros teriam sido prejudicados, mas não há uma palavra boa como mensalão para tornar essa evidência algo facilmente assimilável.

Ode a Andressa



Andressa Mendonça é linda, cara, arrogante e suja. Mas o que mais dói é perceber que, espanada de suas circunstâncias eventuais como todo o escândalo em que se meteu com o maridão da hora, o Cachoeira, ela é quase a composição perfeita do ideal de aparência e comportamento em vigor entre certa parte do mulheril atual. Andressa parece um genérico de todas as meninas recém-formadas nos mil e um cursos de Direito em vigor nas faculdades do país. Lembra um avatar das milhares de neoburguesas que consomem o que podem e o que não podem nas lojas de grifes das dasluzes autênticas ou copiadas desta mesmíssima nação. Evoca a neomiss Brasil, a garota de aparente bom-tom e bom gosto – aquela que jamais vai citar qualquer coisa menos ofensiva do que o “Pequeno Príncipe” quando se pergunta qual o seu livro de cabeceira. Andressa Mendonça, pois sim, não está sozinha – e aí é que reside a sua, digo, a nossa, danação coletiva.

Diante de Andressa Mendonça, esteja ela usando pulseiras que custam muito mais do que o rim imprestável do crack man da primeira esquina ou personalíssimas algemas de prata encomendadas a um desingner da PF, a tentação imediata é sair por aí em busca de algo o mais natural possível. Um belo exemplar de moça bicho grilo, por exemplo – o que não vai ser nada fácil. Em frente às fotos de Andressa na banca de jornais, o cérebro busca automaticamente uma compensação naqueles tempos em que mulher bonita tinha alguma coisa a ver com transgressão. Você vê Andressa e pensa em Leila Diniz, é inevitável.

Confrontado com a maneira doce e meiga com que Andressa tenta chantagear um juiz federal – e, ao fim das contas, o faz, mesmo depois de denunciada, como o leitor pode conferir agora mesmo no site da revista (argh) Veja – não há com não sentir saudade dos tempos em que o cúmulo do atrevimento em termos de mulher e comportamento era uma grávida pop star brazuca ir à praia de biquíni. Ou soltar uns palavrões, também. Agora tente o amigo imaginar essa bonequinha de luxo abrasileirada que é Andressa deixando escapar um termo de baixo calão de sua boquinha desejável. Definitivamente, para mulheres como Andressa, desacato à autoridade – ou a quem quer que seja, como o povo brasileiro, a quem ela julga que Cachoeira não causou  mal algum – é algo que se pratica com classe. A mesma classe que explica o fato dessa mulherada que a tem como espelho involuntário andar por aí com bolsas de 5 mil reais a unidade: nada mais proporcional a quem pode, a qualquer momento, precisar dispor de 100 mil pra pagar uma fiança que a permita sair da delegacia para entrar na loja mais próxima e mais cara. Volta, Leila!

terça-feira, 31 de julho de 2012

A pastoral da prefeita


Micarla de Souza, prefeita de Natal, é o oposto de Lula, aquele outro: sua impopularidade nunca consegue ser menor que 90%. É um caso clássico de alguém que vai não do zero ao cem, mas do cem ao zero – convém nunca esquecer que a garota foi eleita para comandar a capital potiguar num surto de celebridade aguda que assaltou a cidade quase toda num primeiro turno de péssima memória. Hoje, se você virar para a primeira pessoa que encontrar na cidade e perguntar em quem ela votou pra prefeito na última eleição, quase todo mundo vai dizer que não lembra, vai comentar o clima, vai escolher um buraco entre tantos para reclamar do descaso, essas trivialidades. Mas nada disso é novidade – incluindo a vertiginosa queda nos índices de simpatia angariados ou não pela prefeita em final de mandato. A novidade é o óbvio: Micarla vai trocar a política pela religião. Sai a prefeita, entra a pastora Micarla. No caso dela, soa coerente, natural, inevitável.
Mas vamos por parte: admito que simpatizei com Micarla quando ela, no meio do mandato e já adernando no quesito aprovação, exibiu-se aos jornalistas sendo batizada num ritual evangélico. Foi um festival de reprimendas, um banho de reprovação elegante, um afogamento de críticas. Todo mundo achou o fim da picada a borboleta se molhar nas águas mais que populistas dos ramos religiosos evangélicos para tentar salvar o que restava de sua imagem ressecada pela inoperância. O próprio ritual, com sua liturgia meio antigo testamento, soava desagradável para uma cidade onde o cartaz é o sol, o mar, o turismo pop sem aparentes ranços medievais. Pois me deu dó: lembrei da forma empolada e ritual – mais de um ritualismo diverso, de outro tipo de veneração – que a gente cansou de ver nos jornais locais quando, por exemplo, Vilma Maia ia a uma missa especial na nova catedral. Soava distinto, elegante, correto. Vilma, Gari, Henrique, Agripino, Geraldo Melo ou quem seja ganhavam uns pontinhos a mais na reputação quando submetiam sua popularidade política a uma horinha diante do arcebispo em vigor. Ninguém achava brega, tosco, ridículo.
Mas eu vou lhe dizer: como é difícil defender Micarla! Porque agora, justamente nesse instantinho em que ela capturou minha simpatia, ainda que apenas por comparação com os demais políticos do estado (fora, que eu saiba, Fernando Mineiro, que sabe polir sua antipatia aparente como ninguém; e neste ponto está muito certo ele), vem a notícia de que pretende, uma vez longe da prefeitura (ufa) trazer pra Natal um novo ramo evangélico. Tomara que dê muito trabalho e ela não tenha tempo pra mais nada. Mas se o critério para aquilatar por antecipação o número de seguidores for o da política, vai ser difícil. Só resta um consolo para a futura ex-prefeita de desevangélica memória: a triste mas realista análise feita por Ciro Gomes (calma, que a conexão se restabelece já já) numa entrevista que vi noite dessas na TV União, lá deles. Disse Ciro, daquela maneira incidental mas sempre enfática com que constrói seus raciocínios, que infelizmente parte do povo está canalizando para as igrejas evangélicas uma expectativa de melhoria de vida e de reorganização social que pertence, por natureza, à política. Política no sentido amplo e não no desprezível que, no lugar de resultar em crítica como aparentemente se pretende, ao fim e ao cabo termina em anulação da cidadania feita em nível consciente por quem precisa disso ou em escala de otário pra quem acha que está abafando. E foi pensando que estava abafando que mais de 60 por cento dos natalenses elegeram a futura pastora Micarla para “tomar conta de Natal”, só pra usar uma expressão bem apropriada a quem pensa política de um jeito que não faz justiça à completa acepção da palavra.

sábado, 28 de julho de 2012

Fórmula Midway



Natal pode até ser excluída da Copa, a se confirmarem determinadas previsões e certa torcida-contra, se afinal a Arena das Dunas não ficar pronta a tempo de receber o evento esportivo mundial de 2014. Mas desde já não existem motivos para lamentações: Natal já tem, e pode se jactar disso, uma das mais modernas, revolucionárias, criativas e espetaculares arenas esportivas de todo o planeta. Só muda o esporte. Sai o futebol, entra o automobilismo. O que se quer dizer aqui, sem mais prolegômenos, é que Natal tem o maior e mais movimentado autódromo in door de toda a galáxia: o estacionamento do shopping Midway Mall. Se você aprecia a velocidade, as ultrapassagens sensacionais e a emoção do risco sobre quatro rodas em estado bruto não precisa de nenhum Interlagos. Basta tentar estacionar ou sair das garagens do Midway, como se fora um motorista normal, desses que infelizmente precisam passar no shopping pra comprar uma coisa ou outra antes de ir pra casa, e pronto: sua diversão está garantida. Só falta mesmo um Galvão Bueno pra narrar os lances aos quais você, motorista leigo, vai se submeter entre os profissionais do circuito Midway.

O curioso é que a cidade ainda não tenha despertado para este tesouro. Talvez pelo fato de o estacionamento ser gratuito, tem neguinho subestimando a capacidade inclusive financeira do negócio. Só isso explica o fato de ninguém ainda haver proposto um Grande Prêmio da Hora da Saída do Midway Mall, uma prova das mais instigantes, com duração de 30 minutos e bandeirinha de campeão para quem conseguir gastar menos tempo para sair do estabelecimento no horário em que todos tentam fazer o mesmo. Claro que o dia e horário ideal é um sábado à noite: aquele frota tremenda, com a maior cara de gado de lata, cada rês de marca famosa empurrando-se umas sobre as outras para sair o mais rápido possível do mesmíssimo local onde umas duas horas antes o desafio era justamente o contrário – ver quem conseguia entrar primeiro no shopping. E vale tudo no Grande Prêmio da Hora da Saída do Midway Mall: fechar o adversário; correr nas ruazinhas mais estreitas e encurvadas do, va lá, circuito; e naturalmente buzinar sem constrangimento para o otário que está atrapalhando o bom andamento da corrida bem na sua frente.

O desprezo de Natal para com aquilo que há tempos vem sendo um exemplo insuperável de velocidade em terreno só aparentemente limitado pela precaução e pelo bom senso também implica em outro desperdício: no dia em que as autoridades municipais – especialmente aquelas em vigor até janeiro próximo, ufa – descobrirem o potencial dos deslocamentos nos cinco pisos de garagens do Midway prestarão também um grande serviço ao país: dar uma aulinha de mobilidade urbana. Porque mobilidade é o que não falta no estacionamento do maior shopping de Natal, especialmente se você estiver lá num dos meses do verão. Aí sim é que a pressa – esse valor tão absoluto quanto a posse e a pose – torna-se um imperativo no circuito. Não há de ser nada, só um efeito colateral do calor turbinando motores já naturalmente bem esquentados. E se uma das obsessões do país agora é a capacidade de deslocamento em menor tempo possível, a bandeira da impaciência sobre rodas, tem lugar melhor que este pra mostrar como resolver o problema? No grito – ou na buzina, pra ser mais coerente. Então, da próxima vez que for até lá comprar um DVD nas lojas Americanas, não esqueça o capacete. Além de proteger contra naturais acidentes de percurso que nunca mereceram tanto este nome, você ainda livrará seus ouvidos das buzinadas e xingamentos de quem, infelizmente, e ainda que apelando para todo o potencial Ayrton Senna que trazem consigo, não consegue chegar – digo, sair – na frente.

* Caso você sofra alguma avaria e precise recorrer aos boxes enquanto corre ou se defende dos velocistas no Circuito Midway, a dica é seguir o impagável anúncio de rua que ilustra a postagem, tão confiável quanto a pista em questão. A publicidade pode ser conferida in loco no cruzamento da rua Açu com avenida Afonso Pena, bairro Petrópolis.

Erosões e borboletas



A oceanografia é um mistério, a limnologia não me dá bola, os fatores antrópicos não moram na mesma rua que eu, e o balanço sedimentar não me sugere mais que uma rede onde um desavisado de pés sujos de areia dormiu na noite passada. Sim, nada manjo das explicações técnicas e científicas levantadas pelo pessoal da área para explicar as causas, a gravidade e a necessidade de atenção para a antimoda desde não-verão em Natal: a erosão costeira em Ponta Negra. Erosão costeira é o máximo a que me permito em termos de terminologia, porque para o meu pobre e saudosista dicionário o fenômeno que fez picadinho do calçadão da praia poderia ser chamado mesmo é de voçoroca – por sua vez um termo pra lá de técnico que aprendi nos tempos do Colégio Agrícola de Jundiaí, não muito distante do local e do assunto em questão.

A fixação com a terminologia devo a um artigo sobre o problema escrito pelo tampa Eugênio Cunha numa edição dominical da velha Tribuna do Norte. Mas diante dos escombros do passeio marítimo – olha o palavreado se metendo aí de novo! – não me vem à cabeça nenhum sufixo acadêmico capaz de esquadrinhar com régua e compasso os afundamentos da paisagem: vem, sim, a memória dos tempos em que enormes buracões compunham verdadeiros cânions nos barrancos imediatamente anteriores à praia de Ponta Negra. Quem conheceu a praia no início dos anos 80 há de se recordar: não havia nem calçada, quanto mais calçadão. Muito menos pousadas, hotelões e ônibus de traslado da CVC. Não é que fosse melhor – era diferente. Mas como se trata da natureza, há sempre aquele elemento de (de)semelhança se insinuando para que a gente não pense que, seres humanos, somos maiores do que o ambiente.

Por este princípio, a “erosão costeira” da Ponta Negra atual não passa de um remake turbinado dos buracões que faziam o tabuleiro pré-praia dos anos 80 parecerem uma mui particular espécie de superfície lunar. Ironia do tempo e da natureza: marco da nossa imobilidade crônica, contra o qual temos de lutar como um antigo pescador às voltas com o peso de suas redes – um buraco situado bem mais embaixo. Mas, quer saber? O turista mesmo, este ser indiferente a erosões e borboletas, tá nem aí: vista do balanço das ondas, a enseada continua tão bonita que nem dá pra notar as pedras soltas da calçada espreguiçando-se areia adentro como quem quer tomar um sol restaurador. Ou então é minha miopia seletiva que só enxerga o que desejo ver, segundo o ângulo mais sentimental. Uma placidez de praia de meio de ano que só é prejudicada mesmo – sobretudo nesta época de marés baixas que fazem da areia um espelho do Morro do Careca – quando sua caminhada é interrompida por um brutamontes de ferro requisitado pelas obras. Há praias em que exótico é um velho navio encalhado onde menos se espera. Na Ponta Negra erodida pelo tempo e pela memória, estranho é uma retro-escavadeira trogloditando suas rodas na areia do mar.

domingo, 24 de junho de 2012

O canto dos cristais urbanos



Uma visita a um dos monumentos arquitetônicos e paisagísticos menos badalados de Brasilia e o que podem dizer seus oráculos emudecidos pela passagem do tempo histórico

Quem vê toda noite na tevê a arquitetura moderna de Brasília servindo de moldura para a crônica político-parlamentar do país, ou ainda se considera impactado pelas curvas em flor do  prédio da catedral de Niemeyer, e assim pensa ter uma visão total do diferencial urbano da capital brasileira está repleto de impressões mas incompleto de possibilidades. Como toda cidade minimamente turística, a exposição selecionada e exacerbada de seus cartões postais mais consagrados entrega para o conjunto dos brasileiros que não vive aqui em Brasília uma visão editada, um videoclipe sempre interessante, mas naturalmente nunca tão desconcertante quando a sensação de estar de fato aqui, entre uma curva do arquiteto e um tronco de cerrado, vendo-se ora refletido nas vidraças do Palácio do Itamaraty ora escorrendo pelas calhas do Palácio da Justiça.

Artifício e natureza bruta, vastidão e concentração, verde e cinza, aspirada das distrações urbanas que caracterizam qualquer aglomerado humano Brasília é esse espelho de contrastes extremos. Mas nem o Palácio do Congresso nem a catedral ou mesmo o menos conhecido interior azulado de vitrais da Igreja Dom Bosco é capaz de compactar tudo isso e, por um efeito de síntese, projetar no ar na forma de uma perplexidade tão vívida que parece construída em argamassa de concreto essa condição de cidade de pedra rígida, arvoredo torto e ar semirrarefeito de umidade contada em gotas, senão em partículas. Brasília é muito mais Brasilia aqui: no espaço situado entre a Praça dos Cristais e o prédio do Quartel-General do Exército, no Setor Militar Urbano, região noroeste sob as asas do Plano Piloto.

Nada a ver com o fato de a cidade ter sido a moradia dos generais que se impuseram sobre o país durante a longa noite de conhecimento geral. Ou antes: tudo a ver, mas aqui a gente espana do ar o eventual determinismo histórico tão necessário à compreensão total da praça e do QG – cuja suntuosidade inicial obviamente decorre da megalomania do projeto dos militares em tempos durante os quais tal gigantismo foi moda governamental de Brasília a Moscou, num corte estilístico indiferente à temperatura ideológica de cada qual nas febres da guerra fria. Acontece que, tomada hoje, visitada nestes dias, usufruída num passeio com as crianças neste além-ano 2000, a leitura, ainda que com a pulga histórica pilheriando suas ironias ao pé do ouvido, consolida uma percepção muito maior, que inclui elementos outros como o cinema de ficção científica, a natureza em crise nas consciências ambientais confusas, o uso do espaço urbano colocado em questão por enchentes e desabamentos, os novos rigores do clima redesenhando o solo urbano, a potência da cidade- espetáculo e a própria força da imagem num mundo saturado por elas.

 A Praça dos Cristais e o conjunto formado por ela e o QG do Exército, com seus jardins milimétricos, seus espelhos d’água de beleza quase metálica e seus salões cobertos por arcos de concreto recortado em curvas moles sugerem aos poucos visitantes que aparecem por lá numa tarde de sábado os frames vivos e em 4D de um filme de Ridley Scott, como podem fazer pensar sobre o falso controle do homem ecológico reunido em cúpulas presidenciais ou de mesa de bar sobre a força da natureza incontida – porque tudo nos jardins que Burle Marx projetou para a praça emana beleza, mas também domínio do homem sobre o verde. Outras conexões que a mente faz enquanto o olho mira o cristal de concreto no centro do lago e a pele sente o vento da vereda recriada entre as pedras da praça pelo jardineiro número um do país: a extensão de tudo, a escala do projeto, é de uma natureza quase escandalosa quanto se pensa as dimensões do mundo urbano atual, como moradias cada vez menores e espaços que, se maiores, são tanto mais inacessíveis à renda do cidadão comum.

A Praça dos Cristais, para além da beleza impactante por diferente com que se apresenta de cara ao visitante, consegue ainda nos distrair por algumas horas, ou enquanto se estiver lá, sobre as possibilidades que teríamos de manejar os elementos do clima e assim garantir a tranqüilidade do nosso cosmo, garantindo à atmosfera em volta o mesmo caráter bucólico que envolve o lugar e suas circunstâncias. E aqui chegamos ao elemento mais imediato, superficial mas potencialmente mais impactante, que é a primeira imagem do pai QG com seu obelisco fálico e seu domo feminino, casal arquitetônico que pariu o filho-praça ali em frente, com sua infância de verdejantes jardins e voadeiras garças. Este elemento é a visão em si, a imagem tão elaborada em componentes que realizam a plástica da beleza pelo contraste dos constituintes: a praça e o quartel, esquecidos dos roteiros turísticos rápidos que garantem ao visitante conhecer Brasília em 1 hora, são o tipo do lugar que recupera para olhares cansados de tanto ver a força da mera observação. Brasília se refaz aqui, livre das bacias que já não conseguem mais lavar os olhos saturados de quem não mais se incomoda  com os desvãos da arquitetura moderna; se é que ainda se dá conta dela.

Um lugar onde a opressão do espaço aberto pode causar algum tipo de dependência nos olhares mais sensíveis. Onde Alberto Moravia, o escritor-viajante, reconfirmaria todas as impressões que teve da Brasília inicial de quando visitou a cidade nos anos 60. Um recanto de natureza tão domada que causa inveja e faz jorrar interrogações na mente apressada do militante ambientalista. Um quadro adornado por lagos artificiais cuja água tanto se presta ao projeto do paisagista que sugere uma matéria metálica no limite da artificialidade. Onde até a garça – de verdade! – engana o primeiro olhar do incauto visitante: posta no alto dos falsos cristais de pedra, elas sugerem à primeira vista o aspecto congelado dos anões de jardim, mas logo se lançam em vôos e produzem um novo instante de perplexidade para o deleite do visitante.

Juntos, o QG e sua praça minam cada pedaço da expectativa que você construiu ao sair de casa ou do hotel para conhecer este espaço tão pouco badalado. Os clichês sobre militarismo, Brasil Grande, anos 70, repressão e resistência, cultura e natureza caem todos diante da estranha beleza de se estar neste lugar recontextualizado pela passagem do tempo. O grandioso tornou-se tão raro de lá pra cá que reencontrá-lo obriga o enfastiado das eras superplanejadas a repensar escala e estética.Por mais estridentes que tenham sido – e foram – não chegam aqui os gritos dos torturados pelos mandatários que tiveram a quase exclusividade de desfrutar do QG e sua praça. Chega, é verdade, um tipo incomum de silêncio que talvez contenha aqueles urros, remixados pelo túnel de tempo que percorrem para alcançar o presente.

Barulho mais forte vem mesmo é dos soldados armados no entorno da praça, afinal, não esqueça, estamos no Setor Militar Urbano. Pois se a grandiosidade do conjunto, passados tantos anos, pode não mais emular a violência do projeto militar que gerou esse lugar, a mera presença viva e só aparentemente sutil dos guardinhas tem tudo para trazer os anos 70 de volta. Mas logo o vôo de uma garça vai lhe arrebatar de novo e delicadamente do cerne da história para o sofá da arquitetura – e a recontextualização fará o resto. Porque, superadas as bases das condições que permitiram e estimularam a era dos generais, restaram esses museus que funcionam hoje como documentos de beleza inusitada, com sua praça que parece suspensa no ar dos acontecimentos (esteja lá e verifique como todo o noticiário político atual vira água soprada no ar da sua mente indiferente) e seu quartel-general adornado por intervenções arquitetônicas que lhe dão a impressão de estar dentro dos dutos de uma flor de melífluo concreto.



Por diferente, por aberto tanto ao céu quanto à terra – este é um dos tantos lugares em Brasília onde o liliputiano habitante se sente diretamente em transição entre o solo e o firmamento – , por respingar um verde contado no encardido geral do concreto, por abrir rombos derrapantes onde o convencional só prevê linhas retas, por reconstruir em matéria artificial e humanamente controlada as veredas do Grande Sertão não muito longínquo de Guimarães Rosa, por tudo isso o QG do Exército e a Praça dos Cristais podem ser uma subestimada síntese pouco conhecida dos mistérios urbanos e audiovisuais de Brasília. E você ainda pode dar migalhas de pão dormido aos peixes do lago, esses seres ainda mais inocentes do que nós das transformações históricas, econômicas e sociais que se passaram ao largo das pedras da praça.


terça-feira, 19 de junho de 2012

Rio + 20 é no sertão


No recinto, o conforto do ar condicionado e da poltrona macia. Lá fora, por trás da vidraça tipo cinemascope, o paisagem da cidade dadivosa. Do ladinho, um batalhão de assessores prontos a tropeçar ao menor pedido do mais reles copo de água - bem pura, por favor. E ainda tem quem estranhe que a nova edição da Conferência Mundial do Meio Ambiente, publicitariamente chamada de Rio + 20 (um nome que vale por uma tuitagem rapidinha), não apresente resultado. O problema é o ambiente. O problema é climático. Entendam bem: a referência não é exatamente aos problemas do planeta, mas da conferência mesmo. Quem for capaz de suar um milésimo da inhaca exalada por qualquer bom brasileiro durante um janeiro nordestino vai achar a solução para todos os impasses assim-assim, num passe de racionalidade. 

Está claro como o buraco da camada de burrice que recobre o planeta: bastava instalar a conferência num lugar menos aprazível do ponto de visto pop-ambiental. Bastava trocar o que (não) está sendo a Rio + 20 por alguma coisa como o Sertão - 10 (como aliás já sugere uma dessas piadas compartilhadas no Facebook). Imagine se a Rio + 20 (ok, por questão de convenção, vamos manter o nome) fosse realizada num pavilhão no interior da Bahia, com essa seca causticante que vem marcando com suas úlceras o sertão nordestino, num pavilhão coberto com telhas brasilit? Ou então num acampamento de barracas de lona nas margens do leito seco do rio Seridó, na região que leva este nome no interior do Rio Grande do Norte - um estado ainda melhor, visto que nem precisaria mesmo trocar o nome da conferêcia? Não preciso nem falar das opções mais, digamos, globais - como os rincões mais hostis das savanas africanas, preciso? Alguém duvida que, instalados em cadeiras dobráveis de bar, dessas invariavelmente pintadas de vermelho ou amarelo e com um Brahma bem grande pintado no tampo, tendo que se valer de precários ventiladores angariados na vizinhança, os senhores chefes de Estado não chegariam rapidinho a um consenso sobre o que precisam de fato mudar para que a Terra velha de guerra não vá a pique em função dos nossos desmandos comuns (sempre lembrando que neste grupo, como sempre, tem uns mais comuns do que outros)?

Li num desses romances populares sobre os bastidores do Vaticiano, um desse Morris West que é preferível não citar pra não passar vergonha, que durante a eleição do papa os senhores cardeiais reunidos em Roma são alimentados com um café terrível e mantidos trancados em condições não muito confortáveis. O objetivo é exatamente fazer com que não demorem muito a escolher o novo ocupante do trono de São Pedro. Pois é precisamente isso o que falta na Rio + 20, ainda mais tratando-se de uma conferência que não trata sobre algo etério e subjetivo como a definição sobre qual ser humano, entre tantos habitantes do planeta, está mais apto a servir como embaixador de Deus no plano dos depredadores aqui embaixo. Não, na Rio + 20 trata-se do planeta propriamente dito - e o dono da representação diplomática situada no país da bota  não tem nada a ver com o basquete. Aqui, os homens que se atem e se desatem, se quiserem continuar tendo onde morar. Pois até do ponto de vista metalinguístico, o sertão precário - precário mesmo, sem as facilidades que a tecnologia, essa danada, trouxe para lugares como o país do Seridó - é o lugar ideal para o pessoal que dá as ordens sentir o drama e não decidir com base apenas na suposição apressada dos assessores igualmente mantidos confortavelmente à margem do verdadeiro meio ambiente, aquele que queima sob o sol, fustiga com o vento, encandeia com a claridade, afoga na enchente e mata de sede e fome quando vem a seca.  

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Brasilia segundo Moravia


Entre a seca que aspira tudo, o concreto quebrado em curvas e as crispações do cerrado, Brasília é mesmo esse lugar à parte que desafia a percepção de quem nela vive. Nem se trata mais de gostar ou não gostar – a pergunta mais frequente feita a quem, não sendo originário daqui, aqui vive – mas de absorver, cada um à sua maneira, a distinta e reelaborada geografia urbana, ao mesmo tempo tão rural, que existe em volta do habitante. Sobre isso, destaca-se a visão do escritor-viajante Alberto Moravia, descrito pela escritora brasileira Ana Miranda como um “Rubem Fonseca italiano” na edição desse domingo do Correio Braziliense. Miranda usa o espaço semanal que tem no jornal para lembrar o impacto estético causado pela visão de Brasília – especialmente do alto do avião que o trouxe à cidade no instante de sua criação – para fazer pensar mais uma vez sobre a impressão que a cidade, parece, sempre nos causará. É mais uma tentativa de tradução ou enfrentamento diante da esfinge que é esta cidade, desde que você consiga, ironicamente em meio à mais previsível rotina que ela também propicia, suspender um pouco o olhar e captar a estranheza que está por toda parte. Seguem trechos da coluna de Ana Miranda, reproduzindo os textos de Moravia:


CIDADE METEORO
A cidade que “caiu como um meteoro em chamas, sacrificando a terra árida com sangue”.


ABSTRAÇÃO NO BARROCO
A cidade abstrata criada para arrancar das costas barrocas e preguiçosas do Brasil as classes dirigentes para retomarem a marcha dos antigos desbravadores no rumo do interior, e ocupar e povoar e enriquecer vastíssimos territórios. Mas, ao mesmo tempo que cidade desbravadora, cidade burocrática, a criar procedimentos padronizados para estruturar a organização da hierarquia, a divisão do poder e do trabalho.


ALUCINAÇÃO URBANA
Saberá Brasília “ser mais vivaz que essas cidades construídas pela força da vontade? Uma questão crucial para o destino da cidade. Até que ponto Brasília se deixaria massacrar pela presença monumental do poder? A cidade ainda se faz essa pergunta, diz o poeta. Como decifrar tua caligrafia de postes e ventos? Agora Moravia está num carro e percorre o Eixo Monumental, depara-se com as torres e sopeiras contra um céu azul, sente-se pequenino como um liliputiano, esmagado e aniquilado pela arquitetura, acha que os edifícios são alguma alucinação, pressente a atmosfera ditatorial, a solidão urbana, a desorientação que os pequenos habitantes sentem diante dos mistérios do poder que os governa.

Cadê Roger?



Neste domingo, respondeu à perguntas da sessão “O que eles pensam”, do Correio Braziliense, Roger de Renor, o pernambucano para sempre associado na cultura pop-rock-maracatu-nordestina ao movimento manguebeat, cujo manifesto Caranguejos com Cérebro está completando 20 anos. Roger era o dono do bar e espaço Soparia, plataforma de lançamento dos músicos pernambucanos que assumiam a estética da lama local como ingrediente fundamental para construir uma nova música, indiferente aos padrões do pop-rock “nacional” já então em fase de avançada perda de criatividade no início dos anos 90, além de transpor outra barreira de estilo, esta “local”, representada pela exigência de enraizamento cultural absoluto que faziam todos aqueles sombreados pelo movimento armorial, outro marco pernambucano anterior,  levantado pelas mãos não menos fundamentais do escritor Ariano Suassuna em conjunto com músicos que mesclavam a tradição erudita com o repertório de tinturas medievais que caracteriza a estética popular nordestina. Na entrevista ao Correio, Roger abre todos esses pacotes e, com a informalidade que este tipo de avaliação permite, empacota tudo novamente com os barbantes que o manguebeat legou à cultura musical pernambucana reformatada em estética & indústria, mídia & mensagem. Seguem os trechos:


MATUTICE ASSIMILADA
Chico Sciense e Nação Zumbi cantando com Gilberto Gil no Central Park é melhor que uma terapia de grupo como o estado inteiro. Com um megaterapeuta dizendo: “Fiquem tranquilos que não há nada de errado com o sotaque de vocês, com a forma como vocês se vestem. A matutice não é de vocês, é de quem tem o preconceito.”



LOCAL E NACIONAL
Não é uma questão de o músico ser descoberto nacionalmente, mas de envolver nacionalmente as pessoas. O principal sintoma da mudança foi esse, as pessoas começaram a se interessar por nós, saber que não paramos em Geraldo Azevedo, em música de voz e violão. Esse interesse do músico construir passou para uma geração nova que não está a fim apenas do sucesso. A moçada está a fim de êxito, de viver da música, escolher o lugar onde vai morar, não ser obrigada a morar no Rio de Janeiro.


ALÉM DO ARMORIAL
Queriam diversão como o que tem ali, com o que está perto, com o nosso repertório, o nosso quintal, sem essa culpa de ter que ser armorial. Hoje, a partir dessa história despretensiosa e até acidental do movimento manguebeat, foi possível liberar gente como Mestre Ambrósio e Siba.



A MORTE ESPETACULAR COMO CARTÃO DE VISITAS
Quando o jornal da tevê toca aquela musiquinha do plantão, até hoje me lembro da parada. A gente entrou pro mainstream da mídia pela porta mais funda e mais fúnebre que existe.  O que podia ter sido o fim da história talvez tenha sido um caminho mais rápido para o entendimento das novas gerações. Uma geração perdeu uma referência e as outras ganharam todas as referências.