segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

À SOMBRA DOS METEOROS



Parece que um meteoro caiu na Terra enquanto eu estava de férias. Ou teriam sido dois? Quando a gente volta pra casa depois de uma viagem, ou de uma série delas como é o caso agora, parece que foi tomado por uma espécie medicinal de amnésia social que nos deixa à parte de todos os acontecimentos transcorridos, sejam grandes, pequenos, verdadeiros ou inventados, promovidos ou fantasiados.

O fato é que, em termos astronômicos, o meteoro russo (não confundir com Tostói ou Putim) passou praticamente do meu lado enquanto eu me distraía com as piscinas naturais da Praia do Futuro e nem me dei conta. Outro astro parecido, que acabou de entrar para o sistema solar da política nativa, também quase cai na minha cabeça: um tal de “Rede”. Mas, qual nada, flanando pelo calorão de Fortaleza, a palavra “Rede” pra mim não soaria como mais do que aquele artigo para dormir à moda indígena que está à venda em nove entre dez barraquinhas de praia.

Não que as férias me transformem num autêntico marciano em temporada no planetinha das expiações infindas: até eu, no enfado matinal do meu quarto de hotel, estou sujeito a ligar a televisão na Globo News e ser informado da última catástrofe ocorrida no astro que habitamos – e, mais uma vez, é curioso como meu sexto sentido sempre liga na GNews em dias de catástrofes matinais. Ratzinger jogou a toalha e deixou meio mundo de mitra caída.

De uma hora pra outra, estando de férias ou no trabalho, viramos todos cardeais tanto quanto nos tornamos técnicos de seleção em véspera de Copa do Mundo. Volto pra casa e devoro a edição dominical do jornal “O Globo”, onde fico a par de tudo, inclusive da nova celebridade do mundo dos conflitos mundiais: Tarcísio Bertone. Tarcisão é o novo Ravengar do pedaço, o Zé Dirceu do Vaticano, o PC Farias de Roma, o Renan da Cúria. Ele é assim-assim com Ratzinger, mas foi quem botou Jeseph nessa enrascada, se eu entendi direito. O Globo foi muito mais claro – ocupou-se em explicar a farofa política do Vaticano; enquanto a “Veja” – que outrora era uma ótima fonte de esclarecimento em casos assim – esforçou-se tanto por comentar, à sua maneira, o acontecido, que tornou tudo muito mais confuso.  Reza uma verdadeira missa pra Bentinho, só faltou canonizar o cara – seu milagre justificatório à santidade seria a coragem da renúncia – mas se contradiz toda ao ter que afirmar sobre a ligação dele com Tarcisão. O conservadorismo não precisa de tamanha curva para conquistar seus adeptos, ou reforçar os que já tem, como deve ser mais o caso da “Veja” atual e seus leitores derradeiros. Melhor ser sincero, mas há tempos, reconheço, honestidade intelectual não faz a cabeça de ninguém.

Agora você imagine essas torções textuais quando se trata de matéria muito mais sensível como é o caso do  caso Yoani Sánchez. Acho que em algum momento eu falei, lá nos primórdios deste texto, sobre notícias verdadeiras ou não, inventadas ou fantasiadas. É por aí. Entre Ratzinger e Yoani canonizados, sou mais Bentinho explodindo de ciúmes por Capitu: em termos de fantasia, o noticiário de Machado é muito mais real.

CALDINHO DE FORTALEZA


 

A  capital de José de Alencar, urbe da índia Iracema, sucursal política dos Gomes, é um braseiro seco adornado por um verde mar. Quente, de uma qualidade de calor como não ser vê naquela parte do Nordeste que, junta, compõe o país RN-Paraíba-Pernambuco. Deve ser o vento atravessado – que não venta, de fato, na avenida à beira-mar – decorrente da posição geográfica que transmuda os habituais litorais norte-sul em leste-oeste.

O fato é que Fortaleza queima a pele e aspira a umidade, mesmo sendo o portal do Atlântico que também é. Soa estranho demais para a gente encontrar palavras. Quem sabe relendo Alencar – este primeiro autor verdadeiramente brasileiro, segundo nos vem nos alertando há tempos Ariano Suassuna, em contraponto ao domínio carioca de Machado, sem tirar, obviamente, os méritos deste último, que não são poucos.

Mas o calor seco de Fortaleza – que, comparação por comparação, lembra o de Brasília entre setembro e  novembro; mas aqui não tem mar, coração! – não é coisa de literatura. É vero, e só lhe dá um refresco, tão estranhamente quando a falta de vento nas praias urbanas, quando você está lá no alto da cidade, na agradável Praça do Ferreira. Quer se ventilar? Suba. Quer se fritar? Desça. Mas derreter não dá: embora a cidade conte com uma igreja gótica perfeita como ilustração daquele ditado sobre “o calor de derreter catedral”, a bela Notre Dame local, que não faria feio diante de nenhum corcunda, está livre deste risco. Porque não existe suor em Fortaleza, e sem essa substância que corre abundante nas peles que habitam ou visitam Natal, João Pessoa ou Recife, criatura alguma – sobretudo catedrais – é capaz de derreter frente ao calor ambiente.

Por fim, o cearense: a ele nada disso incomoda. E novamente ao contrário do cidadão de Natal, João Pessoa ou Recife, ele tá nem aí pra ar refrigerado. Não há, e por vontade própria, muitos “ambientes climatizados” em Fortaleza. No hotel, tomávamos café em temperatura ambiente – quase a do próprio café sorvido; de maneira que não dava nem pra se refrescar queimando a língua de propósito. Tudo bem que era um hotel temático, emulação dos anos 30 – mas não precisava exagerar. Disse a nossa guia amiga local Regina Luna que parte do específico calor local vem do fato de a cidade ser muito asfaltada – faltam os aprazíveis calçamentos de pedra de Natal (tá vendo, Natal? E vocês aí sempre se diminuindo diante do mundo...).

Certo mesmo é que o pessoal do Ceará não gosta de ar condicionado – nem os taxistas, acredite – e, quando usa, é numa potência bem baixinha. Entrar no quarto do hotel exigia uma espécie de despressurização da cabine aplicada à temperatura: só uma meia hora depois de trancado lá dentro é que o aparelho começava a fazer algum efeito.

Mais: calorento e bem resolvido, o cearense tem um defeitinho quase imperceptível – para eles, não para os visitantes: uma certa mania de soar o tempo inteiro como humorista. Precisa não: basta ser natural. Mas o pessoal força um pouco a barra – sobretudo guias turísticos e motoristas de táxis. Esses, em qualquer lugar aonde se vá, sabe-se: são os resmungões de sempre, juízes do mundo, palmatórias das misérias alheias. Agora você misture isso com um desejo não realizado de ser – mais um – humorista no pedaço e terá uma ideia.

Encontramos um que tentou tanto nos agradar insultando Lula – essa praga que se abateu sobre o país e daí pra frente – que não fosse o bigodinho extemporâneo  eu teria confundido facilmente com aquele menino, Diogo Maynard. Mas esse taxista, pelo menos, era avesso ao calor e ligou o ar condicionado no máximo – o máximo deles lá. Dizia que veio do sertão e já tinha passado calor demais na vida para andar em temperatura ambiente. Eu falei que a fixação no humor era uma constante. E Fortaleza, naturalmente cheia de graça, nem precisa apelar. 

sábado, 16 de fevereiro de 2013

Todos ao barracão



O barracão do grupo teatral Clowns de Shakespeare, no bairro de Nova Descoberta, em Natal, é um quadrado hermético e escurecido de portas que parecem fechar para o mundo lá fora quem estiver lá dentro quando descem fanhosas como as de uma sapataria em fim de expediente. É um espaço para o exercício intenso do ensaio e do estudo – não para o prazer da apresentação ao público. Pois não haveria lugar melhor para se começar a apresentar uma rara versão de um Hamlet forjado num recanto litorâneo nordestino do que tal barracão: basta o diretor do grupo Fernando Yamamoto arriar as portas e o ambiente sufocante, escuro e inescapável começa a fazer o resto: você está pronto para ser apresentado a um novo ator, um novo Hamet, um novo espetáculo dos Clowns de Shakespeare.
Seria uma injustiça chamar Joel Monteiro de “novo ator”, mas é que o protagonismo que ele assume na nova montagem dos Clowns, criada com o diretor convidado Marcio Aurélio, obviamente se impõe. Para quem não liga o nome à pessoa, Joel deu vida ao canalha-abilolado Pereira, na montagem que Yamamoto dirigiu para o primeiro texto teatral do polivalente Xico Sá, “A Mulher Revoltada”, apresentada brevemente num circuito Rio-Brasília. Mas a ascensão de Joel ao posto de personagem mais cobiçado da dramaturgia planetária não é a única novidade neste “Hamlet – Um Relato Dramático Medieval” que assombra as noites claras de Nova Descoberta e que, além de Yamamoto, tem também Lígia Pereira na assistência de direção. Temos ainda, ao menos neste início de temporada, uma encenação que tem feito alguns sentirem falta de certa leveza lúdica que já é parte do estilo Clowns de fazer teatro e recriar nas bandas de cá a dramaturgia do supremo bardo ocidental. Esses dois elementos, o Hamlet mais para incisivo do que para vulnerável que Joel nos apresenta – um Hamlet que visualmente remete mais ao Otelo, mas cuja revolta é tão marcante que já apresenta respingos de um Ricardo III – e o caráter enxuto, violentamente exato, implacavelmente seco da montagem são os marcos iniciais desta nova aventura do grupo. Quem aproveitar a temporada de apresentações no próprio barracão vai ter um ganho a mais: parte daquela atmosfera de claustro familiar habitado por intrigas, ressentimentos e ódios mal contidos vai se perder no esplendor de um Teatro Alberto Maranhão, por exemplo.
Essa claustrofobia é bem o oposto do que se costuma ver nos espetáculos dos Clowns, especialmente do último, esse sucesso popular que foi o “Sua Incelença Ricardo III”, germinado dionisiacamente sob a batuta conjunta de Yamamoto e Gabriel Villela. Os Clowns saem da profusão pop-festiva que marcou a temporada anterior para o seu inverso: a busca de uma exatidão que pede intensidade contida onde o espetáculo anterior era pura inventividade expandida. Mas não há como o germe criativo original dos nossos clowns não se inocular nas veias da revolta hamletiana: é claro que isso começa a acontecer quando o príncipe atormentado se aproveita da passagem pelo reino de um grupo de teatro mambembe para reencenar, provocativamente, o assassinato do pai. A respiração típica dos Clowns começa a surgir aqui – e a impressão que temos é de que, quanto mais o grupo vá cimentado a montagem, mais esse sopro vá se transformando no vento nordeste que caracteriza o seu trabalho. Por hora, ele se infiltra em algumas frestas, como os fiapos de ironia com que César Ferrario quebra a inflexibilidade pomposa de seu personagem; no colorido dos movimentos que a dupla Camille Carvalho e Paula Queiroz usa para emoldurar com leveza o peso do retrato encenado; na loucura translúcida, branca e percussiva da Ofélia de Titina Medeiros. E, é evidente, no aparelho vocal de Marcos França e no uso que ele faz deste instrumento músico-dramático, porque se houver uma trilha sonora capaz de identificar o grupo a quilômetros, será a voz deste ator, e a musicalidade é um adereço à parte da companhia, sejam em prosa ou em verso. Não à toa, cabe a Marcos França o rei usurpador – como lhe coube o próprio Ricardo III do espetáculo anterior e o mestre de cerimônias do “Roda Chico” de divertida memória. Com a elegância de costume de Renata Kaiser, não há Shakespeare que não esteja sujeito a ganhar uma nova descoberta pelas caravelas desta trupe.
Hoje e amanhã; e de 20 a 24 de fevereiro, no Barracão dos Clowns, rua Amintas Barros, 4673, Nova Descoberta, Natal RN. De quarta a sexta às 20h, sábados e domingos às 19h. Ingressos: R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia). Informações: (84) 3221-1816

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

DA VIDA DOS OUTROS


Biografias são espelhos. Nelas o leitor projeta suas anônimas e pequenas querelas diárias em busca do reflexo vindo de vidas trágicas, imensas, corajosas e desafiadoras. No Brasil recente, aprendemos com Fernando Moraes e Ruy Castro a ler biografias bem espanadas, em que a trajetória dos biografados, além de ilustrar o que pode uma vida no painel geral das circunstâncias, acentua o valor dessas últimas, construindo painéis históricos de irresistível força atrativa e informalidade narrativa. A gente abre o livro e tenta se ver no que for possível, seja diante de um músico que revolucionou a estética de um país como João Gilberto em “Chega de Saudade” ou no enfrentamento de uma ditadura exclusivista e ferrenha, como Fidel em “A Ilha”.
Desde então, a gente nunca mais parou de se mirar neste espelho. Um dos mais reluzentes que está atualmente na praça – digo, nas livrarias – é o primeiro volume da trilogia em que trabalha Lira Neto: seu “Getúlio – Dos anos de formação à conquista do poder” é um daqueles livros caleidoscópicos, uma biografia que não se exime de examinar cada episódio paralelo que se meteu no caminho do mais trágico, desafiador e corajoso líder político do país. Lendo “Getúlio”, a gente se mira no espelho do tempo histórico – no que colocamos o próprio país de hoje para se comparar diante dos conflitos recorrentes do século passado – e ainda fica muito mais ilustrado. Para citar alguns exemplos, há páginas e páginas sobre figuras como o “Leão de Caverá”, sobre fenômenos como o “Borgismo” no Rio Grande do Sul, sobre a mais que recorrente personalidade que é “Oswaldo Aranha”, uma visão mais transversal sobre Luiz Carlos Prestes do que nos deu outro clássico do gênero, “Olga”, de Fernando Moraes. O “Getúlio” de Lira Neto é este livro-espelho, essa biografia-totem que tanto quanto erige os detalhes que levaram à construção do mito também lhe desconstrói os pedaços de contradição que caracterizaram o homem.
Um corte brusco – nem tão brusco se você conseguir estabelecer certas conexões até meio óbvias – e caímos nas mãos de um novo produtor de espelhos. É o jornalista Ricardo Amaral que, aproveitando a proximidade com a pessoa e os acontecimentos que são a presidenta Dilma em sua ascensão de integrante da equipe de transição do então recém-eleito Lula até a substituição do próprio no Palácio do Planalto, construiu uma biografia cheia de raios luminosos que é a vida da ex-guerrilheira que virou a autoridade número um do país.  “A Vida quer é Coragem” refaz os passos dessa trajetória e a torna muito mais natural do que a gente sempre quis acreditar que pudesse ser.
Nada disso: o caminho de Dilma, descrito com a força dos fatos pessoais inseridos nas várias realidades do Brasil que a biografada viveu, soa coerente, progressivo, às vezes até meio automático. Amaral preenche os vazios da narrativa reconstruindo episódios recentes da vida política do país, como as mil e uma crises da campanha eleitoral que levou Dilma ao Planalto, no que ajuda o leitor a didaticamente reorganizar suas informações dispersas sobre o período – este, sabe-se, é outro dos efeitos das melhores biografias. O leitor sente falta de um pouco mais de proximidade com a Dilma dos bastidores, mas talvez isso se dê pelo fato de ela estar aí, no exercício de sua presidência e de seu poder político, o que sempre reforça a curiosidade em torno da pessoa, dos novos obstáculos que enfrenta, como enfrenta, com que lógica, o que pensa, onde quer chegar – enfim, é o resíduo natural de um livro como este.
O que mais sobressai na verdade são as frases e os raciocínios exatos da atual presidenta, em vários momentos da vida. Uma delas, das primeiras a produzir seus reflexos na página, diz que “A vida não é fácil. Nunca foi.” Aí está a essência do que diz a frase de abertura deste texto: biografias são espelhos – e é se vendo como reflexo anônimo nesta frase da célebre primeira mulher a ser presidente do Brasil que a máxima se confirma e se reinventa. Precisa chegar a presidente para entender aquela sentença? Há outras, tão marcantes quanto: “Sou uma mulher dura cercada de homens meigos”, lembra? E sobre aquela tendenciosa entrevista a William Bonner e Fátima Bernardes durante a campanha, na bancada do Jornal Nacional, que incomodou todo mundo por um excesso de cobrança que não se veria diante dos demais candidatos: “Eu achei que ia ser uma entrevista chochinha. Eles resolveram esquentar...” Pois é, ao contrário dos seus eleitores, Dilma nem ligou.


O terceiro livro a fazer parte desta conversa não é exatamente uma biografia, mais uma memória dos tempos infantis. Duros tempos infantis, bem diversos da maneira como o presente trata suas crianças – inclusive aquelas que já têm pra muito mais de 18 anos. Não importa: “Formosa És – Memórias do Internato”, em que Clotilde Tavares relembra seus tempos de criança de oito anos entre os muros de uma escola de freiras no interior de Pernambuco, na cidade de Bom Conselho, é um espelho vivo tanto quanto qualquer biografia – o que, como memória, ela também não deixa de ser. Estamos entre janeiro de 1956 e dezembro de 1957, o Brasil é outro, o Nordeste brasileiro nem se fala, a moralidade é imperativa, as possibilidades de uma família criar seus filhos com conforto e perspectiva é incerta, o mundo até parece ser em branco e preto ou sépia como um velho filme do tipo “Marcelino, Pão e Vinho”. Clotilde rememora a experiência de, tão criança, ver-se instalada num colégio interno de regras rígidas e hipócritas como a época, um tempo que hoje pode até parecer meio idílico, mas só é assim se a gente varrer da memória os padrões de comportamento quase talibânicos de tão bolorentamente religiosos e intolerantes que vigoravam então.
No espelho de “Formosa És” enxergamos os dias atuais por meio dos raios foscos que aquele tempo passado emitia: Clotilde é exata, e quanto mais dura, direta, sem rodeios mais soa forte, autêntica, dramática e impactante sua reconstituição. A bem da verdade, somente pela extensão – é um livro breve, que se lê muito rapidamente – o relato pode soar erroneamente leve. Não se trata disso: esqueça a face doce da autora e aproxime-se dela pelo seu lado mais cortante, aqui de longe o seu melhor. “Éramos famintas. Vivíamos famintas” é o tipo da frase que dá bem a medida do texto – e quem, como eu e muitos amigos, viveu em colégio interno saberá bem do que Clotilde está falando. Mas mesmo para quem nunca sentiu essa fome crônica e existencial do ser chamado “estudante de internato” este “Formosa És” será, a despeito da brevidade do volume editado pelos “Jovens Escribas” de Natal-RN, um espelho amplo como um painel na parede, projetando infâncias, carências e primeiras rebeldias de um Brasil a caminho de se tornar o complicado, mas muito mais arejado, país atual. Mirem-se nestes três livros e se deixem iluminar por tudo o que tais biografias são capazes em matéria de reflexão.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

SORTE, ARTE E FESTA


Assim como no CCBB, na Caixa Cultural 2013 também começa com uma série de exposições de artes plásticas perfeita para quem deseja iniciar o ano abrindo os poros da visão: a série “Sorte na Arte” traz para Brasília os trabalhos originais de Di Cavalcanti, Djanira (acima), Poteiro, Glauco Rodrigues, Carlos Scliar e outros artistas feitos para ilustrar bilhetes da loteria federal. São telas, gravuras e outras criações que reproduzem o colorido de festas populares como o São João e o Natal, além de outra série feita em 1967 para exaltar os heróis nacionais – mas embora o ano traia o propósito Brasil Grande de então, não feche os olhos de cara, que um Tiradentes sempre pode lhe aparecer em molduras muito mais pop art à brasileira do que poderiam desejar os sisudos generais do período. A exposição fica em cartaz na Caixa Cultural até 3 de março, de terça a domingo, das 9 às 21h. www.caixa.gov.br/caixacultural

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

HAMLET CHAMA


Hamlet em Nova Descoberta é realmente Hamlet em uma nova descoberta, sob o luar do litoral nordestino, aclimatando seus rancores familiares aos tabuleiros brazucas. Aqui, fiordes e gargantas dão lugar ao ventinho que nem com toda leveza é capaz de espanar completamente as cismas humanas dos irmãos mais ou menos torturados do príncipe dinamarquês – eu, você, nós. Hamlet em nova descoberta, com maiúsculas e com minúsculas, é a recriação potimundializada do texto clássico em costura fina pelas máquinas pensantes dos Clowns de Shakespeare. A temporada é no próprio barracão onde a montagem foi forjada em suores bálticos pelos artistas, no bairro de Natal onde o sol se reparte entre quartéis e universidades. A partir do próximo dia 13, de quarta a sexta às 20h e às 19 aos sábados e domingos. Ingressos a R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia). Convém não perder tempo que o espaço é apropriadamente pequeno -  mas há saída de segurança para quem não suportar, mais do que o medo das catástrofes, a claustrofobia da trama – e a lotação logo se completa. Não se aperreie se, ao sair do espetáculo, vier uma vontade de esfaquear os coqueiros nos muitos terrenos baldios do bairro. Pode ser o Hamlet nordestinizado produzindo seus explosivos deslocamentos de ar.

VAI PASSANDO A PROCISSÃO









Procissão de encerramento da festa de São Sebastião, padroeiro de Parelhas-RN, em 20 de janeiro de 2013.

domingo, 3 de fevereiro de 2013

VOAR, COM ARTE







O ano recomeça bem servido de arte visual em Brasília: no CCBB a tarde desse sábado, 2 de fevereiro, era de muitos preparativos para novas exposições. A que mais chama atenção é a do artista chinês Cai Guo-Qiang, cujos artefatos algo mecânico e desconcertantemente poéticos vai tomar conta de todos os espaços a partir de 5 de fevereiro (também no Museu Nacional dos Correios). Estivemos lá ontem para testar da melhor maneira possível os efeitos de uma cirurgia de correção de miopia e o que vimos, sem óculos e com a acuidade que a curiosidade também provê, foi uma algaravia interessante de máquinas, engrenagens, furadeiras e burburinhos ansiosos de vozes humanas que voltam a se integrar à vida da cidade em busca de trabalho e beleza. Também está sendo montada uma exposição cujo mote é o desejo humano de voar. Há protótipos pendurados em galpões ainda em montagem e deu pra ver, como se fora uma performance em si, os operários grudando no alto do prédio a frase que tenta deixar o visitante no clima dessa nova levitação. Acompanhe a montagem e voe você também: mas não esqueça de voltar ao CCBB quando o espetáculo de fato começar.

domingo, 13 de janeiro de 2013

PIRANGI, PRAIA


Para o natalense que por um tempo eu fui, Pirangi nunca passava do bairro. Pìrangi, o conjunto na zona sul, passagem para o Serrambi do amigo Jano Sérvio - ali onde Natal terminava num manto de matas. Nova Parnamirim não era nem uma possibilidade, quanto mais uma ocupação algo desordenada. Pirangi, Praia; essa era uma estranha tão distante quanto aquela mesma Nova Parnamirim ainda não edificada sobre a trilha de areia que viraria a ser a Maria Laderda. Isso quer dizer que levei anos, décadas para botar os pés na areia daquela Pirangi feita reduto da classe média. Precisamente, foi o que fiz nos últimos dias. Até então, Pirangi, Praia era um casario tumultuado perto de um grande cajueiro no caminho para outros lugares. E antes, bem antes, eu era estudante, de extirpe carente, morador da Residência Universitária Campos I, apartamento 11, onde cabiam outros cinco semelhantes a mim. Nossa praia era a Ponta Negra das antigas barracas, pré-CVC. Pirangi não era citada, não entrava nas conversas, não fazia parte do universo.

Pirangi, Praia era apenas um cartão postal - e mesmo desse eu lembrava tão pouco. Um negócio da era da infância, quando uma prima residente em Natal enviou pra nossa casa esse cartão onde se via uma enseada quase falsa de tão bonita, uma visão impossível bordada por areia branca, água calma e rio de desenho de escola. Aquilo existia? Quem podia ir até lá? Aquilo não podia ser pra gente. Durante anos o cartão com essa praia absolutamente mitológica ficou guardada na caixa de retratos, com dedicatória no verso, exemplar raro de algo incomum para a nossa rua sem calçamento, nossa casa de banheiro no quintal. E lá ficou, talvez ainda esteja entre nas pastas que habitam as gavetas da casa de minha mãe.

Agora, por uma gentileza sem preço do casal Lúcia e Lucas, tios de Rejane que mantêm um apartamento na colônia de veraneio da classe média natalense, lá fomos nós. No final do ano passado, numa festa de reveillon a que fomos convidado pelo mesmo gentil casal, já tínhamos tido uma prévia da areia fofa da praia, do estranho ar convidativo da parte de Pirangi que se nos apresenta em forma de mar aberto, de uma amplidão que a curva superpovoada de Ponta Negra nem sempre nos oferece mais. Agora, como fomos num meio de semana (algo me diz que entre sexta e domingo o padrão animatício é outro), pudemos descer tranquilamente à praia, respirar seu vento de fim de tarde, divertir o olhar com as manobras dos praticantes desses novos esportes que misturam empinar pipa com pendurar gente sobre as ondas do mar, dar um passeio a pé até passar por baixo do pier comprido da Marina Badauê. Os vendedores de CDs e picolés sempre dão um jeito de interferir na trilha sonora joãogilbertiana do vento puro com seus forrós liquefeitos em barulho, mas nada que chegue aos píncaros da tortura sonora que domina outras plagas e praias. Enfim, até essa interferência contribuiu para que enfim eu pudesse dissolver num copo de agradável  realidade o mito de Pirangi, Praia. Mito é importante pra guarneceer a imaginação, mas o Real é outra praia onde o nosso pé também precisa pisar. Obrigado, Tia Lúcia e Lucas.

NO BALANÇO DO POTE


Forró bom é que nem o da água dos sertões - do Pote. A casa de música regional de Pium, litoral sul de Natal, está fazendo nove anos neste 2013, e só agora Rejane conseguiu realizar um projeto que tem quase dez anos - justamente o de me levar lá. Fomos ontem à noite, guiados pelo Google Map numa estrada sem sinalização alguma: mineiramente escondido nos grotões altamente urbanizados da praia de Parnamirim, encontramos este simulacro de vila matuta em forma de quadrado fechado, com vendas de bebidas e acepipes nas beiradas, toldos com mesas de plástico pelo centro e um dancing tipo cassino na área nobre, abaixo de um palco nada espetaculoso mas de muito bom tamanho. O Forró do Pote tem as medidas certas, nem tão exagerado nem tão estreito, um público visivelmente cativo e nenhuma fila incômoda. Milagre nestes tempos de massificação geral e multidões em busca de diversão eletrocutada, tudo lá nos soou tranquilo, caseiro, arejado e espaçoso. Muito bom o Forró do Pote.

Mas, veja mesmo: tinha horas em que parecia que a gente estava em Brasília Citi, num soiré do Clube da Previ, reduto dos iniciados nas coisas da Velha Guarda que encontram uma música suave e um dancing tão cassino quanto em beiradas outras, as das quadras 700-900 da Asa Sul. O nome já entrega - abreviação de Clube dos Previdenciário, palavra-instituição cuja breve pronúncia já deixa transparecer o avançado da idade - o espírito do lugar. Lá no dancing candango temos, às noites de sexta-feira, casais descansados de filhos crescidos e netos buliçosos, músicos de camisas estampadas, música nunca posteriores à década de 80, e o atrativo extra de várias "individuais" exibindo-se na pista sem medo de ser ridículas - e não são, que alguma espécie de elegância noturna anima suas almas dançantes. Pois, uma vez no Forró do Pote, parecia que era no Clube da Previ que a gente estava: os mesmos casais experientes, cabeleiras grisalhas de rostinho colado com madeixas habituadas aos rituais da pintura, um ar doméstico, e várias "individuais" sobraçando braços, pernas e meneios de quadris entre os quatro cantos da murada. Mocreário de responsa, que esse também é um elemento obrigatório deste tipo de ambiente. A diferença era só o repertório: mas alguma coisa me diz que mesmo no Clube da Previ a banda da noite sempre arranja um jeito de encaixar uma sessão rítmica de forró, do tipo clássico, o que aproxima ainda mais os dois lugares.

Danceteria brejeira, com uma mestre de cerimônias de fala calorosa, o lugar recebeu ontem a presença do astro regional Geraldinho Lins, de quem temos um CD sumpimpa adquiro nas gôndolas oportunistas da incansáveis Lojas Americanas. Outros forrozeiros locais abriram a noite, frequentada por tipos tão caracteríticos que não havia como não designá-los por um apelido de uma noite que seja. Havia, então, bem perto da nossa mesa, um Joaquim Barbosa circunspecto acompanhado por uma ex-sílfide dos anos JK, hoje redimensionada pelas plásticas da idade. Casal calmo, de poucas danças, esparsas conversas, platonicamente admirando o show de forró. Animado era o clone de Lewandowski mais à frente: um velhinho que não se entregava fácil e dançava o tempo todo. Com um bela e espadaúda morena, Lewan estava nos cascos ontem à noite: dançou até no intervalo entre os shows, sem deixar de dispensar nem mesmo o play-back. Ôxe, e play-back né música não, menino? Data-vênia, forrozeiro!

O esquema de consumo é que nem em quermesse de São João em Brasília: você comprar as fichas e depois troca pela bebida ou comida que deseja adquirir. E o repertório? Onde é que eu iria imaginar que um clone metropolitano de forró de pé de serra iria tocar para o público dançar novos clássicos da música nordestina como "Banquete dos Signos", "Abri a Porta" (copiando milimetricamente o arranjo do disco original de Dominguinhos, um brinde extra à minha memória) ou - o hit inesperado na noite, que fez todo mundo levantar e sair em caminhadinha de passo de quadrilha para a pista - "Frevo Mulher". Ouvindo esta última e apreciando a animação geral que ela provocou, tirei minhas previ-conclusões: aquele pessoal todo tinha que ter 13 anos em 1979, quando o "Frevo Mulher" que Zé fez para a então mulher Amelinha gravar estourou no último carnaval da década da nossa tenra infância. Vida longa ao Forró do Pote: e dia 2 de março tem Flávio José - se a gente estivesse aqui, ia, se ia, e como ia.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

A ADOLESCÊNCIA DAS FINANÇAS


Juventude mais tecnologia turbinada com dinheiro é igual um mundo congelado pela frieza dos sentimentos, esvaziado pelos aspiradores dos sentidos, retocado pelas impressões do que não vai além da mera aparência. É o mundo de “Cosmópolis”, o filme de David Cronemberg que compõe uma instigante parábola do mundo tecno-financeiro-juvenil atual, num tipo de cinema-ensaio que se no impactante tratamento visual lembra um Stanley Kubrick de ótima cepa, no texto propriamente dito emula o mais reflexivo cinema dos anos 90, como “O hotel de um milhão de dólares” de Wim Wenders.
Mas isso são só referências, porque este “Cosmópolis” está trincando de tão novo quanto se trata de ler a reluzente algaravia sociofinanceira dos nossos tempos de neoprotestos e riqueza ostensiva tão proclamada quanto revestida de sentimento de culpa. “O que significa gastar dinheiro”, pergunta uma Juliette Binoche provocativa como uma das inúmeras passageiras da limusine atarantada de Robert Pattinson. Pelos seus bancos isolados do caos lá fora passeiam outros convidados, cada um despejando no ambiente à prova de som externo suas teorias esparsas sobre mercado, estilo, tédio, capitalismo e prazer.
O rosto naturalmente meio robotizado do vampiro Pattinson cai à perfeição nesta parábola que destila luxo e decadência ao mesmo tempo, enquanto usa os ratos como metáfora para o poder da grana asséptica que circula entre operadores. Uma cena inteira costura a provocação, compondo um jogral em que o rato assume o valor de papel moeda, título financeiro, valor de face e poder de compra. Nas dezenas de diálogos que pontuam e sustentam as idéias do filme, especula-se sobre o poder até gramatical das declarações econômicas, quando um personagem decreta com propriedade sobre os especulativos tempos atuais: “Toda economia ficou em suspenso porque ele (um poderoso ministro de finanças) respirou fundo (antes de responder a uma pergunta)”.
E tome teses sobre o dinheiro, que, “assim com a pintura, perdeu sua capacidade narrativa”. É daí pra frente o nível da sessão, como se o sistema inteiro estivesse usando o carrão do protagonista como divã de análise planetária. E o protagonista faz por merecer, exibindo como prêmio indesejado um vazio tão grande que o faz igual, similar, embora em pólo oposto, aos ativistas quase infantis que se aprazem em estourar tortas nos rostos dos ricaços. O manifesto verbal de um deles após este terrorismo inocente é de um caráter tão patético quanto a apatia de Pattinson – e de um equilíbrio fino; um tom a mais e seria comédia pura, mas é evidente que não é disso que se trata.
Quem leu as toneladas de textos publicados quando o filme foi lançado sabe que, narrativamente comprimida, a história mostra um megamilionário das finanças tecnovirtuais atravessando o caos de uma cidade dentro de um carro isolado de tudo e de todos para ir cortar o cabelo num bairro distante. Pois é lá, no dito barbeiro, que encontramos a razão de sua teimosia: está ali, numa espécie de relicário analógico conservado com visual de instagram em sépia, o pouco de memória afetiva que lhe resta. O barbeiro, amigo do pai, relembra os tempos de taxista – tão diversos daquele freqüentado pelo protagonista.
No balanço final, ocupa toda a tela a imaturidade daqueles que enriqueceram quase ao deixar as fraudas, por artes de um sistema que tem pressa e já não consegue ver graça nem no dinheiro que produz e reproduz. Uma adolescência financeira que, de outra maneira, também atinge quem está do outro lado da barricada – os ativista de tortas de chocolate. Pior para suas vítimas de mais idade, como o personagem de Paul Giamatti com quem Pattinson tem seu enfrentamento final. E a quem aconselha, ciente de que, mesmo imaturo na experiência, vive com a mente cravada por uma indesejável intuição: “Há muito pouco nessa sociedade que você precisa odiar”. Um recado para os muito ricos, os muito pobres e aqueles de extrato quase sempre médio que insistem em denunciá-la o tempo todo. Não que estejam errados – mas nem por isso deixam de fazer parte dela, é o que parece nos dizer “Cosmópolis”.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

OS LIVROS QUE O SOPÃO LEU EM 2012


  • ENTREVISTAS COM OS ESPÍRITOS - Antonio Carlos com Psicografia de Vera Lúcia Marinzeck de Carvalho
  • 1958 - O ano que não devia ter acabado - Joaquim Ferreira
  • GETÚLIO - Dos anos de formação à conquista do poder - Lira Neto
  • CINCO SEMANAS NUM BALÃO - Julio Verne
  • A CULTURA DA CONVERGÊNCIA - Henry Jenkins
  • DEPOIS DO FUNERAL - Agatha Christie
  • A MANSÃO HOLLOW - Agatha Christie
  • O EVANGELHO SEGUNDO JESUS CRISTO - José Saramago
  • CAIM - José Saramago
  • COMO VER UM FILME - Ana Maria Bahiana
  • ENSAIOS DE ESTÉTICA - José Ortega Y Gasset
  • AS TEORIAS DA CIBER CULTURA - Francisco Rüdiger
  • A BOA VIDA SEGUNDO HEMINGWAY - A. E. Hotchner
  • AS NEVES DO KILIMANJARO E OUTROS CONTOS - Ernest Hemingway
  • UMA BREVE HISTÓRIA DO SÉCULO XX - Geoffrey Blainey
  • O JOGO DA GATA-PARIDA - Luiz Gutemberg
  • SILVIO DE ABREU, UM HOMEM DE SORTE - Vilmar Ledesma
  • A PRIMAVERA DO DRAGÃO - Nelson Motta
  • CONTOS ABENSONHADOS - Mia Couto
  • UM CONTO DE DUAS CIDADES - Charles Dickens
  • TERRAMAREAR - Ruy Castro e Heloísa Seixas
  • O VERSO E O BRIEFING - Clotilde Tavares
  • BIOGRAFIA PRECOCE - Fernando Meirelles
  • O LIVRO DO BONI - José Bonifácio de Oliveira Sobrinho
  • segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

    O LIXO DE NATAL

       
    Enquanto sobe o sol à flor do Velho Chico no sertão baiano e o dia se apresenta para mais uma jornada na estrada, uma imagem recorrente destes dias estraga o instagram engatilhado das férias. É o lixo de Natal, esta entidade do final de 2012 que parece estar em todos os lugares. Está em frente à prefeitura, está no ex-calçadão de Ponta Negra, está no JN, está no site de notícias. O Lixo de Natal virou quase uma autoridade, algo que se escreve com iniciais maiúsculas e que se deve cultuar como um patrimônio vívido e fétido das imprudências potiguares. Porque o Lixo de Natal é a realização mais material possível das conseqüências de atos coletivos praticados quatro anos atrás.
    Por este critério, o Lixo de Natal precisa mesmo ser exposto, oferecido, imposto e reapresentado até o limite das nossas capacidades. É preciso que o cidadão comum sinta seu cheiro, que o comércio tropece nele em suas calçadas, que o empresário de turismo aspire cada molécula de fedor que ele espalha no ar. Porque todos esses – e muitos outros mais – contribuíram em momento diverso para iniciar o processo que daria origem ao estado atual das coisas. Nenhum lixo, por mais ordinário que seja – e o fato de ser ordinário é a mais pungente das prerrogativas do lixo, qualquer que seja ele – começa assim espetacular, em rede nacional e com insuportabilidade local: começa é com um reles montículo potencializado pelas forças que estão ao seu redor. Sabemos bem que forças são essas quando tratamos do nosso lixo político estadual e municipal.
    Convém também lembrar que o Lixo de Natal, uma vez reinstituído em entidade pública de papel passado e mandato fixado, também se manifesta em outras áreas da cidade além de suas feições imediatamente políticas. E já que estamos todos torcendo para que se recolha em operação de emergência o Lixo de Natal antes que 2013 se inicie de fato, torçamos igualmente para que o caminhão da Urbana leve também nossa falta de ousadia, nossa preguiça mental, nossa babaquice deslumbrada, nosso interesse mesquinho, nossa imensa falta de auto-estima no bom sentido da coisa, que faz com que uns e outros insistam em nos chamar de província como a tentar uma forma intelectual de levitação acima do barbarismo geral do tempo e do lugar. Fora com o Lixo de Natal – o real, que desenfeita nossas ruas nesta transição 2012-2013, e aquele outro, que persiste no ar das nossas subjetividades mais escorregadias.
    (Ibotirama, BA, 30-12-2012)