sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

O listão do Leitor Bagunçado




De Muirakitan a Fritjof Capra, de Padura a Oliver Sacks, foram muitas e diversas as vozes que me distraíram da crise em 2015

Nem os agraciados do Enem, tampouco os aprovados para o Oscar. Antes que janeiro feche as portas, é preciso que o Leitor Bagunçado aqui - o apelido auto-aplicado, para os recém-chegados no blog, decorre de autopiadas feitas no Twitter em priscas eras - precisa fazer cumprir uma outra tradição em forma de lista: publicar a relação dos livros que leu no ano anterior; aquela mesma que pode ser consultada a qualquer hora enquanto o tempo escorre na ampulheta lá na template da Hamaca, o blog irmão (neste 2016 já temos dois registros).

Pois bem, em 2015 não houve crise na economia decodificativa do Leitor Bagunçado. Manteve-se o caos (com exceção da trilogia de Lira Neto, notável sobretudo no volume 2, pra se entender como se engendra uma ditadura; e isso é mais sutilmente e menos organizadamente do que se supõe; eis pra mim o grande mérito da série biográfica); regatou-se antigos autores (como sempre, de vulgares reputações, mas fazer o quê, se o vínculo sentimental é maior que tudo?); leu-se ao léu como convém à justificativa da alcunha.

Assim a título de avaliação mínima desse balaio de escritos, pode-se dizer que Leonardo Padura e Amos Oz foram boas descobertas, que uma releitura de J. D Salinger veio bem a calhar nesses tempos de desinteligência obtusa, que Oliver Sacks merece continuar sendo explorado em sua feliz mistura de ciência, letras e senso de humanidade, que Morris West será sempre uma lembrança recorrente, que Fritjof Capra precisava ter sido lido há mais tempo (mas combinou bem com minha crise de hérnia de disco), que Fernando Morais continua fera (e me deu assunto pros papos com meus amigos cubanos do Mais Médicos de Acari-RN), que é uma emoção a cada página ler Muirakitan Macedo contando pra cada seridoense a nossa própria história e finalmente que José de Alencar é mesmo aquele potentado, com já alertava há mais de vinte anos o saudoso Ariano Suassuna. Direto à lista, sem mais quês e tais:


.  GETÚLIO 3 - Lira Neto
  • GETÚLIO 2 - Lira Neto
  • GETÚLIO 1 - Lira Neto
  • FRANNY E ZOOEY - J.D. Salinger
  • A ILHA DOS DALTÔNICOS - Oliver Sacks
  • OS ÚLTIMOS SOLDADOS DA GUERRA FRIA - Fernando Morais
  • PROTEU - Morris West
  • RÚSTICOS CABEDAIS - Muirakytan K. de Macêdo
  • DA MINHA TERRA À TERRA - Sebastião Salgado
  • ERA NO TEMPO DO REI - Ruy Castro
  • O PREÇO - Arthur Miller
  • O PONTO DE MUTAÇÃO - Fritjof Capra
  • PAVÕES MISTERIOSOS - André Barcinski
  • CIDADES DE PAPEL - John Green
  • AS MINAS DE PRATA - José de Alencar
  • CARNAVAL NO FOGO - Ruy Castro
  • PILATOS - Carlos Heitor Cony
  • ON THE ROAD - Jack Kerouac
  • O VIAJANTE DO TEMPO - Ray Bradbury
  • 24 CONTOS - F. Scott Fitzgerald (trad.: Ruy Castro)
  • CINCO MAIS CINCO (OS MAIORES FILMES BRASILEIROS EM BILHETERIA E CRÍTICA) - Carlos Diegues, Luiz Carlos Merten e Rodrigo Fonseca
  • UMA CERTA PAZ - Amós Oz
  • O HOMEM QUE AMAVA OS CACHORROS - Leonardo Padura

  • segunda-feira, 24 de agosto de 2015

    Uma frasqueira entre muitas botas




    Dois festivais de teatro em Brasília trouxeram para o potiguar que vive aqui duas oportunidade de ver dois dos espetáculos mais comentados feitos na cidade de Poti em tempos recentes. Primeiro foi "Guerra, formiga e palhaços"; depois, "Jacy". Duas imersões na nossa fala, duas contemplações nos nossos rostos, dois prazeres espelhados com um intervalo de tão poucos dias que é como se estivéssemos nos tempos de "Papai pirou nas ondas do rádio" ou de "Quem beliscou Paulinho?", nas poltronas do TAM (Teatro Alberto Maranhão para os não-iniciados ou esquecidos). Mas foi aqui, Brasília, Teatro Goldoni e Teatro do Sesc, meados de 2015, um ano difícil. 

    Fácil é acionar os botões da memória e da empatia. Sobretudo pela qualidade do que vimos. Muito já foi dito, aqui e alhures, sobre os dois espetáculos: da feliz incursão de César Ferrario no texto - que o povo do teatro diria "na dramaturgia" - ou do retorno ao palco de Quitéria Kelly. Para os não-locais, preciso dizer que César é ator, do grupo Clowns de Shakespeare, cujos integrantes, depois de praticamente construírem uma plateia própria com uma série de espetáculos primorosos, parecem estar buscando novos caminhos. E que Quitéria é um bom-bom de chocolate amargo em forma de pessoa, mulher e atriz - uma outra referência do nosso teatro. Mas que referência!

    "Guerra, Formiga e Palhaços" é uma alegoria feita a partir de um tema até batido, que é o absurdo da guerra. Daí para atingir o patético do ser humano é um tiro. Sobretudo quando se coloca um palhaço no campo de batalha: está armado o acampamento que agiganta cada uma das nossas minúsculas fraquezas. "Jacy" é um bric-a-brac que convida o público a montar junto com os atores o espetáculo - sem recorrer a certa empulhação do teatro interativo; o papo é outro. Reconstitui-se, camada por camada, a vida de uma mulher potiguar com esmero, deleite e perícia cênica a partir de um texto a princípio meio testemunhal, semidocumental que, pressente-se e o espetáculo felizmente confirma com celebração, vai desaguar na mais plena ficção.

    Há um elemento em comum entre os dois espetáculos, embora de temática tão diversa - quase opostas. Não são os atores, nem o texto, nem o ritmo - embora esse elemento interfira e enriqueça todos esses outros. O que há em comum entre "Guerra, formiga e palhaços" e "Jacy" é um elemento de cena - extremamente presente no primeiro e apenas referencial no segundo. 

    Em "Guerra" são as botas cobrem o chão do palco e caem como bombas sobre os atores, espalhando uma infinidade de sentidos conforme se assiste ao espetáculo, servindo aos atores como verdadeiras formas móveis, tristes Lego que eles usam para fazer a peça se deslocar para lá e para cá. As botas, em "Guerra..." só faltam falar - garanto que você jamais viu um elemento de cena tão marcante no palco de um teatro (especialmente se tratando de palco de arena; num palco italiano talvez o efeito não seja tão intenso). 

    As botas são ali o chão irregular em que se movimentam os personagens, o piso hostil que sustenta a guerra, o relevo nada confortável em que se finca nossa débil humanidade, o testemunho mudo das caminhadas do soldado sem rumo, a memória que se gruda como lama nas solas furadas de quem não tem mais para onde ir. Trata-se de um elemento de cena que, presente o tempo inteiro, caindo do céu ou revirando-se em terra, envolve tudo. A moldura sem a qual o espetáculo não seria o mesmo. E estamos falando de um texto que já conta com as formigas, outra forte metáfora de nossa condição em momentos de perplexidade total.




    Em "Jacy", o elemento de cena definitivo e definidor é uma frasqueira - uma pequena valise daquelas que as mulheres usavam nos anos dourados, caixa luxuosa de perfumes, espelhos e pó compacto. Sua mãe, sua avó ou sua tia há de ter tido uma. Mas o processo é outro: se as botas abraçam tudo em "Guerra", aqui a frasqueira é ponto de partida, elemento provocador do espetáculo inteiro. É a partir dela - encontrada num amontoado de lixo nas ruas de Natal, conforme contam os atores no espetáculo e fora dele - que se dá uma investigação minuciosa, nostálgica, irônica, política (sim!), sensível mas também em certos momentos quase festiva sobre sua proprietária - a Jaci do título. 

    O grupo Carmin de teatro montou um inventivo quebra-cabeças teatral a partir desse argumento. De dentro dessa frasqueira simbólica e arquetípica vai saindo não apenas a história de uma mulher potiguar - como tantas que você conhece, e invoco novamente, com todo respeito, sua mãe, sua avó ou sua tia - mas também a alma de uma cidade inteira, Natal. 

    A história de Natal, seus encantos e suas mancadas, cabe na frasqueira de Jacy, minha gente. De dentro desse antigo apetrecho feminino sai a Natal da II Guerra, uma extremamente bem montada reconstrução de nossa triste ancestralidade política, um pequeno e doloroso conto sobre a solidão da velhice e, acredite, até o vento do nosso litoral. Vide a cena final, quando ele mesmo, esse vento reproduzido com a ajuda de quatro ventiladores, espalha pelo teatro as folhas soltas desse quebra-cabeças que nós, plateia abençoada pela dádiva inesperada, remontamos guiados pela graça de Quitéria e pelas ironias de Henrique Fontes.

    É enciclopédico o prédio dramatúrgico que "Jacy" ergue sobre o palco, numa montagem cheia de excelentes ideias. E são tantas - os cartazes com slogans embaralhados; o jogo entre o Jacy homem e a Jacy mulher; as referências mil que embora digam respeito a Natal não tiram do texto o alcance geral - que, mal você teve tempo de deglutir uma e já lá vem outra. Eis um espetáculo para ser visto várias e várias vezes. Ao final, cada integrante do público leva para casa, para o bar ou para o restaurante pós-espetáculo sua Jacy particular, uma personagem - para usar uma palavra da moda - "customizada" conforme o potencial imaginativo - e sobretudo sentimental - de cada pessoa que assiste ao espetáculo. 

    Eu saí com a lembrança da minha mãe e da frasqueira que ela de fato tinha - e tudo o que elas são capazes de evocar. Saí com a saudade de uma cidade que adora se menosprezar mas para a qual todos, mais cedo ou mais tarde, voltam. Saí com uma explicação para esse retorno, que é cobrada em cena de maneira que nunca imaginei ser possível num espetáculo de teatro: - "Porque Natal, para além de tudo, é uma cidade doce"; essa seria a minha explicação, Quitéria e Henrique, Pabro Capistrano e Iracema Macedo (esses últimos, os autores que conseguem dar harmonia a essa bagunça toda que somos nós).

    E saí também com uma desconfiança: é crível que a frasqueira tenha sido encontrada no lixo, dando um pretexto documental para a peça; mas é mais crível ainda que tudo, absolutamente tudo, tenha sido inventado. Nessa hipótese, não haveria prejuízo algum: pelo contrário; ao ser capaz de revestir essa história com tamanha impressão de realidade, criando uma ficção pura a partir de um recheio ora falso ora decorrente de informações históricas verdadeiras, o espetáculo se torna ainda mais encantador ao revelar quem foi essa Jacy e dar pistas sobre quem somos, de fato, nós - seus conterrâneos da capital e do interior.


    Jacy pode até não ter existido, mas está por todo canto. Como as botas que brotam do chão da guerra.

    sábado, 16 de maio de 2015

    Memórias do alvorecer






    Quando a nostalgia se torna muito mais que um vício e um posfácio vale tanto quanto toda a tradução de um clássico beat


    Há frases que esmagam com carinho o coração do Leitor Bagunçado. Há trechos de textos que massageiam com dedos divinos as cordas de sua emoção. É o que ocorre, e acaba de ocorrer, quando ele depara com as rápidas memórias de Eduardo Bueno - o Peninha daquela série sobre a história do Brasil infelizmente interrompida - ao final do relançamento, pela L§PM, do On the road de Jack Kerouac. 


    Relembro que a edição resulta da tradução feita por Bueno e lançada originalmente em 1984, quando pela primeira vez o clássico beat foi vertido pra o português brasileiro (o máximo que havia antes era uma edição lusitana de título risonho - Pela estrada afora - como conta o próprio Peninha). 

    E chego ao ponto acrescentando que, além da tradução, o relançamento, já nem tão relançamento assim (que o Leitor Bagunçado segue fiel ao seu atraso regulamentar) traz prefácio e posfácio escrito pelo mesmíssimo Eduardo Bueno. Aí é que estão as tais cordas da tal emoção dedilhada de que se falou lá no início deste tortuoso texto: Bueno, a propósito de falar sobre as circunstâncias de sua tradução, traz de volta registros de um tempo que tanta falta faz aos tempos atuais. 

    Não é nem nostalgia, embora esse seja um dos meus mais deploráveis vícios: é cotejamento puro e simples de uma época com outra, dado o volume que tomou a carga conjunta de maldade, ignorância e arrogância que pisa sobre os nosso dias, como se vivêssemos qual formigas sob as botas de um ogro de manifestação reaça. Mas nunca chego ao ponto principal: ei-lo, a seguir, nas palavras contidas no dito posfácio, embora com ligeira edição para o melhor entendimento do que é dito aqui com infeliz inexatidão.

    "E tudo parecia maravilhoso (Bueno se refere ao lançamento de On the road, às séries da editora Brasiliense, como Cantadas Literárias e Circo de Letras, ao surto de edições no Brasil dos papas da literatura beat chegando a Bukoswki e John Fante). Era a época da abertura, das Diretas Já, do rock paulista, da geração saúde, do Circo Voador, do Carbono 14, do primeiro Rock in Rio, do Pra começo de conversa e de outros babados mais. Era o alvorecer dos anos 80, e havia muitas promessas no ar, com aquela gente voltando para a caserna de onde não deveria ter saído."





    Outro trecho, complementar:

    "Como eram bons os tempos do Plano Cruzado - aquele que mostrou que os brasileiros gostam de ler, sim; que só não compram livros quando custam meio salário mínimo, ou seja, quase sempre - e como ninguém que entenda alguma coisa de literatura dá bola para o que os críticos dizem, os beats continuaram sendo publicados e vendendo muito bem, obrigado. Mas aí acabou o Cruzado, Caio Graco (dono da editora Brasiliense) morreu, eu saí da L§PM, Lima e Ivan(L e PM, respectivamente) continuaram sua carreira editorial com outros títulos e outras trilhas, e a tardia onda beat no Brasil esmoreceu, como tudo um dia esmorece."

    Depois disso, só desejando, neste outro tempo deste outro Brasil, tão absurdamente diverso daquele: "esmorece, mediocridade; e rápido, antes que tudo esteja perdido."

    sexta-feira, 17 de abril de 2015

    O Sal, a Terra e o drama


    Muito mais do que um documentário convencional, "O Sal da Terra" divide com o público o encanto e o desespero por trás das fotografias de Sebastião Salgado 

    Quem for ao cinema para ver "O Sal da Terra" esperando uma mera cinebiografia do fotógrafo Sebastião Salgado vai tomar um susto. Um susto cinematográfico, caso os olhos estejam kubriquianamente bem abertos e a sensibilidade em ponto máximo. Ao contrário de "Revelando Sebastião Salgado", esta sim uma cinebiografia convencional no nível médio dos canais de tevê por assinatura (por acaso em exibição no Canal Brasil; e disponível na íntegra no YT - veja aqui), o filme de Wim Wenders (em parceria com o filho do fotógrafo; mas a mão do alemão por trás de tudo é dominante e evidente demais para que se dê crédito equilibrado à parceria) é o estudo de um artista sobre outro artista. Um encontro de sensibilidades sociais e estéticas, como raramente se pode testemunhar, uma vez que se sabe: talentos superiores geralmente tendem a rejeitar seus semelhantes, antes investindo na competição do que na cooperação.

    Mas estamos falando do mundo de Sebastião Salgado, onde a foto-celebridade do atentado a Ronald Reagan é apenas um ponto na trajetória - um êxtase da fama que o fotógrafo tem a grandeza de não hipervalorizar. Talvez por isso o episódio - menor na trajetória do mineiro que se notabilizou ao descobrir a fotografia enquanto trabalhava como uma espécie de economista social na Europa - esteja ausente do filme de Wenders, causando estranhamento em que esperava um trabalho linear, jornalístico - e com tudo o que o critério jornalístico tantas vezes tem de redutor e empobrecedor. 

    Portanto não espere de "O Sal da Terra" um trabalho tecnicamente considerado "documentário", porque vai muito além disso. Há ali uma dramaturgia em que a trajetória de Salgado é apenas espelho para o confronto entre um homem e o mundo atual. Poderia ser a descrição de como um antropolólogo se viu perdido e inseguro após estudar com profundidade as formas de vida das várias humanidades espalhadas por sobre o planeta. Poderia ser o mesmo fenômeno tendo como protagonista um economista, um cineasta, um artista plástico (algo que, só pra comparar, ocorreu também com rara felicidade em "Lixo Extraordinário"que o artista plástico Vik Muniz fez a partir dos catadores do Jardim Gramacho). O resultado dessa excursão aos limites da vida humana e do mergulho que um fotógrafo faz neles tem a dramaticidade conjunta de um "...E o vento levou" mais "Luzes da cidade" mais "Era uma vez na América" mais "O sol que nos protege" mais "Pixote" e muito outros títulos. Assistir a "O Sal da Terra" é como ver todos esses títulos juntos, porque a cordilheira de emoções que o filme lhe convida a percorrer é dessa enverdura pra cima. Reforçando: algo difícil de se esperar e de se ver num documentário - daí porque se trata de muito mais que isso.

    Dos dramas dos deserdados africanos à miséria do interior nordestino no início da década de 80, passando pelo esplendor de ambições enlameadas que foi Serra Pelada e culminando com a crise do artista depois de documentar tantas imperfeições humanas, tudo em "O Sal da Terra" exige entrega, sensibilidade, espírito desarmado e aquela espécie de subjetividade que o pobre jornalismo - essa academia mal construída de generalidades apresssadas - não tem condições de conter, quanto mais de compreender. Não se trata mais de um filme, mas de um daqueles eventos que só ocorrem de tempos em tempos. É é pra ser visto, na sua calma contemplativa e no seu impacto de empatias, em tela grande, no cinema propriamente dito.  

    sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

    "O rio chegando com água"




    Uma notícia que nada completamente contra corrente do noticiário atual pra encerrar bem a semana: o que o video mostra - as águas decorrentes da volta das chuvas no sertão paraibano tornando a preencher o leito seco do rio Taperoá, na cidade do mesmo nome, situada a 200 e poucos quilômetros de João Pessoa, ainda no chamado Seridó Paraibano; terras da origem da família do saudoso Ariano Suassuna - é, com o perdão da longa digressão entre travessões, o que a gente, no mesmo Seridó, porém potiguar, chamava em priscas eras de "o rio chegando com água", assim mesmo, nessa sintaxe que aparentemente embaralha a ordem das palavras no decurso da frase.

    Hoje eu vejo como era linguisticamente bonito dizer "o rio chegando com água", porque isso significa, numa construção popular absolutamente poética, que sem água não há rio. Pode parecer óbvio para você que é do litoral ou da zona da mata. Não para nós que viemos do sertão.

    O video, com toda sua beleza de flagrante inesperado, ainda pode ser visto como um comentário acidental, um chiste nordestino sem divisionismos ou sentimento de desforra, sobre a falta de água que atinge o sudeste do país. Como disse alguém outro dia aqui mesmo na internet, o problema da falta de água só se tornou realmente isso - um problema nacional - quando ocorreu onde as decisões econômicas do país são tomadas. Vejam que belas imagens, amigos sudestinos - sem ressentimentos, apenas observada, via essas mesmas imagens, a força daquela feia mas real constatação.

    quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

    Notícias de verão



    Três notícias movimentam este início de janeiro nos jornais de Natal: os moradores da praia de Pìrangi se organizando aos poucos para reagir à barulheira e às promoções de praia que tumultuam o que poderia ser um belo descanso por lá; as primeira providências do governador Robinson na área da segurança pública, convocando policiais que até ontem se recusavam a trabalhar em hora extra pra fazer policiamento nas áreas mais movimentadas; e - essa a que interessa aqui - a separação músico-vivencial da dupla Khrystal-Zé Dias. É o verão, é o fim do caminho, é o começo de outros, é a vida acontecendo no alvorecer do mais pessimista dos anos, este 2015, coitado, tão antecipado em previsões de ajustes, desgraças, contas a ajustar. A minha desconfiança interna diz que talvez, ao fim e ao cabo, não seja para tanto.

    Mas a separação Khystal-Zé Dias é um desses acontecimentos-espelho, que por um lado se lamenta, por outro se compreende, por outros se deseja que resulte em mais e melhores dias para ambos. Ocorre que as parcerias, no dia-a-dia, no trabalho, na cama e na mesa, no companheirismo de jornadas enfrentadas em conjunto têm disso mesmo: começo com aquela carga de entusiasmo sem a qual a vida perde o viço; um meio ponteado por essa palavra tão na moda - ajustes e adaptações ao que não estava previsto -; e em muitos casos um fim, quando fica claro e transparente que algo se esgotou e outro tanto urra por alguma forma de renovação.

    A vida acontece intensamente para todos quanto estejam atentos a ela e seus sinais, sejam relâmpagos ofuscantes de tão explícitos ou pequenas manifestações que se intrometem na rotina anunciando de mansinho que alguma coisa passou do prazo de validade e é preciso urgentemente repor os materiais nem sempre tangíveis com que se faz a existência. Sei que o recado aqui está resvalando para um certo tipo de auto-ajuda à qual, admito, sou bem suscetível. Devia ter avisado no início do post para não tomar o tempo de quem usa óculos de sol dentro de casa. Não o fiz, paciência. Nem tudo na vida sai como o esperado, o planejado, o imaginado. Feliz - na real - é quem compreende essas imperfeições e faz dela trampolim para verões possíveis.

    Em Pirangi, praia, moradores estão tentando refundar o seu local de veraneio, espanando incômodos que, num esforço conjunto, podem sim sair de cena. Na segurança pública, a descrença é grande quanto ao efeito das duplas de policiais nas ruas - mas o muro de incredulidade não vai ajudar em nada a reverter a situação que, só pra citar um exemplo, transformou a praia de Búzios numa cidade-fantasma em pedaço que até outro dia era privilegiado trecho do litoral sul de Natal. E a dupla Khrystal-Zé Dias já faz parte da história cultural da cidade, independente dos novos vôos que ambos, cada qual no seu canto, vai pilotar a partir das renovações deste belo verão.

    quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

    Woody vê o mundo



    "Crimes e Pecados é um daqueles filmes que as pessoas veem a primeira vez e, como acontece com os contos de Tchekov, não captam logo tudo o que têm a oferecer. Eu sempre achei que é um filme que mostra como Woody Allen vê o mundo - um lugar onde pessoas como seus vizinhos realmente se envolvem com assassinatos e acabam se safando, e onde bobalhões terminam com belas namoradas."

    David Gilmour, em O clube do filme, Intríseca.

    Normas arcaicas



    "Presenciei aquele universo. Meu avô era parecido. Não tinha o boi, o banguê, o cavalo. Era mais pobre. Agora, a moral dele era aquela. Aquilo é um patrimônio maléfico universal. A intolerância. A inibição do outro. O não reconhecimento da individualidade. Tenho capacidade de expressar isso em palavras. Seu Breves não tinha. Ao mesmo tempo era valor estratificado, era maneira de existir. Se não existissem esses valores no sertão, as pessoas sairiam se matando. Era uma forma deles de se organizar. Normas arcaicas, de colonizadores que vieram com o patrocínio da religião e da missão de quem chegou em um mundo maravilhoso como este. Consequentemente veio o empobrecimento."

    José Dumont, em Do cordel às telas, depoimento a Klecius Henrique, Ed. Imprensa Oficial-SP

    Palavras universais e sem sentido


    "A sátira é uma espécie ameaçada no cinema norte-americano e, quando ocorre, é vaga e vulgar como nos filmes de Mel Brooks. Muito além do jardim, dirigido por Hal Ashby, é uma ave rara e sutil, que encontra seu tom e o mantém. Possui o atrativo de um jogo intelectual engenhoso, onde o herói sobrevive a uma série de desafios sem entende-los, usando palavras ao mesmo tempo universais e sem sentido."

    Roger Ebert, em Grande Filmes, Ediouro.

    domingo, 16 de novembro de 2014

    Borges + Lhosa = Bolaño


    Roberto Bolaño não me põe mais medo. A intimidação cult  que é a mera visão de um exemplar do seu mais que venerado 2666, o livro - e não o código secreto de alguma seita literária como alguém pode supor diante deste tijolo em forma de romance ou vice-versa - perdeu o sentido. E nem precisei sequer abrir a folha de rosto do dito e prolixo romance. Pra quem  não lembra, 2666, com suas temeráveis 1.008 páginas, foi elevado ao altar da grande literatura tão logo se deu a morte de seu autor, o referido Bolaño. As velas do morto ainda nem haviam esfriado de todo quando foi decretado que quem jamais o lera meio que também poderia se considerar um leitor, digamos, defunto. 

    Foi um daqueles casos de ascensão fulminante ao panteão das entidades das letras - mais ou menos a mesma que se dá quando o Nobel de  literatura vai para um (até minutos antes) obscuro escritor belga, ou africano ou afro-americano cujo conhecimento público se limitava quando muito a um gueto universitário ou algo assim. O problema era encarar as horas de leituras exibidas pelo 2666 - que a muito custo a gente duvida que não se trate de um título autoexplicativo sobre o número de páginas em que se estende. O fato é que muita gente boa que se aventurou - incluindo os envergonhados pioneiros que muito rapidamente tinham que devorar o catatau e se mostrar atualizados com a nova seita - deu uma aliviada geral ao contar, diante de pasmos leitores escaldados, que, sim, é um grande livro.

    Por favor me situe entre os escaldados e os preguiçosos. Não é que eu torça a cara para livro grosso. Moby Dick e Grande Sertão até hoje me absolvem nesse quesito, lembrando que a grossura é o que menos importante no velho Guimarães e que a baleia de Melville pode muito bem ser entendida com uma versão ampliada de O velho e o mar de Hemingway. No fundo o que incomodava mesmo era essa pressão para que de um dia para o outro a gente se tornasse especialista num autor que, absurdo dos absurdos, fora ignorado em vida para ser celebrado mal deixou esse mundo. E logo de cara com todo mundo jogando nas fuças da gente esse 2666 que parece mais  um tomo de enciclopédia perfeito para escorar portas que rangem. 

    Mas está na hora de revelar como enfim me livrei desse medão sem sequer ter lido ao menos as orelhas de 2666. Simples: na base do acaso. Ganhei de Titina e Cezar, amantes declarados de tudo quanto venha da Latinoamerica, um outro livro do cara, As agruras do verdadeiro tira. Claro que, para manter a aura cult do Bolaño, tinha que ser um livro inacabado - na verdade os originais de um outro que poderia se tornar mais um infindável romance que a morte não permitiu ao escritor concluir. Descobri, lendo esse romance postumamente organizado por outrem, que Bolaño, não temam, é apenas, simplificando grosseiramente, um cruzamento de Jorge Luiz Borges com Mario Vargas Llosa. 

    Mais precisamente o Borges de Ficções - um livro tão precioso na minha memória de leitor que, por mais que tenha vontade, evito encarar um releitura, como que pra não quebrar aquele encanto - com o Conversa na Catedral de Lhosa (que somente este ano, há poucos meses, encarei a frio). Foi notar esse cruzamento na história do professor universitário que vaga entre América Latina e Europa perseguido pelos próprios fantasmas relacionados ora à militância esquerdista ora a uma homossexualidade tardia que acordei para tais conexões. De Lhosa, ele pegou a história picotada como que em quadrados que se encaixam um capítulo aqui com outro bem mais adiante. De Borges, enxertos como aquelas maravilhosas listas de livros inexistentes e ainda aquela maneira de narrar usando formatos diversos, como capítulos surpreendentes mínimos ou resumos de obras literárias que também só existem no próprio livro. Tudo muito aberto, esparso, ventilado como se fosse um grande escrito cujas folhas saíram voando por aí e um leitor - você, que por ventura esteja com o livro nas mãos - organizou para compreender minimamente o mundo daquele professor e seu entorno. 

    O prazer da leitura, que os primeiros desbravadoras pós-morte de Bolaño viram no 2666, está neste esgrimir de estratégias narrativas, neste organizar de estilos que embora aparentemente diversos guardam uma harmonia sugestiva como se vê no mais convencional romance linear. É verdade que você, leitor,  nem sempre estará à altura de decifrar, com seu repertório igualmente convencional, todas as referências que Bolaño espalha pelo livro - aliás, é bem possível que permaneça imune ao efeito da grande maioria delas. Mas, como numa letra de música de Luis Melodia, vai captar nem que seja pelo cheiro aquela matéria indistinta a que na falta de expressão melhor chamamos de "o espírito da coisa" - ou a coisa do espírito se melhor lhe aprouver. O fato é que, precedido pelo bem mais exato Ficções e pelo igualmente ambicioso Conversa na Catedral, a escrita de Bolaño não precisa mais intimidar ninguém.

    segunda-feira, 29 de setembro de 2014

    Coppola, o retorno

     
    É muito apropriado que Tetro (DVD Versátil, 2009) seja a narração de um resgate, já que o próprio filme representa isso mesmo para quem o assiste: a volta de Francis Ford Coppola ao cinema, não por acaso com um drama em branco e preto que trata de um relacionamento entre irmãos. Qualquer lembrança de Rumble Fish (título original tão melhor que o quase slogan de rebeldia O selvagem da motocicleta) não terá sido ocasional, fica claro de cara. Tem o branco e preto, tem o tema do desencontro entre irmãos onde o mais novo se projeta nos mistérios do mais velho e tem, ainda, alusões visuais que também ligam os pontos, como a primeira imagem, um superclose do protagonista se deixando iluminar ao brilho de uma lâmpada incandescente onde um inseto agoniza fascinado por tanta luz. A cara do cinema de F.F. Coppola.

    É a mesma luz que o cineasta projetou no Rumble Fish sobre o rosto de um novato e atônito Nicholas Cage - a não ser que eu tenha apenas imaginado uma cena que de fato não existe no filme, como já me aconteceu com outra de Deus e o diabo na terra do sol (alguém trocando a cruz por um facão nas mãos de Geraldo Del Rey, minifilme que me ficou na memória mas, descobri depois, é uma alegoria que o filme não traz, ao menos não literalmente assim).

    Enfim, na subjetividade de imagens superpostas, sugeridas ou confundidas que o melhor cinema provoca e estimula, Tetro é este retorno, feliz retorno. Coppola, aqui neste registro de drama familiar plasmado por um certo tom de romance de formação, não é naturalmente - nem poderia, a esta altura dos fatos do mundo do cinema e do entretenimento - o gladiador em câmeras dos épicos do fracasso da fase Apocalypse Now




    Também não poderia ser mais o muralista ambicioso - e felizmente delirante como o cinema nunca mais tem sido - de O fundo do coração. Temos, no retorno, um Coppola de meios tons onde não obstante a marca do autor consciente persiste, por exemplo, nas vinhetas que expressam o inconsciente dos personagens, construídas em quadros que, por deliciosamente artificiais (inclusive com uso correto dos recursos da informática), lembram claramente os mares de papel com que ele ilustrou esse segundo filme aqui citado. 



    O interessante é ver como, mesmo trabalhando em escala menor do que aquele que o fez um grande cineasta - embora, lembre-se, o grandioso naqueles filmes tantas vezes servisse para destacar o dilema íntimo, a delicadeza contida nos painéis - Coppola retorna com um filme multimídia. Nunca deixa de ser ele mesmo, com baixo ou nenhum orçamento: Tetro mixa, com estilo do vinicultor apurado que o cineasta também é, cinema, música e dança - e com enxertos de teatro. Parece que a última vez que se viu isso dessa forma mínima e ao mesmo tempo tão envolvente foi naqueles velhos filmes oitocentista de Carlos Saura - e esqueça a fase dos musicais arrasa-quarteirão do cinema convencional americano que este é outro capítulo. 

    Enfim, com Tetro, volta Coppola, e com Coppola, volta certo  cinema dos anos 80 que tanta falta faz hoje em dia, sem desprezar o que foi feito de lá pra cá. Mas, super-heróis subtraídos (e gosto de alguns, sempre faço questão de lembrar), onde você poderia ver um autêntico drama familiar rodado numa Buenos Aires com a tepidez de La Boca e adjacências, com atores como Vincent Gallo (que você viu onde mesmo? No a esta altura já clássico A casa dos espíritos, como o odioso filho bastardo que adere à ditadura).




    Ou  Carmem Maura, a serelepe protagonista de Mulheres à beira de um ataque de nervos aqui quase irreconhecível - mas em desempenho absolutamente digno, atuando quase que sem que os pés toquem no chão - como a crítica literária singularmente conhecida como "Alone". Sem falar em Maribel Verdú, que lembrará vagamente um distante Sedução (Belle Epoque, 1992, dir. Fernando Trueba), caso você tenha passado ao largo de algo mais cru, como E sua mãe também, este mais recente. 

    Definitivamente, não se faz mais este tipo de filme. Nem com esse elenco, tampouco com essa envergadura de vanguarda do passado, esse passado tão desprezado pela pressa das impacientes narrativas atuais.  

    sábado, 27 de setembro de 2014

    J.D.



    Conhecido vulgarmente por ter se tornado o mais arredio dos escritores, eternamente metaforizado como uma Greta Garbo da literatura, o que também é outra vulgaridade - mas, enfim, esta parece ser a forma que o ser humano tem de encaixar em algo classificável e digerível tudo aquilo ou aquele que se torna além da compreensão imediata-, ele foi o pai de grandes figuras. Duas bastam para dar o tom geral dessa sublime e agoniada paternidade literária: Holden Caulfield e Seymour Glass. 

    Todo mundo que aspira a se visto como cool, descolado e imune ao sistema gosta de mostrar que se referencia em Caulfield. No meu caso, embora também aprecie bastante que me considerem avançado, outsider e meio blasè diante das coisas do mundo, mundo, vasto mundo, preciso admitir que quase nenhum vínculo guardei com o anti-herói do romance de formação mais bacana já escrito, O apanhador no campo de centeio. Li duas vezes e pouco guardei. Em compensação, estabeleci uma ligação imediata com o segundo daqueles filhos, o mais querido dos suicidas - e devo dizer que não simpatizo muito com essa classe, preferindo os que não se dobram sobretudo ao desejo inconsciente de autodestruição - que é o maioral da família Glass: Seymour.

    Se o amigo nunca chegou perto dos demais livros de J. D. Salinger - o tal pai aqui em questão - vai logo pensar que estou falando outra língua para além do português ou do inglês. E estou mesmo: parlo em salinguês, um idioma próprio cuja gramática só se encontra mesmo nos tais livros de contos onde os personagens são os integrantes da tal família Glass. Seymour é apenas o melhor entre eles - suicídio simbólico à parte (sim, porque "Ver mais vidro" - e quanto a essa citação você vai ter que ler os livros para decifrar, se achar que é preciso, ou então perguntar aos amigos Carlos de Souza e Jô Medeiros - de fato comete os dois tipo de auto-extermínio, o simbólico e o de fato que, sendo de fato, não o é de todo, pois que se trata de literatura, e fim de parênteses). 

    Foi assistindo ao documentário Memórias de Salinger, um filme de Shane Salerno (Paris Filmes, 2013), que me dei conta de que J.D. foi um dos autores de quem mais me aproximei de ler a obra completa. Fui um garoto que amava a prosa barroco-popular de Jorge Amado, devorei vários Vargas Llhosa que agora ando retomando, tive minha fase Elias Canetti - que hoje acho de uma densidade quase impenetrável, quando atualmente prefiro certa leveza não obstante marcante - e passei por obrigatórios García Marquez e Manuel Scorza, sem deixar de virar fã de Umberto Eco. Mas, sem me dar conta, parece que foi do americano J.D., que não leio há século, quem mais me aproximei também em termos quantitativos. Descobri, enfim, vendo o filme - um primor de reconstituição de uma vida feita longe das câmeras e do público - que li quase tudo o que o cara esquisitão escreveu.

    Por influência dos supracitados Carlos e Jô, desfaleci diante de Franny & Zooey, submergi com 9 Histórias acorrentado às mãos, e voltei à tona lendo Pra cima com a viga, moçada (ou Levantem bem alto a cumeira, conforme a tradução escolhida ou encontrada). O caráter algo zen, sensivelmente poético e absolutamente fora do senso comum que os membros da família Glass infundem nas nossas mentes de leitores enquanto apreciamos todos esse livros estrelados por eles têm a natureza das intocáveis substâncias de alta extração e extrema duração. 

    Os Glass, Seymour à frente, são uma família completamente estranha aos dias atuais, um núcleo intelectualmente supradotado que nos faz ver de outra forma até as paredes do cômodo que por acaso sirva de cenário para tal leitura. E foi um deleite saber como tudo isso começou a partir do conto do "peixe-banana" e seu diálogo com a infância perdida em pessoa - embora seja também doloroso saber o custo que a construção dessa família da ficção teve para a família real do escritor enquanto tal processo se dava. Mas parece que a genialidade nunca foi cercada de conforto psicológico - e cada grande autor se vira como pode, e suas famílias suportam aquilo sabe-se lá como, quando suportam. 

    Claro que se você tem apenas a curiosidade primordial de "ver" J.D. em imagens raras sairá satisfeito da sessão em DVD de Memórias de Salinger - afinal, mesmo quando recoloca o autor na moldura certa que ele nem sempre teve, um filme é um filme e não deixa de reforçar a mitificação que ele próprio parece se propor a relativizar. Só não deixe de procurar os livros - O apanhador, por  mais célebre e comentado, é facílimo de encontrar tanto em novas edições quanto em sebos; agora quanto aos da família Glass, prepare-se para uma aventura; o que não deixará de dar um gostinho a mais quando você finalmente deparar com um empoeirado exemplar de um deles. E certas leituras empoeiradas, hoje em dia, são um luxo que a banalidade nos concede. Não desperdice. 




    quinta-feira, 14 de agosto de 2014

    Luto, futebol e coragem


    2014, que esperávamos fosse apenas o ano da Copa no Brasil, virou o ano da morte no país. De um momento para o outro, de meados do primeiro semestre até este impressionante início de segundo, parece que nos tornamos um território da mortandade. Abrigo das despedidas, hospedaria do fim. 

    Neste pobre e espaçado blogue mesmo, dá pra notar: veja abaixo as três últimas postagens e constate. Uma sobre Rubem Alves, outra sobre Ariano Suassuna e agora esta, que você lê agora.

    Não seria um eleitor de Eduardo Campos na disputa presidencial. Quem me conhece daqui e de outros espaços sabe que voto, mais do que em Dilma, no PT, por acreditar - insatisfações laterais à parte - no projeto do partido para melhorar as condições de vida no país. Mas obviamente a notícia da manhã de quarta-feira é pra mim tanto quanto pra tanta gente uma informação chocante o bastante para ficar como que parada no ar, um dado zanzando suspenso sobre nossas cabeças tão mais perplexas quando mais o tempo passa.

    A morte súbita e pavorosa de Eduardo Campos, que acompanhamos neste ao mesmo tempo maldito e revelador tempo real em que se transformou nossa relação com notícias trágicas, tem a rarefação das realidades que a gente tem imensa dificuldade de consolidar totalmente no imaginário despedaçado. 

    Leva tempo para que a percepção se reagrupe novamente e se consiga compor um quadro mental mínimo que forneça moldura ao acontecimento de maneira a torná-lo, se não aceitável, ao menos definido. Coerente, jamais. Compreensível, nunca - seria algo superior à nossa humilde condição.

    Aqui não se trata de política, naturalmente. O que foi dito nos parágrafos acima se aplicaria perfeitamente a Dilma, Aécio, àquele pastor candidato ou qualquer outro que tivesse perdido a vida em situação similar. Claro que cada um é cada um e as individualidades descrevem arcos diferentes quando se analisa o desenho da vida, seja na política, nas artes, nas outras áreas de atuação humana. 

    Claro que se tratando de Eduardo Campos há neste desenho um traço ascendente que o coloca, na circunstância de sua morte, em uma situação tal que o choque coletivo é absolutamente maior. E nisso, sem querer bancar o Nelson Rodrigues, também não há como não ver neste triste acontecimento um halo do dramaturgo brasileiro, esse homem que estudou a morte como ninguém usando o texto teatral como objeto de investigação. O que se quer dizer aqui é que a morte de Eduardo Campos, para além de tudo o que foi dito, não deixa de conter - e não me entendam  mal, vejam bem o que digo - algo de bonito, na medida em que  ele deixa a vida no instante em que mais a perseguia, a realizava.

    Esta morte estúpida pegou Eduardo Campos vestido com as roupas da coragem, do entusiasmo, do ímpeto rumo a uma nova jornada tão mais elevada quanto mais envolvia não só à sua pessoa, mas a todo um conjunto de pessoas e uma segmento de um país que saiu à luta sem garantia alguma de que essa empreitada teria sucesso. Isso é muito bonito. Muito mais bonito do que quanto a morte colhe tantos de nós mal parados em vidas estagnadas, sem crenças políticas ou de qualquer outra natureza. Eduardo Campos era o que a gente pode definir como uma força viva, independente do que se possa dizer sobre seu ideário e sua prática política. 

    Hoje, como que para reunir num mesmo feixe essas tantas conexões entre o assalto da morte que nos ataca e a coragem da vida que caracteriza um de seus escolhidos, ouvi por acaso Raimundo Fagner cantando a canção que está no video acima do YouTube: Quem me levará sou eu, por ironia composta por outra dessas folhas colhidas pela morte em passeio nos jardins brasileiros, nosso também inesquecível Dominguinhos (a terceira das perdas pernambucanas da temporada). 

    A canção diz muito sobre o caminhar de uma pessoa e me leva a especular sobre a passagem de Eduardo, Dominguinhos, Suassuna deste para outro plano, acredite ou não o amigo nessa segunda esfera de uma suposta existência. Sou dos que acreditam que "Amigos a gente encontra, o mundo não é só aqui".

    Dos que estão certos que de que "as coisas que eu tenho aqui, na certa terei por lá". O legado - essa palavra que tanto tem frequentado o nosso vocabulário neste ano de futebol e luto - tem a ver com as coisas que gente como Eduardo teve ou fez questão de cultivar: essa coragem de se mover, essa beleza de ser surpreendido pela morte quando mais dialogava com a vida.