segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Festa dos bonecos


Nesse final de semana, tropas de bonecos teatrais se entrincheiraram nos vastos espaços abertos de que é composto o pátio do Museu e Conjunto Cultural da República, aqui em BSB citi. A partir das quatro e meia da tarde começavam os espetáculos e quando se via, seis ou sete da noite, todo o lugar era um mar de pais e filhos ancorados no chão cimentado para assistir, de cara para os artistas (o que era mais difícil, devido às dimensões dos protagonistas) ou frente aos telões, às apresentações de homenzinhos e mulherzinhas feitas do tamanho de um dedo ou capazes de caber - eles e suas longas e incríveis histórias - no espaço de uma folha de papel. 

E foi assim, de uma imensa dimensão diminuta - a estatura fisicamente restrita dos bonecos - a outra que é pura amplidão - o pátio do museu, que transitamos, pais e filhos, entre outros planos, do da realidade parda para o da fantasia multicor da arte e seus efeitos. Eram muitos espetáculos, grande parte deles simultâneos, o que lhe causava uma feérica confusão: o que assistir, onde se deter? Na arte de animação de bonecos britânica ou no nosso velho e estimado mamulengo nordestino? Cedemos, porque era precisa ceder a algum deles por menos binários que queiramos ser, a um espetáculo de extração latino-americana em que os dedos das mãos do artista, dotados de pequenas próteses de brinquedo que imitam um rosto humano, pés e mãos, transformam-se em pequenas criaturas circenses a se exibir no seu minúsculo picadeiro. É impressionante o grau de abstração que o artista consegue com esses meros complementos e o movimento que dá aos próprios dedos: bastam três minutos para você e as crianças esquecerem que estão diante não de uma mão humana dotada pelo poder da arte, mas de um serelepe circense atrapalhado entre escadas, tochas e bambolês. 

A imersão é completa, como completo é também o mergulho que fizemos nós e as crianças no plano bidimensonal mais banal de uma folha de papel: agora é outro o espetáculo que o telão projeta, dando-lhe apenas um pouco da gigantesca dimensão que ele, mesmo usando tão pouco, é capaz de alcançar nas vielas do nosso cérebro e da nossa sensibilidade. O show agora nem conta com bonecos, fisicamente falando. Ou conta: mas é um boneco que o artista, valendo-se de papel, uma caneta hidrocor, uma tesoura dessas de criança e uma placa luminosa (apenas para favorecer a projeção), fabrica para o efeito que pretende dar ao seu espetáculo. Estamos diante de uma adaptação para papel e lápis da "Flauta Mágica", a história que quase todo mundo conhece ao menos de ouvir falar a partir da ópera de Mozart. E o artista reconta a história toda usando este boneco que ele primeiro desenha e depois recorta em pedaços para realizar uma animação em tempo real que deixa o público estupefato - seja ou não criança, de fato ou apenas em espírito. 

Ainda tivemos o prazer de rever o show "Música de Brinquedo", do conjunto Pato Fu, que já havia sido apresentado em espaços público em Brasília mas que também nunca será demais. Mas encerrada a performance dos músicos e dos bonecos que os acompanham na apresentação, a gente volta pra casa com a mente fixada nas miudezas criativas de bonecos de dedos e do flautista de papel: aquelas nossas imitações da vida em dimensão tão reduzida que acabam por, em oposição, agigantar nossas percepções de nós mesmos. Deve ser esta a magia dos bonecos que o SESI reuniu em Brasília no festival "Bonecos do Mundo": nos reduzir a um pedacinho de papel ou a um dedinho da mão para que a gente, devidamente redimensionados em nossas pretensões de super-homens e mulheres, baixemos a bola e abramos espaço à força da imaginação transformadora. 

Aí então, quando a gente levanta do chão frio do pátio do museu e limpa os fundos das calças dando palmadas nas bundas doídas, estaremos espanando um pouco dos excessos que a vida longe dos bonecos e próxima da rotina fazem crescer. Com isso, redimensionamos a nós mesmo, ficando de um tamanho mais próximo das crianças que levamos conosco, tanto no festival de teatro de bonecos quanto na vida de todos os dias.

A banca e a vida


- Estamos aqui para falar de um assunto que ainda é muito confuso, impreciso, imprevisível. Um instrumento que ainda está em processo de formação, que passa pelos campos da comunicação, da informática, da engenharia, da sociologia, do comportamento, da indústria de entretenimento e também de produtos eletrônicos. Enfim, um tema envolto numa nuvem de indefinições que não facilita em nada nosso entendimento sobre ele.

Com essa torre verbal e oscilante de interrogações iniciei, trêmulo e ansioso, o final de uma etapa de estudos que me ocupou por horas e horas durante o último ano e meio. O que está escrito no parágrafo acima é a forma como abri,  sem garantia alguma de que chegaria a um final coerente, a defesa de um trabalho de pós-graduação lato sensu - ou seja, sem os rigores de um mestrado acadêmico - na Universidade Católica de Brasília. Meu tema, que estudei aplicadamente junto com uma turma de jornalistas da TV Câmara, TV Senado, TV Globo e assessorias de imprensa foi a TV digital - este que é considerado pelos já tarimbados especialistas no assunto não como um aprimoramento do aparelho de televisão como o conhecemos (isso seria o que faz a smart tv que o comércio já coloca à venda), mas como, de fato, um novo meio de comunicação, com todo o peso que essa reclassificação comporta.

Mas a ideia aqui não é falar sobre a TV digital. Ela foi apenas meu objeto de análise. Estudei formas de transição que um programa da TV Câmara poderia adotar para passar da linguagem analógica para a digital, e mais não adianto pra não fugir dos objetivos aqui. O propósito, na verdade, está mais ligado à realização de um curso dessa natureza em si do que ao assunto sobre o qual ele se deteve. Sim, senhor, consegui chegar ao final daquele parágrafo inicial diante da minha felizmente diminuta plateia composta pela orientadora, pelo coordenador do curso e pela minha convidada para a banca - a colega e esta sim especialista Dulce Queiroz, que cravou sobre o meu trabalho os dentes da análise precisa e extraiu dela avanços e percalços ao final dos quais obtive minha igualmente feliz aprovação. 

Rejane, escolada no seu mestrado em Comunicação pela UnB, me disse que só o fato de ter feito este curso vai resultar numa diferença de pensamento, quando eu me encontrar diante de um matagal de ideias conflitantes, ou de um desafio intelectual desta natureza. Segundo ela, me verei, inexplicavelmente, dotado de um manancial de instrumentos também intelectuais capazes de ajeitar daqui, arrumar dali, agrupar lá longe, selecionar em paralelo - enfim, o curso me deu as tais réguas e compassos que a investigação intelectual utiliza diante de interrogações tão ou mais desafiadoras quanto a que envolve a implantação da TV digital no país. 

Entrei no curso sem saber praticamente nada sobre TV digital - igual a grande parte da população brasileira, embora eu já viesse do mundo da comunicação, o que é um agravante e tanto. Pior é ter que reconhecer que grande parte dos colegas se encontra no mesmo ponto em que eu antes de começar o curso. Jornalistas somos cada vez menos estudiosos, cada vez mais escravos da pior noção do ofício - especialmente quanto se trata de televisão - que é a farsa de que não precisamos ser especialistas em nada, a não ser em generalidades. É como se, tornando-nos especialistas, traíssemos nossa vocação primeira de saber um pouco de tudo. Nada mais falso. 

Durante um ano e meio, submeti minha ignorância aos vários pontos de vista que podem alavancar ou travar de vez a implantação da TV digital de verdade no país. Terminei o curso sabendo imensamente mais - e igualmente mais cético quanto àquela implantação. Cimentei com cuidado de ourives minhas dúvidas diante da melhoria no padrão da comunicação de massa no país. Mas também revi conceitos catastrofistas que guardava na mente apenas por força da acomodação intelectual mais confortável. 

Fiz a travessia do rio metafórico de João Guimarães anos depois de deixar a escola - embora nunca tenha deixado de ser, no dia a dia, um estudante de fato. E me desesperei controladamente no instante imediatamente anterior à apresentação verbal do trabalho, sua defesa frente à banca, munido como guia apenas de um power point dilmoniano que me valeu de salva-vidas conceitual ao longo do longo percurso entre a frase que abre este texto e as derradeiras conclusões entregues à banca. 

Parece que não me perdi muito - sinal de que as garantias, embora não existam, podem trabalhar a nosso favor apenas se a gente absolutamente não contar com elas. Na banca como na vida, vale mais o preparo - duro, árduo, cansativo mas revigorante. Vale mais a experiência do que o sucesso, o processo do que o resultado - é se concentrando em um ou em outro que você diz a que veio, quem é, onde deseja chegar. Agora vou dar um tempo e ler qualquer coisa, ver qualquer filme. Ano que vem preciso urgentemente arranjar outro impasse pra me exercitar.

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Entre a dança e a fúria


"Em primeiro lugar, minha literatura é uma missão: defender o povo e a cultura brasileiros. Em segundo, uma vocação. Não acredito em literatura sem vocação. Em terceiro, é uma festa. Passei por momentos muito duros na vida, mas os enfrentei pela minha arte, que é a minha dança. Eu sei que posso ficar cego, porque sou diabético - mas eu danço. Quando eu digo dançar, quero dizer que participo da festa da literatura. A morte é certa. Todos nós morremos - e eu danço mesmo assim. A tarefa de viver é dura, mas fascinante. Agradeço a Deus o fato de viver. É com estas três palavras que eu danço: missão, vocação e festa."

Soa como um epitáfio - belo, feliz e estimulante epitáfio para nós que estamos na travessia da vida - este  trecho da entrevista que o escritor Ariano Suassuna deu ao jornal O Globo, publicada na edição desse domingo. É algo que ressoa fundo aos olhos de quem, ao ler as palavras do homem, reconhece nelas o poder revelador de sua literatura. Contém a um só tempo uma profissão de fé na literatura que cabe tanto ao escritor quanto ao seu leitor e uma entre as inúmeras - e sempre nunca suficientes - definições do que vem a ser a vida.

Shakespeare tem aquela tão célebre quanto sombria, que cai bem aos olhos de quem enxerga a vida por baixo de uma camada de poeira triste: alguma coisa com um monte de som e de fúria que não faz sentido algum. Aqui do meu observatório situado em algum pico de uma das montanhas seridoenses, no silêncio de lugares dos quais o mundo não toma muito conhecimento, a preferência mira muito mais nos sítios onde reside a percepção de um bem mais próximo Ariano Suassuna. O paraibano de Soledade - portanto, seridoense paraibano como a gente desses picos - que a vida tornou pernambuco e a literatura transformou em universal tem mais olhos para a beleza oculta no homem e na natureza do que o bardo ocidental de todo o sempre. As escolhas estão aí, à disposição de nossas decisões perceptivas. Podemos até errar, mas nunca dizer que não tivemos as palavras iluminadas para nos guiar no caminho dos mistérios do encanto ou da decepção.

quarta-feira, 24 de julho de 2013

Igrejinha



Domingo passado teve missa bilíngüe aqui na capelinha do Sudoeste, cidade-bairro de classe média abastada de Brasília. Trechos da celebração foram replicados em inglês. Parece que ninguém estranhou muito, já que a igrejinha de madeira que serve à restrita comunidade de católicos semipraticantes aqui deste canto do Sudoeste é mesmo dada a umas inovações. Vizinha do Cruzeiro, o bairro-cidade fronteiriço mais popular e completamente distinto do esnobe Sudoeste, a igrejinha é uma obra sobre a qual nem se pode dizer que parece nunca terminar: na verdade, ela parece nunca começar. Mas funciona bem como um barracão dono de uma freqüência fiel a ponto de suportar a alternância de discurso que não se vê facilmente na política. Lá, domingo sim, domingo não quem celebra a missa é um padre mais velho, conservador, durão, castiço, para o qual este governo não merece a menor confiança. Mas também domingo sim, domingo não, quem está à frente do altar é outro padre, mais moço, mais aberto, mais tolerante e também mais incômodo, que não se sabe bem porque insiste em lembrar aos fiéis que essa história de corrupção não é só uma abstração política  – passa também pelo plano pessoal de cada um deles. Bilíngue, portanto, a igrejinha do Sudoeste sempre foi.
Naturalmente, o fato de a missa ter sido rezada em português-inglês e inglês-português agrada à parte dos fiéis que leva a vida segundo o catecismo do estilo e do consumo típicos do Sudoeste. Este é, definitivamente, um bairro bilíngüe. Não é apenas o fato de a missa de domingo passado ter se dado às vésperas da Jornada Mundial da Juventude que explica essa tecla SAP adaptada ao cotidiano fervoroso da fé. O problema é quando a globalização plenamente incorporada ao dia-a-dia de uma comunidade em vários sentidos cheia de si contraria a nova onda que vem do Vaticano. Pois enquanto os neofiéis se diferenciam das ordas de evangélicos ignorantes, fanáticos e de português mal escrito – inclusive os ricaços, ocupantes de outra igreja na mesma rua deste mesmo Sudoeste – pelo exercício da capacidade de falar outras línguas (nada  ver com o ato fundador da fé carismática, por favor), o chefão-geral rema na contramão dessa tendência. Pois o grande diferenciador do Papa Chico não é a exacerbação da simplicidade?  E agora, o que fazer com a nossa sofisticação atávica? Desperdiçar é que não vamos. Não seria nem muito cristão.
Por essas e outras, o Papa Chico é um fenômeno muito interessante: acusado de ter colaborado com a ditadura argentina, foi pedra no sapato dos Kirchner ao mesmo tempo em que se notabilizava por andar de metrô e morar num apartamento simples em Buenos Aires. Canonizado – digo, eleito papa – levou este estilo para o topo do Vaticano e trouxe de volta a idéia de uma igreja determinada a combater a riqueza desigual e a pobreza ostensiva. Enquanto isso, trava sua luta intramuros contra a máfia dos cardeais-burocratas envolvidos em escândalos meio sexuais, meio financeiros. Um coquetel de contradições, indefinições, impasses e retratações que não tem como não jogar seu protagonista para o alto das atenções públicas mundiais, sejam religiosas ou não. De uma maneira ou de outra, ninguém – no Sudoeste esclarecido ou no Cruzeiro acariocado – vai mesmo tirar os olhos dele.
Agora, pensando bem, se é pra dar um caráter mais cosmopolita a algo que em si é por princípio um exercício do que há de mais particular – a fé religiosa – bem que os padres binários da igrejinha do Sudoeste (e se você quiser ler o termo igrejinha em sentido paralelo é por sua conta) bem que poderiam ter acrescentado um idioma mais apropriado ao modo de ser de Papa Chico. Missa em espanhol teria muito mais a ver, pois não?

quarta-feira, 17 de julho de 2013

IMPORTADOS




Somos contra a importação de médicos. Terminantemente contra. Também não admitimos a importação da dignidade. Somos igualmente refratários à importação de tratamento igualitário para todos. E absolutamente avessos à importação de qualquer forma de reserva aos historicamente menos favorecidos em universidades, no mercado de trabalho, no painel geral de possibilidade de ascensão social e outras subjetividades do tipo. Contra a importação do bom senso, não à importação dos direitos iguais, veto à participação no debate público de quem não tem prestígio nos meios de comunicação.

Nem por isso você precisa nos taxar de intolerantes, politicamente fechados ou xenófobos. Somos totalmente favoráveis à importação de carros de luxo, perfumes, roupitchas e outros supérfluos que de uma hora para outra, você sabe, tornam-se absolutamente necessários. É o tipo da importação que não machuca ninguém, não altera nada, não coloca pobres contra ricos, não provoca manifestações de qualquer espécie. Também somos favorabilíssimos à importação do bom gosto, do jeito exclusivo de se viver, da fama e da fortuna – para quem tem berço capaz de acomodar bem essas virtudes natas. 

Dito isso, tudo é negociável, que é pra que ninguém pense que somos o retrato emoldurado do atraso: que tal, por exemplo, substituir essa absurda importação de médicos pela saudável exportação dos doentes? Eles vão achar o máximo sair dos rincões que por sinal deveriam ser mantidos ecologicamente intocáveis e serem jogados no seio da civilização. Cada posto de saúde no grotão mais renitente poderia se transformar em posto de recrutamento. Algo assim como um neo-pau de arara. Uma alternativa não só de saúde mas também de vida para esse pessoal. Uma gente doente que, assim como as criancinhas miseráveis do Nordeste que tantos europeus caridosos tentam sem sucesso adotar, poderia ter ao menos uma chance na vida. Sem precisar de médico, de cotas ou das tais políticas públicas. Curtiu?

quarta-feira, 26 de junho de 2013

Embolou




 Contra tudo o que está aí, aqui estou eu. Mastigando exoesqueletos do quinto milênio da correção política que fizeram a gentileza de suportar as agruras do nosso tempo só pra antecipar entre nós os avanços neocivilizatórios. E engasgando com chicletes sabor clichê a cada página virada, cada click no face, cada passo à frente no cursor do twitter. Melhor não começar pelo óbvio: vamos, antes, ao que ninguém esperava (nem a turma do quinto milênio; ou sobretudo a turma do quinto milênio). É Obama, o ex-ban-ban-ban da modernidade enfiada à força nas cucas dinossáuricas dos caretas. Quem, me diga, quem poderia imaginar que uma personalidade tão-tão da política pop planetária passaria tão assim-assim da  condição de mito vivo para a de lixo roto? Como é que se dá uma transformação dessa escala? Não é pra desconfiar de que, independente do sujeito, há que se buscar melhores explicações nos processos? Vejo o mergulho subterrâneo da reputação de Obama e me vem à mente a figura de Marina Silva. Quem ainda vai ligar o nome à pessoa? O quanto do desconhecido e inesperado fundamentalismo espião de um Obama poderia encontrar ressonância num possível manifestar das firmes convicções de uma Marina presidenta? Não estou sendo claro? – então está muito bem, que o propósito nem esse. Quer clareza? Vá ler as placas da manifestação mais próxima.


Na capa do Correio Braziliense e na primeira página interna do jornal, surge um extraterrestre: é Dilma, rindo. Em duas – duas! – fotos. Na capa e lá dentro. Na capa, ao lado de Joaquim Barbosa, que de comediante não tem nada. Lá dentro com os representantes dos manifestantes que não têm representantes – esqueça esses detalhes e vá direto ao ponto – inclusive inclinando levemente a cabeça para um lado, numa expressão que além do riso denota também um certo espírito meio Brasil carinhoso. O que João Santana não fizer multidão nenhuma nas ruas será capaz de realizar. Pessoal, eu apoio Dilma, viu? (não viu? Leia o post “Assim a meta estoura”, de umas premonitórias semanas atrás) Mas dispenso esse riso pré-eleitoral: prefiro que ela demita o adesista global Paulo Bernardo e passe a ouvir mais um santo entronizado no Palácio do Planalto chamado Gilberto Carvalho. Precisa ir pra rua pra conseguir isso? Vou não, coração – que a idade dinossáurica implanta desconfianças de tal ordem no meu espírito que me permito assistir a tudo com o pé direito atrás. Se você quer ir, vá sossegado, que eu não vou jamais lhe tomar à força a bandeira invisível que você carrega às vezes sem notar.


E se não vou, pior pra mim, que perco amigos, contatos, reputação. Emprego? Seguramente não, que este eu consegui na disputa legítima do concurso público que agora também deram para difamar . E ainda tenho que ficar me explicando – supremo prazer para quem tem o mau hábito de corrigir o outro de dez em dez minutos. Fazer o quê, se o brasileiro teve um surto de cidadania e um bando de gente à sua volta resolveu que quer ser Edward Snowden a qualquer custo... Cada povo tem o uiquiliquis  (thanks, Mussum) que merece, diria o cínico – mas se há algo que me causa repulsa é a figura do cínico; então retiremos o que por último foi dito. Até porque, se é para dividir a humanidade em turmas, se é para contemplar a multiplicidade de questões e estilos, dinamitando com um novo web-iluminismo certo bipartidarismo prático que levamos anos – e muito sangue – para construir, vamos  partir logo para a facilidade do bolebolenses x saramandistas. Sim, cada geração tem o “Anos Rebeldes” que é capaz de entender – sai pra lá, cínico de bosta, você já não foi expulso desse post, não lhe tomamos a bandeira debaixo de porrada? Ora... Eu só fico me perguntando – eu, meu dinossaurismo renitente e minhas perguntas! – quem fará, ou já fez mas nem notou, o papel de liga camponesa do atual momento político. E veja que agosto nem chegou, com o julgamento dos embargos do mensalildo, esse menino fofinho que a gente trata a pão de ló, belezura que sempre pode crescer e gerar filhos, netos, bisnetos. Tem importância não; agora e logo mais, contra tudo o que está aí, eu ainda estou aqui. Pode me tomar a bandeira rasgada e baixar a porrada.

terça-feira, 18 de junho de 2013

O protesto, a política e o consumo




Abaixo, trecho de entrevista do professor José Garcez Ghirardhi, publicado no caderno "Aliás" do Estadão desse domingo. É a avaliação que mais se aproxima do que penso sobre a onda de protestos. A mim, ao contrário de muita gente, as manifestações - mesmo pacíficas, não é este o ponto; e não acredito que ninguém em sã consciência seja favorável a repressão policial - inspiram mais apreensão do que entusiasmo. Ainda acredito, apesar de tudo, na democracia representativa (consciente de que ela é limitada), no exercício dos três poderes, na institucionalização que a cidadania precisa ter, na tolerância e na ponderação. E, diante dos primeiros protestos, minha primeira impressão era de que, por mais legítimo que seja o grito pró-educação e saúde pública, há aí um modismo avassalador - e tão mais potente quanto mais antipático passa a parecer qualquer questionamento dirigido a ele. O que o professor da entrevista faz (íntegra agora só buscando no Google, digite o nome do professor, "aliás" e "Estadão" que cai lá) é, como especialista muito superior à minha baça pessoa, configurar muito melhor a questão: os protestos podem ser sintomas do que chama de redução do exercício da política uma forma peculiar de consumo. Vejo isso a torto e a direito nas minhas vizinhanças pessoais e profissionais. O fato é que o novo manifestante será cada vez mais celebrado como o distinto, o esclarecido, o intelectualmente superior, o descolado. E, em meio à política e tudo o mais, o que vejo dia após dia é que as pessoas são capazes de se matar para parecerem superior aos seus vizinhos. Nem que seja só um pouquinho ("eu sou mais avançado que você, viu?") Passarei a respeitá-los mais ainda quando, no caso dos estudantes, fecharem suas matrículas nas escolas particulares mais disputadas e se juntarem aos alunos das escolas públicas (esses, felizmente, beneficiados com a movimentação toda). E pra fechar, lembro uma feliz frase que acabei de ler no excelente livro "O Fole Roncou", de Carlos Marcelo e Rosualdo Rodrigues (o tema não tem nada a ver com os protestos, mas a frase, dita por Luiz Gonzaga em outro contexto, o musical, é matadora): "Cuidado com a moda. Ela passa." Segue o trecho da entrevista:

Por que a dinâmica dos protestos mudou?

Tem a ver com a forma como estão se organizando as relações sociais hoje em dia. As pessoas conseguem se unir para uma ação pontual, com interesse específico e efêmero, mas não construir projetos consensuais. Isso ocorre porque a relação de consumo se tornou a relação matricial da nossa sociedade. Quando você compra um produto, está desinteressado de todo o longo processo que o levou às suas mãos, envolvendo escolhas, sacrifícios de pessoas, etc. E assim que aquilo satisfaz sua necessidade imediata, você o descarta sem preocupar também com consequências. De certa maneira, há uma relação de consumo com a política hoje. As pessoas estão consumindo política, não produzindo política. Elas não se envolvem nos processos de negociação, nem têm participação efetiva nas tomadas de decisão. Quando vem um resultado - um produto - que elas não gostam, reclamam com enorme intensidade. Mas depois, na hora de construir, que é muito mais difícil, pois pressupõe articulação de interesses diferentes, não conseguem avançar.

domingo, 12 de maio de 2013

ASSIM A META ESTOURA






Assim não tem centro da meta que se aguente no lugar. Não é uma questão de preços, mas de paciência. Coalizão a gente suporta, mas toda tolerância tem limites. Então dona Dilma chama o vice de Picolé de Xuxu pra dar uma força à micro e pequena empresa. Eu acho que quando se trata de tucanos e agregados nunca podemos falar em qualquer coisa que seja micro ou pequena – a soberba política dessa turma impede qualquer redução, além de causar outros tipos de cegueira social bem conhecida por prejudicar a saúde do país.

Então dona Dilma manda dona Gleisi, bonita que só uma paranaense disparada nas pesquisas eleitorais, dizer amém aos caras do agronegócio na Câmara, garantindo que eles não terão problema nenhum quando se trata de brecar as demarcações de terras para os novos silvícolas. Ah, bom. E não é só isso não: a Funai que fique na dela, que quem entende de problema social é a Em-bra-pa! An-ran...

Tem centro da meta que aguente? Isso aí é inflação para mais de ano – mas não de preço. É inflação de incoerência, de desvirtuamento, de olhar pro lado. Quem olhar bem, pro centro, vai ver que há em andamento no território brazuca, especialmente naquele triângulo, quadrilátero ou decilátrero, sabe-se lá, formado entre o Palácio do Planalto, o STF e o pombal de Tancredo uma outra coalização paralela – e muito mais orgânica quando vista por dentro – entre ruralistas e evangélicos doidinhos para cercar aqueles gramadões do centro de Brasília e incrementar os próprios interesses.

Desde o início desta gestão presidida por Henrique Alves que vem crescendo como bolo fermentado na Câmara certa interseção entre deputados dos dois gêneros – não confundir com outras coisas, pera lá – que pode, aí sim – e não como diz a ladainha de costume – afastar o Legislativo do povo. São duas grandes bancadas informais – a frente evangélica que avança como uma sombra comportamental e política, de um lado, e os ruralistas calçando as botas de um fortalecimento de que pouca gente se deu conta.

Só agora que o esforço para deter as demarcações indígenas ganhou as manchetes é que a ficha começa a cair. Mas o processo começou há algum tempo e vem sendo defendido abertamente, por exemplo, pelo deputado Jerônimo Goergen (PP-RS), ruralista que assumiu no início do ano o comando da Comissão de Integração Nacional, Desenvolvimento Regional e da Amazônia. Ninguém percebeu porque todos os olhares estavam voltados para Feliciano – um fenômeno mais fácil de narrar, explicar e angariar audiência.

Aí o pessoal fica com obsessão pelo tomate, pelo partido de Marina, por Gilmar Mendes – tudo coisa velha, passada, distração para a plateia enquanto o que interessa segue sua marcha rumo a um tipo de regressão tão ardiloso quanto cadenciado. Quer outro exemplo? O ministro Paulo Bernardo, outrora um petista carrancudo dos bons e imune a qualquer suspeita, garantindo aos capas pretas da televisão no Brasil que “o projeto de Franklin (Martins, de regulação das comunicações) está definitivamente descartado”. É bonito isso? Tem que parar tudo, dar um freio de arrumação, quem sabe até perder uma grande eleição como a do próximo ano para que o pessoal caia na realidade sem rede de proteção. Lula, sempre ele, continua sendo minha última esperança. E, no varejo, Gilberto Carvalho que está sempre por perto pra garantir o que for possível. Mas não tem sido fácil.

A TV que não se vê


Glauber, Nelson e Cacá na direção; Yoná, Geraldo, Jardel e Autran em transe diante das câmeras;  Sérgio Ricardo pilotando uma trilha sonora como um visionário violeiro cego, Rogério Duarte criando cartazes que viravam instataneamente esboços gráficos do momento histórico; todas essas mil e uma facetas do movimento conhecido como Cinema Novo são conhecidas, batidas, lidas e relidas, condenadas e redescobertas, estudadas e cultuadas à exaustão. É difícil acreditar mas do meio dessa barafunda de gente, idéias, imagens e linguagens que se fundiam em um período peculiar para cultura brasileira ainda é possível pinçar nomes menos conhecidos cuja importância foi tão grande para a criação daquela estética quanto a roupa de cangaceiro que Dona Lúcia costurou e Othon Bastos vestiu nas várias e várias e várias epifanias de "Deus e o Diabo"; ou a confusão político-cultural de Paulo Martins incorporada por Jardel Filho em "Terra em Transe". A pessoa tem nome e papel bem definido nessa história: Dib Lutfi, o fotógrafo que entendeu mais do que qualquer crítico a função da maneira brasileira de criar algo novo a partir da mera, mas instigante, falta de recursos para ser resolver um problema que a técnica negava à estética.

Dib Lutfi é o fotógrafo por trás das imagens de "Terra em Transe", o cinegrafista capaz de se entontecer sem perder o foco - não da imagem, atente, mas da idéia enquadrada - junto com o ator em decomposição no fundo das objetivas. Era o cara que nunca dizia não, que sempre encontrava un jeito - o "jeitinho brasileiro", visto sempre como algo pejorativo por quem insiste em demonizar o próprio povo. Pouco valeria a intenção comunicada com caótico poder de sedução pelo diretor se o ator não sintonizasse suas terminações nervosas com o que o filme lhe pedia. E - aqui entra a importância deste Dib tão pouco lembrado até mesmo nos mil e um documentários, reportagens de tevê  e livros sobre o Cinema Novo - de nada valeria também se o fotógrafo responsável pela imagem que definiria em arte final essa profusa confusão de conceitos, vivências e sensibilidades que era aquele cinema também não caísse ele próprio em transe junto com ator e diretor. 

Esse nome meio esquecido do cinema novo está aqui para que se fale de um canal de tevê alternativo - desses que programadoras como a NET inclui em seus pacotes - que tem o poder de dar ao país o conhecimento sobre figuras como Dib. Foi no "Curta!", canal que recentemente caiu no meu pacote caseiro sem qualquer comunicação (imagino que para cumprir itens da legislação que obriga a inclusão de percentuais de produção nacional na programação), que assisti a um longo e detalhado documentário sobre Dib Lutfi. 

Zapeando, encontrei um outro canal próximo deste "Curta!", que, por sinal, ainda falando dele, havia visto em pacote diverso do meu na casa de Titina Medeiros, onde assisti a um belo doc em curta metragem sobre um maranhense que de tanto cismar em atuar no cinema acabou fazendo carreira como ator de filme pornô e estava muito entusiasmado com a empreitada; história narrada em um filme quase todo feito num único take do camarada pedalando uma bicicleta contra um poente de "...E o vento levou". 


O segundo canal dedicado à cultura brasileira e afins a que me refiro aqui chama-se Arte+ e tem uma programação que igualmente recupera, exibe, dá visibilidade a filmes dedicados ao melhor da música brasileira, do cinema, da literatura. Algo parecido com o que o próprio Canal Brasil também acaba fazendo. A diferença é que nestes canais menos conhecidos há uma  aparente maior liberdade, que imagino decorrente do próprio descompromisso com a busca da audiência pura e simples. 


Mas é preciso zapear, procurar, fuçar usando o controle remoto para encontrar essas novidades onde se pode assistir às melhores velharias. Onde qualquer um de nós pode assistir ao filme "Doramundo", que João Batista de Andrade fez no final dos anos 70 e não se acha em VHS, DVD ou no YouTube na íntegra? Pois é um dos destaques do "Curta" - que por sinal acaba de ganhar uma página no Facebook, procure lá. Este é um material que infelizmente não interessa à TV aberta convencional brasileira e nem mesmo aos canais fechados cada vez mais dominados pela estética de certa histeria audiovisual de filme de super-herói americano feito para criar franquias que significam verdinhas (e eu aprecio alguns, mas a questão não é essa). 

Esse movimento, reflexo das mudanças na legislação que tanta gente critica sem parar um tantinho assim pra pensar (apenas reproduzindo o discurso das grandes redes), ocorre sem que haja propaganda, divulgação, incentivo: canais como o Curta!, como o Arte+, como o próprio Canal Brasil, assim como a programação de final de semana e dos horários menos concorridos politicamente da TV Câmara (onde há muita jazida de ouro televisivo à espera de coletores menos apressados) são biscoitos finos. E quanto mais o são, menos interessa ao sistema convencional de televisão voltado para o consumo levantar o cartaz dessas emissoras. Muito menos à imprensa que se julga tão responsável pelos rumos do país. Nem a universidade que como altar sacrossanto do rigor subestima tanto do que é feito na medida da paixão. 

Este é um tipo de programação que parece só interessar aos malucos, distraídos e vorazes - o público que não tem pudor de apenas tangenciar a tal da normalidade. Grupos, tribos, clãs que vão se formando por aí. Enquanto isso, o silêncio que condena as audiências de tais canais ao traço é como um grito ensurdecedor contra a nossa mediocridade dia a dia cada vez mais burilada. Eu sei: renda é importante e sensibilidade não traz dinheiro. A esta altura dos tempos, bem que essa equação já poderia ter sido mudada. Curioso é que, dessa maneira oblíqua, a lei esteja ajudando, embora quase ninguém seja informado sobre isso. Se a gente lembrar que exatamente quem tem o papel social de informar não tem o interesse econômico e político de cumprir sua obrigação fica mais fácil de entender - mas ainda assim difícil de aceitar.