segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Entre a dança e a fúria


"Em primeiro lugar, minha literatura é uma missão: defender o povo e a cultura brasileiros. Em segundo, uma vocação. Não acredito em literatura sem vocação. Em terceiro, é uma festa. Passei por momentos muito duros na vida, mas os enfrentei pela minha arte, que é a minha dança. Eu sei que posso ficar cego, porque sou diabético - mas eu danço. Quando eu digo dançar, quero dizer que participo da festa da literatura. A morte é certa. Todos nós morremos - e eu danço mesmo assim. A tarefa de viver é dura, mas fascinante. Agradeço a Deus o fato de viver. É com estas três palavras que eu danço: missão, vocação e festa."

Soa como um epitáfio - belo, feliz e estimulante epitáfio para nós que estamos na travessia da vida - este  trecho da entrevista que o escritor Ariano Suassuna deu ao jornal O Globo, publicada na edição desse domingo. É algo que ressoa fundo aos olhos de quem, ao ler as palavras do homem, reconhece nelas o poder revelador de sua literatura. Contém a um só tempo uma profissão de fé na literatura que cabe tanto ao escritor quanto ao seu leitor e uma entre as inúmeras - e sempre nunca suficientes - definições do que vem a ser a vida.

Shakespeare tem aquela tão célebre quanto sombria, que cai bem aos olhos de quem enxerga a vida por baixo de uma camada de poeira triste: alguma coisa com um monte de som e de fúria que não faz sentido algum. Aqui do meu observatório situado em algum pico de uma das montanhas seridoenses, no silêncio de lugares dos quais o mundo não toma muito conhecimento, a preferência mira muito mais nos sítios onde reside a percepção de um bem mais próximo Ariano Suassuna. O paraibano de Soledade - portanto, seridoense paraibano como a gente desses picos - que a vida tornou pernambuco e a literatura transformou em universal tem mais olhos para a beleza oculta no homem e na natureza do que o bardo ocidental de todo o sempre. As escolhas estão aí, à disposição de nossas decisões perceptivas. Podemos até errar, mas nunca dizer que não tivemos as palavras iluminadas para nos guiar no caminho dos mistérios do encanto ou da decepção.

quarta-feira, 24 de julho de 2013

Igrejinha



Domingo passado teve missa bilíngüe aqui na capelinha do Sudoeste, cidade-bairro de classe média abastada de Brasília. Trechos da celebração foram replicados em inglês. Parece que ninguém estranhou muito, já que a igrejinha de madeira que serve à restrita comunidade de católicos semipraticantes aqui deste canto do Sudoeste é mesmo dada a umas inovações. Vizinha do Cruzeiro, o bairro-cidade fronteiriço mais popular e completamente distinto do esnobe Sudoeste, a igrejinha é uma obra sobre a qual nem se pode dizer que parece nunca terminar: na verdade, ela parece nunca começar. Mas funciona bem como um barracão dono de uma freqüência fiel a ponto de suportar a alternância de discurso que não se vê facilmente na política. Lá, domingo sim, domingo não quem celebra a missa é um padre mais velho, conservador, durão, castiço, para o qual este governo não merece a menor confiança. Mas também domingo sim, domingo não, quem está à frente do altar é outro padre, mais moço, mais aberto, mais tolerante e também mais incômodo, que não se sabe bem porque insiste em lembrar aos fiéis que essa história de corrupção não é só uma abstração política  – passa também pelo plano pessoal de cada um deles. Bilíngue, portanto, a igrejinha do Sudoeste sempre foi.
Naturalmente, o fato de a missa ter sido rezada em português-inglês e inglês-português agrada à parte dos fiéis que leva a vida segundo o catecismo do estilo e do consumo típicos do Sudoeste. Este é, definitivamente, um bairro bilíngüe. Não é apenas o fato de a missa de domingo passado ter se dado às vésperas da Jornada Mundial da Juventude que explica essa tecla SAP adaptada ao cotidiano fervoroso da fé. O problema é quando a globalização plenamente incorporada ao dia-a-dia de uma comunidade em vários sentidos cheia de si contraria a nova onda que vem do Vaticano. Pois enquanto os neofiéis se diferenciam das ordas de evangélicos ignorantes, fanáticos e de português mal escrito – inclusive os ricaços, ocupantes de outra igreja na mesma rua deste mesmo Sudoeste – pelo exercício da capacidade de falar outras línguas (nada  ver com o ato fundador da fé carismática, por favor), o chefão-geral rema na contramão dessa tendência. Pois o grande diferenciador do Papa Chico não é a exacerbação da simplicidade?  E agora, o que fazer com a nossa sofisticação atávica? Desperdiçar é que não vamos. Não seria nem muito cristão.
Por essas e outras, o Papa Chico é um fenômeno muito interessante: acusado de ter colaborado com a ditadura argentina, foi pedra no sapato dos Kirchner ao mesmo tempo em que se notabilizava por andar de metrô e morar num apartamento simples em Buenos Aires. Canonizado – digo, eleito papa – levou este estilo para o topo do Vaticano e trouxe de volta a idéia de uma igreja determinada a combater a riqueza desigual e a pobreza ostensiva. Enquanto isso, trava sua luta intramuros contra a máfia dos cardeais-burocratas envolvidos em escândalos meio sexuais, meio financeiros. Um coquetel de contradições, indefinições, impasses e retratações que não tem como não jogar seu protagonista para o alto das atenções públicas mundiais, sejam religiosas ou não. De uma maneira ou de outra, ninguém – no Sudoeste esclarecido ou no Cruzeiro acariocado – vai mesmo tirar os olhos dele.
Agora, pensando bem, se é pra dar um caráter mais cosmopolita a algo que em si é por princípio um exercício do que há de mais particular – a fé religiosa – bem que os padres binários da igrejinha do Sudoeste (e se você quiser ler o termo igrejinha em sentido paralelo é por sua conta) bem que poderiam ter acrescentado um idioma mais apropriado ao modo de ser de Papa Chico. Missa em espanhol teria muito mais a ver, pois não?

quarta-feira, 17 de julho de 2013

IMPORTADOS




Somos contra a importação de médicos. Terminantemente contra. Também não admitimos a importação da dignidade. Somos igualmente refratários à importação de tratamento igualitário para todos. E absolutamente avessos à importação de qualquer forma de reserva aos historicamente menos favorecidos em universidades, no mercado de trabalho, no painel geral de possibilidade de ascensão social e outras subjetividades do tipo. Contra a importação do bom senso, não à importação dos direitos iguais, veto à participação no debate público de quem não tem prestígio nos meios de comunicação.

Nem por isso você precisa nos taxar de intolerantes, politicamente fechados ou xenófobos. Somos totalmente favoráveis à importação de carros de luxo, perfumes, roupitchas e outros supérfluos que de uma hora para outra, você sabe, tornam-se absolutamente necessários. É o tipo da importação que não machuca ninguém, não altera nada, não coloca pobres contra ricos, não provoca manifestações de qualquer espécie. Também somos favorabilíssimos à importação do bom gosto, do jeito exclusivo de se viver, da fama e da fortuna – para quem tem berço capaz de acomodar bem essas virtudes natas. 

Dito isso, tudo é negociável, que é pra que ninguém pense que somos o retrato emoldurado do atraso: que tal, por exemplo, substituir essa absurda importação de médicos pela saudável exportação dos doentes? Eles vão achar o máximo sair dos rincões que por sinal deveriam ser mantidos ecologicamente intocáveis e serem jogados no seio da civilização. Cada posto de saúde no grotão mais renitente poderia se transformar em posto de recrutamento. Algo assim como um neo-pau de arara. Uma alternativa não só de saúde mas também de vida para esse pessoal. Uma gente doente que, assim como as criancinhas miseráveis do Nordeste que tantos europeus caridosos tentam sem sucesso adotar, poderia ter ao menos uma chance na vida. Sem precisar de médico, de cotas ou das tais políticas públicas. Curtiu?

quarta-feira, 26 de junho de 2013

Embolou




 Contra tudo o que está aí, aqui estou eu. Mastigando exoesqueletos do quinto milênio da correção política que fizeram a gentileza de suportar as agruras do nosso tempo só pra antecipar entre nós os avanços neocivilizatórios. E engasgando com chicletes sabor clichê a cada página virada, cada click no face, cada passo à frente no cursor do twitter. Melhor não começar pelo óbvio: vamos, antes, ao que ninguém esperava (nem a turma do quinto milênio; ou sobretudo a turma do quinto milênio). É Obama, o ex-ban-ban-ban da modernidade enfiada à força nas cucas dinossáuricas dos caretas. Quem, me diga, quem poderia imaginar que uma personalidade tão-tão da política pop planetária passaria tão assim-assim da  condição de mito vivo para a de lixo roto? Como é que se dá uma transformação dessa escala? Não é pra desconfiar de que, independente do sujeito, há que se buscar melhores explicações nos processos? Vejo o mergulho subterrâneo da reputação de Obama e me vem à mente a figura de Marina Silva. Quem ainda vai ligar o nome à pessoa? O quanto do desconhecido e inesperado fundamentalismo espião de um Obama poderia encontrar ressonância num possível manifestar das firmes convicções de uma Marina presidenta? Não estou sendo claro? – então está muito bem, que o propósito nem esse. Quer clareza? Vá ler as placas da manifestação mais próxima.


Na capa do Correio Braziliense e na primeira página interna do jornal, surge um extraterrestre: é Dilma, rindo. Em duas – duas! – fotos. Na capa e lá dentro. Na capa, ao lado de Joaquim Barbosa, que de comediante não tem nada. Lá dentro com os representantes dos manifestantes que não têm representantes – esqueça esses detalhes e vá direto ao ponto – inclusive inclinando levemente a cabeça para um lado, numa expressão que além do riso denota também um certo espírito meio Brasil carinhoso. O que João Santana não fizer multidão nenhuma nas ruas será capaz de realizar. Pessoal, eu apoio Dilma, viu? (não viu? Leia o post “Assim a meta estoura”, de umas premonitórias semanas atrás) Mas dispenso esse riso pré-eleitoral: prefiro que ela demita o adesista global Paulo Bernardo e passe a ouvir mais um santo entronizado no Palácio do Planalto chamado Gilberto Carvalho. Precisa ir pra rua pra conseguir isso? Vou não, coração – que a idade dinossáurica implanta desconfianças de tal ordem no meu espírito que me permito assistir a tudo com o pé direito atrás. Se você quer ir, vá sossegado, que eu não vou jamais lhe tomar à força a bandeira invisível que você carrega às vezes sem notar.


E se não vou, pior pra mim, que perco amigos, contatos, reputação. Emprego? Seguramente não, que este eu consegui na disputa legítima do concurso público que agora também deram para difamar . E ainda tenho que ficar me explicando – supremo prazer para quem tem o mau hábito de corrigir o outro de dez em dez minutos. Fazer o quê, se o brasileiro teve um surto de cidadania e um bando de gente à sua volta resolveu que quer ser Edward Snowden a qualquer custo... Cada povo tem o uiquiliquis  (thanks, Mussum) que merece, diria o cínico – mas se há algo que me causa repulsa é a figura do cínico; então retiremos o que por último foi dito. Até porque, se é para dividir a humanidade em turmas, se é para contemplar a multiplicidade de questões e estilos, dinamitando com um novo web-iluminismo certo bipartidarismo prático que levamos anos – e muito sangue – para construir, vamos  partir logo para a facilidade do bolebolenses x saramandistas. Sim, cada geração tem o “Anos Rebeldes” que é capaz de entender – sai pra lá, cínico de bosta, você já não foi expulso desse post, não lhe tomamos a bandeira debaixo de porrada? Ora... Eu só fico me perguntando – eu, meu dinossaurismo renitente e minhas perguntas! – quem fará, ou já fez mas nem notou, o papel de liga camponesa do atual momento político. E veja que agosto nem chegou, com o julgamento dos embargos do mensalildo, esse menino fofinho que a gente trata a pão de ló, belezura que sempre pode crescer e gerar filhos, netos, bisnetos. Tem importância não; agora e logo mais, contra tudo o que está aí, eu ainda estou aqui. Pode me tomar a bandeira rasgada e baixar a porrada.

terça-feira, 18 de junho de 2013

O protesto, a política e o consumo




Abaixo, trecho de entrevista do professor José Garcez Ghirardhi, publicado no caderno "Aliás" do Estadão desse domingo. É a avaliação que mais se aproxima do que penso sobre a onda de protestos. A mim, ao contrário de muita gente, as manifestações - mesmo pacíficas, não é este o ponto; e não acredito que ninguém em sã consciência seja favorável a repressão policial - inspiram mais apreensão do que entusiasmo. Ainda acredito, apesar de tudo, na democracia representativa (consciente de que ela é limitada), no exercício dos três poderes, na institucionalização que a cidadania precisa ter, na tolerância e na ponderação. E, diante dos primeiros protestos, minha primeira impressão era de que, por mais legítimo que seja o grito pró-educação e saúde pública, há aí um modismo avassalador - e tão mais potente quanto mais antipático passa a parecer qualquer questionamento dirigido a ele. O que o professor da entrevista faz (íntegra agora só buscando no Google, digite o nome do professor, "aliás" e "Estadão" que cai lá) é, como especialista muito superior à minha baça pessoa, configurar muito melhor a questão: os protestos podem ser sintomas do que chama de redução do exercício da política uma forma peculiar de consumo. Vejo isso a torto e a direito nas minhas vizinhanças pessoais e profissionais. O fato é que o novo manifestante será cada vez mais celebrado como o distinto, o esclarecido, o intelectualmente superior, o descolado. E, em meio à política e tudo o mais, o que vejo dia após dia é que as pessoas são capazes de se matar para parecerem superior aos seus vizinhos. Nem que seja só um pouquinho ("eu sou mais avançado que você, viu?") Passarei a respeitá-los mais ainda quando, no caso dos estudantes, fecharem suas matrículas nas escolas particulares mais disputadas e se juntarem aos alunos das escolas públicas (esses, felizmente, beneficiados com a movimentação toda). E pra fechar, lembro uma feliz frase que acabei de ler no excelente livro "O Fole Roncou", de Carlos Marcelo e Rosualdo Rodrigues (o tema não tem nada a ver com os protestos, mas a frase, dita por Luiz Gonzaga em outro contexto, o musical, é matadora): "Cuidado com a moda. Ela passa." Segue o trecho da entrevista:

Por que a dinâmica dos protestos mudou?

Tem a ver com a forma como estão se organizando as relações sociais hoje em dia. As pessoas conseguem se unir para uma ação pontual, com interesse específico e efêmero, mas não construir projetos consensuais. Isso ocorre porque a relação de consumo se tornou a relação matricial da nossa sociedade. Quando você compra um produto, está desinteressado de todo o longo processo que o levou às suas mãos, envolvendo escolhas, sacrifícios de pessoas, etc. E assim que aquilo satisfaz sua necessidade imediata, você o descarta sem preocupar também com consequências. De certa maneira, há uma relação de consumo com a política hoje. As pessoas estão consumindo política, não produzindo política. Elas não se envolvem nos processos de negociação, nem têm participação efetiva nas tomadas de decisão. Quando vem um resultado - um produto - que elas não gostam, reclamam com enorme intensidade. Mas depois, na hora de construir, que é muito mais difícil, pois pressupõe articulação de interesses diferentes, não conseguem avançar.

domingo, 12 de maio de 2013

ASSIM A META ESTOURA






Assim não tem centro da meta que se aguente no lugar. Não é uma questão de preços, mas de paciência. Coalizão a gente suporta, mas toda tolerância tem limites. Então dona Dilma chama o vice de Picolé de Xuxu pra dar uma força à micro e pequena empresa. Eu acho que quando se trata de tucanos e agregados nunca podemos falar em qualquer coisa que seja micro ou pequena – a soberba política dessa turma impede qualquer redução, além de causar outros tipos de cegueira social bem conhecida por prejudicar a saúde do país.

Então dona Dilma manda dona Gleisi, bonita que só uma paranaense disparada nas pesquisas eleitorais, dizer amém aos caras do agronegócio na Câmara, garantindo que eles não terão problema nenhum quando se trata de brecar as demarcações de terras para os novos silvícolas. Ah, bom. E não é só isso não: a Funai que fique na dela, que quem entende de problema social é a Em-bra-pa! An-ran...

Tem centro da meta que aguente? Isso aí é inflação para mais de ano – mas não de preço. É inflação de incoerência, de desvirtuamento, de olhar pro lado. Quem olhar bem, pro centro, vai ver que há em andamento no território brazuca, especialmente naquele triângulo, quadrilátero ou decilátrero, sabe-se lá, formado entre o Palácio do Planalto, o STF e o pombal de Tancredo uma outra coalização paralela – e muito mais orgânica quando vista por dentro – entre ruralistas e evangélicos doidinhos para cercar aqueles gramadões do centro de Brasília e incrementar os próprios interesses.

Desde o início desta gestão presidida por Henrique Alves que vem crescendo como bolo fermentado na Câmara certa interseção entre deputados dos dois gêneros – não confundir com outras coisas, pera lá – que pode, aí sim – e não como diz a ladainha de costume – afastar o Legislativo do povo. São duas grandes bancadas informais – a frente evangélica que avança como uma sombra comportamental e política, de um lado, e os ruralistas calçando as botas de um fortalecimento de que pouca gente se deu conta.

Só agora que o esforço para deter as demarcações indígenas ganhou as manchetes é que a ficha começa a cair. Mas o processo começou há algum tempo e vem sendo defendido abertamente, por exemplo, pelo deputado Jerônimo Goergen (PP-RS), ruralista que assumiu no início do ano o comando da Comissão de Integração Nacional, Desenvolvimento Regional e da Amazônia. Ninguém percebeu porque todos os olhares estavam voltados para Feliciano – um fenômeno mais fácil de narrar, explicar e angariar audiência.

Aí o pessoal fica com obsessão pelo tomate, pelo partido de Marina, por Gilmar Mendes – tudo coisa velha, passada, distração para a plateia enquanto o que interessa segue sua marcha rumo a um tipo de regressão tão ardiloso quanto cadenciado. Quer outro exemplo? O ministro Paulo Bernardo, outrora um petista carrancudo dos bons e imune a qualquer suspeita, garantindo aos capas pretas da televisão no Brasil que “o projeto de Franklin (Martins, de regulação das comunicações) está definitivamente descartado”. É bonito isso? Tem que parar tudo, dar um freio de arrumação, quem sabe até perder uma grande eleição como a do próximo ano para que o pessoal caia na realidade sem rede de proteção. Lula, sempre ele, continua sendo minha última esperança. E, no varejo, Gilberto Carvalho que está sempre por perto pra garantir o que for possível. Mas não tem sido fácil.

A TV que não se vê


Glauber, Nelson e Cacá na direção; Yoná, Geraldo, Jardel e Autran em transe diante das câmeras;  Sérgio Ricardo pilotando uma trilha sonora como um visionário violeiro cego, Rogério Duarte criando cartazes que viravam instataneamente esboços gráficos do momento histórico; todas essas mil e uma facetas do movimento conhecido como Cinema Novo são conhecidas, batidas, lidas e relidas, condenadas e redescobertas, estudadas e cultuadas à exaustão. É difícil acreditar mas do meio dessa barafunda de gente, idéias, imagens e linguagens que se fundiam em um período peculiar para cultura brasileira ainda é possível pinçar nomes menos conhecidos cuja importância foi tão grande para a criação daquela estética quanto a roupa de cangaceiro que Dona Lúcia costurou e Othon Bastos vestiu nas várias e várias e várias epifanias de "Deus e o Diabo"; ou a confusão político-cultural de Paulo Martins incorporada por Jardel Filho em "Terra em Transe". A pessoa tem nome e papel bem definido nessa história: Dib Lutfi, o fotógrafo que entendeu mais do que qualquer crítico a função da maneira brasileira de criar algo novo a partir da mera, mas instigante, falta de recursos para ser resolver um problema que a técnica negava à estética.

Dib Lutfi é o fotógrafo por trás das imagens de "Terra em Transe", o cinegrafista capaz de se entontecer sem perder o foco - não da imagem, atente, mas da idéia enquadrada - junto com o ator em decomposição no fundo das objetivas. Era o cara que nunca dizia não, que sempre encontrava un jeito - o "jeitinho brasileiro", visto sempre como algo pejorativo por quem insiste em demonizar o próprio povo. Pouco valeria a intenção comunicada com caótico poder de sedução pelo diretor se o ator não sintonizasse suas terminações nervosas com o que o filme lhe pedia. E - aqui entra a importância deste Dib tão pouco lembrado até mesmo nos mil e um documentários, reportagens de tevê  e livros sobre o Cinema Novo - de nada valeria também se o fotógrafo responsável pela imagem que definiria em arte final essa profusa confusão de conceitos, vivências e sensibilidades que era aquele cinema também não caísse ele próprio em transe junto com ator e diretor. 

Esse nome meio esquecido do cinema novo está aqui para que se fale de um canal de tevê alternativo - desses que programadoras como a NET inclui em seus pacotes - que tem o poder de dar ao país o conhecimento sobre figuras como Dib. Foi no "Curta!", canal que recentemente caiu no meu pacote caseiro sem qualquer comunicação (imagino que para cumprir itens da legislação que obriga a inclusão de percentuais de produção nacional na programação), que assisti a um longo e detalhado documentário sobre Dib Lutfi. 

Zapeando, encontrei um outro canal próximo deste "Curta!", que, por sinal, ainda falando dele, havia visto em pacote diverso do meu na casa de Titina Medeiros, onde assisti a um belo doc em curta metragem sobre um maranhense que de tanto cismar em atuar no cinema acabou fazendo carreira como ator de filme pornô e estava muito entusiasmado com a empreitada; história narrada em um filme quase todo feito num único take do camarada pedalando uma bicicleta contra um poente de "...E o vento levou". 


O segundo canal dedicado à cultura brasileira e afins a que me refiro aqui chama-se Arte+ e tem uma programação que igualmente recupera, exibe, dá visibilidade a filmes dedicados ao melhor da música brasileira, do cinema, da literatura. Algo parecido com o que o próprio Canal Brasil também acaba fazendo. A diferença é que nestes canais menos conhecidos há uma  aparente maior liberdade, que imagino decorrente do próprio descompromisso com a busca da audiência pura e simples. 


Mas é preciso zapear, procurar, fuçar usando o controle remoto para encontrar essas novidades onde se pode assistir às melhores velharias. Onde qualquer um de nós pode assistir ao filme "Doramundo", que João Batista de Andrade fez no final dos anos 70 e não se acha em VHS, DVD ou no YouTube na íntegra? Pois é um dos destaques do "Curta" - que por sinal acaba de ganhar uma página no Facebook, procure lá. Este é um material que infelizmente não interessa à TV aberta convencional brasileira e nem mesmo aos canais fechados cada vez mais dominados pela estética de certa histeria audiovisual de filme de super-herói americano feito para criar franquias que significam verdinhas (e eu aprecio alguns, mas a questão não é essa). 

Esse movimento, reflexo das mudanças na legislação que tanta gente critica sem parar um tantinho assim pra pensar (apenas reproduzindo o discurso das grandes redes), ocorre sem que haja propaganda, divulgação, incentivo: canais como o Curta!, como o Arte+, como o próprio Canal Brasil, assim como a programação de final de semana e dos horários menos concorridos politicamente da TV Câmara (onde há muita jazida de ouro televisivo à espera de coletores menos apressados) são biscoitos finos. E quanto mais o são, menos interessa ao sistema convencional de televisão voltado para o consumo levantar o cartaz dessas emissoras. Muito menos à imprensa que se julga tão responsável pelos rumos do país. Nem a universidade que como altar sacrossanto do rigor subestima tanto do que é feito na medida da paixão. 

Este é um tipo de programação que parece só interessar aos malucos, distraídos e vorazes - o público que não tem pudor de apenas tangenciar a tal da normalidade. Grupos, tribos, clãs que vão se formando por aí. Enquanto isso, o silêncio que condena as audiências de tais canais ao traço é como um grito ensurdecedor contra a nossa mediocridade dia a dia cada vez mais burilada. Eu sei: renda é importante e sensibilidade não traz dinheiro. A esta altura dos tempos, bem que essa equação já poderia ter sido mudada. Curioso é que, dessa maneira oblíqua, a lei esteja ajudando, embora quase ninguém seja informado sobre isso. Se a gente lembrar que exatamente quem tem o papel social de informar não tem o interesse econômico e político de cumprir sua obrigação fica mais fácil de entender - mas ainda assim difícil de aceitar.

quarta-feira, 24 de abril de 2013

OBITUÁRIOS INESPERADOS



Por algum motivo oculto que o curso da vida ainda não me revelou, tenho sido frequentemente - ou repetidas vezes, de maneira não menos que marcante - objeto de um tipo de surpresa que poderia chamar de, no mínimo, intrigante.  Sem rodeios, trata-se aqui do fato de ficar sabendo por uma notícia impressa, em jornal ou revista, da morte de pessoas queridas - sejam celebridades culturais ou gente com quem tive alguma proximidade. 

Foi o que acabou de se dar agora mesmo, no instante que antecede o post que você lê neste momento, sabe-se lá em que circunstância do seu dia ou da sua vida. Estou folheando um exemplar de revista quando, virando a página, quase pulo da cadeira diante da capacidade de me ejetar emocionalmente que a notícia provoca. Fico sabendo, por meio de um susto impresso, sobre a morte do crítico de cinema Roger Ebert.

Morreu - e acho que só eu não sabia - o crítico que, descoberto ainda recentemente há poucos anos, proporcionou-me horas memoráveis de fruição ao analisar filmes e mais filmes aos quais eu, como tanta gente, me afeiçoei - e o fez com um texto que, de tão acuradamente analítico, dificilmente poderia escorrer tão suavemente pelos veios da mente deste leitor que vos fala. 

Devorei dois livros de Roger Ebert, crítico notabilizado pelos comentários sobre filmes no Chicago Sun-Times, jornal da cidade norte-americana. Depois de ler suas análises - que não eram resenhas rápidas, especialidade de outra celebridade da área, Pauline Kael - os filmes renasciam diante dos olhos de qualquer leitor com uma queda mínima pela sétima arte. São livros em que os comentários de Ebert são feitos, não raramente, a partir de seminários instigantes, em que ele juntava estudantes de cinema em auditórios para analisar sequência por sequência, com a paciência de quem faz uma autópsia não num cadáver mas num repositório de belezas, grandes produções que entraram para a história do cinema.

A crítica de Roger Ebert, assim, vertia uma forma de arte de natureza áudio-visual em outra, uma forma particular de literatura feita como que por meio de um decalque daquilo que a gente via na tela grande. Sobreposição de linguagens de caráter revelador para quem tinha um de seus livros à mão.

E tudo isso de repente adquire uma outra condição quando, ao virar uma página de revista, fico sabendo da morte do crítico - ademais um senhor de idade para quem o ponto final da vida nem deveria ser algo de natureza tão abrupta. Ocorre que, ao retornar dos meus vastos e nunca incomuns períodos de alheiamente ao noticiário nosso de cada dia, costumo tropeçar em evidências como estas. E não é a primeira vez, nem é esta a única forma como este tipo de manifestação se ancora na minha forma de viver neste mundo.


Há alguns anos, trabalhava como redator no jornal Correio Braziliense. Enquanto aguardava os repórteres entregarem suas matérias prontas para serem retrabalhadas, por exemplo, rumo a uma edição de domingo repleta de bons textos que precisaram apenas ser reformatados em páginas atraentes, dei um pulo numa sala próxima à redação para passar os olhos em edições recentes do Diário de Natal, que como integrante dos mesmos Diários Associados, enviava regularmente seus exemplares para Brasília. Eram tempos pré-internet, onde só se podia ler o jornal de um estado distante recorrendo a esses artifícios.

Abro o Diário e vou folheando sem pressa quando deparo com a notícia da morte do jornalista Alfredo Lobo, que outro dia mesmo estava ali naquela mesma redação, à frente do caderno de Turismo. Pra deixar mais claro o impacto da notícia: Alfredo Lobo foi um dos muitos jornalistas encerregados de fazer uma das inúmeras mudanças editoriais no jornal Tribuna do Norte, também de Natal, durante a década de 80. E foi o responsável por um dos períodos mais ricos para quem lá esteve enquanto ele inseria no jornal natalense um frescor que dia a dia o diferenciava do concorrente - justamente o Diário onde anos depois eu leria a notícia da sua morte.

Mudando para Brasília, reencontrei Lobo - ele mesmo um dos principais responsáveis pela minha mudança para cá, mas isso é outra história -, no Correio Braziliense; eu como redator novato na sessão Brasil/Política e ele como editor do suplemento de Turismo. O tempo moveu suas rodas, Lobo deixou o Correio, voltou a Natal para novo desafio - reformar outro jornal, desta vez o Diário - e o contato foi se perdendo. Um dia, Lobo de volta a Brasília mas trabalhando em alguma assessoria, nos encontramos num shopping e almoçamos juntos, relembrando os tempos de Natal. A roda do tempo move-se novamente e... aqui estou eu na sala próxima à redação do Correio com o Diário nas mãos e o coração aos saltos. 

Ainda bem que não era a primeira vez (!?): pois é, já havia acontecido antes. Morei durante um bom tempo no conjunto Parque das Pedras, em Natal, em tempos de vacas magras e felicidade urgente. Tempos de inflação em alta, quando a gente alugava um apartamento por uma fortuna que, dois meses depois, valiam quase nada. E nisso, pulando de um apartamento do Parque das Pedras para outro, acabei ocupando um imóvel de propriedade de um médico que vivia em Brasília (!), mas cujo aluguel devia ser pago à sua avô, uma solitária e nostálgica velhinha que residia num quartinho de fundos de uma casa em Petrópolis, ali perto do Palácio dos Esportes, em Natal.

Dona Letícia Galvão tinha perdido quase tudo na vida - o marido, o único filho, os bens, o conforto. Só restou a ela o neto, um único e escasso neto como diria o dramaturgo. Na sua velhice solitária, Dona Letícia escrevia romances a ponta de lápis em cadernos pautados, vivia rodeada de fotografias e figuras de revistas que lhe remetiam aos tempos passados, e tinha toda uma vida de recordações acondicionadas em um cômodo escuro onde o único brilho vinha de uma tevê de 14 polegadas que o neto lhe comprara há pouco tempo.




Toda vez que eu ia pagar o aluguel, Dona Letícia me alugava - com o perdão do trocadilho, que está aqui apenas para você me entender melhor e não por galhofa. Eram horas e horas escutando as histórias dos saraus literários que aconteciam na casa de Dona Letícia quando ela era apenas uma poetisa na flor da juventude; uma corredeira de minutos escoando naquela casa de fundos enquanto ela lembrava do dia-a-dia com os pais e as irmãs numa Natal que não existia mais; ampulhentas virando e revirando enquanto ela, melancolicamente, mudava das lembranças de outrora para a penúncia dos dias de então, quando a relação com as irmãs - que também lhe restaram, mas de nada serviam - desandava. Sessões de um quase monólogo muito típico de pessoas mais velhas diante de ouvintes bem novos que invariavelmente denotava também a falta que ela sentia da presença física do neto distante no tempo e no lugar. 

Sensibilizado com o mundo de Letícia Galvão, cheguei a produzir uma reportagem na TV Cabugi, que a repórter Lúcia Matias preparou com esmero e me entregou prontinha para uma edição minimamente sensível (sonorizada, infalivelmente, com Elis Regina cantando os sonhos mais lindos que sonhou). Mas acabei mudando de moradia e me distanciando de Dona Letícia, seus cadernos e suas memórias. Um dia, outro dia qualquer como aquele em que fiquei sabendo da morte de Alfredo Lobo, ou como hoje diante da revista com o obituário de Roger Ebert, abro um jornal casualmente na redação da TV Cabugi e lá está: um anúncio de missa de sétimo dia em lembrança da alma de Letícia Galvão. Publicado pelo neto, a única pessoa no mundo que lhe restara no final da vida.

Com a confidente Letícia, o renovador Alfredo Lobo e o instigante Roger Ebert vou aprendendo que, mais do que fazer doer o coração, a morte é este ponto final que intriga a cabeça da gente; expõe nossa vulnerabilidade, esquadrinha essa intangível falta de dimensão mensurável que somos nós outros, os vivos. 

Mas tomar conhecimento por meio de uma nota impressa no jornal sobre o falecimento de quem nos foi querido, ainda que distante, às vezes inalcançável, é como recobrir a morte de uma camada a mais de perplexidade. 

Dói de um tipo de doçura como a do chocolate que cobre a massa do bolo de aniversário: você fica a pensar na vida e na morte como esse sabor de nada no fundo da boca, como se uma entidade desconhecida lhe houvesse tirado o doce das mãos da criança que você, sem saber, continua sendo.