sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

DA VIDA DOS OUTROS


Biografias são espelhos. Nelas o leitor projeta suas anônimas e pequenas querelas diárias em busca do reflexo vindo de vidas trágicas, imensas, corajosas e desafiadoras. No Brasil recente, aprendemos com Fernando Moraes e Ruy Castro a ler biografias bem espanadas, em que a trajetória dos biografados, além de ilustrar o que pode uma vida no painel geral das circunstâncias, acentua o valor dessas últimas, construindo painéis históricos de irresistível força atrativa e informalidade narrativa. A gente abre o livro e tenta se ver no que for possível, seja diante de um músico que revolucionou a estética de um país como João Gilberto em “Chega de Saudade” ou no enfrentamento de uma ditadura exclusivista e ferrenha, como Fidel em “A Ilha”.
Desde então, a gente nunca mais parou de se mirar neste espelho. Um dos mais reluzentes que está atualmente na praça – digo, nas livrarias – é o primeiro volume da trilogia em que trabalha Lira Neto: seu “Getúlio – Dos anos de formação à conquista do poder” é um daqueles livros caleidoscópicos, uma biografia que não se exime de examinar cada episódio paralelo que se meteu no caminho do mais trágico, desafiador e corajoso líder político do país. Lendo “Getúlio”, a gente se mira no espelho do tempo histórico – no que colocamos o próprio país de hoje para se comparar diante dos conflitos recorrentes do século passado – e ainda fica muito mais ilustrado. Para citar alguns exemplos, há páginas e páginas sobre figuras como o “Leão de Caverá”, sobre fenômenos como o “Borgismo” no Rio Grande do Sul, sobre a mais que recorrente personalidade que é “Oswaldo Aranha”, uma visão mais transversal sobre Luiz Carlos Prestes do que nos deu outro clássico do gênero, “Olga”, de Fernando Moraes. O “Getúlio” de Lira Neto é este livro-espelho, essa biografia-totem que tanto quanto erige os detalhes que levaram à construção do mito também lhe desconstrói os pedaços de contradição que caracterizaram o homem.
Um corte brusco – nem tão brusco se você conseguir estabelecer certas conexões até meio óbvias – e caímos nas mãos de um novo produtor de espelhos. É o jornalista Ricardo Amaral que, aproveitando a proximidade com a pessoa e os acontecimentos que são a presidenta Dilma em sua ascensão de integrante da equipe de transição do então recém-eleito Lula até a substituição do próprio no Palácio do Planalto, construiu uma biografia cheia de raios luminosos que é a vida da ex-guerrilheira que virou a autoridade número um do país.  “A Vida quer é Coragem” refaz os passos dessa trajetória e a torna muito mais natural do que a gente sempre quis acreditar que pudesse ser.
Nada disso: o caminho de Dilma, descrito com a força dos fatos pessoais inseridos nas várias realidades do Brasil que a biografada viveu, soa coerente, progressivo, às vezes até meio automático. Amaral preenche os vazios da narrativa reconstruindo episódios recentes da vida política do país, como as mil e uma crises da campanha eleitoral que levou Dilma ao Planalto, no que ajuda o leitor a didaticamente reorganizar suas informações dispersas sobre o período – este, sabe-se, é outro dos efeitos das melhores biografias. O leitor sente falta de um pouco mais de proximidade com a Dilma dos bastidores, mas talvez isso se dê pelo fato de ela estar aí, no exercício de sua presidência e de seu poder político, o que sempre reforça a curiosidade em torno da pessoa, dos novos obstáculos que enfrenta, como enfrenta, com que lógica, o que pensa, onde quer chegar – enfim, é o resíduo natural de um livro como este.
O que mais sobressai na verdade são as frases e os raciocínios exatos da atual presidenta, em vários momentos da vida. Uma delas, das primeiras a produzir seus reflexos na página, diz que “A vida não é fácil. Nunca foi.” Aí está a essência do que diz a frase de abertura deste texto: biografias são espelhos – e é se vendo como reflexo anônimo nesta frase da célebre primeira mulher a ser presidente do Brasil que a máxima se confirma e se reinventa. Precisa chegar a presidente para entender aquela sentença? Há outras, tão marcantes quanto: “Sou uma mulher dura cercada de homens meigos”, lembra? E sobre aquela tendenciosa entrevista a William Bonner e Fátima Bernardes durante a campanha, na bancada do Jornal Nacional, que incomodou todo mundo por um excesso de cobrança que não se veria diante dos demais candidatos: “Eu achei que ia ser uma entrevista chochinha. Eles resolveram esquentar...” Pois é, ao contrário dos seus eleitores, Dilma nem ligou.


O terceiro livro a fazer parte desta conversa não é exatamente uma biografia, mais uma memória dos tempos infantis. Duros tempos infantis, bem diversos da maneira como o presente trata suas crianças – inclusive aquelas que já têm pra muito mais de 18 anos. Não importa: “Formosa És – Memórias do Internato”, em que Clotilde Tavares relembra seus tempos de criança de oito anos entre os muros de uma escola de freiras no interior de Pernambuco, na cidade de Bom Conselho, é um espelho vivo tanto quanto qualquer biografia – o que, como memória, ela também não deixa de ser. Estamos entre janeiro de 1956 e dezembro de 1957, o Brasil é outro, o Nordeste brasileiro nem se fala, a moralidade é imperativa, as possibilidades de uma família criar seus filhos com conforto e perspectiva é incerta, o mundo até parece ser em branco e preto ou sépia como um velho filme do tipo “Marcelino, Pão e Vinho”. Clotilde rememora a experiência de, tão criança, ver-se instalada num colégio interno de regras rígidas e hipócritas como a época, um tempo que hoje pode até parecer meio idílico, mas só é assim se a gente varrer da memória os padrões de comportamento quase talibânicos de tão bolorentamente religiosos e intolerantes que vigoravam então.
No espelho de “Formosa És” enxergamos os dias atuais por meio dos raios foscos que aquele tempo passado emitia: Clotilde é exata, e quanto mais dura, direta, sem rodeios mais soa forte, autêntica, dramática e impactante sua reconstituição. A bem da verdade, somente pela extensão – é um livro breve, que se lê muito rapidamente – o relato pode soar erroneamente leve. Não se trata disso: esqueça a face doce da autora e aproxime-se dela pelo seu lado mais cortante, aqui de longe o seu melhor. “Éramos famintas. Vivíamos famintas” é o tipo da frase que dá bem a medida do texto – e quem, como eu e muitos amigos, viveu em colégio interno saberá bem do que Clotilde está falando. Mas mesmo para quem nunca sentiu essa fome crônica e existencial do ser chamado “estudante de internato” este “Formosa És” será, a despeito da brevidade do volume editado pelos “Jovens Escribas” de Natal-RN, um espelho amplo como um painel na parede, projetando infâncias, carências e primeiras rebeldias de um Brasil a caminho de se tornar o complicado, mas muito mais arejado, país atual. Mirem-se nestes três livros e se deixem iluminar por tudo o que tais biografias são capazes em matéria de reflexão.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

SORTE, ARTE E FESTA


Assim como no CCBB, na Caixa Cultural 2013 também começa com uma série de exposições de artes plásticas perfeita para quem deseja iniciar o ano abrindo os poros da visão: a série “Sorte na Arte” traz para Brasília os trabalhos originais de Di Cavalcanti, Djanira (acima), Poteiro, Glauco Rodrigues, Carlos Scliar e outros artistas feitos para ilustrar bilhetes da loteria federal. São telas, gravuras e outras criações que reproduzem o colorido de festas populares como o São João e o Natal, além de outra série feita em 1967 para exaltar os heróis nacionais – mas embora o ano traia o propósito Brasil Grande de então, não feche os olhos de cara, que um Tiradentes sempre pode lhe aparecer em molduras muito mais pop art à brasileira do que poderiam desejar os sisudos generais do período. A exposição fica em cartaz na Caixa Cultural até 3 de março, de terça a domingo, das 9 às 21h. www.caixa.gov.br/caixacultural

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

HAMLET CHAMA


Hamlet em Nova Descoberta é realmente Hamlet em uma nova descoberta, sob o luar do litoral nordestino, aclimatando seus rancores familiares aos tabuleiros brazucas. Aqui, fiordes e gargantas dão lugar ao ventinho que nem com toda leveza é capaz de espanar completamente as cismas humanas dos irmãos mais ou menos torturados do príncipe dinamarquês – eu, você, nós. Hamlet em nova descoberta, com maiúsculas e com minúsculas, é a recriação potimundializada do texto clássico em costura fina pelas máquinas pensantes dos Clowns de Shakespeare. A temporada é no próprio barracão onde a montagem foi forjada em suores bálticos pelos artistas, no bairro de Natal onde o sol se reparte entre quartéis e universidades. A partir do próximo dia 13, de quarta a sexta às 20h e às 19 aos sábados e domingos. Ingressos a R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia). Convém não perder tempo que o espaço é apropriadamente pequeno -  mas há saída de segurança para quem não suportar, mais do que o medo das catástrofes, a claustrofobia da trama – e a lotação logo se completa. Não se aperreie se, ao sair do espetáculo, vier uma vontade de esfaquear os coqueiros nos muitos terrenos baldios do bairro. Pode ser o Hamlet nordestinizado produzindo seus explosivos deslocamentos de ar.

VAI PASSANDO A PROCISSÃO









Procissão de encerramento da festa de São Sebastião, padroeiro de Parelhas-RN, em 20 de janeiro de 2013.

domingo, 3 de fevereiro de 2013

VOAR, COM ARTE







O ano recomeça bem servido de arte visual em Brasília: no CCBB a tarde desse sábado, 2 de fevereiro, era de muitos preparativos para novas exposições. A que mais chama atenção é a do artista chinês Cai Guo-Qiang, cujos artefatos algo mecânico e desconcertantemente poéticos vai tomar conta de todos os espaços a partir de 5 de fevereiro (também no Museu Nacional dos Correios). Estivemos lá ontem para testar da melhor maneira possível os efeitos de uma cirurgia de correção de miopia e o que vimos, sem óculos e com a acuidade que a curiosidade também provê, foi uma algaravia interessante de máquinas, engrenagens, furadeiras e burburinhos ansiosos de vozes humanas que voltam a se integrar à vida da cidade em busca de trabalho e beleza. Também está sendo montada uma exposição cujo mote é o desejo humano de voar. Há protótipos pendurados em galpões ainda em montagem e deu pra ver, como se fora uma performance em si, os operários grudando no alto do prédio a frase que tenta deixar o visitante no clima dessa nova levitação. Acompanhe a montagem e voe você também: mas não esqueça de voltar ao CCBB quando o espetáculo de fato começar.

domingo, 13 de janeiro de 2013

PIRANGI, PRAIA


Para o natalense que por um tempo eu fui, Pirangi nunca passava do bairro. Pìrangi, o conjunto na zona sul, passagem para o Serrambi do amigo Jano Sérvio - ali onde Natal terminava num manto de matas. Nova Parnamirim não era nem uma possibilidade, quanto mais uma ocupação algo desordenada. Pirangi, Praia; essa era uma estranha tão distante quanto aquela mesma Nova Parnamirim ainda não edificada sobre a trilha de areia que viraria a ser a Maria Laderda. Isso quer dizer que levei anos, décadas para botar os pés na areia daquela Pirangi feita reduto da classe média. Precisamente, foi o que fiz nos últimos dias. Até então, Pirangi, Praia era um casario tumultuado perto de um grande cajueiro no caminho para outros lugares. E antes, bem antes, eu era estudante, de extirpe carente, morador da Residência Universitária Campos I, apartamento 11, onde cabiam outros cinco semelhantes a mim. Nossa praia era a Ponta Negra das antigas barracas, pré-CVC. Pirangi não era citada, não entrava nas conversas, não fazia parte do universo.

Pirangi, Praia era apenas um cartão postal - e mesmo desse eu lembrava tão pouco. Um negócio da era da infância, quando uma prima residente em Natal enviou pra nossa casa esse cartão onde se via uma enseada quase falsa de tão bonita, uma visão impossível bordada por areia branca, água calma e rio de desenho de escola. Aquilo existia? Quem podia ir até lá? Aquilo não podia ser pra gente. Durante anos o cartão com essa praia absolutamente mitológica ficou guardada na caixa de retratos, com dedicatória no verso, exemplar raro de algo incomum para a nossa rua sem calçamento, nossa casa de banheiro no quintal. E lá ficou, talvez ainda esteja entre nas pastas que habitam as gavetas da casa de minha mãe.

Agora, por uma gentileza sem preço do casal Lúcia e Lucas, tios de Rejane que mantêm um apartamento na colônia de veraneio da classe média natalense, lá fomos nós. No final do ano passado, numa festa de reveillon a que fomos convidado pelo mesmo gentil casal, já tínhamos tido uma prévia da areia fofa da praia, do estranho ar convidativo da parte de Pirangi que se nos apresenta em forma de mar aberto, de uma amplidão que a curva superpovoada de Ponta Negra nem sempre nos oferece mais. Agora, como fomos num meio de semana (algo me diz que entre sexta e domingo o padrão animatício é outro), pudemos descer tranquilamente à praia, respirar seu vento de fim de tarde, divertir o olhar com as manobras dos praticantes desses novos esportes que misturam empinar pipa com pendurar gente sobre as ondas do mar, dar um passeio a pé até passar por baixo do pier comprido da Marina Badauê. Os vendedores de CDs e picolés sempre dão um jeito de interferir na trilha sonora joãogilbertiana do vento puro com seus forrós liquefeitos em barulho, mas nada que chegue aos píncaros da tortura sonora que domina outras plagas e praias. Enfim, até essa interferência contribuiu para que enfim eu pudesse dissolver num copo de agradável  realidade o mito de Pirangi, Praia. Mito é importante pra guarneceer a imaginação, mas o Real é outra praia onde o nosso pé também precisa pisar. Obrigado, Tia Lúcia e Lucas.

NO BALANÇO DO POTE


Forró bom é que nem o da água dos sertões - do Pote. A casa de música regional de Pium, litoral sul de Natal, está fazendo nove anos neste 2013, e só agora Rejane conseguiu realizar um projeto que tem quase dez anos - justamente o de me levar lá. Fomos ontem à noite, guiados pelo Google Map numa estrada sem sinalização alguma: mineiramente escondido nos grotões altamente urbanizados da praia de Parnamirim, encontramos este simulacro de vila matuta em forma de quadrado fechado, com vendas de bebidas e acepipes nas beiradas, toldos com mesas de plástico pelo centro e um dancing tipo cassino na área nobre, abaixo de um palco nada espetaculoso mas de muito bom tamanho. O Forró do Pote tem as medidas certas, nem tão exagerado nem tão estreito, um público visivelmente cativo e nenhuma fila incômoda. Milagre nestes tempos de massificação geral e multidões em busca de diversão eletrocutada, tudo lá nos soou tranquilo, caseiro, arejado e espaçoso. Muito bom o Forró do Pote.

Mas, veja mesmo: tinha horas em que parecia que a gente estava em Brasília Citi, num soiré do Clube da Previ, reduto dos iniciados nas coisas da Velha Guarda que encontram uma música suave e um dancing tão cassino quanto em beiradas outras, as das quadras 700-900 da Asa Sul. O nome já entrega - abreviação de Clube dos Previdenciário, palavra-instituição cuja breve pronúncia já deixa transparecer o avançado da idade - o espírito do lugar. Lá no dancing candango temos, às noites de sexta-feira, casais descansados de filhos crescidos e netos buliçosos, músicos de camisas estampadas, música nunca posteriores à década de 80, e o atrativo extra de várias "individuais" exibindo-se na pista sem medo de ser ridículas - e não são, que alguma espécie de elegância noturna anima suas almas dançantes. Pois, uma vez no Forró do Pote, parecia que era no Clube da Previ que a gente estava: os mesmos casais experientes, cabeleiras grisalhas de rostinho colado com madeixas habituadas aos rituais da pintura, um ar doméstico, e várias "individuais" sobraçando braços, pernas e meneios de quadris entre os quatro cantos da murada. Mocreário de responsa, que esse também é um elemento obrigatório deste tipo de ambiente. A diferença era só o repertório: mas alguma coisa me diz que mesmo no Clube da Previ a banda da noite sempre arranja um jeito de encaixar uma sessão rítmica de forró, do tipo clássico, o que aproxima ainda mais os dois lugares.

Danceteria brejeira, com uma mestre de cerimônias de fala calorosa, o lugar recebeu ontem a presença do astro regional Geraldinho Lins, de quem temos um CD sumpimpa adquiro nas gôndolas oportunistas da incansáveis Lojas Americanas. Outros forrozeiros locais abriram a noite, frequentada por tipos tão caracteríticos que não havia como não designá-los por um apelido de uma noite que seja. Havia, então, bem perto da nossa mesa, um Joaquim Barbosa circunspecto acompanhado por uma ex-sílfide dos anos JK, hoje redimensionada pelas plásticas da idade. Casal calmo, de poucas danças, esparsas conversas, platonicamente admirando o show de forró. Animado era o clone de Lewandowski mais à frente: um velhinho que não se entregava fácil e dançava o tempo todo. Com um bela e espadaúda morena, Lewan estava nos cascos ontem à noite: dançou até no intervalo entre os shows, sem deixar de dispensar nem mesmo o play-back. Ôxe, e play-back né música não, menino? Data-vênia, forrozeiro!

O esquema de consumo é que nem em quermesse de São João em Brasília: você comprar as fichas e depois troca pela bebida ou comida que deseja adquirir. E o repertório? Onde é que eu iria imaginar que um clone metropolitano de forró de pé de serra iria tocar para o público dançar novos clássicos da música nordestina como "Banquete dos Signos", "Abri a Porta" (copiando milimetricamente o arranjo do disco original de Dominguinhos, um brinde extra à minha memória) ou - o hit inesperado na noite, que fez todo mundo levantar e sair em caminhadinha de passo de quadrilha para a pista - "Frevo Mulher". Ouvindo esta última e apreciando a animação geral que ela provocou, tirei minhas previ-conclusões: aquele pessoal todo tinha que ter 13 anos em 1979, quando o "Frevo Mulher" que Zé fez para a então mulher Amelinha gravar estourou no último carnaval da década da nossa tenra infância. Vida longa ao Forró do Pote: e dia 2 de março tem Flávio José - se a gente estivesse aqui, ia, se ia, e como ia.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

A ADOLESCÊNCIA DAS FINANÇAS


Juventude mais tecnologia turbinada com dinheiro é igual um mundo congelado pela frieza dos sentimentos, esvaziado pelos aspiradores dos sentidos, retocado pelas impressões do que não vai além da mera aparência. É o mundo de “Cosmópolis”, o filme de David Cronemberg que compõe uma instigante parábola do mundo tecno-financeiro-juvenil atual, num tipo de cinema-ensaio que se no impactante tratamento visual lembra um Stanley Kubrick de ótima cepa, no texto propriamente dito emula o mais reflexivo cinema dos anos 90, como “O hotel de um milhão de dólares” de Wim Wenders.
Mas isso são só referências, porque este “Cosmópolis” está trincando de tão novo quanto se trata de ler a reluzente algaravia sociofinanceira dos nossos tempos de neoprotestos e riqueza ostensiva tão proclamada quanto revestida de sentimento de culpa. “O que significa gastar dinheiro”, pergunta uma Juliette Binoche provocativa como uma das inúmeras passageiras da limusine atarantada de Robert Pattinson. Pelos seus bancos isolados do caos lá fora passeiam outros convidados, cada um despejando no ambiente à prova de som externo suas teorias esparsas sobre mercado, estilo, tédio, capitalismo e prazer.
O rosto naturalmente meio robotizado do vampiro Pattinson cai à perfeição nesta parábola que destila luxo e decadência ao mesmo tempo, enquanto usa os ratos como metáfora para o poder da grana asséptica que circula entre operadores. Uma cena inteira costura a provocação, compondo um jogral em que o rato assume o valor de papel moeda, título financeiro, valor de face e poder de compra. Nas dezenas de diálogos que pontuam e sustentam as idéias do filme, especula-se sobre o poder até gramatical das declarações econômicas, quando um personagem decreta com propriedade sobre os especulativos tempos atuais: “Toda economia ficou em suspenso porque ele (um poderoso ministro de finanças) respirou fundo (antes de responder a uma pergunta)”.
E tome teses sobre o dinheiro, que, “assim com a pintura, perdeu sua capacidade narrativa”. É daí pra frente o nível da sessão, como se o sistema inteiro estivesse usando o carrão do protagonista como divã de análise planetária. E o protagonista faz por merecer, exibindo como prêmio indesejado um vazio tão grande que o faz igual, similar, embora em pólo oposto, aos ativistas quase infantis que se aprazem em estourar tortas nos rostos dos ricaços. O manifesto verbal de um deles após este terrorismo inocente é de um caráter tão patético quanto a apatia de Pattinson – e de um equilíbrio fino; um tom a mais e seria comédia pura, mas é evidente que não é disso que se trata.
Quem leu as toneladas de textos publicados quando o filme foi lançado sabe que, narrativamente comprimida, a história mostra um megamilionário das finanças tecnovirtuais atravessando o caos de uma cidade dentro de um carro isolado de tudo e de todos para ir cortar o cabelo num bairro distante. Pois é lá, no dito barbeiro, que encontramos a razão de sua teimosia: está ali, numa espécie de relicário analógico conservado com visual de instagram em sépia, o pouco de memória afetiva que lhe resta. O barbeiro, amigo do pai, relembra os tempos de taxista – tão diversos daquele freqüentado pelo protagonista.
No balanço final, ocupa toda a tela a imaturidade daqueles que enriqueceram quase ao deixar as fraudas, por artes de um sistema que tem pressa e já não consegue ver graça nem no dinheiro que produz e reproduz. Uma adolescência financeira que, de outra maneira, também atinge quem está do outro lado da barricada – os ativista de tortas de chocolate. Pior para suas vítimas de mais idade, como o personagem de Paul Giamatti com quem Pattinson tem seu enfrentamento final. E a quem aconselha, ciente de que, mesmo imaturo na experiência, vive com a mente cravada por uma indesejável intuição: “Há muito pouco nessa sociedade que você precisa odiar”. Um recado para os muito ricos, os muito pobres e aqueles de extrato quase sempre médio que insistem em denunciá-la o tempo todo. Não que estejam errados – mas nem por isso deixam de fazer parte dela, é o que parece nos dizer “Cosmópolis”.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

OS LIVROS QUE O SOPÃO LEU EM 2012


  • ENTREVISTAS COM OS ESPÍRITOS - Antonio Carlos com Psicografia de Vera Lúcia Marinzeck de Carvalho
  • 1958 - O ano que não devia ter acabado - Joaquim Ferreira
  • GETÚLIO - Dos anos de formação à conquista do poder - Lira Neto
  • CINCO SEMANAS NUM BALÃO - Julio Verne
  • A CULTURA DA CONVERGÊNCIA - Henry Jenkins
  • DEPOIS DO FUNERAL - Agatha Christie
  • A MANSÃO HOLLOW - Agatha Christie
  • O EVANGELHO SEGUNDO JESUS CRISTO - José Saramago
  • CAIM - José Saramago
  • COMO VER UM FILME - Ana Maria Bahiana
  • ENSAIOS DE ESTÉTICA - José Ortega Y Gasset
  • AS TEORIAS DA CIBER CULTURA - Francisco Rüdiger
  • A BOA VIDA SEGUNDO HEMINGWAY - A. E. Hotchner
  • AS NEVES DO KILIMANJARO E OUTROS CONTOS - Ernest Hemingway
  • UMA BREVE HISTÓRIA DO SÉCULO XX - Geoffrey Blainey
  • O JOGO DA GATA-PARIDA - Luiz Gutemberg
  • SILVIO DE ABREU, UM HOMEM DE SORTE - Vilmar Ledesma
  • A PRIMAVERA DO DRAGÃO - Nelson Motta
  • CONTOS ABENSONHADOS - Mia Couto
  • UM CONTO DE DUAS CIDADES - Charles Dickens
  • TERRAMAREAR - Ruy Castro e Heloísa Seixas
  • O VERSO E O BRIEFING - Clotilde Tavares
  • BIOGRAFIA PRECOCE - Fernando Meirelles
  • O LIVRO DO BONI - José Bonifácio de Oliveira Sobrinho
  • segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

    O LIXO DE NATAL

       
    Enquanto sobe o sol à flor do Velho Chico no sertão baiano e o dia se apresenta para mais uma jornada na estrada, uma imagem recorrente destes dias estraga o instagram engatilhado das férias. É o lixo de Natal, esta entidade do final de 2012 que parece estar em todos os lugares. Está em frente à prefeitura, está no ex-calçadão de Ponta Negra, está no JN, está no site de notícias. O Lixo de Natal virou quase uma autoridade, algo que se escreve com iniciais maiúsculas e que se deve cultuar como um patrimônio vívido e fétido das imprudências potiguares. Porque o Lixo de Natal é a realização mais material possível das conseqüências de atos coletivos praticados quatro anos atrás.
    Por este critério, o Lixo de Natal precisa mesmo ser exposto, oferecido, imposto e reapresentado até o limite das nossas capacidades. É preciso que o cidadão comum sinta seu cheiro, que o comércio tropece nele em suas calçadas, que o empresário de turismo aspire cada molécula de fedor que ele espalha no ar. Porque todos esses – e muitos outros mais – contribuíram em momento diverso para iniciar o processo que daria origem ao estado atual das coisas. Nenhum lixo, por mais ordinário que seja – e o fato de ser ordinário é a mais pungente das prerrogativas do lixo, qualquer que seja ele – começa assim espetacular, em rede nacional e com insuportabilidade local: começa é com um reles montículo potencializado pelas forças que estão ao seu redor. Sabemos bem que forças são essas quando tratamos do nosso lixo político estadual e municipal.
    Convém também lembrar que o Lixo de Natal, uma vez reinstituído em entidade pública de papel passado e mandato fixado, também se manifesta em outras áreas da cidade além de suas feições imediatamente políticas. E já que estamos todos torcendo para que se recolha em operação de emergência o Lixo de Natal antes que 2013 se inicie de fato, torçamos igualmente para que o caminhão da Urbana leve também nossa falta de ousadia, nossa preguiça mental, nossa babaquice deslumbrada, nosso interesse mesquinho, nossa imensa falta de auto-estima no bom sentido da coisa, que faz com que uns e outros insistam em nos chamar de província como a tentar uma forma intelectual de levitação acima do barbarismo geral do tempo e do lugar. Fora com o Lixo de Natal – o real, que desenfeita nossas ruas nesta transição 2012-2013, e aquele outro, que persiste no ar das nossas subjetividades mais escorregadias.
    (Ibotirama, BA, 30-12-2012) 

    sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

    O ESPELHO TARDIO DA BORBOLETA


    Numa quarta-feira de triste memória, 1 de outubro de 2008, o SOPÃO DO TIÃO publicou o post intitulado "Borboleta". Este texto já foi republicado uma vez, quando a previsão fácil que se fazia ali começava a cair como uma ficha de telefone de antigamente na cabeça da mesma cidade que a transformou em triste realidade. Felizmente, daqui a poucos dias, este ciclo estará fechado - mas ele foi necessário, como destacou na época o jornalista Tácito Costa. Outra figura do jornalismo local comentava comigo: na posse, ela disse que seu primeiro ato seria "devolver a Prefeitura ao povo". Pois bem, o derradeiro ato que ela não realizará daqui a poucos dias por já não ter condições nem jurídicas de fazê-lo, será devolver a Prefeitura à cidade. 
    Reli o post e constatei que nem vale - como imaginava que iria acontecer - republicar tudo. É espremer à toa um limão de água suja que merece mais é ser jogado fora (e tomara que o novo prefeito faça uma operação limpeza assim que assumir o cargo neste primeiro de janeiro, caso contrário os restos de tal limão serão mais um bagaço a sujar a ex-cidade do sol). Sobrevive, no entanto, o lamento do último parágrafo, que reproduzo abaixo:

    "O importante neste momento é que você se convença da importância da mudança que vem aí. Se você achava que a cidade estava ficando estressada, abusada, nova rica e tão pedante quanto ignorante, não tema: o futuro imediato anuncia algo muito pior. E você precisa se adaptar, não é mesmo? Comece a treinar agora mesmo. Repita, olhando-se no espelho mais próximo: tudo vai ficar melhor porque eu sou linda como uma borboleta!"

    quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

    TODOS QUEREM MEU VOTO. PREFIRO LULA (FINAL)




    Marina está de volta e também quer o meu voto pra presidente da República. Talvez até tenha, dependendo de como este quadro todo que venho descrevendo aqui há duas postagens seja afinado. Neste momento tenho um pouco de pena de Marina Silva: acho que a candidata  perdeu o lugar no bonde da correção político-moral e neolacerdista pro Presidente Joaquinzão, que é muito mais enfático e emocionalmente midiático do que ela quando se trata de mostrar que, como é que diz? “tentamos com Lula, não deu certo, e vamos seguir adiante tentando de novo”. Não deu certo pra quem? Pergunte àqueles 30 milhões quando você cruzar com qualquer representante deles pelas ruas. 

    Enfim, Marina era o novo em 2010 mas não o será mais em 2014: até em termos de raça ela terá um concorrente de peso, que é Joaquim. E enquanto ele fala grosso, bate o martelo na mesa e manda quem discorda arcar com as consequências, ela tinha aquela aparência frágil, aquele ar de Gandhi, aquela aura de espírito desencarnado incorporado nos umbrais dos conchavos brasilienses. Não dá pra competir, mas dá pra aliar: quem sabe os dois não formam um novo partido, um Partido Justicialista à brasileira, e saem em dobradinha? Aí até pode ser. Joaquim manda, Marina obedece e o país diz amém. É votar e arcar com as consequências.

    Razão pela qual, quanto mais eu rumino esse cardápio em evidente formação, mais meu voto diz não a todos acima. Todos querem meu voto, todos querem mandar no Brasil. Nenhum quer ser mandado pelo país. Só Lula agiu assim, teve a grandeza de entender seu papel histórico e se fazer pequeno diante das imensas necessidades  nacionais represadas e tentar dar vazão a ela em meio ao cipoal político que as coalizões e as oposições de sempre – parlamentares ou não – lhe colocaram, e continuam colocando no caminho. Todos querem meu voto, mas ninguém me pergunta quem meu voto quer: e ele quer Lula, novamente. Se não der, vamos ver quem, sem entusiasmos por parte do meu título eleitoral, melhor se apresenta. 

     *Essa série de postagens foi escrita há três dias e sendo postada aos poucos: mal sabia eu que o precipitar dos acontecimentos levaria Lula a sugerir que pode, sim, se candidatar novamente à Presidência da República, e não apenas ao governo de São Paulo, como já foi sugerido. Mais um motivo pra eu reafirmar: todos querem meu voto, mas meu voto quer Lula antes de qualquer um.

    quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

    TODOS QUEREM MEU VOTO (2)




    Todos querem meu voto pra presidente da República. De uma hora pra outra, uma falange de candidatos surgiu na bruma da eleição distante. Todos querem mandar no Brasil; nenhum aparenta querer ser, de fato, mandado por ele – menos aquele outro, tão espancado politicamente pelos mandões de até outro dia que nem sei se fica bem pronunciar o nome. E justo ele, este último, é o único a se curvar àquele derradeiro requisito.



    Retomemos o raciocínio: Eduardo Campos quer meu voto também. Assim como Aécio, faz parte do grupo cuja candidatura decorre, antes de mais nada, de uma mera distinção hereditária. Aquele, neto de Tancredo; este, de Arraes – cumpra-se o dever cívico de validar o que o destino familiar converteu em sina histórica. Fora isso, o que credencia Dudu – como é chamado pelos primos lá em Recife – a ocupar o lugar que foi de FHC e Lula? Justamente a política de inversão de prioridades que fez este último, ao investir na região Nordeste como nenhum outro presidente havia feito, tudo dentro de um amplo pacote  de mudanças que resultou na ascensão social de 30 milhões de brasileiros antes negligenciados pelo poder central. Se o PIB do Brasil deu um pulo na era Lula, o pibão do Nordeste deu um salto maior ainda. Nesta brincadeira, Pernambuco foi quem dos que mais se saíram bem. E o nome de Pernambuco nesta outra brincadeira sucessória aqui é Eduardo Campos, mesmo que o netinho de Arraes tenha entrado recentemente na adolescência política e virado um rebelde com causa. Não importa: a origem da presença dele vem do mesmo Lula e do mesmo PT a quem vira as costas. E meninos mimados não dão presidentes obedientes ao que o país pede – dão o contrário, mandões emburrados que insistem em empacotar a nação no seu modelo de país.



    Falando nisso, Presidente Barbosão também quer o meu voto. Por coincidência, o raciocínio aqui descrito para Dudu aplica-se inteiramente ao atual senhor do Supremo Tribunal Federal. Sem o entendimento do PT – e não só de Lula, embora sem a determinação deste as coisas talvez não tivessem acontecido – sobre a necessidade de multiplicidade racial, regional e social no Supremo, Joaquinzão não estaria lá. Nem ele nem nenhum outro negro que Lula poderia pinçar do sistema judiciário para democratizar pelo menos o visual do STF. Ocorre que o Presidente Barbosão revelou-se, diante das câmeras da TV Justiça e das imagens que ela cede para a grande mídia conservadora brasileira, o tipo do sujeito que não quer apenas poder; ele aspira ao superpoder. Ambicionar o pode é normal na democracia; todos os partidos e candidatos o fazem. Reivindicar o superpoder só é normal nas ditaduras; todos se prejudicam com essa neurose política. Se você quiser que vote em Joaquinzão pra presidente – da República, que no Supremo é tudo na base da indicação indireta. Mas, como diria o próprio, depois “arque com as consequências”.


    (continua)