terça-feira, 11 de dezembro de 2012

TODOS QUEREM MEU VOTO (1)





Nunca antes na história deste país tantos quiseram com tanta antecedência o meu, o seu, o nosso voto para ser presidente da República. De uma hora pra outra, mal se encerrou a eleição  municipal, apresentou-se uma turba barulhenta de candidatos mal assumidos mas bem sassaricados querendo ser o nosso favorito pra 2014. Todos querem mandar no Brasil; nenhum quer ser mandado pelo país. O único que se curva a este último e vital quesito está na dele, apanhando como sempre, seja ou não candidato. Tomara que seja – é só o que está faltando, no melhor sentido da expressão.



Dilma quer meu voto, mas para tê-lo com algum entusiasmo de minha parte precisa rever urgentemente seu political way of life. Menos Jorge Gerdau e mais política pública, por favor. Precisa deixar um pouco de lado essa falácia de competência técnica e gerencial – com que, por exemplo, os tucanos da era FHC nos engabelaram só enquanto puderam, antes de entregar um país falido ao sucessor do PT – e se concentrar nas demandas do Brasil Popular Brasileiro. Quando, há poucos dias, um grupo de agricultores do Nordeste, falidos pelas dívidas com o BNB e pela seca que atinge a região, fizeram um piquete em frente ao Palácio do Planalto o governo primeiro chamou a polícia e só depois recebeu uma comissão. E isso porque ainda reside no Palácio do Planalto um rescaldo da era Lula chamado Gilberto Carvalho – que sem ele, sei não. Mas precisava, candidata Dilma, chamar a polícia pra impressionar aquela gente tão brasileira que é  o nosso pequeno agricultor familiar? Tudo bem que eles fecharam uma via importante de Brasília: mas várias delas não são fechadas quanto há encontro de chefes de Estado e a cidade não sobrevive do mesmo jeito? Grandes ruralistas autoritariamente inadimplentes certa vez encheram o trânsito da capital de máquinas e tratares e não foram incomodados. E mais: se empresários calibrados têm dificuldade para conseguir uma audiência com a presidenta, se líderes políticos reconhecidos raramente conseguem, o que resta a um punhado de agricultores familiares falidos para chamar atenção de um governo que veio de outro onde eles tinham  visibilidade do que fechar o Eixo Monumental no seu ponto mais filmado, vigiado e ambicionado?  Fosse ainda ocupante do endereço aquele de quem se falou no final do primeiro parágrafo, teria o presidente talvez interrompido uma cerimônia e descido ao encontro dos seus iguais brasileiros lá embaixo no asfalto quente do dezembro  brasiliense. Dilma tem suas fixações em energia, grandes obras, planejamentos estratégicos e cobranças diárias, mas sem afinação com as demandas comunitárias da pequena população cá embaixo não terá meu voto entusiasmado não.



Aécio quer meu voto: acabou de ser lançado na disputa, meio na base do empurrão dado por um FHC que, por pouco, nisso de chacoalhar o que está quieto, não cruza a linha da deselegância – logo ele. Dizem que o problema de Aécio é ser desconhecido em qualquer parte do país que não seja Minas. Também não é assim: Aécio é do time de Dudu (o dono da próxima postagem, o número 2 desta série, aguardem) ; daquele pessoal que acha que merece a presidência da República por questões de pura genealogia. Caberia a nós, eleitores cá de baixo, apenas protocolar o que o destino  meio familiar e meio histórico do clã determinou. Neto de Tancredo, é minimamente conhecido pela geração que entrou  na juventude no final da ditadura. Aqui no meu canto, acho que Aécio tem sim um problema de desconhecimento: mas não em relação a ele e sim a Minas sob ele. Pouco se diz, pouco se noticia, quase nada se sabe sobre o governo de Aécio em Minas. Dessa perspectiva, Minas parece assim uma Albânia Tucana de onde nenhuma informação relevante sai. Sabemos de cor e salteado as mazelas de São Paulo, seus PCCs, seus secretários enriquecidos pelas licenças de construção, seu sistema de transporte travado etc etc etc. Também somos especialistas sobre o Rio de Janeiro, sua mistura de paisagem paradisíaca com indústria cultural latejante e o eterno embate entre morro e asfalto, zona sul e baixada, com os crimes que de tempos em tempos ocupam as manchetes. Sabemos ainda bastante sobre as máfias do Espírito  Santo, um estado menor mas ainda assim estrelado no mapa da região Sudeste. E de Minas, o que sabemos? Nada vaza de lá. Onde está a imprensa mineira, quem a controla, por que ela não consegue eco no restante do Brasil? Que noticiário é este que não se realiza nem se propaga? Questões programáticas relacionadas ao ideário liberal-aloprado dos tucanos me impedem por princípio de entregar meu voto a Aécio, mas este silêncio informativo que apenas parece secundário termina por cimentar minhas negativas diante do candidato do empurrão.

(continua no próximo post)

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Rose


 
     Rose está em todas capas de revista. Rose está em todas as manchetes de jornal. Rose está em todas os cafés políticos, todas as rodas de conversa. Rose está no texto de todos os colunistas. Rose está em todos os faces e tuites. Rose está nas paradas. Rose está nas baladas. Rose está em todas as barricadas. Logo, logo Rose estará nas faixas, nos protestos, nas ondas e ondas e ondas de muitas vassouradas. Rose estará no potcast da rádio-notícia, Rose estará nas retrospectivas do ano, Rose fará tremer o chão nas máscaras mais originais do carnaval. Rose e Joaquim, os mascarados, dançando lado a lado.

     Mas justiça seja feita a Rose e a quem gravita em torno dela: porque Rose também está em todos palácios, sejam federais,  estatuais ou municipais. Rose está em todos os partidos. Rose está em todas as igrejas políticas. Rose é uma tradição do poder, um emblema simbólico do tudo-pode. O vigésimo-terceiro ministro ou secretário que existe mas, para que possa ter valor de face, nunca deve mostrar o rosto. Rose é a que é sem nunca se deixar ver, mas sempre se dando por conhecer. Rose é a eminência rosa sem ideologia necessariamente professa, o elemento humano que desorganiza a harmonia das propostas, o erro que turva – mais à sua maneira torna mais rica – a biografia do candidato a mito. Há a Rose discreta e a Rose ostensiva; a Rose Mary e a Rosa Maria; a Rose que se pretende influente e a Rose que opera na sutileza elegante – não importa, Rose é sempre Rose, independente do patrono e de sua filiação programática (quando houver, claro).

     Rose é como aquela profissão: sempre houve, sempre haverá. Essas permanências que desafiam a cultura, a revolução sexual, a sífilis e a Aids, a minissaia e até o ficar.

     Apenas, nunca antes na história deste país convinha expor a Rose. Agora, é conveniente. 

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

A economia nos tempos de Joelmir




Num tempo em que o jornalismo não era tão prisioneiro do formalismo e da uniformidade sufocante de hoje, Joelmir teve o bom gosto de salpicar estilo no gênero que parecia menos permeável à literatura - a coluna de economia. Brincou com palavras, amaziou-se ao vocabulário, provocou a linguagem para tornar não só mais didático - o que, não sendo tão difícil, também não é tão comum - mas sobretudo mais interessante e vívido o que seria um distanciado, frio e  antipático noticiário de economia. 

Joelmir fazia a gente entender as complexidades da terminal economia brazuca dos anos 80 e ia além: colocava sabor na leitura de setenças que nunca se rendiam às falsas facilidades do economês. O país podia estar à beira da falência, mas a coluna chegava a soar divertida sem ser cínica - outro desafio para os estáveis tempos atuais (os tempos são estáveis, apesar de toda a torcida contra). Nas mãos de Joelmir, os números viravam imagens por meio das quais as maxidesvalorizações do período soavam menos assustadoras, mais compreensíveis e muito, mas muito menos banais do que o quadro econômico em si tendia a deixar entender. 

Joelmir posando pra "Veja" em casa, teclando sua Olivetti portátil numa mesa no jardim, à beira da piscina: nada menos constrastante com o mau humor ressentido da crônica econômica atual. De um lado a cortesia ilustrada do velho comentarista; de outro os dentes afiados e a semigargalhada engatilhada no esgar da comentarista de rádio, jornal e tevê. Talves a era FHC e as inversões de prioridade econômica trazida por Lula tenha deixado Joelmir na poeira do vídeo, como apenas um rosto a mais na baixa audiência da Band de até um dia desses. Talvez a explosão de mídias, o rugido indistinguível de tantas vozes disputando a nossa limitada atenção tenha empastelado seu recado em meio a tanto barulho e nem tanta mensagem.

Há também o fato de a economia ter se tornado de tal maneira um assunto definitivo da vida do país que começamos a nos achar, nós próprios, especialistas no tema. E assim a gente foi deixando de vê-lo e de ler sua coluna já subtraída do impacto daqueles anos de quebradeira asssumida e brasileiridade constrangida. Tomara que sua saída de cena chame atenção para este fato: nossa sede de novidade vai colocando novos tijolos no muro e quanto se vê não se enxerga mais tudo de interessante que ficou para trás. De outra maneira, o Joelmir clássico de ontem seria uma referência mais forte para o volúvel jornalismo econômico de hoje, devastado pelas imposições de gabinete de uma editoria política viciada.

Sem falar na poesia improvável que o jornalismo econômico de Joelmir continha e emanava.

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Trilhas de "Thriller"




O disco é de 1982, mas aqui abaixo do Equador ele tornou-se um chiclete sonoro absoluto em 1984. Eu fazia o primeiro ano de Jornalismo na Universidade Católica de Pernambuco e até hoje os mais fragmentários ruídos sonoros contidos em "Thriller" me lembram as ruas do Recife. A avenida Conde da Boa Vista em condições bem melhores para uma caminhada do que hoje, o cine São Luiz exibindo futuros clássicos como "Era uma vez na América" (Sérgio Leone), a rua do Progresso ainda abrigando o casarão vizinho à Cultura Inglesa onde eu morava (foi demolido e no lugar foi construída uma clínica médica), a simpática rua da Soledade que me levava direto ao campus da Unicap, todos esses cenários ganham uma musicalidade pretérita que vai de Michael Jackson a Beth Carvalho, cujos sambas também fizeram muito sucesso no carnaval daquele 1984. 


Tantos anos depois, o caso do disco "Thriller" - o mais vendido da história da música; 109 milhões de cópias no mundo todo - é emblemático sobre fenômenos como mídia saturada, qualidade que se mantém, como se firma um clássico e o que apenas vira pó na estrada difusa da memória. Ocorre que o disco desse Michael Jackson mais musical do que perfomático foi executado à exaustão nas rádios, retratado até o limite do insuportável em capas de revistas, explorado até onde foi possível no lugar e da forma que desse. A gente esquece, mas houve uma "febre Michael Jackson" naquele 1984 que não fica nada abaixo de certa "gripe Michel Teló" de ocorrência recente. A diferença, claro, é a música (como diz o slogan de uma bela rádio brasiliense que toca quase exclusivamente temas instrumentais).



O fato é que em meados de 1984 ninguém mais aguentava ver e ouvir Michael Jackson. Ele e as faixas de seu "Thriller" estavam em todas as rádios, todas as esquinas, todos os canais de tevê, que ainda eram poucos mas nem por isso menos insistentes. O negócio era tão sério que uma capa do jornal "O Pasquim" - que ainda existia e circulava naqueles idos - estampou a seguinte manchete: "A bunda de Michael Jackson". O notável, o impressionante - mas compreensível quanto se limita tudo à música e à dança do artista - é que "Thriller" tenha sobrevivido a tudo isso e se tornado o disco pop-clássico que é hoje. Demorei a comprá-lo: depois de anos ouvindo as faixas gravadas em fitas k-7 dispersas, só fui adquirir um exemplar completo em formato de CD, de que posso usufruir a qualquer momento, longe da agonia publicista daqueles tempos. E constatar: como é enérgica a saga sonora da faixa título, encerrada com aquela gargalhada que virou um dos ícone dos anos 80; ou como é bom marcar no pé a batida de "Billie Jean" - que Caetano Veloso recriaria em roupas sonoras brasileiras num de seus discos extraídos de shows de voz e violão -; ou ainda cantorolar em inglês de baiano o dueto com Paul MacCartney em "The girl is mine". 


Na torrente comemorativa pelo aniversário de lançamento de "Thriller", o site da livraria Saraiva juntou uma série de videos feitos a partir do repertório do disco. Está lá um dos mais tocantes, incisivamente sensíveis, momentos de recriação das faixas que juntas viraram o "Thriller": é Miles Davis interpretando "Human Nature", com aquele trompete que parece estar realizando uma delicada cirurgia nos órgãos da sensibilidade do ouvinte, enquanto distende, amacia, penteia e expande o andamento da canção. O video é o oposto da velocidade ansiosa do videoclip da faixa título, mas juntas, a agilidade de uma e a serenidade da outra dão uma ideia de como um disco pode deixar de ser apenas um chiclete insuportável para se tornar parte da trilha sonora de uma época. Basta que seja bom - e isso nem sempre é fácil.

Clássicos do Sopão


Já cansei de dizer que se o Rio Grande do Norte tem um hino informal - e, sendo assim, muito mais próximo ao coração potiguar - há de ser "Royal Cinema", de Tonheca Dantas, músico cujo próprio nome já é uma melodia sentimental-seridoenses por si só. A valsa de Tonheca é o nosso clássico absoluto, nosso canto wagneriano adaptado aos penhascos rajados que demarcam o país do Seridó dentro da nação potiguar. E se faz ainda mais forte, evidente e clarividente quando executada pelo sax de ouro Ivanildo - por sinal, outro nome bastante comum na região, embora o músico aqui destacado, me informa J. Epifânio na contracapa do LP, seja um cearense bem adaptado ao lugar de Poti. 

Retomando: se "Royal Cinema" já é, tocada por qualquer outro, uma bandeira de emoção fincada no peito seridoense-potiguar, ganha estatura ainda maior quanto interpretada  por Ivanildo. E quando a gente vai além e ouve o LP inteiro onde Ivanildo gravou este petardo emotivo de alta concentrabilidade musical, aí então as palavras escapam como as notas que o toca-discos vai depersando como pétalas de papel no ar. O disco inteiro, com sua icônica capa laranja, é um marco da memória, uma liga intuitivo-emocional que congrega toda uma comunidade por um lado, e você com você mesmo por outro. 

No lado A tem esta "Siboney" que o video do YouTube destaca e outros clássicos do bolero latino. Mas tem também a "Rosa" de Pixingiuinha.  E você (digo, eu) quando ouve pela primeira vez a versão de Marisa Monte com arranjo de Ryuichi Sakamoto fica se perguntando porque aquilo soa tão próximo, sem conseguir lembrar, pelo acúmulo e desgaste do HD da cachola, que conhece a música desde muito antes, via Ivanildo, esse nosso didata informal, educador musical cujos discos, por sorte, eram muito populares nas casas do Seridó quando o seu universo musical ainda era uma galáxia confusa em busca de alguma harmonia. E este lado ainda tem "Nada além", de Custódio Mesquita pra coroar a audição. 

O lado B começa animadaço com a gafieira buliçosa "Kazarão", da lavra do próprio Ivanildo, seguida por uma seleção de sambas aberto por um Ataufo de boa cepa ("Leva meu samba"). E fecha com "Royal Cinema", o que faz você virar o disco e ouvir tudo de novo, aprisionado na singeleza maneira e no sentimento dolentemente puro contido nas notas do sax de ouro. Grande disco, vastas memórias. Um clássico definitivo para o Sopão e para muito mais gente, acredito.  

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Imagine se fosse aqui


O cidadão mais rico do planeta sai de casa pra votar e tudo o que encontra são filas. Na zona eleitoral mais abastada do planeta, máquinas de votar movidas a perfuradores medievais que...dão tilt. Na ilha mais platinada da galáxia, o "sistema", acredite, também fica fora do ar. E em lugares mais remotos, embora ainda nos domínios do país mais opulento da via láctea, aparelhos de votação promovem fraudes: você - você não, que é brasileiro e está fora dessa bagunça; eles, os americanos - vota em Obama e a máquina converte sua escolha para... como é mesmo o nome do perdedor? Ou faz o contrário. A ordem dos fatores não importa tanto quanto o efeito em si da fraude operada.  Tudo isso a gente leu nos jornalões ao longo do noticiário sobre as eleições americanas. Sempre, o tempo todo, gritando, implicando ao pé do ouvido, uma variação daquela perguntinha que de tão chata já vai virando piada - o destino de toda implicância associada ao exagero: "imagine se fosse no Brasil".

Se você é do tipo que lê jornal com a tevê ligada, é capaz de ter tido sua leitura atropelada por um muito interessante anúncio de televisão, daqueles que conseguem captar, mais do que qualquer jornalista intelectualmente superequipado, o espírito do momento. Ou, no caso, do futuro - o que é ainda mais difícil: o anúncio da cervejaria Brahma que se diverte em contestar, argumento por argumento, toda a campanha de senso comum sobre o desastre que será a Copa no Brasil, o eterno despreparado. Os anúncios da cerveja rebatem a autodepreciação de quem se julga superior ao país onde vive com afirmações enfáticas e antropologicamente elementares: teremos aeroportos cheios, sim, de torcedores animados; ruas congestionadas também, de brasileiros e estrangeiros vivendo a festa do campeonato. Um colunista na revista Época já havia dito o mesmo, contrariando meio mundo e o resto do que se escreve nessa publicação da editora Globo: que a Copa vai ter sim seu componente de bagunça brazuca, mas que ainda assim será a mais calorosa que já se viu, num evento que poderá até não ter o rigor planejado de um campeonato em terras alemãs, por exemplo, mas vai encantar os estrangeiros com as compensações que temos, como povo e nação, a oferecer em troca. Claro que ele disse tudo isso com outras palavras, mas o sentido era por aí. 

E no entanto não se lê, nas páginas do jornais, nenhum jornalista tendo ataques de indignação diante do sistema eleitoral que rege (?) a votação que escolhe o presidente dos zéua. Aquela síndrome do "a gente não sabermos escolher presidente / a gente não sabemos nem escovar os dentes" que soava divertida nos anos 80 e hoje é só um eco do conservadorismos de rockeiros saudosos da fama jamais é aplicada a qualquer nação do dito primeiro mundo. A gente fala grosso pra denunciar nossas mazelas de estimação, mas não temos gogó algum quando se trata de ficar pelo menos perplexos diante das filas que enfrentaram para votar em Mitt Romey os ricaços de Manhatan, do sistema fora do ar que trucidou a paciência dos velhinhos de Nova York Citi, dos cowboys do interiorzão americano que votaram num candidato só para a máquina registrar a escolha do outro. Imagine se fosse no Brasil. Imagine.

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Filmes tristes



Desde "Coração de luto", também amplamente conhecido como "Churrasquinho de mãe", um filme não me deixava tão triste, abatido, desesperançado. Não importa que, ao final de tantos desencontros, Luiz Gonzaga pai e Luiz Gonzaga filho acabem se entendendo. Encerrada a sessão, impõem-se as sombras do conflito, muito mais do que os clarões do desfecho. Não é que seja ruim, mas "Gonzaga - De pai para filho" é um dos filmes mais tristes dos últimos anos. 

Não é nem que seja melodramático - o que evidentemente ele é, e nem sempre isso é um defeito pra quem, como eu, é chegado ao gênero - mas a carga de infelicidade contida no novo Breno Silveira deixa (pelo menos pra mim; mas ouvi comentários semelhentes de desconhecidos ao deixar a sala) uma espécie de adesivo de sofrimento colado no juízo sentimental de quem o assistiu como poucas vezes acontece. O filme acaba na tela mas o mal estar lhe acompanha pelo resto do dia (pior pra mim que peguei a primeira sessão, às duas da tarde).

É como se "Gonzaga" fosse um melodrama aditivado, a um passo do desfalecimento puro e simples. Nem a participação muito especial de um cômico tarimbado como João Miguel, com aquela cara de nordestino pebado e metido numa enrascada de fazer o cabra se mijar de sufoco, consegue espanar tal  tristeza. Há por aí muito filme cabeça dotado também de uma angústia aniquiladora, coisa muito classuda e distanciada, mas este "Gonzaga" deixa qualquer um no chinelo: é quase sensorial em sua melancolia (e o uso desta palavra, juro, não é uma tentativa pura e simples de citação do filme de Lars Von Trier que eu nem vi; embora tenha visto um outro, também da leva dos filmes de chorar do cineasta nórdico, "Dançando no escuro", estrelado pela cantora pop Björk).

Não deixa de ser sintomático que, na enciclopédia dos filmes tristes brasileiros, este "Gonzaga" rime com ou me faça lembrar, de cara, aquele "Coração de luto": no antigo Teixeirinha, a dor vinha da perda da figura da mãe; neste é a ausência do pai, biológico ou não - não importa, a chave do filme se torce no final para demonstrar. É como se o diretor de "Dois filhos de Francisco" voltasse a assentar os tijolos de uma muralha chamada cinema-popular-sentimental-brasileiro que, a despeito do desprezo blasé de quem não liga mesmo para a comunicação direta com o povão, existe sim, é sólido e, embora fique esquecido durante décadas, quando reaparece demole com uma enxurrada de lágrimas os quebra-mares da mais avançadinha estética cinematográfica a se insinuar nas fitas brazucas.



Uma última nota sobre o filme (veja o trailer acima) vem, claro, da plateia: meus cabelos brancos nunca haviam se sentido tão jovens quanto no lugar onde se reuniram umas 40 pessoas para assistir ao filme sobre Gonzagão e Gonzaguinha. Foi a plateia mais, vá-lá, idosa que já vi na vida. Minto: a plateia de "Coração de luto" que lotava todas as sessões do velho cine Rex, em Parelhas-RN, provavelmente igualava com a deste filme recém-lançado - o que representa uma liga a mais entre as duas produções. Então: "Gonzaga - De pai pra filho" renova a - abaixa aí que lá vai um clichezão de arrepiar os cabelos - "linha evolutiva" do cinema popular brazileiro, atualizando para as plateias atuais o que "Coração de luto" representou. Dá até pra ir um pouquinho mais longe e dizer que se trata de um fenômeno de certo neotropicalismo bem apropriado ao Brasil atual que, enfim, começa a se aceitar como um país multifacetado (como queriam os tropicalistas antes de envelhecerem, certo, bem?). 

Mas tudo isso são elaborações a posteriori quase fúteis diante da tristeza do filme. Por mais que tente, não esqueço a frase que ouvi de uma espectadora ao final da sessão. Acompanhada pela mãe de seus 70 e tantos anos, não pude deixar de reparar quando ela comentou, na mesma sorveteria onde tentava, como eu, adoçar a alma após o amargo da exibição: "Ele (Gonzagão) nunca foi feliz. Teve sucesso mas não a felicidade". Poderia ser uma legenda inscrita no clip final que o filme exibe para mostrar a difícil mas afinal alcançada harmonia entre pai e filho no palco da música e da vida. 

No que este nordestino "Gonzaga" amazônico também estebelece laços com outro afluente do mesmo gênero do cinema popular brasileirão - os títulos de extração espírita. Pois "Gonzaga - De pai pra filho" consegue superar outro campeão de bilheteria, "Nosso lar", em sua saga de dor e sua teimosia em mostrar que, por mais difícil que seja, é irrenunciável a busca do entendimento entre gente desencontrada. A tristeza, diria o compositor quase citado ao longo deste texto, é senhora do filme. E os filmes populares brasileiros parecem cantar: "desde que o cinema é cinema é assim". 

*Abaixo, trecho do primeiro "Coração de luto", que teve uma refilmagem em cores alguns anos depois:



Terra








Com os pés bem firmes no chão do Conjunto Cultural da República, muita gente voou por sobre a Terra. Esse foi o efeito proporcionado pela exposição “A Terra vista do céu”, com as fotos do francês Yann Arthus-Bertrand encavaladas em tamanho ampliado, numa autêntica fila de imagens boiando sobre o pátio de concreto que serve de base ao museu e à biblioteca no centrão de Brasília. São imagens captadas do alto de helicópteros, aviões e – aqui a artimanha mais poética – balões. Panoramas que mostram o chão que pisamos, seja o Rio de Janeiro, um deserto chileno ou uma aldeia no Chade, de uma maneira incomum, sob um ponto de vista às vezes desconcertante, a partir de um olhar quase sempre inesperado. Basta dizer que esse chão, muitas vezes, mostram as fotos, pode não passar de água.

Mas o atrativo não vem apenas pelo fato de se tratar de fotografias captadas do alto – um plano elevado bem pouco fixo, que tanto podia ser o que parecem quilômetros da Terra, a ponto de fazer a imagem lembrar mais um mapa do que uma visão literal; quanto descer a uma distância segura e solidária o bastante para espelhar o encantamento mútuo entre a câmera e um olhar humano de fato aqui embaixo. Mas, dizia-se, o fascínio da distância em altitude é um primeiro atrativo quase irresistível, embora não esgote o interesse de quem contempla as fotos da exposição. Quando isso acontece, o curioso dá lugar ao gregário: é quanto nos pegamos vasculhando a paisagem em busca de algum referencial de dimensão que nos proporcione a medida certa daquelas aparições.

Quase sempre isso acontece quando se vê, em meio à paisagem física, uma intervenção humana – quando não o nosso próprio semelhante nas diversas formas que ele assume conforme a regionalidade enquadrada. E é aqui que “A Terra visto do céu” se faz mais o planeta com que lidamos no chão do dia-a-dia: quando há gente nas fotografias. São poucos, mas, de tão significativos, a pequenez dessa gente nas fotos converte-se em uma estranha forma de gigantismo. Somos imensos nas fotos de Bertrand, embora nelas apareçamos nas mais diminutas dimensões, aquelas que a paisagem requer. Há várias  leituras possíveis para quem se posta diante dos mil e um pôsteres da  mostra que passou semanas atraindo visitantes à Esplanada dos Ministérios em Brasília. Mas entre o libelo ecológico e o registro do quanto belo este planeta ainda pode ser em meio ao nosso desespero ambiental mal administrado, fico com o canto antropológico que as imagens evocam: a Terra vista do céu dá a nossa dimensão de homens, pequenos ou gigantes conforme a estatura do olhar que dirigimos a nós mesmos.

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Joaquim, O Igual



Quantas condenações um homem precisa decretar para sair da condição de inimigo racial para a de reparador-geral da República Multicor Brasileira? Quem assiste ao julgamento do mensalão no STF mal tem dedos suficientes para contar. A eloquência condenatória do ministro Joaquim o eleva, dia após dia, à condição de alma cívica que deixou as catacumbas do silêncio imposto às minorias atrevidas e vai galgando, qual um preconceito apressado a cavalgar um cavalo branco, as alturas do estrelato da conveniência. Tivemos o espetáculo do crescimento e agora temos o show da Justiça. Chegou a hora de passar o Brasil a limpo - e se o primeiro balde de água sanitária queimar as toxinas que o PT espalhou por aí, tanto melhor. Quem quer saber do custo da campanha eleitoral que resultou em dois mandatos que enfim colocariam o país no eixo das possibilidades gerais, inclusive para a minoria cujo representante hoje lhe serve de chicote jurídico?

Sim, ó sim, a Justiça (a brasileira, sobretudo) tem que ser cega, agir numa espécie de escuridão que lhe permite ser tão severa quanto possível for. E é isso o que Joaquim, O Novo Igual entre nós e a imprensa mainstream, tem feito. Só isso: de tanto despolitizar as circunstâncias dos criminosos, termina por repolitizar tudo. Ele e seus pares, beijinhos e carinhos sem fim à parte. Neste caso, um recorte leva ao outro: e não é de estranhar, afinal estamos num país em construção chamado Brasil, cujas fraturas não deixaram de ficar expostas graças a um julgamento transmitido em tempo real. O presente vingativo e espetaculoso da TV Justiça não tira de cartaz o país real que um certo condenado em especial vinha ajudando a refazer. Aguardem as cenas dos próximos capítulos para testar a nova jurisprudência do olho by olho.

Condenados à parte e inocentes abstraídos, emerge de tudo o novo mito vivo chamado Joaquim, O Igual. Diante dele e de sua prédica no julgamento, temos o tempo todo a impressão de estar vivendo dentro de um livro pop-irônico de Tom Wolfe. Nâo há escritor melhor para perfilar, com as cores das contradições mais ofuscantes, o caso do menino pobre reportado pela revista rica que representa o conservadorismo político no Brasil. Somente ele e sua contrarreforma política à maneira do Judiciário para fazer aquela revista rever seus conceitos e colocar a conveniência na frente da parcialidade. Joaquim, O Igual, é o marco zero da Justiça brazuca. Depois dele, nada será como antes. Ele é a cota que cabe, na medida certa admitida pelo atraso esclarecido. Para que todos os brasileiros sejam iguais, é preciso que tenham no mínimo a estatura Dele. Ao menos, claro, na breve eternidade que vai reger o país enquanto Ele durar.

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Revoltas de setembro



 

Inesperadas conexões entre o clima no Planalto Central e a explosão de crises que incendeiam as paixões políticas, aquecendo a já tórrida seca brasiliense
 
Folheando uma enciclopédia de História de papel como não se usa mais editar nem folhear, esbarro numa fotografia que, a despeito de ter sido feita há praticamente 50 anos, parece ter a data de ontem, ou de hoje, ou de amanhã é até possível dizer. A imagem é esta aí acima que ilustra o texto e só de bater o olho a gente identifica nela os anos de chumbo que nos marcaram a História a ferro, tortura e balas. O curioso é que há na impressão causada por esta foto um engano ligado ao tempo histórico – e ao mesmo tempo uma permanência ocasionada pelo tempo climático.

Explico: a solidez do tempo climático vem do fato de, tantos anos depois, Brasília viver ainda sob a mesma atmosfera envolva em brumas quentes daqueles incendiários tempos. Estou falando do clima propriamente dito também, é preciso ressaltar. Ocorre que, a despeito da primeira – e falsa, daqui a pouco se verá – impressão histórica, há na fotografia um fundo igualmente incômodo. Quem não vive ou viveu aqui verá na imagem apenas a violência das armas apontadas para algum lugar no centro do gramado seco da Esplanada dos Ministérios. Mas quem conhece Brasília por nela labutar e deleitar-se na vida corrente do cotidiano implacável verá, muito mais que capacetes, fuzis e tropas prontas a atacar, o rigor de outro exército, o da estiagem periódica que, vê-se na foto – e nem seria preciso ver para certificar-se – por aqui vigora até mesmo em momentos de intensa conflagração histórica.

Se a gente pensar bem, vai notar que à nossa mente arbitrária e subjetiva sempre parece que quando o mundo ou o país ou uma cidade está a se desdobrar nas dores intestinas de uma crise que entrará para os livros o clima atmosférico propriamente dito – ou outras circunstâncias da vida diária, menor, cotidiana – cessam de existir. Ledo engano, como se dizia antigamente, e como comprova a foto que motiva a postagem.

O segundo tópico, referente ao engano histórico, decorre do fato de a data da imagem não coincidir com os períodos mais ferrenhos da repressão militar que caiu sobre o país, sobretudo a partir da decretação do Ato Institucional 5. Pois ocorre que a imagem em questão é um flagrante do “levante dos sargentos”, um fato que é até pré-1964. Deu-se em 1963, nos embates que serviram de preâmbulo ao golpe, e tinha, vejam só, um aspecto bem mais legalista do que supõe a mera visão da foto (ao menos se a gente aspirar do episódio o caráter de quebra de hierarquia militar, mas poupemos o desinteressado leitor atual dos detalhes e minúcias).

Então: a imagem, datada – vejam só, novamente vejam só, de um 11 de setembro, o calendário sempre pronto a nos reservar numerológicas surpresas – mostra um instante da revolta dessa instância hierárquica intermediária do meio militar, nem tanto à cúpula nem totalmente desligada das bases, provocada, à guisa de estopim (que causas, naquele momento pré-deposição de Jango, vinham aos feixes) pelo impedimento da posse de sargentos eleitos para a Câmara Federal naquele princípio da década de 60.

“Em protesto, cerca de 500 sargentos, do Exército, Marinha e Aeronáutica sublevaram-se em Brasília na madrugada do dia 11 de setembro, ocupando os principais centros administrativos e o prédio da Rádio Nacional. Os rebeldes foram dominados em poucas horas, com um saldo de dois mortos”, diz o texto no volume final da série “Nosso Século”, da editora Abril. “O líder do levante dos sargentos, Antônio Prestes de Paula, chegou a ser aclamado pelos civis que se encontravam nas vizinhanças, no intantes em que foi preso. A UNE e o CGT manifestaram seu apoio aos sargentos. O país estava pegando fogo”, diz a enciclopédia histórica, ao que a gente é tentado a acrescentar: “Brasília é que estava pegando fogo”, como acontece em todo setembro, seja qual for – sargentos, mensalão, Lula x mídia – a crise da vez.

*Abaixo, outras imagens do levante com a seca de Brasília de coadjuvante:   
 
 
 

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

A vida na bruma



Acho que foi Luiz Fernando Veríssimo quem disse certa vez que, a despeito da corrupção que alimenta bolsos e jornais, Brasília é a cidade mais transparente do país. Mais que transparente, é ofuscante de tanta luminosidade, a ponto de irritar a visão que busca uma nesga de sombra que seja para descansar os olhos. Que, mesmo com tamanha superexposição, seus prédios privilegiam vidraças, buscam os raios solares, abrem-se à claridade como um inseto noturno se apaixona por um poste de luz. Pois no presente momento, Brasília, quem vê o Jornal Nacional já deve estar sabendo, é tudo menos isso.

Em setembro, quando a seca brasiliense se condensa em névoa , essa cidade é justamente o oposto da claridade – ainda que se mostre curiosamente mais e mais brilhante. Faz-se difícil de enxergar, turva suas tão conhecidas linhas, veste-se de subjetividade visual. Torna-se estranhamente sombria, dotada de um inesperado tipo de meio tom – uma bruma clara que evoca a cegueira branca do livro de Saramago que Fernando Meirelles transpôs para o cinema.

São dias em que Brasília parece uma foto em negativo dos fogs londrinos. Nisso e em tudo o mais, é preciso alertar o espectador distante que a visualiza pelo Jornal Nacional, nossa bruma de cerrado é em tudo diversa ao que aparenta. O tato costuma associar a névoa ao frio e à umidade – e aqui dá-se o oposto. Nossa bruma é o envoltório natural de um grande bafo quente – turbinado pela fumaça das queimadas, claro, e pela poluição concentrada no ar pela falta de chuvas.

Você acorda de manhã, olha pela janela e vê uma branquidão borrada. Tudo fica indefinido,  o plano e seus habitantes, a mata baixa e o traço do arquiteto. E o céu queda-se subtraído do azul habitualmente tão comentado. Tudo queima, irrita, chamusca. Vai-se a transparência. E o cenário urbano fica muito mais propício à má fama da cidade, com a bruma seca protegendo em sombras brancas os lobistas desconfiados entre os blocos da Esplanada dos Ministérios.  
 
É como se Brasília se tornasse o cenário de uma inusitada espécie de filme noir, onde a escuridão das tramas e dos personagens se vestisse de branco, desbravando um novo ambiente para suas tramas recorrentes de roubos, golpes e armadilhas. Antes que a primeira e aguardada chuva dilua essa imprecisão toda com um aguaceiro daqueles e traga de volta nossa luminosidade objetiva que quase cega os olhos do cronista.

* A foto que ilustra o post é de Elza Fiúza/Agência Brasil