quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Ode a Roberto



O grande escândalo do mensalão é a figura de Roberto Jefferson, sozinha. Diante de sua empáfia permanente, desde a era Collor até os dias de STF atuais, a gente é tentado a imaginar o efeito que faria uma espetada de agulha fina na bolha daquela soberba em forma de ser humano. Quando ele era balofo como um factoide dos anos 90, ficava ainda mais fácil: parecia que, ao mínimo atrito entre a ponta do alfinete e a epiderme plastificada da criatura, ouviríamos aquele fuuuuu que anima as crianças e o voo ao infinito e além daquele resto de pele que reside por baixo da vaidade de Roberto Jefferson.

O tempo passou, ele silenciou o plenário da Câmara dos Deputados denunciando o mensalão e, evidentemente, aquela soberba de animador de auditório político de terceira continuou sendo mais e mais inflada. Tanto quanto tenta de todas as maneiras aspirar a substância do que quer que seja José Dirceu, a grande, velha e igualmente soberba imprensa brasileira trata de manter cheinho como um balão de aniversário a figura de Roberto. E ele, claro, faz a sua parte: evoca, como um titereiro de encomenda feita a si mesmo, figuras de outras áreas que lhe confiram a credibilidade audiovisual necessária ao show. Roberto pretende ser algo assim como o Galvão Bueno da política, o Faustão do voto, o Alexandre Garcia da eleição. Mais remotamente, um Flávio Cavalcanti dos bons costumes.

O julgamento no STF vai ser aproximando e Roberto surfa na onda que ele mesmo levanta, com o auxílio fanático da mídia antipetista. É uma foto atrás da outra, um facebook informal retocando a sanha quase evangélica e semipop do autor da denúncia. Até a doença é solidária a essa acepção – enquanto Roberto ignora que o verdadeiro câncer, o tumor que se infiltra e vai necrosando tudo por onde passa, não é o mal em si, mas ele  mesmo. Roberto é essa reprodução incontrolável de células de vaidade e dano político, um germe plantado no coração de um processo de oportunidade e amadurecimento do país que ele quase  conseguiu deter. Milhões de brasileiros teriam sido prejudicados, mas não há uma palavra boa como mensalão para tornar essa evidência algo facilmente assimilável.

Ode a Andressa



Andressa Mendonça é linda, cara, arrogante e suja. Mas o que mais dói é perceber que, espanada de suas circunstâncias eventuais como todo o escândalo em que se meteu com o maridão da hora, o Cachoeira, ela é quase a composição perfeita do ideal de aparência e comportamento em vigor entre certa parte do mulheril atual. Andressa parece um genérico de todas as meninas recém-formadas nos mil e um cursos de Direito em vigor nas faculdades do país. Lembra um avatar das milhares de neoburguesas que consomem o que podem e o que não podem nas lojas de grifes das dasluzes autênticas ou copiadas desta mesmíssima nação. Evoca a neomiss Brasil, a garota de aparente bom-tom e bom gosto – aquela que jamais vai citar qualquer coisa menos ofensiva do que o “Pequeno Príncipe” quando se pergunta qual o seu livro de cabeceira. Andressa Mendonça, pois sim, não está sozinha – e aí é que reside a sua, digo, a nossa, danação coletiva.

Diante de Andressa Mendonça, esteja ela usando pulseiras que custam muito mais do que o rim imprestável do crack man da primeira esquina ou personalíssimas algemas de prata encomendadas a um desingner da PF, a tentação imediata é sair por aí em busca de algo o mais natural possível. Um belo exemplar de moça bicho grilo, por exemplo – o que não vai ser nada fácil. Em frente às fotos de Andressa na banca de jornais, o cérebro busca automaticamente uma compensação naqueles tempos em que mulher bonita tinha alguma coisa a ver com transgressão. Você vê Andressa e pensa em Leila Diniz, é inevitável.

Confrontado com a maneira doce e meiga com que Andressa tenta chantagear um juiz federal – e, ao fim das contas, o faz, mesmo depois de denunciada, como o leitor pode conferir agora mesmo no site da revista (argh) Veja – não há com não sentir saudade dos tempos em que o cúmulo do atrevimento em termos de mulher e comportamento era uma grávida pop star brazuca ir à praia de biquíni. Ou soltar uns palavrões, também. Agora tente o amigo imaginar essa bonequinha de luxo abrasileirada que é Andressa deixando escapar um termo de baixo calão de sua boquinha desejável. Definitivamente, para mulheres como Andressa, desacato à autoridade – ou a quem quer que seja, como o povo brasileiro, a quem ela julga que Cachoeira não causou  mal algum – é algo que se pratica com classe. A mesma classe que explica o fato dessa mulherada que a tem como espelho involuntário andar por aí com bolsas de 5 mil reais a unidade: nada mais proporcional a quem pode, a qualquer momento, precisar dispor de 100 mil pra pagar uma fiança que a permita sair da delegacia para entrar na loja mais próxima e mais cara. Volta, Leila!

terça-feira, 31 de julho de 2012

A pastoral da prefeita


Micarla de Souza, prefeita de Natal, é o oposto de Lula, aquele outro: sua impopularidade nunca consegue ser menor que 90%. É um caso clássico de alguém que vai não do zero ao cem, mas do cem ao zero – convém nunca esquecer que a garota foi eleita para comandar a capital potiguar num surto de celebridade aguda que assaltou a cidade quase toda num primeiro turno de péssima memória. Hoje, se você virar para a primeira pessoa que encontrar na cidade e perguntar em quem ela votou pra prefeito na última eleição, quase todo mundo vai dizer que não lembra, vai comentar o clima, vai escolher um buraco entre tantos para reclamar do descaso, essas trivialidades. Mas nada disso é novidade – incluindo a vertiginosa queda nos índices de simpatia angariados ou não pela prefeita em final de mandato. A novidade é o óbvio: Micarla vai trocar a política pela religião. Sai a prefeita, entra a pastora Micarla. No caso dela, soa coerente, natural, inevitável.
Mas vamos por parte: admito que simpatizei com Micarla quando ela, no meio do mandato e já adernando no quesito aprovação, exibiu-se aos jornalistas sendo batizada num ritual evangélico. Foi um festival de reprimendas, um banho de reprovação elegante, um afogamento de críticas. Todo mundo achou o fim da picada a borboleta se molhar nas águas mais que populistas dos ramos religiosos evangélicos para tentar salvar o que restava de sua imagem ressecada pela inoperância. O próprio ritual, com sua liturgia meio antigo testamento, soava desagradável para uma cidade onde o cartaz é o sol, o mar, o turismo pop sem aparentes ranços medievais. Pois me deu dó: lembrei da forma empolada e ritual – mais de um ritualismo diverso, de outro tipo de veneração – que a gente cansou de ver nos jornais locais quando, por exemplo, Vilma Maia ia a uma missa especial na nova catedral. Soava distinto, elegante, correto. Vilma, Gari, Henrique, Agripino, Geraldo Melo ou quem seja ganhavam uns pontinhos a mais na reputação quando submetiam sua popularidade política a uma horinha diante do arcebispo em vigor. Ninguém achava brega, tosco, ridículo.
Mas eu vou lhe dizer: como é difícil defender Micarla! Porque agora, justamente nesse instantinho em que ela capturou minha simpatia, ainda que apenas por comparação com os demais políticos do estado (fora, que eu saiba, Fernando Mineiro, que sabe polir sua antipatia aparente como ninguém; e neste ponto está muito certo ele), vem a notícia de que pretende, uma vez longe da prefeitura (ufa) trazer pra Natal um novo ramo evangélico. Tomara que dê muito trabalho e ela não tenha tempo pra mais nada. Mas se o critério para aquilatar por antecipação o número de seguidores for o da política, vai ser difícil. Só resta um consolo para a futura ex-prefeita de desevangélica memória: a triste mas realista análise feita por Ciro Gomes (calma, que a conexão se restabelece já já) numa entrevista que vi noite dessas na TV União, lá deles. Disse Ciro, daquela maneira incidental mas sempre enfática com que constrói seus raciocínios, que infelizmente parte do povo está canalizando para as igrejas evangélicas uma expectativa de melhoria de vida e de reorganização social que pertence, por natureza, à política. Política no sentido amplo e não no desprezível que, no lugar de resultar em crítica como aparentemente se pretende, ao fim e ao cabo termina em anulação da cidadania feita em nível consciente por quem precisa disso ou em escala de otário pra quem acha que está abafando. E foi pensando que estava abafando que mais de 60 por cento dos natalenses elegeram a futura pastora Micarla para “tomar conta de Natal”, só pra usar uma expressão bem apropriada a quem pensa política de um jeito que não faz justiça à completa acepção da palavra.

sábado, 28 de julho de 2012

Fórmula Midway



Natal pode até ser excluída da Copa, a se confirmarem determinadas previsões e certa torcida-contra, se afinal a Arena das Dunas não ficar pronta a tempo de receber o evento esportivo mundial de 2014. Mas desde já não existem motivos para lamentações: Natal já tem, e pode se jactar disso, uma das mais modernas, revolucionárias, criativas e espetaculares arenas esportivas de todo o planeta. Só muda o esporte. Sai o futebol, entra o automobilismo. O que se quer dizer aqui, sem mais prolegômenos, é que Natal tem o maior e mais movimentado autódromo in door de toda a galáxia: o estacionamento do shopping Midway Mall. Se você aprecia a velocidade, as ultrapassagens sensacionais e a emoção do risco sobre quatro rodas em estado bruto não precisa de nenhum Interlagos. Basta tentar estacionar ou sair das garagens do Midway, como se fora um motorista normal, desses que infelizmente precisam passar no shopping pra comprar uma coisa ou outra antes de ir pra casa, e pronto: sua diversão está garantida. Só falta mesmo um Galvão Bueno pra narrar os lances aos quais você, motorista leigo, vai se submeter entre os profissionais do circuito Midway.

O curioso é que a cidade ainda não tenha despertado para este tesouro. Talvez pelo fato de o estacionamento ser gratuito, tem neguinho subestimando a capacidade inclusive financeira do negócio. Só isso explica o fato de ninguém ainda haver proposto um Grande Prêmio da Hora da Saída do Midway Mall, uma prova das mais instigantes, com duração de 30 minutos e bandeirinha de campeão para quem conseguir gastar menos tempo para sair do estabelecimento no horário em que todos tentam fazer o mesmo. Claro que o dia e horário ideal é um sábado à noite: aquele frota tremenda, com a maior cara de gado de lata, cada rês de marca famosa empurrando-se umas sobre as outras para sair o mais rápido possível do mesmíssimo local onde umas duas horas antes o desafio era justamente o contrário – ver quem conseguia entrar primeiro no shopping. E vale tudo no Grande Prêmio da Hora da Saída do Midway Mall: fechar o adversário; correr nas ruazinhas mais estreitas e encurvadas do, va lá, circuito; e naturalmente buzinar sem constrangimento para o otário que está atrapalhando o bom andamento da corrida bem na sua frente.

O desprezo de Natal para com aquilo que há tempos vem sendo um exemplo insuperável de velocidade em terreno só aparentemente limitado pela precaução e pelo bom senso também implica em outro desperdício: no dia em que as autoridades municipais – especialmente aquelas em vigor até janeiro próximo, ufa – descobrirem o potencial dos deslocamentos nos cinco pisos de garagens do Midway prestarão também um grande serviço ao país: dar uma aulinha de mobilidade urbana. Porque mobilidade é o que não falta no estacionamento do maior shopping de Natal, especialmente se você estiver lá num dos meses do verão. Aí sim é que a pressa – esse valor tão absoluto quanto a posse e a pose – torna-se um imperativo no circuito. Não há de ser nada, só um efeito colateral do calor turbinando motores já naturalmente bem esquentados. E se uma das obsessões do país agora é a capacidade de deslocamento em menor tempo possível, a bandeira da impaciência sobre rodas, tem lugar melhor que este pra mostrar como resolver o problema? No grito – ou na buzina, pra ser mais coerente. Então, da próxima vez que for até lá comprar um DVD nas lojas Americanas, não esqueça o capacete. Além de proteger contra naturais acidentes de percurso que nunca mereceram tanto este nome, você ainda livrará seus ouvidos das buzinadas e xingamentos de quem, infelizmente, e ainda que apelando para todo o potencial Ayrton Senna que trazem consigo, não consegue chegar – digo, sair – na frente.

* Caso você sofra alguma avaria e precise recorrer aos boxes enquanto corre ou se defende dos velocistas no Circuito Midway, a dica é seguir o impagável anúncio de rua que ilustra a postagem, tão confiável quanto a pista em questão. A publicidade pode ser conferida in loco no cruzamento da rua Açu com avenida Afonso Pena, bairro Petrópolis.

Erosões e borboletas



A oceanografia é um mistério, a limnologia não me dá bola, os fatores antrópicos não moram na mesma rua que eu, e o balanço sedimentar não me sugere mais que uma rede onde um desavisado de pés sujos de areia dormiu na noite passada. Sim, nada manjo das explicações técnicas e científicas levantadas pelo pessoal da área para explicar as causas, a gravidade e a necessidade de atenção para a antimoda desde não-verão em Natal: a erosão costeira em Ponta Negra. Erosão costeira é o máximo a que me permito em termos de terminologia, porque para o meu pobre e saudosista dicionário o fenômeno que fez picadinho do calçadão da praia poderia ser chamado mesmo é de voçoroca – por sua vez um termo pra lá de técnico que aprendi nos tempos do Colégio Agrícola de Jundiaí, não muito distante do local e do assunto em questão.

A fixação com a terminologia devo a um artigo sobre o problema escrito pelo tampa Eugênio Cunha numa edição dominical da velha Tribuna do Norte. Mas diante dos escombros do passeio marítimo – olha o palavreado se metendo aí de novo! – não me vem à cabeça nenhum sufixo acadêmico capaz de esquadrinhar com régua e compasso os afundamentos da paisagem: vem, sim, a memória dos tempos em que enormes buracões compunham verdadeiros cânions nos barrancos imediatamente anteriores à praia de Ponta Negra. Quem conheceu a praia no início dos anos 80 há de se recordar: não havia nem calçada, quanto mais calçadão. Muito menos pousadas, hotelões e ônibus de traslado da CVC. Não é que fosse melhor – era diferente. Mas como se trata da natureza, há sempre aquele elemento de (de)semelhança se insinuando para que a gente não pense que, seres humanos, somos maiores do que o ambiente.

Por este princípio, a “erosão costeira” da Ponta Negra atual não passa de um remake turbinado dos buracões que faziam o tabuleiro pré-praia dos anos 80 parecerem uma mui particular espécie de superfície lunar. Ironia do tempo e da natureza: marco da nossa imobilidade crônica, contra o qual temos de lutar como um antigo pescador às voltas com o peso de suas redes – um buraco situado bem mais embaixo. Mas, quer saber? O turista mesmo, este ser indiferente a erosões e borboletas, tá nem aí: vista do balanço das ondas, a enseada continua tão bonita que nem dá pra notar as pedras soltas da calçada espreguiçando-se areia adentro como quem quer tomar um sol restaurador. Ou então é minha miopia seletiva que só enxerga o que desejo ver, segundo o ângulo mais sentimental. Uma placidez de praia de meio de ano que só é prejudicada mesmo – sobretudo nesta época de marés baixas que fazem da areia um espelho do Morro do Careca – quando sua caminhada é interrompida por um brutamontes de ferro requisitado pelas obras. Há praias em que exótico é um velho navio encalhado onde menos se espera. Na Ponta Negra erodida pelo tempo e pela memória, estranho é uma retro-escavadeira trogloditando suas rodas na areia do mar.

domingo, 24 de junho de 2012

O canto dos cristais urbanos



Uma visita a um dos monumentos arquitetônicos e paisagísticos menos badalados de Brasilia e o que podem dizer seus oráculos emudecidos pela passagem do tempo histórico

Quem vê toda noite na tevê a arquitetura moderna de Brasília servindo de moldura para a crônica político-parlamentar do país, ou ainda se considera impactado pelas curvas em flor do  prédio da catedral de Niemeyer, e assim pensa ter uma visão total do diferencial urbano da capital brasileira está repleto de impressões mas incompleto de possibilidades. Como toda cidade minimamente turística, a exposição selecionada e exacerbada de seus cartões postais mais consagrados entrega para o conjunto dos brasileiros que não vive aqui em Brasília uma visão editada, um videoclipe sempre interessante, mas naturalmente nunca tão desconcertante quando a sensação de estar de fato aqui, entre uma curva do arquiteto e um tronco de cerrado, vendo-se ora refletido nas vidraças do Palácio do Itamaraty ora escorrendo pelas calhas do Palácio da Justiça.

Artifício e natureza bruta, vastidão e concentração, verde e cinza, aspirada das distrações urbanas que caracterizam qualquer aglomerado humano Brasília é esse espelho de contrastes extremos. Mas nem o Palácio do Congresso nem a catedral ou mesmo o menos conhecido interior azulado de vitrais da Igreja Dom Bosco é capaz de compactar tudo isso e, por um efeito de síntese, projetar no ar na forma de uma perplexidade tão vívida que parece construída em argamassa de concreto essa condição de cidade de pedra rígida, arvoredo torto e ar semirrarefeito de umidade contada em gotas, senão em partículas. Brasília é muito mais Brasilia aqui: no espaço situado entre a Praça dos Cristais e o prédio do Quartel-General do Exército, no Setor Militar Urbano, região noroeste sob as asas do Plano Piloto.

Nada a ver com o fato de a cidade ter sido a moradia dos generais que se impuseram sobre o país durante a longa noite de conhecimento geral. Ou antes: tudo a ver, mas aqui a gente espana do ar o eventual determinismo histórico tão necessário à compreensão total da praça e do QG – cuja suntuosidade inicial obviamente decorre da megalomania do projeto dos militares em tempos durante os quais tal gigantismo foi moda governamental de Brasília a Moscou, num corte estilístico indiferente à temperatura ideológica de cada qual nas febres da guerra fria. Acontece que, tomada hoje, visitada nestes dias, usufruída num passeio com as crianças neste além-ano 2000, a leitura, ainda que com a pulga histórica pilheriando suas ironias ao pé do ouvido, consolida uma percepção muito maior, que inclui elementos outros como o cinema de ficção científica, a natureza em crise nas consciências ambientais confusas, o uso do espaço urbano colocado em questão por enchentes e desabamentos, os novos rigores do clima redesenhando o solo urbano, a potência da cidade- espetáculo e a própria força da imagem num mundo saturado por elas.

 A Praça dos Cristais e o conjunto formado por ela e o QG do Exército, com seus jardins milimétricos, seus espelhos d’água de beleza quase metálica e seus salões cobertos por arcos de concreto recortado em curvas moles sugerem aos poucos visitantes que aparecem por lá numa tarde de sábado os frames vivos e em 4D de um filme de Ridley Scott, como podem fazer pensar sobre o falso controle do homem ecológico reunido em cúpulas presidenciais ou de mesa de bar sobre a força da natureza incontida – porque tudo nos jardins que Burle Marx projetou para a praça emana beleza, mas também domínio do homem sobre o verde. Outras conexões que a mente faz enquanto o olho mira o cristal de concreto no centro do lago e a pele sente o vento da vereda recriada entre as pedras da praça pelo jardineiro número um do país: a extensão de tudo, a escala do projeto, é de uma natureza quase escandalosa quanto se pensa as dimensões do mundo urbano atual, como moradias cada vez menores e espaços que, se maiores, são tanto mais inacessíveis à renda do cidadão comum.

A Praça dos Cristais, para além da beleza impactante por diferente com que se apresenta de cara ao visitante, consegue ainda nos distrair por algumas horas, ou enquanto se estiver lá, sobre as possibilidades que teríamos de manejar os elementos do clima e assim garantir a tranqüilidade do nosso cosmo, garantindo à atmosfera em volta o mesmo caráter bucólico que envolve o lugar e suas circunstâncias. E aqui chegamos ao elemento mais imediato, superficial mas potencialmente mais impactante, que é a primeira imagem do pai QG com seu obelisco fálico e seu domo feminino, casal arquitetônico que pariu o filho-praça ali em frente, com sua infância de verdejantes jardins e voadeiras garças. Este elemento é a visão em si, a imagem tão elaborada em componentes que realizam a plástica da beleza pelo contraste dos constituintes: a praça e o quartel, esquecidos dos roteiros turísticos rápidos que garantem ao visitante conhecer Brasília em 1 hora, são o tipo do lugar que recupera para olhares cansados de tanto ver a força da mera observação. Brasília se refaz aqui, livre das bacias que já não conseguem mais lavar os olhos saturados de quem não mais se incomoda  com os desvãos da arquitetura moderna; se é que ainda se dá conta dela.

Um lugar onde a opressão do espaço aberto pode causar algum tipo de dependência nos olhares mais sensíveis. Onde Alberto Moravia, o escritor-viajante, reconfirmaria todas as impressões que teve da Brasília inicial de quando visitou a cidade nos anos 60. Um recanto de natureza tão domada que causa inveja e faz jorrar interrogações na mente apressada do militante ambientalista. Um quadro adornado por lagos artificiais cuja água tanto se presta ao projeto do paisagista que sugere uma matéria metálica no limite da artificialidade. Onde até a garça – de verdade! – engana o primeiro olhar do incauto visitante: posta no alto dos falsos cristais de pedra, elas sugerem à primeira vista o aspecto congelado dos anões de jardim, mas logo se lançam em vôos e produzem um novo instante de perplexidade para o deleite do visitante.

Juntos, o QG e sua praça minam cada pedaço da expectativa que você construiu ao sair de casa ou do hotel para conhecer este espaço tão pouco badalado. Os clichês sobre militarismo, Brasil Grande, anos 70, repressão e resistência, cultura e natureza caem todos diante da estranha beleza de se estar neste lugar recontextualizado pela passagem do tempo. O grandioso tornou-se tão raro de lá pra cá que reencontrá-lo obriga o enfastiado das eras superplanejadas a repensar escala e estética.Por mais estridentes que tenham sido – e foram – não chegam aqui os gritos dos torturados pelos mandatários que tiveram a quase exclusividade de desfrutar do QG e sua praça. Chega, é verdade, um tipo incomum de silêncio que talvez contenha aqueles urros, remixados pelo túnel de tempo que percorrem para alcançar o presente.

Barulho mais forte vem mesmo é dos soldados armados no entorno da praça, afinal, não esqueça, estamos no Setor Militar Urbano. Pois se a grandiosidade do conjunto, passados tantos anos, pode não mais emular a violência do projeto militar que gerou esse lugar, a mera presença viva e só aparentemente sutil dos guardinhas tem tudo para trazer os anos 70 de volta. Mas logo o vôo de uma garça vai lhe arrebatar de novo e delicadamente do cerne da história para o sofá da arquitetura – e a recontextualização fará o resto. Porque, superadas as bases das condições que permitiram e estimularam a era dos generais, restaram esses museus que funcionam hoje como documentos de beleza inusitada, com sua praça que parece suspensa no ar dos acontecimentos (esteja lá e verifique como todo o noticiário político atual vira água soprada no ar da sua mente indiferente) e seu quartel-general adornado por intervenções arquitetônicas que lhe dão a impressão de estar dentro dos dutos de uma flor de melífluo concreto.



Por diferente, por aberto tanto ao céu quanto à terra – este é um dos tantos lugares em Brasília onde o liliputiano habitante se sente diretamente em transição entre o solo e o firmamento – , por respingar um verde contado no encardido geral do concreto, por abrir rombos derrapantes onde o convencional só prevê linhas retas, por reconstruir em matéria artificial e humanamente controlada as veredas do Grande Sertão não muito longínquo de Guimarães Rosa, por tudo isso o QG do Exército e a Praça dos Cristais podem ser uma subestimada síntese pouco conhecida dos mistérios urbanos e audiovisuais de Brasília. E você ainda pode dar migalhas de pão dormido aos peixes do lago, esses seres ainda mais inocentes do que nós das transformações históricas, econômicas e sociais que se passaram ao largo das pedras da praça.


terça-feira, 19 de junho de 2012

Rio + 20 é no sertão


No recinto, o conforto do ar condicionado e da poltrona macia. Lá fora, por trás da vidraça tipo cinemascope, o paisagem da cidade dadivosa. Do ladinho, um batalhão de assessores prontos a tropeçar ao menor pedido do mais reles copo de água - bem pura, por favor. E ainda tem quem estranhe que a nova edição da Conferência Mundial do Meio Ambiente, publicitariamente chamada de Rio + 20 (um nome que vale por uma tuitagem rapidinha), não apresente resultado. O problema é o ambiente. O problema é climático. Entendam bem: a referência não é exatamente aos problemas do planeta, mas da conferência mesmo. Quem for capaz de suar um milésimo da inhaca exalada por qualquer bom brasileiro durante um janeiro nordestino vai achar a solução para todos os impasses assim-assim, num passe de racionalidade. 

Está claro como o buraco da camada de burrice que recobre o planeta: bastava instalar a conferência num lugar menos aprazível do ponto de visto pop-ambiental. Bastava trocar o que (não) está sendo a Rio + 20 por alguma coisa como o Sertão - 10 (como aliás já sugere uma dessas piadas compartilhadas no Facebook). Imagine se a Rio + 20 (ok, por questão de convenção, vamos manter o nome) fosse realizada num pavilhão no interior da Bahia, com essa seca causticante que vem marcando com suas úlceras o sertão nordestino, num pavilhão coberto com telhas brasilit? Ou então num acampamento de barracas de lona nas margens do leito seco do rio Seridó, na região que leva este nome no interior do Rio Grande do Norte - um estado ainda melhor, visto que nem precisaria mesmo trocar o nome da conferêcia? Não preciso nem falar das opções mais, digamos, globais - como os rincões mais hostis das savanas africanas, preciso? Alguém duvida que, instalados em cadeiras dobráveis de bar, dessas invariavelmente pintadas de vermelho ou amarelo e com um Brahma bem grande pintado no tampo, tendo que se valer de precários ventiladores angariados na vizinhança, os senhores chefes de Estado não chegariam rapidinho a um consenso sobre o que precisam de fato mudar para que a Terra velha de guerra não vá a pique em função dos nossos desmandos comuns (sempre lembrando que neste grupo, como sempre, tem uns mais comuns do que outros)?

Li num desses romances populares sobre os bastidores do Vaticiano, um desse Morris West que é preferível não citar pra não passar vergonha, que durante a eleição do papa os senhores cardeiais reunidos em Roma são alimentados com um café terrível e mantidos trancados em condições não muito confortáveis. O objetivo é exatamente fazer com que não demorem muito a escolher o novo ocupante do trono de São Pedro. Pois é precisamente isso o que falta na Rio + 20, ainda mais tratando-se de uma conferência que não trata sobre algo etério e subjetivo como a definição sobre qual ser humano, entre tantos habitantes do planeta, está mais apto a servir como embaixador de Deus no plano dos depredadores aqui embaixo. Não, na Rio + 20 trata-se do planeta propriamente dito - e o dono da representação diplomática situada no país da bota  não tem nada a ver com o basquete. Aqui, os homens que se atem e se desatem, se quiserem continuar tendo onde morar. Pois até do ponto de vista metalinguístico, o sertão precário - precário mesmo, sem as facilidades que a tecnologia, essa danada, trouxe para lugares como o país do Seridó - é o lugar ideal para o pessoal que dá as ordens sentir o drama e não decidir com base apenas na suposição apressada dos assessores igualmente mantidos confortavelmente à margem do verdadeiro meio ambiente, aquele que queima sob o sol, fustiga com o vento, encandeia com a claridade, afoga na enchente e mata de sede e fome quando vem a seca.  

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Brasilia segundo Moravia


Entre a seca que aspira tudo, o concreto quebrado em curvas e as crispações do cerrado, Brasília é mesmo esse lugar à parte que desafia a percepção de quem nela vive. Nem se trata mais de gostar ou não gostar – a pergunta mais frequente feita a quem, não sendo originário daqui, aqui vive – mas de absorver, cada um à sua maneira, a distinta e reelaborada geografia urbana, ao mesmo tempo tão rural, que existe em volta do habitante. Sobre isso, destaca-se a visão do escritor-viajante Alberto Moravia, descrito pela escritora brasileira Ana Miranda como um “Rubem Fonseca italiano” na edição desse domingo do Correio Braziliense. Miranda usa o espaço semanal que tem no jornal para lembrar o impacto estético causado pela visão de Brasília – especialmente do alto do avião que o trouxe à cidade no instante de sua criação – para fazer pensar mais uma vez sobre a impressão que a cidade, parece, sempre nos causará. É mais uma tentativa de tradução ou enfrentamento diante da esfinge que é esta cidade, desde que você consiga, ironicamente em meio à mais previsível rotina que ela também propicia, suspender um pouco o olhar e captar a estranheza que está por toda parte. Seguem trechos da coluna de Ana Miranda, reproduzindo os textos de Moravia:


CIDADE METEORO
A cidade que “caiu como um meteoro em chamas, sacrificando a terra árida com sangue”.


ABSTRAÇÃO NO BARROCO
A cidade abstrata criada para arrancar das costas barrocas e preguiçosas do Brasil as classes dirigentes para retomarem a marcha dos antigos desbravadores no rumo do interior, e ocupar e povoar e enriquecer vastíssimos territórios. Mas, ao mesmo tempo que cidade desbravadora, cidade burocrática, a criar procedimentos padronizados para estruturar a organização da hierarquia, a divisão do poder e do trabalho.


ALUCINAÇÃO URBANA
Saberá Brasília “ser mais vivaz que essas cidades construídas pela força da vontade? Uma questão crucial para o destino da cidade. Até que ponto Brasília se deixaria massacrar pela presença monumental do poder? A cidade ainda se faz essa pergunta, diz o poeta. Como decifrar tua caligrafia de postes e ventos? Agora Moravia está num carro e percorre o Eixo Monumental, depara-se com as torres e sopeiras contra um céu azul, sente-se pequenino como um liliputiano, esmagado e aniquilado pela arquitetura, acha que os edifícios são alguma alucinação, pressente a atmosfera ditatorial, a solidão urbana, a desorientação que os pequenos habitantes sentem diante dos mistérios do poder que os governa.

Cadê Roger?



Neste domingo, respondeu à perguntas da sessão “O que eles pensam”, do Correio Braziliense, Roger de Renor, o pernambucano para sempre associado na cultura pop-rock-maracatu-nordestina ao movimento manguebeat, cujo manifesto Caranguejos com Cérebro está completando 20 anos. Roger era o dono do bar e espaço Soparia, plataforma de lançamento dos músicos pernambucanos que assumiam a estética da lama local como ingrediente fundamental para construir uma nova música, indiferente aos padrões do pop-rock “nacional” já então em fase de avançada perda de criatividade no início dos anos 90, além de transpor outra barreira de estilo, esta “local”, representada pela exigência de enraizamento cultural absoluto que faziam todos aqueles sombreados pelo movimento armorial, outro marco pernambucano anterior,  levantado pelas mãos não menos fundamentais do escritor Ariano Suassuna em conjunto com músicos que mesclavam a tradição erudita com o repertório de tinturas medievais que caracteriza a estética popular nordestina. Na entrevista ao Correio, Roger abre todos esses pacotes e, com a informalidade que este tipo de avaliação permite, empacota tudo novamente com os barbantes que o manguebeat legou à cultura musical pernambucana reformatada em estética & indústria, mídia & mensagem. Seguem os trechos:


MATUTICE ASSIMILADA
Chico Sciense e Nação Zumbi cantando com Gilberto Gil no Central Park é melhor que uma terapia de grupo como o estado inteiro. Com um megaterapeuta dizendo: “Fiquem tranquilos que não há nada de errado com o sotaque de vocês, com a forma como vocês se vestem. A matutice não é de vocês, é de quem tem o preconceito.”



LOCAL E NACIONAL
Não é uma questão de o músico ser descoberto nacionalmente, mas de envolver nacionalmente as pessoas. O principal sintoma da mudança foi esse, as pessoas começaram a se interessar por nós, saber que não paramos em Geraldo Azevedo, em música de voz e violão. Esse interesse do músico construir passou para uma geração nova que não está a fim apenas do sucesso. A moçada está a fim de êxito, de viver da música, escolher o lugar onde vai morar, não ser obrigada a morar no Rio de Janeiro.


ALÉM DO ARMORIAL
Queriam diversão como o que tem ali, com o que está perto, com o nosso repertório, o nosso quintal, sem essa culpa de ter que ser armorial. Hoje, a partir dessa história despretensiosa e até acidental do movimento manguebeat, foi possível liberar gente como Mestre Ambrósio e Siba.



A MORTE ESPETACULAR COMO CARTÃO DE VISITAS
Quando o jornal da tevê toca aquela musiquinha do plantão, até hoje me lembro da parada. A gente entrou pro mainstream da mídia pela porta mais funda e mais fúnebre que existe.  O que podia ter sido o fim da história talvez tenha sido um caminho mais rápido para o entendimento das novas gerações. Uma geração perdeu uma referência e as outras ganharam todas as referências.

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Verdade e Ficção


Romance-espionagem de Luiz Gutemberg pode até parecer livro de bolso, mas revela-se mais incisivo ao reconstituir o mundo dos generais-presidentes do que o painel documental de Élio Gaspari. E ainda vale por uma comissão da verdade informal.


O livro está fora de catálogo, mas a discussão está na ordem do dia. Agora que a Comissão da Verdade foi instalada e designada, toda vez que você ouvir um convertido de última hora dizer que é preciso também apurar os tais “crimes da esquerda”, pode muito bem lhe tacar na cabeça o romance de espionagem brazuca “O Jogo da Gata-Parida”, de Luiz Gutemberg, edição da Nórdica hoje só disponível em sebos, como o exemplar que encontrei no Sebinho de Brasília e tracei em velocidade bem maior do que a que o país levou para admitir a criação da Comissão da Verdade.

Mas qual o poder de fogo de um livro típico daqueles lançamentos da década de 80, quando jornalistas censurados durante anos finalmente botavam pra fora, como podiam, as histórias da violenta repressão política vivida pelo país até a noite anterior? O leitor pode achar que se trata de leitura datada, feita para dar vazão a um sentimento de época, coisa que o Brasil não leva mais que 15 anos para esquecer e tocar pra frente. Poderia ser, mas o diabo dos detalhes, aquele que mora onde menos se espera, trata de proporcionar uma outra leitura à ficção semidocumental que produziu Gutemberg, jornalista que habitou o vídeo dos telejornais da TV Bandeirantes durante anos, você lembra. Era o “Guti”, como gostava de abreviar Marília Gabriela.

O primeiro detalhe é uma ironia: o fato de uma ficção ter tanto a dizer sobre a página infeliz da nossa história. Sim, porque ao juntar as informações e o caldo de cultura do período da transição iniciado no governo Geisel até a indicação do general Figueiredo para sucedê-lo, Gutemberg até deu novos (codi)nomes aos personagens da já distante “abertura política”, mas o que está descrito na sua elaboração ficcional comporta, pela liberdade do gênero que aqui e ali beira o livro de bolso (e isso não é um defeito, ao contrário), uma reconstrução muito mais verdadeira do que, por exemplo, aquela série de livros documentais escritos por Elio Gaspari.

Não que o painel composto pelos livros de Gaspari seja ruim – é outra coisa que se lê afogando num pântano de curiosidade histórica das mais movediças. A questão é que, se Gaspari construiu toda sua elaboração do período militar a partir de notas e impressões do general Golbery – sua fonte pretérita que acabou definindo muito de sua visão, com a qual nem sempre o leitor atento tende a concordar – no caso de Gutemberg o ponto de vista é mais, digamos, “assumido” – e por tabela, intelectualmente mais honesto. Assiste-se à novela política e paramilitar da imposição do general Figueiredo como “candidato do sistema” – vencendo com as armas da época dois concorrentes de peso ombro a ombro nas mesmas fileiras do generalato, é lógico – por dentro do processo, entre quartéis, salas do “serviço” (SNI) e carros equipados com transmissores para ouvir  telefones e ambientes grampeados como jamais sonhou a inocência ética de um Gilmar Mendes.

Ou seja: enquanto a não ficção séria de Gaspari gargareja a voz oculta de Golbery, a ficção livresca de Gutemberg não tem pudor de contar tudo – ou ao menos o episódio da escolha de Figueiredo dentro do painel geral da ditadura – pela ótica interna dos generais no poder. Resultado da equação: o “inventado” , no caso, pode ser muito mais contundente do que o “recriado”. Sobras da equação: se, entre os própios militares da cúpula do poder, cada qual mais guarnecido de costas quentes do que o outro, as artimanhas competitivas contavam com chumbo para-oficial de tamanho poder de fogo – há até um sequestro na história de Gutemberg – imagine-se o que tal poder não chancelaria diante dos esfarrapados e ingênuos grupos de esquerda armada nas noites anteriores?

No  livro de Gutemberg não tem Marighella, Lamarca ou Yara. Não tem a Dilma da ficha publicada pela Folha. Tem Figueiredo, Octávio Medeiros, o próprio Golbery e os demais integrantes da távola militar de então. Não li, mas posso dizer por informações transversais que tem também o elevado grau de conspiração interna presente em outra não ficção marcante do período – a “Guerra das Estrelas” em que outro jornalista conhecido, Carlos Chagas, narra outra sucessão, a de Costa e Silva, de quem foi assessor.

Por oposição, e por não sair nunca dos limites verde-oliva do alto generalato brasiliense do final dos anos 70, o livro de Gutemberg serve de espelho à investigação da Comissão da Verdade recém-instalada. Toda vez que alguém vier falar em excessos da esquerda, sua chapa de vidro em forma de páginas impressas estará lá, refletindo e devolvendo em raios luminosos de fina ironia a desproporcionalidade da acusação. “O Jogo da Gata-Parida”, que poderia muito bem ser relançado à sombra desses novos acontecimentos, é uma comissão da verdade informal e à parte, que as novas gerações esquecidas ou mesmo ignorantes das coisas de então poderiam e deveriam conhecer.

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Um livro, muitos filmes



A narrativa sobre o Glauber Rocha pré-Deus e o Diabo feita pelo cronista do Leblon contém pelo menos três boas ideias de roteiro para filmes. E uma omissão típica de quem não enxerga além da Zona Sul do Rio de Janeiro

Um bom livro sobre cinema, cineastas ou de ensaios sobre a sétima arte pode ser aquele que contém um filme interno, com uma narrativa que mesmo sendo escrita produz um efeito visual irresistível, personagens que cativam ou trechos/cenas que impactam. Pois o livro que o mala-pop Nelson Motta escreveu sobre a juventude de Glauber Rocha, “A Primavera do Dragão”, consegue ser bem mais que isso. O que dizer de um livro que contém em suas econômicas 360 páginas – muitas delas ricamente ilustradas num projeto gráfico que lembra mais uma revista de bom gosto – três filmes possíveis? Ficam faltando somente cineastas dispostos a encarar a tarefa de tirar esses filmes do livro e colocá-los nas telas. Mas são absolutamente filmáveis e apreciáveis em sala escura ou DVD pelo menos três das histórias que o último cronista do Leblon garimpou ao pesquisar a vida de Glauber Rocha desde a infância até o momento da consagração no Festival de Cannes em 1964 (com a exibição de “Deus e o Diabo na Terra do Sol” que, embora perdendo para o francês “Os Guarda-Chuvas do Amor”, foi a grande sensação daquele ano) para este livro tão bonito quanto interessante – e ligeiro, o que conta muito para os leitores ditos impacientes.

As sinopses estão lá, à espera de quem se candidate a filmar: a mais fascinante delas poderia se chamar “A Princesa da Casa do Padre”. Iria narrar o fascínio que reinou entre os moradores do vilarejo onde um certo dia chegaram Glauber e sua tropa de artistas e técnicos para rodar “Deus e o Diabo”. Havia, entre todos, uma estrela – mas que estrela! Era Yoná Magalhães, que numa temporada teatral em Salvador virou a menina dos olhos do filho de um latifundiário local. E filho de latifundiário baiano nos anos 60, você sabe, pode tudo: até fazer com que Yoná, que já era uma atriz “nacional” na época, largasse tudo para casar com ele e viver na Bahia. Ocorre que o tal filho de latifundiário tornou-se também o principal financiador de “Deus e o Diabo” (essas contradições brasileiras, vá entender) e Yoná seu principal personagem feminino, a Rosa, como está cansado de saber quem assistiu ao filme. Pois bem: como já chegou estrela a Salvador, sempre houve em torno de Yoná um tratamento de celebridade à antiga. Agora você transfira isso pro lugarejo onde foi filmado “Deus e o Diabo”. O relato do livro é de que foi alugada apenas para Yoná a casa do vigário local – obviamente, a melhor da cidade. E lá vivia a atriz, protegida pelas janelas fechadas, gerando um rumor de curiosidade e veneração entre os habitantes locais que, coitados, mal sabiam o que era a produção e realização de um filme. Não demorou a se espalhar a história de que quem vivia na casa do padre era uma espécie de princesa. Dá ou não um filmaço? Pense nisso nas mãos de Guel Arraes, com um tratamento lírico-cômico-nordestino como só ele é capaz de fazer sem culpa?

A outra história é sobre a cena em que o personagem do beato Sebastião exorta sua multidão de seguidores e sobe com eles o monte santo do lugar. Essa multidão de quatrocentos figurantes foi recrutada entre os moradores do lugarejo mesmo. E recebia um salário para atuar no filme. Mas quem disse que eles estavam dispostos a subir o tal monte umas quatro vezes, debaixo dos gritos de Glauber e diante daqueles trambolhos esquisitos que eram as câmeras? Deviam se perguntar: pra que subir tanto – uma vez não basta? Enfim, houve resistência. Foi preciso que aquele mesmíssimo filho de latifundiário recorresse a um pagamento extra: latas de leite que ele retirou dos estoques do pai, que também tinha o costume de diversificar seus negócios. Com a promessa de duas latas de leite em pó para quem participasse da cena, choveu figurante. Veio gente dos vilarejos vizinhos, o beato brilhou e, como vem diz Nelson Motta no livro, “Glauber chorava atrás das câmaras”.  Mas como diz aquele personagem de Billy Wilder numa das falas mais célebres da história do cinema mundial, “ninguém é perfeito”. Pois um defeito na câmera melou a filmagem e foi preciso fazer tudo de novo. Sem estoques de leite em pó, restou a alternativa de rifar uma máquina de costura entre os figurantes pra ver se novamente era possível atrair outra multidão. Deu certo, como você pode ver alugando o DVD e vendo novamente  o filme. Uma história à parte que dava sozinha um outro filme, bastasse um Fernando Meirelles encarar a missão com a mesma energia de seu antecessor no posto de cineasta número um do país. “Os Figurantes de Deus e do Diabo” não seria um mau título. Até um documentário renderia, nas mãos de um cabra disposto a encontrar, hoje, os mesmos figurantes de então e ver como eles se encontram agora.

A última das três histórias contidas no livro “A Primavera do Dragão” que merecia ser filmada é de natureza mais poética, daria um filme mais singelo, uma produção mais Walter Salles: narraria a decisão de Glauber, muito antes de filmar qualquer coisa, de sair em expedição pelo interior do Nordeste para se inteirar melhor da realidade de sua gente e de seu país. É um road movie perfeito como foi, por exemplo, “Cinema, Aspirinas e Urubus”, de Marcelo Gomes – outro que poderia rodar com os pés nas costas essa terceira história. E seu momento culminante se dá quando Glauber encontra o poeta pernambucano Ascenso Ferreira num vagão de trem. Só a locação já é um poema visual em si: Ascenso, lembrem-se, é o autor daquele célebre poeminha cujo trecho todo mundo conhece e que repete, na sua métrica, o barulho do trem em movimento: “Vou danado pra Catende / Vou danado pra Catende / Vou danado pra Catende/ Vou danado pra Catende/ Com vontade de chegar” (o poema é o Trem das Alagoas). Sentiu alguma coisa meio “Diários de Motocicleta” no clima desse encontro? Então...

O livro é mais que conhecido; a capa, com uma foto de Glauber solarizada, lembra aquele disco de Caetano Veloso de 1981 (“Outras Palavras”); a leitura corre ligeira que nem o trem das Alagoas; as ilustrações dão a impressão de que você está lendo uma dessas revistas culturais; as histórias de bastidor são saborosas como é imprescindível neste tipo de livro; as letras são grandes para quem já está com a vista prejudicada e “A Primavera do Dragão” ainda contém esses três filmes embutidos. Dessa vez o mala-pop Nelson Motta matou a pau. Só cometeu um deslize: esqueceu de mencionar na introdução um outro livro, tão importante quanto (ou mais) que traz a biografia inteira de Glauber Rocha( “Glauber Rocha – Esse Vulcão”), escrito pelo baiano e companheiro de geração do cineasta João Carlos Teixeira Gomes. Mas, como o alcance da lente intelectual de Nelson Motta não vai além da Zona Sul do Rio de Janeiro (e, quando passa disso é sempre ali pros lados de Manhatã), o esquecimento fica explicado. O fato é que são livros diferentes – enquanto o do carioca de Manhatã vale como bate-papo divertido, o do baiano brazuza se sustenta nas suas 600 páginas como estudo de profundidade explicitada. Melhor ler os dois. Enquanto se espera que aqueles três filmes entrem em cartaz.

terça-feira, 8 de maio de 2012

SOS jornalismo!



A julgar pela manchete da edição de hoje, o jornal “Correio Braziliense” está seriamente empenhado em tomar o eventual lugar que a revista “Veja” deixe desocupado ao final desse processo de perda de credibilidade em que a publicação da editora Abril vai se afundando. O jornal que chegou aqui em casa hoje traz o seguinte destaque principal na sua primeira página: “Uma bolsa sob medida para o PT nas eleições”.  A notícia (que o jornal “O Globo”, só por efeito de comparação, deu numa mera nota de coluna na página 2 desse domingo) é sobre o lançamento do tal “Brasil Carinhoso” que vai reforçar ainda mais a política compensatória – e, por outra via, econômica mesmo, disse se falará mais adiante – de redistribuição de renda por meio do auxílio financeiro direto. O anúncio será feito a dois meses da eleição  municipal, daí a ilação editorial feita pelo Correio, que não é bem aqui o objeto da contestação.

A questão é o ódio antipetista que o fato de alçar tal notícia a manchete e com tamanha carga de rancor editorial (muito além do caráter, vá lá, “fiscalizatório” da imprensa quase sempre exercido com seletividade constrangedora) demonstra. Jamais vi – trabalhei no Correio e durante boa parte do tempo exatamente como redator desta mesmíssima primeira página – tamanha fúria fiscalizatória quando o PSDB estava no poder. Não lembro de o jornal investir de tal maneira, destacando o partido governista em particular com semelhante ênfase manifesta e latente ressentimento subtendido. Entendo que a grande parte do público leitor do Correio esta manchete causa um infeliz contentamento: é o vasto círculo de assinantes que compõem a classe média estabelecida de Brasília (uma classe que até a era Cristovam era petista de brigar na rua com cabos de bandeiras vermelhas contra as azuis de Roriz, veja a ironia) que tem completa ojeriza a qualquer forma de bolsa, compensação, cota e similares. Mesmo assim, botando na balança qualquer forma de adulação mútua entre editores e leitores, a manchete é um exagero que merece repúdio. Só se explica, repito, caso o “Correio” esteja com inveja da belicosidade editorial da “Veja”. Por que não recontratam logo para redator o tal Policarpo, que também já passou por lá?

Abre-se o jornal e na página 4 a colunista Denise Rothenburg mal consegue conter suas simpatias tucanas ao analisar o noticiário político de Brasília. Aqui é necessário um parênteses: é bom que os jornais, sobretudo o jornalismo impresso, contenha profissionais que naturalmente nutrem as mais variadas simpatias político-partidárias, até o ponto, igualmente natural, de saber administrá-las. Eu, por exemplo, que nunca tive sequer espaço para manifestar com destaque minhas simpatias idiossincráticas, sempre fui muito cioso de não estar fazendo isso sem pensar ao editar reportagens feitas pelos colegas. Faço isso diariamente como editor do telejornal da TV Câmara, onde trabalho. No caso do colunismo de jornal impresso, espera-se naturalmente uma análise. E concorda-se, num pacto informal entre leitor e jornalista, que este tenha uma afinidade maior com tal ou qual tendência ou partido. Se o jornal que o publica tem a saudável política de publicar também outros jornalistas com visões diversas daquele, está tudo no equilíbrio, na paz. O “Correio”, por exemplo, publica análises de Marcos Coimbra que eu aprecio muito mais. A questão aqui é quando o jornalista deseja vender para o leitor uma análise que é muito mais decorrente de suas afeições do que da configuração geral do país que deveria ser seu objeto de análise.

Sem mais circunvoluções: ao falar sobre o contentamento no Palácio do Planalto pela eleição do socialista François Hollande na França, a colunista empurra texto adentro, como se fora algo de senso comum (mas é assim, dessa forma aparentemente casual, que muitas vezes se forja o senso comum desejado) o comentário de que é errada a comparação entre o momento que a França vive agora com Hollande e o que o Brasil viveu em 2002 com a chegada de Lula ao poder. Por quê? Ora, porque segundo a analista, Lula não alterou as bases da política econômica de Fernando Henrique. Pois eu e milhares de milhares de brasileiros dotado de um mínimo de inteligência não dirigida pela grande imprensa e de uma porção qualquer de sensibilidade social discordamos: pra nós, tomar o caminho da redistribuição de renda, usar as tão renegadas bolsas em dinheiro como forma de movimentar a economia de regiões esquecidas na era tucana como o Nordeste, elevar o salário mínimo a patamares condizentes com o amplo espectro de bolsos brasileiros que dele dependem são sim, POLÍTICAS ECONÔMICAS. Reinstituir diretrizes mínimas de Estado onde antes só tinha vez a lógica absoluta do mercado é sim política econômica.  Se o jornalista acha que política econômica se resume à ata da reunião do Banco Central ele está viciado em números, acomodado nos gabinetes, intoxicado por uma ordem – a neoliberal dos anos 90 – que há muito deu sinais de enfado, pra dizer o mínimo. A economia, jornalista, realiza-se na realidade das ruas, do comércio, da renda que vai e vem, do saque que o aposentado faz no caixa eletrônico que acabou de ser instalado, do incremento que muda a realidade de cidades antes pouco mais que estagnadas. Esse é um paradigma que ninguém quer quebrar – e nisso a jornalista Denise Rothenburg, como muitos de seus colegas que parecem mal conseguir conter o entusiasmo diante da mera lembrança da era FHC, não está sozinha. É geral essa dificuldade, pra não dizer teimosia.

A cereja no bolo dessa leitura do “Correio” de hoje está ainda na coluna de Denise Rothenburg. É preciso transcrever a sentença para que não pareça que estou aqui torcendo as palavras da jornalista: “O que o governo brasileiro espera de Hollande é que ele tenha a mesma sorte para poder servir de inspiração a outros países europeus”. Semântica é tudo: repare na palavra escolhida: sorte. Foi, na análise final da jornalista, o que Lula teve. Mérito, nenhum. Sensibilidade social de entender as carências e desigualdades do Brasil, nada. Inteligência financeira para perceber que a saída poderia estar no mercado interno e no exercício da soberania no plano externo, necas. Lula teve... sorte. É assim que um jornalista que não consegue controlar sua simpatia tucana (e aqui deixo clara a minha simpatia petista) analisa um  governo como o anterior que, em muitas e muitas faces, continua no atual. É assim que um jornal se desconecta da realidade, ainda que alimente com migalhas apetitosas de  rancor partidário e preconceito social os leitores que mantém, como fez na manchete desta terça-feira, 8 de maio.  

Ao final da leitura, vi reforçado o meu desejo inicial que surgiu só de bater o olho na manchete: cancelar minha assinatura. Não posso fazer isso por questão contratual – paguei pelo pacote anual. E também não devo por questões profissionais: meio servidor público e meio jornalista, condição de que muito me orgulho no meu modesto posto de trabalho na redação da TV Câmara, infelizmente preciso estar a par da maneira como os colegas que tantas vezes me julgam chapa branca exercem o jornalismo chapa cinza, aquele que coloca uma nuvem de fumaça entre a realidade e o interior das redações.

domingo, 6 de maio de 2012

O veneno de Bethânia



A cantora devolve em forma de fino biscoito musical as agressões que sofreu quando do caso do site de poesia. A questão é: a virulência da resposta não a iguala à violência dos seus detratores? E mais: eles não tinham, sim, legitimidade para contestar o subsídio fiscal ao projeto?




Maria Bethânia queria fazer um site de poesia. Não deixaram, ela fez o de sempre – um disco. E não deixou barato, nem uma coisa nem outra. E sacramentou à revelia – quem, afinal, pode se considerar juiz ou réu quando se trata dos novíssimos tribunais de internet, atualização dos velhos tribunais de bar? – uma nova relação entre artista e público. Ou melhor: entre público e artista – e a ordem dos fatores, o internauta atento sabe, nunca fez tanta diferença. Quanto agora.


Pensou-se um site com uma poesia por dia, criou-se uma polêmica com um protesto por minuto. Algo muito propenso a, como de fato aconteceu, virar um insulto por segundo. Um mal entendido por milésimo de instante. Uma contramanada solta na velocidade dos clics. Curtiu/ Não curtiu. Cobrou, não pensou. Denunciou, condenou. O fenômeno do site de poesia de Bethânia foi um caso perfeito e acabado – por complexo e, pra usar um termo da moda, transversal – de crise de credibilidade algo além de público e artista, como já se disse. Entrou no caldeirão o oportunismo de atingir o consagrado no que ele tem de mais vulnerável – a leve crosta da fama que a certo jornalismo causa tamanho apetite a simples possibilidade de, entre dentes, quebrar. Jogou-se na receita uma pitada de ácido contra o bem-sucedido, seja ele quem for ou em que área estiver. E usaram-se porções generosas de determinados temperos bem próprios da nossa viciada cozinha: garrafadas de desmancha-reputação; purgantes para diluir hipocrisias há muito solidificadas; xaropes contra certa soberba que os baianos tossem com gosto na MPB de desde sempre.


Micou o site, morreu o projeto de uma poesia por dia a peso de ouro regiamente anotado no livro das subvenções tributárias nacionais. Enfim. Deu-se por esquecido. Calou-se a voz da cantora a não ser para cantar – voz que obviamente nem se deu ao trabalho de se pronunciar enquanto a arenga ocorreu. Passou. E quando ninguém mais lembrava, chegou o novo disco da mesmíssima voz calada no projeto de declamar poemas subsidiados. E no novo petardo que a cantora lançou no mercado, mais que sugestivamente chamado “Oásis de Bethânia”, veio aquilo que a Classe C muito pouco poeticamente chama de “o troco”. No oásis baiano da cantora de palestino nome bíblico, mina no aparelho de som a resposta líquida e certa para o caso arquivado. Está tudo lá, na faixa “Carta de Amor”, terno nome para uma ironia mais que declarada. Bethânia despeja imprecações musicadas contra quem a hostilizou em 140 toques. E o grau de ira dessa resposta é tal que, no limite, faz o ouvinte – ao menos este ouvinte aqui, que lhes fala – indagar-se se a virulência de tal retorno não justifica, nos finalmentes, os equívocos cometidos na ida.


Em claras palavras: Bethânia, como outros, é essa voz que não cansamos de admirar e de ouvir. E antes de concluir é preciso dizer que eu pessoalmente julgo que a dela é a mais brasileira das vozes, que se fosse o caso de mandar para um planeta de outro sistema alguma voz que representasse a nós, morenos filhos desta terra, não haveria de ser outra a não ser a dela. E a essa conclusão cheguei não ao ouvi-la cantar (o que seria  muito mais que o bastante), mas ao ouvi-la como narradora de uma série de documentários sobre países de língua e cultura portuguesa, exibida há alguns anos no canal GNT, mas isso, afinal, não passa de um parênteses.  O que se quer dizer, nesta sofrida tentativa de retratação de um brasileiro comum diante do retratado pela cantora em função do caso que envolveu seu nome é na verdade bem simples: por maiores que tenham sido as porções de ira gratuita despejadas nas time lines da vida, o brasileiro comum, o internauta distraído, o crítico de botequim, o ativista de shopping ou qualquer um outro desses tipos acabados da sociologia das novas relações sociais tinha, sim, o direito de contestar o emprego do instrumento da licença tributária como forma de financiamento cultural no projeto de uma poesia por dia criado pelo cineasta Andrucha Waddington e que seria estrelado pela voz que tanto amamos de Maria Bethânia.


Não que a legitimidade da contestação não existisse antes – como disse, ela sempre esteve posta mas só agora, por uma virada tecnológica que se não iguala ao menos reduz a distância entre produto e consumo, arte e público, pode ser exercida plenamente. Inclusive com seus subprodutos indesejáveis como o insulto, a incompreensão, o equívoco. Ao final do processo, fica a contestação pura e simples: o valor do site era alto e envolvia uma personalidade artística que o mercado  da música há muito consagrou – portanto e por princípio, alguém a quem seria demais oferecer mais uma subvenção governamental que, por uma questão de política pública, foi pensada para garantir um mínimo de visibilidade a setores prontamente barrados na porta do mesmo mercado que recebe Bethânia de braços abertos. E é melhor que Maria Bethânia e quem quer que seja – artista consagrado ou aspirante a celebridade na tevê – entenda isso, essa mudança, esse novo status conferido ao público, o mesmo público a quem ela e outros tantos tantas vezes atribuíram poderes muito maiores. Em teoria, porque a tecnologia social de então não permitia que tal poder efetivamente se manifestasse – exageros e abusos à parte.


Ocorre neste caso um paralelismo entre a arte musical industrializada – o disco, o show, o cantor, o artista – e o segmento da militância política tradicionalmente à esquerda: neste campo aqui, foi comum durante anos o sujeito minimamente na condição de líder abrir a boca e encher os pulmões para falar em defesa do povo. Pois este mesmo líder de outrora agora se estranha com o mesmo povo que declarou representar. Quem estava enganado: o povo ou o líder? Se botar na balança, é um  caso PPS demais para rivalizar com a tensão bem maior, que envolve mais sentimentos simbólicos, que toca em afetividades muito maiores, da relação artista-público. Mas o paralelismo está aí, claro como uma daqueles faixas de protesto tipo “Abaixo a ditadura” que a gente vê nas antigas fotos das manifestações do Rio de Janeiro de 1968. Também há outro jeito de demonstrar sua validade: tente imaginar aquele líder  arrogante dos anos 80, hoje convertido no mais incomodado conservador que perdeu seu lugar na história por falta de sensibilidade social gritando, no lugar de frases em defesa do “povo”, brados retumbantes em favor do “povão”.


Pronto: bastou um leve desajuste linguístico para desmascarar o falso consciente – aquele que usa o discurso da democracia política para justificar seu recorrente e jamais abandonado egoísmo de classe. O que Maria Bethânia tem a ver com isso? Palavras, que são matéria de poesia. O verbo a que ela recorre para compor sua resposta no CD da vez – aliás, belíssimo em tudo o mais; e lembrando um outro delicado e inspirado momento acústico a que poucos se referiram, o disco “Ciclo”, dos anos 80. As palavras estão aí, mudando de sentido, adquirindo novas colorações. E se Bethânia se vale do seu oásis para oferecer água venenosa a quem a desabonou talvez ela esteja repetindo o mesmo equívoco daqueles que lhe dirigiram baldes de lama sem antes se inteirar melhor do que se tratava. Inteirando-se, provavelmente manteriam a opinião – mas destilariam a virulência. A mesma virulência que a cantora devolve agora, em igual medida, embora com a elegância de um biscoito fino.