quarta-feira, 16 de maio de 2012

Um livro, muitos filmes



A narrativa sobre o Glauber Rocha pré-Deus e o Diabo feita pelo cronista do Leblon contém pelo menos três boas ideias de roteiro para filmes. E uma omissão típica de quem não enxerga além da Zona Sul do Rio de Janeiro

Um bom livro sobre cinema, cineastas ou de ensaios sobre a sétima arte pode ser aquele que contém um filme interno, com uma narrativa que mesmo sendo escrita produz um efeito visual irresistível, personagens que cativam ou trechos/cenas que impactam. Pois o livro que o mala-pop Nelson Motta escreveu sobre a juventude de Glauber Rocha, “A Primavera do Dragão”, consegue ser bem mais que isso. O que dizer de um livro que contém em suas econômicas 360 páginas – muitas delas ricamente ilustradas num projeto gráfico que lembra mais uma revista de bom gosto – três filmes possíveis? Ficam faltando somente cineastas dispostos a encarar a tarefa de tirar esses filmes do livro e colocá-los nas telas. Mas são absolutamente filmáveis e apreciáveis em sala escura ou DVD pelo menos três das histórias que o último cronista do Leblon garimpou ao pesquisar a vida de Glauber Rocha desde a infância até o momento da consagração no Festival de Cannes em 1964 (com a exibição de “Deus e o Diabo na Terra do Sol” que, embora perdendo para o francês “Os Guarda-Chuvas do Amor”, foi a grande sensação daquele ano) para este livro tão bonito quanto interessante – e ligeiro, o que conta muito para os leitores ditos impacientes.

As sinopses estão lá, à espera de quem se candidate a filmar: a mais fascinante delas poderia se chamar “A Princesa da Casa do Padre”. Iria narrar o fascínio que reinou entre os moradores do vilarejo onde um certo dia chegaram Glauber e sua tropa de artistas e técnicos para rodar “Deus e o Diabo”. Havia, entre todos, uma estrela – mas que estrela! Era Yoná Magalhães, que numa temporada teatral em Salvador virou a menina dos olhos do filho de um latifundiário local. E filho de latifundiário baiano nos anos 60, você sabe, pode tudo: até fazer com que Yoná, que já era uma atriz “nacional” na época, largasse tudo para casar com ele e viver na Bahia. Ocorre que o tal filho de latifundiário tornou-se também o principal financiador de “Deus e o Diabo” (essas contradições brasileiras, vá entender) e Yoná seu principal personagem feminino, a Rosa, como está cansado de saber quem assistiu ao filme. Pois bem: como já chegou estrela a Salvador, sempre houve em torno de Yoná um tratamento de celebridade à antiga. Agora você transfira isso pro lugarejo onde foi filmado “Deus e o Diabo”. O relato do livro é de que foi alugada apenas para Yoná a casa do vigário local – obviamente, a melhor da cidade. E lá vivia a atriz, protegida pelas janelas fechadas, gerando um rumor de curiosidade e veneração entre os habitantes locais que, coitados, mal sabiam o que era a produção e realização de um filme. Não demorou a se espalhar a história de que quem vivia na casa do padre era uma espécie de princesa. Dá ou não um filmaço? Pense nisso nas mãos de Guel Arraes, com um tratamento lírico-cômico-nordestino como só ele é capaz de fazer sem culpa?

A outra história é sobre a cena em que o personagem do beato Sebastião exorta sua multidão de seguidores e sobe com eles o monte santo do lugar. Essa multidão de quatrocentos figurantes foi recrutada entre os moradores do lugarejo mesmo. E recebia um salário para atuar no filme. Mas quem disse que eles estavam dispostos a subir o tal monte umas quatro vezes, debaixo dos gritos de Glauber e diante daqueles trambolhos esquisitos que eram as câmeras? Deviam se perguntar: pra que subir tanto – uma vez não basta? Enfim, houve resistência. Foi preciso que aquele mesmíssimo filho de latifundiário recorresse a um pagamento extra: latas de leite que ele retirou dos estoques do pai, que também tinha o costume de diversificar seus negócios. Com a promessa de duas latas de leite em pó para quem participasse da cena, choveu figurante. Veio gente dos vilarejos vizinhos, o beato brilhou e, como vem diz Nelson Motta no livro, “Glauber chorava atrás das câmaras”.  Mas como diz aquele personagem de Billy Wilder numa das falas mais célebres da história do cinema mundial, “ninguém é perfeito”. Pois um defeito na câmera melou a filmagem e foi preciso fazer tudo de novo. Sem estoques de leite em pó, restou a alternativa de rifar uma máquina de costura entre os figurantes pra ver se novamente era possível atrair outra multidão. Deu certo, como você pode ver alugando o DVD e vendo novamente  o filme. Uma história à parte que dava sozinha um outro filme, bastasse um Fernando Meirelles encarar a missão com a mesma energia de seu antecessor no posto de cineasta número um do país. “Os Figurantes de Deus e do Diabo” não seria um mau título. Até um documentário renderia, nas mãos de um cabra disposto a encontrar, hoje, os mesmos figurantes de então e ver como eles se encontram agora.

A última das três histórias contidas no livro “A Primavera do Dragão” que merecia ser filmada é de natureza mais poética, daria um filme mais singelo, uma produção mais Walter Salles: narraria a decisão de Glauber, muito antes de filmar qualquer coisa, de sair em expedição pelo interior do Nordeste para se inteirar melhor da realidade de sua gente e de seu país. É um road movie perfeito como foi, por exemplo, “Cinema, Aspirinas e Urubus”, de Marcelo Gomes – outro que poderia rodar com os pés nas costas essa terceira história. E seu momento culminante se dá quando Glauber encontra o poeta pernambucano Ascenso Ferreira num vagão de trem. Só a locação já é um poema visual em si: Ascenso, lembrem-se, é o autor daquele célebre poeminha cujo trecho todo mundo conhece e que repete, na sua métrica, o barulho do trem em movimento: “Vou danado pra Catende / Vou danado pra Catende / Vou danado pra Catende/ Vou danado pra Catende/ Com vontade de chegar” (o poema é o Trem das Alagoas). Sentiu alguma coisa meio “Diários de Motocicleta” no clima desse encontro? Então...

O livro é mais que conhecido; a capa, com uma foto de Glauber solarizada, lembra aquele disco de Caetano Veloso de 1981 (“Outras Palavras”); a leitura corre ligeira que nem o trem das Alagoas; as ilustrações dão a impressão de que você está lendo uma dessas revistas culturais; as histórias de bastidor são saborosas como é imprescindível neste tipo de livro; as letras são grandes para quem já está com a vista prejudicada e “A Primavera do Dragão” ainda contém esses três filmes embutidos. Dessa vez o mala-pop Nelson Motta matou a pau. Só cometeu um deslize: esqueceu de mencionar na introdução um outro livro, tão importante quanto (ou mais) que traz a biografia inteira de Glauber Rocha( “Glauber Rocha – Esse Vulcão”), escrito pelo baiano e companheiro de geração do cineasta João Carlos Teixeira Gomes. Mas, como o alcance da lente intelectual de Nelson Motta não vai além da Zona Sul do Rio de Janeiro (e, quando passa disso é sempre ali pros lados de Manhatã), o esquecimento fica explicado. O fato é que são livros diferentes – enquanto o do carioca de Manhatã vale como bate-papo divertido, o do baiano brazuza se sustenta nas suas 600 páginas como estudo de profundidade explicitada. Melhor ler os dois. Enquanto se espera que aqueles três filmes entrem em cartaz.

terça-feira, 8 de maio de 2012

SOS jornalismo!



A julgar pela manchete da edição de hoje, o jornal “Correio Braziliense” está seriamente empenhado em tomar o eventual lugar que a revista “Veja” deixe desocupado ao final desse processo de perda de credibilidade em que a publicação da editora Abril vai se afundando. O jornal que chegou aqui em casa hoje traz o seguinte destaque principal na sua primeira página: “Uma bolsa sob medida para o PT nas eleições”.  A notícia (que o jornal “O Globo”, só por efeito de comparação, deu numa mera nota de coluna na página 2 desse domingo) é sobre o lançamento do tal “Brasil Carinhoso” que vai reforçar ainda mais a política compensatória – e, por outra via, econômica mesmo, disse se falará mais adiante – de redistribuição de renda por meio do auxílio financeiro direto. O anúncio será feito a dois meses da eleição  municipal, daí a ilação editorial feita pelo Correio, que não é bem aqui o objeto da contestação.

A questão é o ódio antipetista que o fato de alçar tal notícia a manchete e com tamanha carga de rancor editorial (muito além do caráter, vá lá, “fiscalizatório” da imprensa quase sempre exercido com seletividade constrangedora) demonstra. Jamais vi – trabalhei no Correio e durante boa parte do tempo exatamente como redator desta mesmíssima primeira página – tamanha fúria fiscalizatória quando o PSDB estava no poder. Não lembro de o jornal investir de tal maneira, destacando o partido governista em particular com semelhante ênfase manifesta e latente ressentimento subtendido. Entendo que a grande parte do público leitor do Correio esta manchete causa um infeliz contentamento: é o vasto círculo de assinantes que compõem a classe média estabelecida de Brasília (uma classe que até a era Cristovam era petista de brigar na rua com cabos de bandeiras vermelhas contra as azuis de Roriz, veja a ironia) que tem completa ojeriza a qualquer forma de bolsa, compensação, cota e similares. Mesmo assim, botando na balança qualquer forma de adulação mútua entre editores e leitores, a manchete é um exagero que merece repúdio. Só se explica, repito, caso o “Correio” esteja com inveja da belicosidade editorial da “Veja”. Por que não recontratam logo para redator o tal Policarpo, que também já passou por lá?

Abre-se o jornal e na página 4 a colunista Denise Rothenburg mal consegue conter suas simpatias tucanas ao analisar o noticiário político de Brasília. Aqui é necessário um parênteses: é bom que os jornais, sobretudo o jornalismo impresso, contenha profissionais que naturalmente nutrem as mais variadas simpatias político-partidárias, até o ponto, igualmente natural, de saber administrá-las. Eu, por exemplo, que nunca tive sequer espaço para manifestar com destaque minhas simpatias idiossincráticas, sempre fui muito cioso de não estar fazendo isso sem pensar ao editar reportagens feitas pelos colegas. Faço isso diariamente como editor do telejornal da TV Câmara, onde trabalho. No caso do colunismo de jornal impresso, espera-se naturalmente uma análise. E concorda-se, num pacto informal entre leitor e jornalista, que este tenha uma afinidade maior com tal ou qual tendência ou partido. Se o jornal que o publica tem a saudável política de publicar também outros jornalistas com visões diversas daquele, está tudo no equilíbrio, na paz. O “Correio”, por exemplo, publica análises de Marcos Coimbra que eu aprecio muito mais. A questão aqui é quando o jornalista deseja vender para o leitor uma análise que é muito mais decorrente de suas afeições do que da configuração geral do país que deveria ser seu objeto de análise.

Sem mais circunvoluções: ao falar sobre o contentamento no Palácio do Planalto pela eleição do socialista François Hollande na França, a colunista empurra texto adentro, como se fora algo de senso comum (mas é assim, dessa forma aparentemente casual, que muitas vezes se forja o senso comum desejado) o comentário de que é errada a comparação entre o momento que a França vive agora com Hollande e o que o Brasil viveu em 2002 com a chegada de Lula ao poder. Por quê? Ora, porque segundo a analista, Lula não alterou as bases da política econômica de Fernando Henrique. Pois eu e milhares de milhares de brasileiros dotado de um mínimo de inteligência não dirigida pela grande imprensa e de uma porção qualquer de sensibilidade social discordamos: pra nós, tomar o caminho da redistribuição de renda, usar as tão renegadas bolsas em dinheiro como forma de movimentar a economia de regiões esquecidas na era tucana como o Nordeste, elevar o salário mínimo a patamares condizentes com o amplo espectro de bolsos brasileiros que dele dependem são sim, POLÍTICAS ECONÔMICAS. Reinstituir diretrizes mínimas de Estado onde antes só tinha vez a lógica absoluta do mercado é sim política econômica.  Se o jornalista acha que política econômica se resume à ata da reunião do Banco Central ele está viciado em números, acomodado nos gabinetes, intoxicado por uma ordem – a neoliberal dos anos 90 – que há muito deu sinais de enfado, pra dizer o mínimo. A economia, jornalista, realiza-se na realidade das ruas, do comércio, da renda que vai e vem, do saque que o aposentado faz no caixa eletrônico que acabou de ser instalado, do incremento que muda a realidade de cidades antes pouco mais que estagnadas. Esse é um paradigma que ninguém quer quebrar – e nisso a jornalista Denise Rothenburg, como muitos de seus colegas que parecem mal conseguir conter o entusiasmo diante da mera lembrança da era FHC, não está sozinha. É geral essa dificuldade, pra não dizer teimosia.

A cereja no bolo dessa leitura do “Correio” de hoje está ainda na coluna de Denise Rothenburg. É preciso transcrever a sentença para que não pareça que estou aqui torcendo as palavras da jornalista: “O que o governo brasileiro espera de Hollande é que ele tenha a mesma sorte para poder servir de inspiração a outros países europeus”. Semântica é tudo: repare na palavra escolhida: sorte. Foi, na análise final da jornalista, o que Lula teve. Mérito, nenhum. Sensibilidade social de entender as carências e desigualdades do Brasil, nada. Inteligência financeira para perceber que a saída poderia estar no mercado interno e no exercício da soberania no plano externo, necas. Lula teve... sorte. É assim que um jornalista que não consegue controlar sua simpatia tucana (e aqui deixo clara a minha simpatia petista) analisa um  governo como o anterior que, em muitas e muitas faces, continua no atual. É assim que um jornal se desconecta da realidade, ainda que alimente com migalhas apetitosas de  rancor partidário e preconceito social os leitores que mantém, como fez na manchete desta terça-feira, 8 de maio.  

Ao final da leitura, vi reforçado o meu desejo inicial que surgiu só de bater o olho na manchete: cancelar minha assinatura. Não posso fazer isso por questão contratual – paguei pelo pacote anual. E também não devo por questões profissionais: meio servidor público e meio jornalista, condição de que muito me orgulho no meu modesto posto de trabalho na redação da TV Câmara, infelizmente preciso estar a par da maneira como os colegas que tantas vezes me julgam chapa branca exercem o jornalismo chapa cinza, aquele que coloca uma nuvem de fumaça entre a realidade e o interior das redações.

domingo, 6 de maio de 2012

O veneno de Bethânia



A cantora devolve em forma de fino biscoito musical as agressões que sofreu quando do caso do site de poesia. A questão é: a virulência da resposta não a iguala à violência dos seus detratores? E mais: eles não tinham, sim, legitimidade para contestar o subsídio fiscal ao projeto?




Maria Bethânia queria fazer um site de poesia. Não deixaram, ela fez o de sempre – um disco. E não deixou barato, nem uma coisa nem outra. E sacramentou à revelia – quem, afinal, pode se considerar juiz ou réu quando se trata dos novíssimos tribunais de internet, atualização dos velhos tribunais de bar? – uma nova relação entre artista e público. Ou melhor: entre público e artista – e a ordem dos fatores, o internauta atento sabe, nunca fez tanta diferença. Quanto agora.


Pensou-se um site com uma poesia por dia, criou-se uma polêmica com um protesto por minuto. Algo muito propenso a, como de fato aconteceu, virar um insulto por segundo. Um mal entendido por milésimo de instante. Uma contramanada solta na velocidade dos clics. Curtiu/ Não curtiu. Cobrou, não pensou. Denunciou, condenou. O fenômeno do site de poesia de Bethânia foi um caso perfeito e acabado – por complexo e, pra usar um termo da moda, transversal – de crise de credibilidade algo além de público e artista, como já se disse. Entrou no caldeirão o oportunismo de atingir o consagrado no que ele tem de mais vulnerável – a leve crosta da fama que a certo jornalismo causa tamanho apetite a simples possibilidade de, entre dentes, quebrar. Jogou-se na receita uma pitada de ácido contra o bem-sucedido, seja ele quem for ou em que área estiver. E usaram-se porções generosas de determinados temperos bem próprios da nossa viciada cozinha: garrafadas de desmancha-reputação; purgantes para diluir hipocrisias há muito solidificadas; xaropes contra certa soberba que os baianos tossem com gosto na MPB de desde sempre.


Micou o site, morreu o projeto de uma poesia por dia a peso de ouro regiamente anotado no livro das subvenções tributárias nacionais. Enfim. Deu-se por esquecido. Calou-se a voz da cantora a não ser para cantar – voz que obviamente nem se deu ao trabalho de se pronunciar enquanto a arenga ocorreu. Passou. E quando ninguém mais lembrava, chegou o novo disco da mesmíssima voz calada no projeto de declamar poemas subsidiados. E no novo petardo que a cantora lançou no mercado, mais que sugestivamente chamado “Oásis de Bethânia”, veio aquilo que a Classe C muito pouco poeticamente chama de “o troco”. No oásis baiano da cantora de palestino nome bíblico, mina no aparelho de som a resposta líquida e certa para o caso arquivado. Está tudo lá, na faixa “Carta de Amor”, terno nome para uma ironia mais que declarada. Bethânia despeja imprecações musicadas contra quem a hostilizou em 140 toques. E o grau de ira dessa resposta é tal que, no limite, faz o ouvinte – ao menos este ouvinte aqui, que lhes fala – indagar-se se a virulência de tal retorno não justifica, nos finalmentes, os equívocos cometidos na ida.


Em claras palavras: Bethânia, como outros, é essa voz que não cansamos de admirar e de ouvir. E antes de concluir é preciso dizer que eu pessoalmente julgo que a dela é a mais brasileira das vozes, que se fosse o caso de mandar para um planeta de outro sistema alguma voz que representasse a nós, morenos filhos desta terra, não haveria de ser outra a não ser a dela. E a essa conclusão cheguei não ao ouvi-la cantar (o que seria  muito mais que o bastante), mas ao ouvi-la como narradora de uma série de documentários sobre países de língua e cultura portuguesa, exibida há alguns anos no canal GNT, mas isso, afinal, não passa de um parênteses.  O que se quer dizer, nesta sofrida tentativa de retratação de um brasileiro comum diante do retratado pela cantora em função do caso que envolveu seu nome é na verdade bem simples: por maiores que tenham sido as porções de ira gratuita despejadas nas time lines da vida, o brasileiro comum, o internauta distraído, o crítico de botequim, o ativista de shopping ou qualquer um outro desses tipos acabados da sociologia das novas relações sociais tinha, sim, o direito de contestar o emprego do instrumento da licença tributária como forma de financiamento cultural no projeto de uma poesia por dia criado pelo cineasta Andrucha Waddington e que seria estrelado pela voz que tanto amamos de Maria Bethânia.


Não que a legitimidade da contestação não existisse antes – como disse, ela sempre esteve posta mas só agora, por uma virada tecnológica que se não iguala ao menos reduz a distância entre produto e consumo, arte e público, pode ser exercida plenamente. Inclusive com seus subprodutos indesejáveis como o insulto, a incompreensão, o equívoco. Ao final do processo, fica a contestação pura e simples: o valor do site era alto e envolvia uma personalidade artística que o mercado  da música há muito consagrou – portanto e por princípio, alguém a quem seria demais oferecer mais uma subvenção governamental que, por uma questão de política pública, foi pensada para garantir um mínimo de visibilidade a setores prontamente barrados na porta do mesmo mercado que recebe Bethânia de braços abertos. E é melhor que Maria Bethânia e quem quer que seja – artista consagrado ou aspirante a celebridade na tevê – entenda isso, essa mudança, esse novo status conferido ao público, o mesmo público a quem ela e outros tantos tantas vezes atribuíram poderes muito maiores. Em teoria, porque a tecnologia social de então não permitia que tal poder efetivamente se manifestasse – exageros e abusos à parte.


Ocorre neste caso um paralelismo entre a arte musical industrializada – o disco, o show, o cantor, o artista – e o segmento da militância política tradicionalmente à esquerda: neste campo aqui, foi comum durante anos o sujeito minimamente na condição de líder abrir a boca e encher os pulmões para falar em defesa do povo. Pois este mesmo líder de outrora agora se estranha com o mesmo povo que declarou representar. Quem estava enganado: o povo ou o líder? Se botar na balança, é um  caso PPS demais para rivalizar com a tensão bem maior, que envolve mais sentimentos simbólicos, que toca em afetividades muito maiores, da relação artista-público. Mas o paralelismo está aí, claro como uma daqueles faixas de protesto tipo “Abaixo a ditadura” que a gente vê nas antigas fotos das manifestações do Rio de Janeiro de 1968. Também há outro jeito de demonstrar sua validade: tente imaginar aquele líder  arrogante dos anos 80, hoje convertido no mais incomodado conservador que perdeu seu lugar na história por falta de sensibilidade social gritando, no lugar de frases em defesa do “povo”, brados retumbantes em favor do “povão”.


Pronto: bastou um leve desajuste linguístico para desmascarar o falso consciente – aquele que usa o discurso da democracia política para justificar seu recorrente e jamais abandonado egoísmo de classe. O que Maria Bethânia tem a ver com isso? Palavras, que são matéria de poesia. O verbo a que ela recorre para compor sua resposta no CD da vez – aliás, belíssimo em tudo o mais; e lembrando um outro delicado e inspirado momento acústico a que poucos se referiram, o disco “Ciclo”, dos anos 80. As palavras estão aí, mudando de sentido, adquirindo novas colorações. E se Bethânia se vale do seu oásis para oferecer água venenosa a quem a desabonou talvez ela esteja repetindo o mesmo equívoco daqueles que lhe dirigiram baldes de lama sem antes se inteirar melhor do que se tratava. Inteirando-se, provavelmente manteriam a opinião – mas destilariam a virulência. A mesma virulência que a cantora devolve agora, em igual medida, embora com a elegância de um biscoito fino.

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Titina X Socorro



Yes, nos temos Titina. A frase adaptada poderia estar escrita em faixas estendidas entre o Morro do Careca,em Natal, e o Bico do Papagaio, na área rural de Acari-RN, tal a expectativa que se formou em torno da aparição da atriz potiguar (e seridoense, e acariense, convém acrescentar pra todo mundo se sentir representado) Titina Medeiros na nova novela global das sete, “Cheias de Charme”. Se quisesse cultivar o cinismo reinante e pretensamente superior, poderia dizer que o fenômeno que antecede a novela e a presença de Titina no folhetim é apenas mais uma manifestação do nosso provincianismo tosco. Que toda vez que alguém diz no tuite ou no facebook que sente orgulho só de ver Titina nas chamadas do programa está expondo mais uma vez a nossa própria pequenez cultural.

Mas acontece que aproveitar o “caso Titina” para referendar novamente – e agora em escala de comunicação de massa – o cultuado complexo de inferioridade local (no que, claro, quem o aponta sempre se coloca acima dele, escapando do panorama da mediocridade geral) será apenas trovejar na tempestade – e, visto de outra maneira, incorrer no equívoco situado no lado inverso daquele desdém anterior. Ou se peca por deslumbramento, ou por apatia. Não existe possibilidade de transcendência no país do elefante. Soa redutor, ou não? Numa linha mais transversal que abarque tanto o excesso de expectativa que realmente existe (e pesa, quando não deveria) quanto qualquer reserva intelectual que afinal de contas desprezará Titina no pacote da novela como um todo e como gênero menor, pode-se tentar “pensar” o fenômeno social em termos mais específicos.

A palavra é “representatividade”: assim que foi anunciado que a atriz potiguar iria para a tela consagrada e disputada e superexposta da dramaturgia global, Natal, Acari, o Seridó, a classe teatral local, os jornalistas culturais, eu, você, todo mundo que conhece ou admira a energia que Titina transmite e exala nos vimos tomados por uma legítima ânsia de representatividade. Os baianos têm seu lugar no veículo de comunicação mais influente e massivo do país; os paraibanos aqui e ali enxertam alguém na tela platinada; os cearenses fazem a zorra classe C dos humorísticos – e nós, os de Poti, por que não abrimos uma porta que seja por lá?

Com Titina na novela, abriu-se esta porta – ainda mais quando o noticiário especializado aponta que ela está sendo vista como uma “aposta” da nova teledramaturgia classe C que a emissora vem explicitamente buscando. O que acontece a partir daí  é uma confusão até previsível: a “representatividade” potiguar de Titina na tela global é apenas simbólica (com o perdão do “apenas”, mas  a palavra aqui é necessária para o entendimento da comparação). E da maneira como o processo vem se dando, a pobre da Titina está sendo tomada pela nossa “opinião pública” quase como uma representante “política” do que somos no canal de comunicação que faz – ou pelo menos proclama fazer – a média do brasileiro em geral.

Aí surgem os problemas: o compromisso de Titina é com um personagem engendrado numa narrativa presa aos padrões do gênero novela. Dane-se então o realismo, a coerência externa (a interna é a que importa) ou qualquer outra forma de compromisso com o esperado papel de “nos representar”. Titina representa Socorro – e não a mulher potiguar, ou a atriz potiguar, ou a simpatia seridoense, ou ainda os pintas natalenses. Na medida em que ela não corresponder a essa expectativa externa, pode até ser rejeitada – ironicamente, por aqueles que, a conhecendo fora do contexto da novela, como pessoa e como atriz a quem nos acostumamos a apreciar, são os que mais gostam dela e os que mais esperavam da sua participação na Globo. Sim, nós mesmos, os potiguares.

De qualquer maneira, pelo que se viu nos dois primeiros capítulos – singulares para dar uma inicial e importante pincelada no personagem mas atomicamente minúsculo quando se pensa na extensão geral da narrativa – já dá pra arriscar ao menos um palpite, que por sinal recoloca o papel de Titina na novela e na real. É que, sendo a menos reconhecida pelo star system que caracteriza a dramaturgia global, Titina surge, entre as empregadas todas de “Cheias de Charme”, como a mais próxima do real. É a menos retocada, a mais rústica, a menos glamourosa. As outras são cheias de charme; ela é cheia de arestas que podem vir tanto do batismo de fogo da atriz numa nova forma de representação estética quando do enredo da novela propriamente dito. Se há alguma chance de realismo na chanchada televisiva que a novela assumidamente quer ser, vem da Socorro/Titina que representa as empregadas “do mal”: aquelas erráticas, que aprontam e não param em emprego nenhum. Isso pode se dar pela via da comédia, da novidade e da própria imprevisibilidade – esse bônus com que nem sempre as protagonistas, muito mais vigiadas pela expectativa do público, podem contar.

Com todas as limitações formais que uma novela impõe, aquele olhar entre desconfiado e agressivo que Titina/Socorro faz quando a patroa lhe apresenta a proposta de trabalho é muito característico de uma categoria profissional que, muitas vezes morando na casa onde trabalha, precisa dosar disponibilidade com precaução – numa equação de comportamento que busca o mínimo de distanciamento entre patrões e empregados. As empregadas domésticas em geral têm essa postura (pense nas que já lhe atenderam e examine se não foi assim  ao menos no início; se você é uma delas, certifique-se de que esses elementos fazem ou não parte do seu pacote de características quando assume um emprego novo). Rosto novo no vídeo, estreante na casa de milhões de brasileiros, Titina, desconfio, em que pesem as maldades de Socorro (em busca de um raio de sol que seja na sua janela, como bem caracterizou sua primeira fala), produzirá entre o público do programa – especialmente entre as domésticas – uma identificação maior, porque menos comprometida com o glamour mínimo que o gênero coloca nos ombros das três protagonistas.


Se uma novela sobre empregadas – mas divertida, pop, musical e arejada – é a novidade, Titina e sua Socorro podem ser o novo dentro do novo. Isso para o público em geral que não conhece a atriz nem a pessoa. Pra nós, potiguares ansiosos, o fundamental agora é prestar mais atenção em Socorro – que ainda vai desfiar sua história nos próximos capítulos – e menos em Titina.  

segunda-feira, 26 de março de 2012

Leituras desabaladas



De Boni ao criador da literatura de Cordel, da Paris do Terror aos botequins cariocas, uma viagem regressiva aos primeiros livros apreciados com calma neste ano apressado

2012 está sendo um ano veloz, divertido, com mudanças engatilhadas e feriadões sem qualquer espécie de desperdício. Já tivemos o Ano Novo em Natal, o carnaval em Pernambuco e vem aí a já tradicional Semana Santa em Caldas Novas, onde o turismo de massa interiorano faz a gente botar a soberba de molho em águas quentes abastecidas de tranquilidade. Já fomos a Pipa, já passei uma semana com os meninos no janeiro parelhense, já visitei os cunhados Sandra e Novo nas fervuras do alto verão caicoense, já comecei o ano bronzeando manhãs e tardes na praia de Ponta Negra, enfim, se a promessa para os próximos doze meses feita na passagem de ano  – na praia, em Pirangi, no meio de uma multidão festiva e de uma família animada – era, digamos, aproveitar a vida, hedonisticamente falando ela está sendo cumprida até o último segundo de cada noite antes de dormir. Mas o assunto em questão, como é tão comum neste blogue e no seu associado Hamaca de Poti, não tem nada a ver, ao menos diretamente, com este parágrafo de abertura. Indiretamente, sim, há possibilidades de ligação.

Vejamos: talvez seja por isso, por este 2012 estar se saindo tão eficaz nas suas determinações de, sejam quais forem os problemas, fazer a da vida uma diversão possível em 365 dias sem culpa, que o leitor bagunçado que o escreve esteja desempilhando um livro após o outro desde que janeiro chegou. Dezembro, melhor dizendo, que se cronologicamente não faz sentido, do ponto de vista das repartições do tempo que a gente faz com a arbitrariedade que a vida de cada um permite ou exige, este 2012 começou um pouquinho antes. O que se quer dizer com tamanhos rodeios aqui  é que ainda nem acabamos março , o mês três do calendário, e este leitor bagunçado já sorveu sete títulos em leituras diria feriadas de tão divertidas e proveitosas quanto o ano que flui em desabalada carreira. Confira na lista atualizada na Hamaca: tem “O Livro do Boni”, do próprio; “Biografia Prematura”, de Fernando Meirelles; “O Verso e o Briefing”, de Clotilde Tavares; “TerraMarEAr”, por Ruy Castro e Heloisa Seixas; “Um Conto de Duas Cuidades”, o clássico de Charles Dickens e os recentes “Estórias Abensonhadas”, de Mia Couto, e “A Privavera do Dragão”, de Nelson Motta. Faltava deixar aqui umas notas atrasadas sobre quase todos eles – a exceção fica por conta dos dois últimos, um deles já tema de publicação anterior e apressada como tem que ser; o outro, guardado para texto mais à frente.


O LIVRO DO BONI
Desde janeiro, o risco de você ligar a televisão em sinal aberto ou a cabo e dar de cara com a carotonha do senhor José Bonifácio de Oliveira Sobrinho é quase igual à de esbarrar com as bochechas reduzidas de Fausto Silva ou com a voz cansada de Galvão Bueno. É curioso:  nunca antes na história da televisão brasileira aquele que foi seu mais poderoso homem apareceu tanto no próprio veículo que o consagrou quanto agora, quando está aposentado.

Boni, por causa do natural marketing de vendas do livro – tão bom por ter tanto o que contar  que dispensaria tudo isso, mas quem é louco? – tem sido presença constante em dez entre dez talquishows da tevê brazuca. O antes todo poderoso, que depois virou uma espécie de ressentido-mor pela exclusão do círculo do poder (rivalizando com o recém-falecido Chico Anísio) reaparece agora na figura do memorialista que dá bronca e ensina à rapaziada como é que as coisas têm que ser.

Abstraídas essas circunstâncias – e os momentos de soberba memorialística que não haveria como deixar de existir nas suas 500 tantas páginas – o “Livro do Boni” deveria ser leitura obrigatória em cursos de Comunicação, Televisão, Rádio, Multijornalismo, Publicidade e afins. Todo mundo que tem a menor ligação que seja com o trabalho em televisão deveria ter a humildade de ler o que a soberba – em grande parte justificada – do Boni imprimiu no papel de suas lembranças.

Porque o livro é, antes de qualquer coisa – claro que ler de olho nas histórias de bastidores do tempo em que ele reinou na Rede Globo é um pequeno prazer, confesse – uma gigantesca e informal aula sobre comunicação. E não apenas no que se refere à emissora de tevê mais poderosa do país. Porque ao longo de seu livro, Boni vai revelando ao leitor atento como é possível estabelecer uma comunicação cada vez mais gradativamente abrangente com o conjunto médio da população de um país grande, diversificado, multicultural e por tudo isso tão caótico quanto criativo. E isso se dá desde o início  na publicidade – cuja leitura me lembrou os tempos da Faz Propaganda, no artesanato diário com o mestre Solino em Natal – até os grandes marcos televisivos com que ele demarcou seu território neste governo à parte que se tornou a Rede Globo no Brasil.



BIOGRAFIA PREMATURA
Melhor do que ler o “Livro do Boni” é ler, logo depois dele, a “Biografia Prematura” que o cineasta – e também ex-diretor de filmes publicitários – Fernando Meirelles escreveu para a série publicada pela Imprensa Oficial de São Paulo (íntegra disponível, grátis, na internet. Dá um Google aí que acha). É como se você estivesse lendo o “Livro do Boni II”, uma espécie de continuação acidental, em que outro homem de comunicação, embora na área do cinema (e tendo vindo da mesma publicidade que gerou o executivo global), conta sua história, seus truques, suas circunstâncias.

Dá a impressão de que Meirelles – e não Boninho – é o verdadeiro filho do homem: mudaram os meios, mudou o público, alterou-se o caldo de cultura onde o elemento comunicativo (livro, filme, programa de tevê, site ou o que seja) vai tentar cravar sua flechas; mas tem gente nova aberta ao tal inconsciente coletivo brasileiro fazendo suas tentativas e tendo sucesso. A trajetória de Meirelles é muito menos ritual, menos formalística e absolutamente mais desprovida de de chances de acertos do que a do Boni da era da tevê zero ponto zero, mas a essência de um e outro é a mesma, nos dois livros: a capacidade de ouvir, processar e devolver para a audiência o resultado deste entendimento. Boni não é só um homem de televisão, Meirelles não é apenas um talento do cinema: ambos são dois brasileiro munidos de um atributo capaz de tocar corações e mentes: o poder da comunicação. (P.S: foi o primeiro livro que li em tablet, excelente, lúdica e ágil experiência; aprovado)



O VERSO E O BRIEFING

Comunicativa como ela só, Clotilde Tavares não tem compromisso com o Oscar e muito menos com a programação da tevê brasileira. Mas tem todo o comprometimento do mundo com a cultura nordestina e aquilo que ela tem de único, só nosso, engendrado e burilado no meio país ou país e meio que vai de Pernambuco ao RN, essa pátria à parte onde reinam Ariano, Cascudo e José Lins, pra ficar em apenas um representante de cada uma das etnias humanísticas dos distintos mas tão comuns territórios. Pois Clotilde Tavares, a partir da sua varanda na avenida Miguel Castro, cidade do Natal, estampou para quem quiser ver a figura de um outro homem de comunicação de feitos notórios; embora semidesconhecido.

O nome dele é Leandro Gomes de Barros e se isso não diz nada pra você não estranhe:  por ter nascido e vivido longe do circuito que gera e faz circular país afora seus conceitos e ideias, é quase natural – mas noutro sentido, será sempre um absurdo – que Leandro Gomes da Silva seja um desconhecido. Pois se trata aqui do nordestino que consolidou a chamada literatura de cordel, tema de “O Verso e o Briefing”, livro em que Clotilde Tavares examina como essa forma de comunicação abarca em si a publicidade regional. Uma curta mas saborosa viagem pelo mundo dos poetas e cantadores que a modernidade vai abduzindo da vida urbana nordestina.



TERRAMAREAR
Depois, veio o aguardado “TerraMarEAr”, coletânea de artigos sobre viagens do casal Ruy Castro e Heloisa Seixas, em que a dupla vai da Paris da Revolução Francesa – pra ver que no livro o conceito de viagem vai muito além do literal, o que é ótimo – aos botequins cariocas, onde os autores podem provar iguarias populares sem se dar ao trabalho de comprar passagens ou fazer as malas. Tudo é viagem no livro de Castro-Seixas: seja uma chegadinha às paisagens de Saint-Tropez consagradas pelo filme “...E Deus Criou a Mulher”, seja o mergulho de batismo nas grutas submersas de Fernando de Noronha.


Mas o filé, por incrível que pareça – e eu já avisei algumas linhas acima que o conceito de viagem aqui é mais elástico do que permite a leitura mais literal – é o passeio à cidade onde moram os personagens de desenho animado que já tiveram fama e fortuna e hoje curtem, tanto quanto possível, a decadência e o semi-anonimato. Ali onde Mickey Mouse comemorou com estardalhaço seu  sexagésimo aniversário ou onde o ex-bruto Brutus que infernizava Popeye recolheu-se à vida doméstica e fora do armário na companhia dos  Sobrinhos do Capitão. É uma viagem hilária, do tipo que não se pode ler quando se está a caminho de casa no ônibus – ao ouvir as risadas que não se consegue nem se está interessado em conter, vão pensar que você é um abilolado intelectual que ainda consome livros, se é que ainda se usa ir pra casa de ônibus.
UM CONTO DE DUAS CIDADES




Se você não é chegado a essas liberdades narrativas e prefere algo melhor encadernado pela costura do tempo, faça como eu, arrisque-se a ler um autêntico clássico e veja o que estava perdendo. “Um Conto de Duas Cidades” foi meu primeiro Dickens, a quem cheguei estimulado pela leitura de uma reportagem de revista sobre uma data comemorativa relacionada ao escritor inglês.
Ao lado de Shakespeare, Dickens é , como se sabe, o grande autor do país de Kate Midletown. E no mundo dos cultuadores contumazes dos grandes autores, quem gosta dos ingleses e não é fã de um é discípulo de outro. No filme “Além da Vida”, de Clint Eastwood, o médium vivido pelo ator Matt Damon é um aficionado por Dickens, autor mais conhecido por seu romance “David Coperfield”, difícil como diabo de se encontrar nas livrarias e até nos sebos.
Mas tudo isso é firula e perde completamente a relevância quando se inicia a leitura deste “Um Conto de Duas Cidades” – e, imagino, de qualquer outro dos seus livros. Abre-se diante do leitor um panorama de uma época grandiosa e sangrenta, a imediatamente antes e o logo depois da Revolução Francesa, com painéis paralelos que mostram, de um lado, a brutal exploração e a inimaginável miséria dela resultante entre os franceses dos dois lados deste muro antes de a revolta explodir; de outro, a sede de vingança que vem depois e anula, babando sangue em praça pública, toda a justificável mudança de ordem que a antecedeu. Falam muito da “Revolução dos Bichos”, de Orwell (que este leitor bagunçado não leu), mas isso aqui é cinema-verdade na tela leitora da sua mente. Muito além da mera metáfora.
“Um Conto de Duas Cidades” – o título se refere a Paris e Londres ao tempo em que esses acontecimentos históricos se davam – pareceu, aos meus olhos atuais, uma imensa reportagem sobre os fatos da época, com personagens incisivos colhidos no momento de suas ações e reações, escrito em prosa semi-ensaística de legível barroquismo, em frases tão extensas quanto ansiosas, como se Dickens fora um antepassado de José Saramago metido em querelas políticas de outras tonalidades e anteriores  à crítica da globalização que o português tornou um adesivo à sua figura de escritor.
A extensão não prevista da postagem não recomenda, mas quem chegou até aqui merece a reprodução de pelo menos um trecho para entender de que prosa se está a falar: o parágrafo em que Dickens entra com a gente nas masmorras onde os condenados pela fase que ficou conhecida como “O Terror” esperam o beijo da guilhotina em seus inúteis pescoços . “Na escura prisão de Conciergerie, os que deviam morrer aguardavam seu destino. Eram em número igual ao das semanas do ano. Dos vagalhões da cidade para o oceano eterno e infinito, cinquenta e duas cabeças rolariam naquela tarde.  Antes que esvaziassem suas celas, novos ocupantes eram designados; antes que seu sangue se misturasse ao sangue derramado na véspera, aqueles que se misturaria ao deles já estava separado.”

domingo, 18 de março de 2012

Meus diários sem motocicleta




Como fazer um filme render um pouco mais a cada vez que é visto. E ainda evocar os amigos que com quem a gente foi construindo as várias etapas de um negócio complicado, divertido, belo e surpreendente chamado vida




A primeira vez em que assisti a "Diários de Motocicleta" achei o filme propositadamente largado, como se fora essas bandas de rock atual que, copiando o desprendimento pop de Los Hermanos, apresentam-se em camisas quadriculadas e tá bom demais. Quanto menos glamour, mais verdade - o que, evidentemente, acabou virando outro clichê, ou seja, uma nova inverdade que acabou de ser inventada e assimilada. Ao filme: a culpa pela má impressão foi mais minha que dele. Já disse uma vez neste gasto blogue mal alimentado que a apreciação de um filme depende muito de um certo elemento exterior à luz, ao roteiro, à interpretação dos atores, ao estilo visual, ao ritmo e todos os outros quesitos pelos quais a fita na tela ou no DVD caseiro pode ou não nos atingir em cheio. Este estranho elemento somos nós mesmos, a nossa disposição naquele dia, o clima interno segundo a meteorologia pessoal do momento. Digo isso com base em minha recente (recente?) experiência de assistir a filmes (no cinema, em casa já houve avanços) quando posso e não exatamente quando quero. Sou do tempo - essa digressão vai longe mas já-já eu volto ao ponto - em que se tomava banho e se vestia uma roupinha legal para sair de casa naquele passeio quase ritual rumo ao cinema da rua. Isso aí ficou impregnado até hoje - não tem banho que tire ou pelo menos desbote. Como as circunstâncias mudaram, vejo-me procliticamente obrigado a ir ao cinema depois do trabalho - resultado: quem sofre é o filme, sobre cuja pessoa eu despejos meus incômodos. Pra resumir: um cansaço acumulado de uma jornada de trabalho é, pra mim, a melhor maneira de estragar um filme de que, de outra maneira, eu iria gostar muito.


Foi isso o que aconteceu com minha estreia em "Diários de Motocicleta" em sala escura e tela grande. Mas não apenas isso: havia uma expectativa por algo grandioso que o filme, obviamente, não é (e nem interessa se ele avisa isso num letreiro logo no início, que expectativa é que nem hábito, não sai no banho nem a poder de bucha seca). Enfim: esperava um painel latino de cores fortes, uma visão mais apaixonada de um homem por seu continente, algo mais apegado e menos distanciado do que o que me trouxe o filme. Intoxicado por essa expectativa, achei que Walter Salles quis fazer um filme "tipicamente independente", com aquela aura cool que acabou desprezando o calor de nosotros. Em parte, ele fez isso mesmo. A questão é que, ao fazer esta outra opção, ele também fez um filmão, embora com cara de filminho.


Só precisei rever "Diários de Motocicleta" mais uma vez para entender o engano em que caíra na primeira exibição. E passei a gostar cada vez mais do filme, progressivamente mais (permitam a redundância, mas preciso dela para dar conta do que pretendo dizer), abrindo novas portas a cada vez que o vejo e vejo de novo. E olhe que revejo muito este filme. Hoje mesmo o fiz. E depois de me deter, nas exibições anteriores, em aspectos como a forma intimista e quase sutil como o filme mostra o amor que o personagem devota à gente de seu continente, ou o tom quase documental de sequencias como aquela em que visita uma espécie de feira nos belos cafundós do Chile, ou ainda de passar o filme inteiro somente absorvido pela beleza deselegante e meio encabulada de campos e pequenas cidades por onde passam os amigos Ernesto e Alberto; depois de tudo isso, na exibição de hoje dei-me conta de que, além de ser um "filme de estrada" (se é o caso de catalogar e explicar seu fascínio para quem por ele se deixa fascinar), este é também um "filme de formação". Ok, tudo isso é muito óbvio, mas hoje, pra mim, sobressaiu, muito mais do que a juventude de um futuro mito, a convivência de uma dupla de amigos recriando a vida em aventuras em comum numa determinada fase da existência. Não sou Guevara, não desci de Sierra Madre, tampouco tomei Cuba para os braços do sonho da igualdade revolucionária mas hoje assistindo a "Diários de Motocicleta" me lembrei dos amigos em comum com quem dividi períodos ricos da minha vida pequenina e invisível.


Grandes amigos e dificílimas figurinhas premiadas como Ítalo, Gilton, Tonho, Augusto Cesar, Jano, Carlão, Adriano, Renato e Plácido - estes dois últimos já na fase atual em Brasília. Cada um deles foi um companheirão nas jornadas que vão da infância no interior à juventude na capital, da descoberta de uma profissão às vivências da maturidade. São personagens do meu diário sem motocicleta, mas cheio de bons momentos. Esse post é dedicado a eles, todos eles.

quarta-feira, 7 de março de 2012

Gabo, 85



O primeiro Gabo vinha já trazia um assassinato sob encomenda, ruelas saturadas de cores latinas, parentescos e paixões carnais e cruzadas. Era “Crônica de uma morte anunciada”, que capturei entre as jóias dispersas nas estantes da biblioteca municipal de Parelhas, interior do RN, cidade onde cresci. O acervo,  mal sabíamos nós inocentes aprendizes de leitores, continha um vasto manancial de pepitas numa cidade pequena e sem livrarias. Faltava um orientador, um cérebro capaz de tanger as aventuras literárias dos infantes. Mas, com na ausência reside a força, eu e os amigos nos metíamos entre aquelas estantes e, sabe-se lá com base em quais desígnios, separávamos o lixo cívico tão em voga nas infâncias dos anos 70 da moeda literária forte que também, como por milagre – nada a ver com o econômico de então – ali existia.

O segundo Gabriel Garcia Marquez deve ter sido mesmo o tijolo fundamental dessa América de nosotros, “Cem anos de solidão”, que certamente eu consegui em outra biblioteca. Um parênteses para encaixar a realidade dessa circunstância nas facilidades dos dias atuais: livros, naqueles tempos de estudante, raramente saiam do próprio bolso; livrarias eram vitrines onde o desejo fetichista de adquirir este ou aquele outro título se contentava em apenas projetar-se nos reflexos. “Cem anos”, então, tenho quase certeza, veio da Biblioteca Central da UFRN e foi devidamente devorado numa daquelas férias no interior em que se dava um tempo da universidade ocupando por tardes memoráveis de evasão mental os bancos da praça da cidade do interior. O clássico absoluto de García Marquez, nesta condição, fez companhia a coisas como “A ilha”  e “Olga”, de Fernando Moraes, e “O cavaleiro da esperança” e “Tocaia grande”, de Jorge Amado.  O banco da praça continua lá e pode confirmar tudo isso. Anos mais tarde houve uma releitura a partir de um volume baratinho, desses de promoção das bancas, adquirido num feriadão em Fortaleza. Releitura é o máximo: a gente esquece da importância das vitaminas para o corpo e fica só sentindo o gostinho do prato.

Depois da primeira leitura de “Cem anos”, veio “O amor nos tempos do cólera”, aquela leitura prazerosa que se faz quando já se estabeleceu uma sintonia anterior com um dado autor. Gabo era como vizinho, companhia para os dias de domingo enquanto o sol e o vento natalense batiam com carinho nas vidraças da janela da Residência Universitária Campus I, apartamento 11 – o célebre  apartamento 11, permitam esse enxerto – onde fez companhia a Bukowski e um bocado de malditos de estimação.  “O amor” foi o primeiro Gabo de próprio bolso, resultado da renda de repórter iniciante, tomado pela paixão a um ofício. Bons tempos.

Recentemente, Gabo reapareceu nas mais de 500 páginas em espanhol de “Viver para contar”, que comprei em Buenos Aires e li no original, certamente perdendo muito da informação objetiva que o livro traz mas tão certamente quanto saboreando muito mais a musicalidade da escrita primeira desse texto memorialista. “Viver para contar”, como acontece com livros marcantes, sempre vai me lembrar o tempo e lugar em que foi lido, no caso dele os oitões, sombras de árvores e calçadinhas da casa onde morei no Lago Norte, em BSB Citi. A edição propriamente dita caiu no fosso de um momento de extremo desapego que me acometeu quando nos mudamos da casa de volta para este apartamento aqui no Sudoeste. Doei pilhas de livros para uma escola pública de segundo grau na Asa Norte, entre eles meu “Viver para contar” salpicado de grifos e ainda cheirando à ansiedade que vazava dos meus olhos enquanto o decifrava com meu espanhol de terceira.

Outros Gabo virão antes que o próprio complete os cem e se iguale em longevidade ao arquiteto brazuca que todo dia ri da morte.

sexta-feira, 2 de março de 2012

A arte do silêncio



Há filmes que são uma evocação (“Cinema Paradiso”), como há outros que são uma epopeia (“O poderoso chefão”). Há filmes que são um poema (“O Carteiro e o poeta”), como há filmes que são um ensaio (“A árvore da vida”). Há filmes que são uma fantasia (“O mágico de Oz”) e há outros que são uma denúncia (“São Salvador, o martírio de um povo”). Há filmes que são um libelo (“Cabra marcado pra morrer”) e há filmes que são um hino (“Hair”).


"O Artista” é um estudo. Nada professoral, nunca pedante, jamais formal, de maneira alguma didático, mas um estudo, sempre, mesmo quando não parece – e quase sempre isso acontece. É um compassado estudo áudio e visual sobre como uma mudança de tecnologia pode interferir na poesia narrativa e na magia encantatória de uma arte como o cinema. Filmado em branco e preto, naquele formato dos filmes mudos e praticamente sem falas (mas com ruídos e intervenções sonoras meticulosamente precisas para sensibilizar a audição visual do público), “O artista” passa como uma valsa dos anos 30 na nossa frente, dançando na sua melodia evolutiva muito própria, enquanto discorre, disfarçadamente como um mágico de calçadão, sobre os mecanismos internos de seu artesanato.

Se fosse literatura, “O artista” seria uma novela, de páginas com entrelinhamento bem diluído, como aqueles textos que, por ocuparem pouco espaço no papel têm o poder de fazer mais vívidas cada uma de suas palavras. São os artifícios deste estudo que lembra, no enredo, na aparência e na combinação de seus vários elementos um  cruzamento de “O garoto” com “Farrapo humano”, mas batido numa tigela tal de culinária cinematográfica que a calda final resulta mais fluida assim como o verso soa mais etéreo que a prosa. Chapliniano pelas artes de um cão que só falta falar em cena – o que não seria menos lírico num filme que se vale tão bem dos sons do silêncio – “O artista” tem o poder de decantar, enquanto é projetado, todo a algaravia do cinemão atual, toda a potência estéril de mil “Velozes e furiosos”, todo o ribombar inútil de toneladas de “Transformers”.

“O artista”, o filme que é um estudo, só é professoral neste sentido de pedir silêncio na sala para que a aula de cinema seja o mais completa quanto for possível. Pena que o barulho dos dentes cravejando pipocas de adultos infantilizados na fila ao lado nem sempre permita a totalidade da imersão. Mas seria querer demais.

2012 cabalístico


O fim do mundo, está claro, é alguma coisa assim como o tal do gosto: cada um tem o seu e não se discute. Ou melhor: os seus. Ou vai dizer que seu mundo nunca acabou pelo menos umas três vezes para que outros se instalassem no mesmíssimo lugar? Quem tem pelo menos quatro décadas de vida já deve ter passado por ao menos uns três fins de mundo, caso contrário tem algum problema. Pode até não ser o fim do mundo, mas um divã de analista ou ombro amigo já ajuda a resolver. O fato batidíssimo é que este 2012 tornou-se, meio sem que a gente se desse conta, meio que aos poucos, comendo pelas beiradas das ideias, numa promessa de ano bem divertido que já vai se cumprindo. Bastou uma teoria, uma profecia, um calendário exótico, uma maldição pop pra dar uma outra cara aos presentes 365 em vigor: 2012 é o ano do fim do mundo. Mais um, diria você. Aproveite, diria eu.

Aproveite exatamente não no sentido que lhe deu aquele samba de Assis Valente, “E o mundo não acabou”, brilhantemente interpretado, entre outros, por Eliete Negreiros naquele seu disco “A Canção Brasileira – Nossa Bela Alma”, um CD tão bom, mas tão bom que depois de ouvi-lo você não ia se importar nada se o mundo simplesmente se acabasse como quem renuncia à mera possibilidade de haver algo mais tocante. Mas o assunto aqui não é música: é o fim do mundo. E, como dizia, como tantas outras coisas ele não é único – apesar de implicitamente trazer essa condição embutida. Explicitamente, esse fim do mundo definitivo cai na folia e se transforma em algo multicultural como o carnaval de Pernambuco. Por assim dizer, tem fim do mundo em forma de troça, de bloco lírico, de maracatu, de caboclinhos, de potentado pop no Marco Zero e, claro, fim do mundo bem carregado, tipo Rec Beat.

Pra comprovar a diversidade dos fins do mundo você nem precisa ir muito longe: analise os seus e tá esclarecido. Eu, por exemplo, tenho minha pequena coleção de relicários apocalípticos no museu da memória. O primeiro deles foi o incêndio de um supermercado que presenciei criança na minha cidade de origem, Parelhas, Seridó potiguar, numa noite em que, como num filme com trilha de John Williams e direção de Spielberg, a cidade inteira foi acordada aos socos nas portas durante a madrugada pra tirar o time de casa e rumar para a zona rural em caminhões improvisados. Tudo porque o mercadinho Tem-Tem (não ria, o caso foi sério e o risco altíssimo) estava em chamas. Sabe o que tinha ao lado do super? O posto de gasolina da cidade, com tanques cheinhos, pronto para liberar todos os cavaleiros da cisão final. Tá de bom tamanho ou precisa mais?

Tem o dia do terremoto em João Câmara, que ocorreu no trairi potiguar mas também sacudiu Natal e fez dançar o chão e cantar as janelas da residência universitária onde eu morava então, nos latifúndios da UFRN. O trote percussivo dos moradores da residência – todos homens, cada um mais macho que o outro – fugindo em disparada no corredor  do primeiro andar para salvar a vida enquanto tudo balançava foi algo como ouvir a cavalgada das sete bestas do Apocalipse sem saber bem como e porquê. Enfim, como dizem os especialistas no assunto – aquele pessoal que pega um tema árido e logo o envolve em mil camadas de análises filosóficas, metafóricas e pop-divertidas – o fim do mundo é muito pessoal mesmo.

O lance legal do calendário maia que torna 2012 essa diversão em forma de medo é um tal alinhamento astronômico que só acontece a cada 26 mil anos, com o sol no centro e os planetas da Via Láctea todos em linha reta com ele. Eu leio isso e fico pensando no torcicolo que acomete os astros para que tal configuração se realize: é o fim do mundo mesmo; e quem sofre recorrentemente de dor no pescoço por causa dos malditos travesseiros que prometem, prometem e nunca garantem uma noite boa sabe do que estou falando. Também estourou aí – estourou é um verbo aleatório, sem segunda leitura, por favor – uma história sobre um tal de 2003 QQ47, que seria uma sobra de explosões do sol correndo desembestada na direção de algum lugar entre a barragem Gargalheiras em Acari Citi e os recortados litorais japoneses. Mas, fala sério, com uma denominação científica como essas – 2003 QQ47, que mais parece o nome verdadeiro do X3PO da Guerra nas Estrelas – não vai dar não.

Medo pede apelido forte, tipo... “mensalão”, pronto. É pronunciar e não precisa explicar mais nada:  o negócio é matar ou morrer – e a racionalidade que se dane junto com o mundo. Nem vou botar Nostradamus, a Bíblia e Delúbio nesse papo. Deixa os caras em paz que o assunto aqui é algo grande demais pra gente se distrair com os vai-e-vem do Supremo Tribunal Federal. Tá bom: só pra fechar a analogia sobre fim de mundo e renascimento, não custa lembrar que quando explodiu (sem trocadilho) o tal escândalo, não faltou quem decretasse o fim do mundo para Lula e o PT, sem saber que junto com essa sentença estava também eliminando por antecipação toda a mudança econômica e social que ainda estava por vir e mudou a face do Brasil como há muito os brasileiros esperavam. Mas, pensando bem, quem agiu assim estava mais era torcendo contra do que analisando, como aliás se tornou hábito a partir de alguma semana do ano de 2003 na imprensa em geral.

Por falar nisso, algum especialista já tentou aplicar o conceito de fim do mundo à maneira como o Brasil lê sua imprensa ou vice-versa? Sugiro que a pesquisa comece por dois jornaisrecém-fechados na Paraíba. Eu disse que o Armagedon é um cara de muitas faces. Escolha a sua e divirta-se. E não perca tempo, que é só até dezembro.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Coração pernambucano









Festa e folia, arte e diversão, antigo e renovado, sagrado e esculhambado, é assim Pernambuco, ainda mais durante o carnaval

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Jornais, verdade e ficção



O que há em comum entre o fim de dois jornais na PB, o novo vespertino lançado por “O Globo” e um velho filme que demonstra o quanto perdeu a validade a expressão “parem as máquinas!”


A passagem do tempo dá novo sentido às palavras. E o que era uma expressão de quase júbilo pode se transformar em um lamento de fracasso. “Parem as máquinas!” era o lema sonhado por dez entre dez jornalistas do velho “A República” (Natal-RN) até o “New York Times”. Era a suprema aspiração de ter nas mãos uma notícia tão bombástica que valeria a pena o custo financeiro de suspender a impressão de um jornal pronto pra chegar às mãos do leitor. Pois a partir desta semana, com o fim das atividades de dois jornais tradicionais na Paraíba, aquela sentença ganhou o sentido mais literal e menos desejável possível: parem as máquinas, agora, significa isso mesmo. Fim. Adeus jornal. O modelo de negócios não se sustenta mais, embora ainda não saibamos bem como substituí-lo.

Mas tentativas existem, como mostra o lançamento, praticamente na mesma semana, de um outro jornal: o novo “vespertino” lançado em edição eletrônica para Ipad por “O Globo”. Diante da novidade, meus olhinhos viciados em letras impressas em papel ganham o brilho muito especial que dedicam às coisas às quais não tem acesso – ainda. Ocorre que a edição eletrônica de toda tarde que “O Globo” acaba de lançar só pode ser visto nos tablets de seu Steve Jobs. Quem usa tabuletas movidas ao sistema Android – que é o meu caso, com meu tablete tapuia da Sansung – fica excluído por enquanto. Sabe a sensação que você tinha por volta de 1981, quando surgiam as primeiras rádios em freqüência modulada em Natal e seu aparelhinho (como quase todos, então) só captava emissoras em AM? É mais ou menos o que acontece agora. Por muito menos tempo, já que a velocidade com que as novas mídias estão se impondo não tem nem comparação com aqueles tempos pré-web.

Fato é que o fechamento de “O Norte” e do “Diário da Borborema” é mais uma janelinha que se abre no raciocínio de quem acha que esse papo de internet substituindo a mídia impressa de cada dia não passa de visão apocalíptica dos mass mídia. Lógico que ninguém precisa fazer um circo da interrupção das atividades dos dois jornais paraibanos – cujo fim também contém, naturalmente e para além da questão tecnológica, o veneno que marca as administrações desastrosas dos Diários Associados – mas fechar completamente os olhos para este, como dizem mesmo?, “case” é transformar convicção em teimosia. Ali ao lado, na capital de Poti, o que vejo de férias é um cidade que não se interessa por jornais – e jornais que não se interessam pela cidade. Nas bancas, páginas e páginas tomadas por reportagens feitas sem paixão, relator impressos sem ambição, abordagens desprovidas de originalidade. Há uma exceção em Natal atualmente, que é o Novo Jornal feito com um mínimo de “olho torno” – algo como aquela nota “errada” que determina a originalidade da visão musical do músico de jazz. Mas isso fica limitado ao noticiário, digamos, “humano” que o jornal busca, sob a competente direção do nosso amigo Carlos Magno Araújo. Um esforço notável mas que visivelmente escorre pelas páginas como letras impressas em decomposição líquida quando vai se aproximando uma campanha eleitoral. As eleições são ótimas para a democracia de Poti – e péssimas para o jornalismo potiguar, eis a nossa contradição.

Mas a impressão geral é de que os jornais “da taba” (como diria Ailton Medeiros, numa provocação que diverte e faz pensar, ao mesmo tempo em que reafirmar à maneira do blogueiro o amor que ele, de fato, como nós outros, tem pela cidade) afivelou-se num modelo que mistura anúncios do mercado imobiliário com colunas sociais que se ofuscam e se anulam. É o modelo de negócios em vigor: resta saber se e por quanto tempo ele se mantém. Mirem-se no exemplo daqueles jornais da Paraíba.

Ou se espelhem na aventura de “O Globo” que, embora sustentado pela rede de televisão dos seus donos (como disse Paulo Henrique Amorim na entrevista a Paulo José Cunha, em cartaz no site da TV Câmara, aqui), sente-se cutucado e procura novas maneiras de se reafirmar. Vejam a ironia: o melhor jornal do país (nem que seja tecnicamente falando e politicamente à parte, mas cadê os outros?) não se dá ao luxo de ficar parado, enquanto no Nordeste ainda semi-rural em termos de hábitos de leitura os veículos ainda se apóiam em anúncios de prédios e colunas sociais. Quem poderia se sentir confortável e manter tudo como está vai à luta conquistar o leitor das tabuletas eletrônicas. Quem perde leitor dia a dia insiste no modelo fadado ao fracasso. Onde chegaremos?


Já que antecipar o futuro sempre contém também seus riscos – e tomara que esta especulação esteja errada – bora dar um rewind até o início dos anos 90. Qual o melhor veículo para isso? O cinema, ora. Porque ao mesmo tempo em que me entusiasmava com a possibilidade ainda distante mas quase certa de ler o vespertino eletrônico do “Globo” e em que me entristecia com a morte de jornais na Paraíba, coloquei  pra ver no DVD o filme “O Jornal” (direção de Ron Howard, 1994), uma comédia quase maluca mas razoavelmente intelectualizada sobre um daqueles tablóides sensacionalistas lutando para se manter vendável nas bancas. Um negócio muito anterior ao Murdoch dos grampos e seu jornal londrino condenado. Um lance de quando essa briga de sangue no jornalismo popular ainda rendia piada – e um bom filme.

Está em “O Jornal” a célebre frase: Michael Keaton, aquele que já foi um dos Batmans e que anda bem sumido das telas, tem a chance de pronunciar a sentença pela qual tantos ansiavam e que hoje ficou obsoleta. Por que alguém diria “parem as máquinas” na era do jornalismo de internet? É só botar a notícia no site. Melhor: é só postar na rede social. Não precisa nem ser jornalista. Não precisa parar nada. O mundo não se dá mais ao luxo de parar – e, neste ponto, isso é ótimo. Neste ponto, isso também mostra o quanto o universo do jornalismo impresso mudou, por mais que o João Teimoso se apegue aos padrões de antigamente.

Enfim, e como curiosidade, o bom é descobrir, pra quem tem mais de 40 anos e viu o filme na época em que foi lançado (em VHS, claro, que os cinemas, pelo menos os de Natal, já estavam tão fechados naquele período quanto os jornais da Paraíba hoje em dia) que nem tudo saiu como a memória, essa traiçoeira, apregoa. Keaton, sim, pronuncia a frase célebre, trepado na escadaria de uma máquina impressora: “Parem as máquinas” (logo depois de seu colega de redação sublinhar: “vai, diga a frase, é a sua chance!”).


Nem por isso as máquinas param assim no automático como sugere a nossa imaginação apressada. Necas: ele precisa quebrar um vidrinho como aqueles que guardam extintores de incêndio e pegar uma chave que, essa sim, tem poder de interromper a impressão em andamento do jornal. E, no caminho dele há vários obstáculos. Basta citar um (e quem tem mais de 40 e costumava assistir a filme em VHS nos anos 80 vai me entender prontamente): Glenn Close, a toda-poderosa da redação, a carreirista insaciável que quando chega no topo morre de tédio e se vinga em todo mundo em volta (aposto que quem tem mais de 40 e frequentou alguma redação dos anos 80 pra cá vai lembrar de alguém parecido). Enfim, o “parem as máquinas”, acreditem, acaba em luta. Um UFC homem-mulher sem o menor brio politicamente correto (e quem lhes fala é um fã do politicamente correto, mas isso é outro papo) muitos anos antes de Anderson-qualquer-coisa. Devo dizer que, sim, em algum momento, as máquinas param...

Quer saber mais? Corra pras Americanas (esse meu merchandising involuntário que tenho de fazer a propósito de nota de serviço) e compre, por módicas 12 pratas, esse casual clássico contemporâneo e veja como funcionava uma redação de jornal sem o menor sinal de internet por perto e onde a máxima concessão que se faz em termos de tecnologia é exibir repórteres falando em celulares do tamanho de um tijolo feito pelas olarias de Parelhas-RN. Quem sabe assim você se atualiza: se os jornais de fato ainda não tiveram o poder de abrir seus olhos para o poder dessa transição, quem sabe não o faz um reles jornal de ficção?