domingo, 22 de maio de 2016

Um Brasil meio seriado do Netflix





Enfim vamos matar a saudade de Peninha, nosso historiador mais rock and roll

 
De tempos em tempos, a ansiedade do desapego me pega e – menos por moda do que por falta de espaço – sou forçado a me desfazer de pilhas de livros. Melhor pros sebos e, ao menos da última vez em que isso se deu, pras duas garotas com cara de estudante sem dinheiro que estavam na porta do Sebinho, na Asa Norte, e dividiram entre si todo o refugo que nem o estabelecimento de livros usados queria mais. Não porque fossem livros ruins (sim, eles existem), mas por serem, digamos, manjados demais – e comercialmente sem valor. O fato é que, nos desbastes periódicos de livros aqui de casa, tem uma série de três que sempre se recusa a ir embora. Por mais que eu tente – e, no caso dessa trilogia, admito que nem isso faço mais. Os intocáveis me olham do alto da estante cientes de que não correm risco algum. 

É a série Terra Brasilis, de Peninha – não o cantor, mas o jornalista e escritor Eduardo Bueno, um gaúcho com cara de carioca espevitado que está sempre tramando alguma coisa. Trama tanto que, às vezes – e é o caso aqui – deixa um desses trampos pelo meio do caminho, assim sem mais nem menos. Pois foi exatamente o que ele fez com a Terra Brasilis: lançou de um jato só os três primeiros volumes, que quem leu e gostou leu e gostou praticamente no mesmo ritmo em que Peninha os escreveu, e... pausa, intervalo, trégua... Como assim?

Depois de ler e nunca mais esquecer “A Viagem do Descobrimento”, “Náufragos, Traficantes e Degredados” e “Capitães do Brasil” – sobretudo o “Náufragos...” – o leitor da série de Peninha se viu obrigado a uma crise de abstinência mais cruel do que aquela que se abateu sobre um hipotético hippie que o escritor também foi depois de supostamente ter sido expulso de Woodstock ao final do primeiro show, sem direito de viver todo o resto. Como diria John Lennn, imagine.  

Voltando aos dias atuais, somente hoje descobri, lendo minha saraivada de jornais dominicais – e a cereja do bolo aqui também veio desta mesma maratona, abro logo mais – que houve, sim, um quarto volume. Que eu pelo menos nunca vi em livraria alguma. Peninha explicou à reportagem que o motivo da pausa foi o fato de ele já ter enchido os bolsos de dinheiro o suficiente graças às vendas dos três primeiros (que escreveu tão rapidamente devido à falta desesperadora do mesmo dinheiro que viria a provocar a interrupção; coisas de Peninha). Agora não tem mais importância; importa, sim, a novidade que o jornal me conta: o tal quarto volume vai ser relançado (assim como os três primeiros) e, cereja do bolo, Peninha está escrevendo um quinto volume, intitulado “França Antártica”, sobre toda aquela querela provocada pelos invasores franceses às voltas com Tamoios e Tupiniquins – o que, de uma forma muito Peninha de recontar a história, explica por exemplo a eterna rivalidade entre cariocas e paulistas. 

Faça como eu: aguarde o novo livro da série, que por sinal foi rebatizada apenas como “Brasilis”. E se a síndrome de abstinência voltar – você querendo ler de novo coisas como a explicação para D. João III ter demorado tanto a mandar um colonizador digno do nome ao Brasil, que seria Martim Afonso; sendo que, como em tudo em história, havia um objetivo não revelado por trás – o jeito é reler os três  primeiros. E o quarto, pra quem tem. De um jeito ou de outro, essa série é coisa digna de seriado do Netflix. Daqueles que lhe deixam a ponto de destruir a casa inteira se o sinal do wi-fi der uma oscilada bem no final do episódio.

terça-feira, 3 de maio de 2016

A luneta de Alceu

Inquieto como um frevo de rua, o filme mistura cangaço e circo numa maratona de alegorias 


O filme de Alceu Valença é um rock-xaxado de imagens inquietas, colhidas por uma câmera que dança o tempo todo, construindo um cinema movimentado como o músico, cantor e compositor que se arrisca em outra linguagem. Nada fica quieto muito tempo no filme que aposta em gênero consagrado o bastante no cinema brasileiro para não trazer riscos ao realizador: o cangaço. Claro que nesta “Luneta do Tempo” temos o cangaço alegórico, como se o filme todo fosse uma ópera popular movida a um programa  musical aplicado sobre os signos mais caros dos sertões nordestinos. 


Alceu mixa o mito do cangaço com o mundo dos circos mambembes mais pobres, extraindo disso um suco cultural que fala muito próximo a quem guarda os marcos daquilo que se convencionou chamar de Brasil profundo. E não faz feio quando se trata dos recursos técnicos que o cinema precisa saber usar. Vide as cenas de tiroteio, que podem levar o espectador à lembrança de faroeste americano de soberania técnica, deixando na poeira das caatingas os truques manjados do cinema novo mais decadente (não do inaugural, onde a precariedade técnica era, por si só, uma nova linguagem reconstruída).


Alegórico, colorido, festivo, dionisíaco, algumas vezes violento como a realidade que afinal também evoca, em muitas outras também lírico como se espera de um Alceu Valença, “A Luneta do Tempo” tem ainda o carisma instantâneo, imediato, direto e envolvente de nossa (para os potiguares) Khrystal, que, cantora magnífica que conhecemos, no filma mal precisa abrir a boca para expressar o que vai dentro de uma cangaceira ferida não no corpo mas no amor-próprio do sentimento ultrajado. Belo desempenho mudo de uma das nossas mais potentes vozes. Verás que mesmo sem lançar mão do seu instrumento vocal Khrystal preenche a tela inteira – e olhe que vi na tela generosa do Cine Brasília – com sua máscara de mulher tão magoada quanto decidida – e veja que ela está rodeada por ninguém menos do que Irandhir Santos e Hermila Guedes.



“A Luneta do Tempo”, como o próprio nome sugere, ainda brinca com a forma como a passagem do tempo faz pouco das realidades humanas, reconstruindo as tais narrativas conforme as circunstâncias. É o momento de metalinguagem do filme, quando uma sequencia da “realidade” do cangaço é refeita em forma de drama circense, estabelecendo, como sempre acontece nesses casos, um interessante diálogo interno do filme com o próprio filme. Com um desfecho não menos interessante.


Breve, exato, em grande parte convencional, sim, o filme de Alceu soa como um cordel redondinho, uma canção como essas que contam uma história emocionante, um drama de circo feito com os recursos de uma arte tecnicamente mais elaborada. Vai tocar você como boa música – mas é cinema, sim, senhor.

sábado, 20 de fevereiro de 2016

Nosso amigo Umberto

 


Vai-se o escritor inacessível com quem tínhamos a maior intimidade

Encontrei Umberto Eco pela primeira vez num aeroporto. O de Recife,  certamente em 1985, quando espiava títulos numa livraria com o amigo Ítalo Dantas. O Nome da Rosa já era aquilo tudo - campeão de vendas, número um na lista então muito respeitada daquela revista idem. Sempre tive uma queda por primeiros parágrafos. Se me conquistar ali, já foi. Capitulei em festa ante as primeiras palavras da narrativa do noviço Adso, variação e citação do célebre "meu caro Watson", já idoso, ao apresentar de maneira irresistível a aventura medieval de seu mestre Guilherme de Baskerville. 

Eu já sabia quem era aquele Umberto, claro. Como todo estudante de Comunicação, ouvira falar dele vagamente, nas aulas do não menos saudoso Rogério Cadengue, por causa de Apocalípticos e Integrados - que nunca li, como tantos outros; mas cuja metáfora qualificativa será para sempre um ponto de referência toda vez que surge um novo meio, um facebook, um twitter e quem sabe mais o que virá por aí.

Leituras de estudante: ao lado, a edição que eu viria a comprar e ler, mais barata, vendida nas bancas, depois do sucesso do lançamento original.








Umberto, como muito bem estabeleceu a colega Sandra Crespo num post no facebook (leia aqui), será sempre para essa nossa geração aquele farol iluminando caminhos lá do alto, com o perdão de tão gasta imagem (mas é isso mesmo, paciência). Como um amigo - um mestre, tanto quanto Baskerville foi para Adso - que vez em quando, nos momentos precisos, reaparece com uma novidade para nos orientar nos movimentos intelectuais que a vida exige, sugere, propõe. É o tipo da pessoa inacessível com quem temos a maior intimidade. 

É como Ítalo Calvino para Gustavo de Castro, como Drummond pra Rejane, como Paulo Freire para Guia Bezerra, como Hilda Hilst para Jeanne Araújo, como Ariano Suassuna para Renato Ferraz e por aí vai. Essa citação festiva de tantos amigos é pra isso mesmo: pra que fique clara a sugestão de como Umberto Eco estava próximo, mesmo sendo um celebridade (a merecer o nome) tão remota.

Vieram O Pêndulo de Focaut, que tive o prazer de ler duas vezes - a primeira durante um período de crise brava (essa de que tanto falam hoje é fichinha) no início dos anos 90 quando trabalhava na agência de Ricardo Rosado e Solino, em Natal (faltava dinheiro para anúncios e anunciantes, a sede da agência estava sendo construída e enquanto isso a gente se esbaldava na biblioteca particular de Ricardo, na casa do próprio em Capim Macio, em Natal). A Ilha do Dia Anterior já foi justo na transição para Brasília: horas de recolhimento em meio à mudança de cidade num dos quartos do apartamento de Adriano e Flávia na 216 Norte. Era maio, na alta noite a temperatura descia para 15 graus e a leitura de Umberto Eco me aquecia. 

Nas jornadas mais acadêmicas, já havia passado em Natal pelas ideias de Sobre o Espelho e Outros Ensaios e Viagem na Irrealidade Cotidiana (da biblioteca sempre aberta de Caro de Souza) - inspeções semiológicas em que ele demole parques e simulacros do mundo do entretenimento tipicamente americano, como o shopping center - inexistente em Natal naquele momento. Serviu-me de empurrão, de referência sociológica, para muito texto nos jornais locais. Inclusive para o Natal Shopping logo que ele foi inaugurado. Acho até que exagerei, mas esse arrebatamento era próprio do momento e da idade.


Os ensaios de semiologia que destruíam shoppings e simulacros: empurrão para analisar cidades em mudança no final dos anos 80.













Em Brasília vieram outros (Segundo Diário Mínimo; Como Fazer uma Tese; Seis Passeios pelos Bosques da Ficção), mas Umberto Eco me deixou dois livros em casa ainda não lidos - Baldolino e A Misteriosa Chama da Rainha Loana - além de outros que ainda nem peguei na livraria, como O Cemitério de Praga e esse interessante O Número Zero, espelho do jornalismo embaçado que temos hoje em dia. 

De maneira que o escrito vai continuar vivinho aqui, à distância curta que separa um braço de uma estante de livros. Vivo também no rosto do amigo Ítalo, que gosto de dizer brincando que a idade transformou num sósia do semiólogo italiano. Vivo na memória que cada livro evoca, assim como nas associações que existem entre esses livros, essas memórias e os meus próprios amigos. 

Amigos a gente encontra, ao mesmo tempo em que grandes escritores a gente lê. Esse é o legado pessoal que Umberto Eco deixa pra mim. Examine aí o que ele deixou pra você: não tem homenagem melhor para um escritor que se vai ao mesmo tempo em que se deixa ficar, com firmeza e saudade, nessa matéria passageira por excelência que é a nossa imaginação individual e coletiva. Obrigado, Umberto Eco.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

O listão do Leitor Bagunçado




De Muirakitan a Fritjof Capra, de Padura a Oliver Sacks, foram muitas e diversas as vozes que me distraíram da crise em 2015

Nem os agraciados do Enem, tampouco os aprovados para o Oscar. Antes que janeiro feche as portas, é preciso que o Leitor Bagunçado aqui - o apelido auto-aplicado, para os recém-chegados no blog, decorre de autopiadas feitas no Twitter em priscas eras - precisa fazer cumprir uma outra tradição em forma de lista: publicar a relação dos livros que leu no ano anterior; aquela mesma que pode ser consultada a qualquer hora enquanto o tempo escorre na ampulheta lá na template da Hamaca, o blog irmão (neste 2016 já temos dois registros).

Pois bem, em 2015 não houve crise na economia decodificativa do Leitor Bagunçado. Manteve-se o caos (com exceção da trilogia de Lira Neto, notável sobretudo no volume 2, pra se entender como se engendra uma ditadura; e isso é mais sutilmente e menos organizadamente do que se supõe; eis pra mim o grande mérito da série biográfica); regatou-se antigos autores (como sempre, de vulgares reputações, mas fazer o quê, se o vínculo sentimental é maior que tudo?); leu-se ao léu como convém à justificativa da alcunha.

Assim a título de avaliação mínima desse balaio de escritos, pode-se dizer que Leonardo Padura e Amos Oz foram boas descobertas, que uma releitura de J. D Salinger veio bem a calhar nesses tempos de desinteligência obtusa, que Oliver Sacks merece continuar sendo explorado em sua feliz mistura de ciência, letras e senso de humanidade, que Morris West será sempre uma lembrança recorrente, que Fritjof Capra precisava ter sido lido há mais tempo (mas combinou bem com minha crise de hérnia de disco), que Fernando Morais continua fera (e me deu assunto pros papos com meus amigos cubanos do Mais Médicos de Acari-RN), que é uma emoção a cada página ler Muirakitan Macedo contando pra cada seridoense a nossa própria história e finalmente que José de Alencar é mesmo aquele potentado, com já alertava há mais de vinte anos o saudoso Ariano Suassuna. Direto à lista, sem mais quês e tais:


.  GETÚLIO 3 - Lira Neto
  • GETÚLIO 2 - Lira Neto
  • GETÚLIO 1 - Lira Neto
  • FRANNY E ZOOEY - J.D. Salinger
  • A ILHA DOS DALTÔNICOS - Oliver Sacks
  • OS ÚLTIMOS SOLDADOS DA GUERRA FRIA - Fernando Morais
  • PROTEU - Morris West
  • RÚSTICOS CABEDAIS - Muirakytan K. de Macêdo
  • DA MINHA TERRA À TERRA - Sebastião Salgado
  • ERA NO TEMPO DO REI - Ruy Castro
  • O PREÇO - Arthur Miller
  • O PONTO DE MUTAÇÃO - Fritjof Capra
  • PAVÕES MISTERIOSOS - André Barcinski
  • CIDADES DE PAPEL - John Green
  • AS MINAS DE PRATA - José de Alencar
  • CARNAVAL NO FOGO - Ruy Castro
  • PILATOS - Carlos Heitor Cony
  • ON THE ROAD - Jack Kerouac
  • O VIAJANTE DO TEMPO - Ray Bradbury
  • 24 CONTOS - F. Scott Fitzgerald (trad.: Ruy Castro)
  • CINCO MAIS CINCO (OS MAIORES FILMES BRASILEIROS EM BILHETERIA E CRÍTICA) - Carlos Diegues, Luiz Carlos Merten e Rodrigo Fonseca
  • UMA CERTA PAZ - Amós Oz
  • O HOMEM QUE AMAVA OS CACHORROS - Leonardo Padura

  • segunda-feira, 24 de agosto de 2015

    Uma frasqueira entre muitas botas




    Dois festivais de teatro em Brasília trouxeram para o potiguar que vive aqui duas oportunidade de ver dois dos espetáculos mais comentados feitos na cidade de Poti em tempos recentes. Primeiro foi "Guerra, formiga e palhaços"; depois, "Jacy". Duas imersões na nossa fala, duas contemplações nos nossos rostos, dois prazeres espelhados com um intervalo de tão poucos dias que é como se estivéssemos nos tempos de "Papai pirou nas ondas do rádio" ou de "Quem beliscou Paulinho?", nas poltronas do TAM (Teatro Alberto Maranhão para os não-iniciados ou esquecidos). Mas foi aqui, Brasília, Teatro Goldoni e Teatro do Sesc, meados de 2015, um ano difícil. 

    Fácil é acionar os botões da memória e da empatia. Sobretudo pela qualidade do que vimos. Muito já foi dito, aqui e alhures, sobre os dois espetáculos: da feliz incursão de César Ferrario no texto - que o povo do teatro diria "na dramaturgia" - ou do retorno ao palco de Quitéria Kelly. Para os não-locais, preciso dizer que César é ator, do grupo Clowns de Shakespeare, cujos integrantes, depois de praticamente construírem uma plateia própria com uma série de espetáculos primorosos, parecem estar buscando novos caminhos. E que Quitéria é um bom-bom de chocolate amargo em forma de pessoa, mulher e atriz - uma outra referência do nosso teatro. Mas que referência!

    "Guerra, Formiga e Palhaços" é uma alegoria feita a partir de um tema até batido, que é o absurdo da guerra. Daí para atingir o patético do ser humano é um tiro. Sobretudo quando se coloca um palhaço no campo de batalha: está armado o acampamento que agiganta cada uma das nossas minúsculas fraquezas. "Jacy" é um bric-a-brac que convida o público a montar junto com os atores o espetáculo - sem recorrer a certa empulhação do teatro interativo; o papo é outro. Reconstitui-se, camada por camada, a vida de uma mulher potiguar com esmero, deleite e perícia cênica a partir de um texto a princípio meio testemunhal, semidocumental que, pressente-se e o espetáculo felizmente confirma com celebração, vai desaguar na mais plena ficção.

    Há um elemento em comum entre os dois espetáculos, embora de temática tão diversa - quase opostas. Não são os atores, nem o texto, nem o ritmo - embora esse elemento interfira e enriqueça todos esses outros. O que há em comum entre "Guerra, formiga e palhaços" e "Jacy" é um elemento de cena - extremamente presente no primeiro e apenas referencial no segundo. 

    Em "Guerra" são as botas cobrem o chão do palco e caem como bombas sobre os atores, espalhando uma infinidade de sentidos conforme se assiste ao espetáculo, servindo aos atores como verdadeiras formas móveis, tristes Lego que eles usam para fazer a peça se deslocar para lá e para cá. As botas, em "Guerra..." só faltam falar - garanto que você jamais viu um elemento de cena tão marcante no palco de um teatro (especialmente se tratando de palco de arena; num palco italiano talvez o efeito não seja tão intenso). 

    As botas são ali o chão irregular em que se movimentam os personagens, o piso hostil que sustenta a guerra, o relevo nada confortável em que se finca nossa débil humanidade, o testemunho mudo das caminhadas do soldado sem rumo, a memória que se gruda como lama nas solas furadas de quem não tem mais para onde ir. Trata-se de um elemento de cena que, presente o tempo inteiro, caindo do céu ou revirando-se em terra, envolve tudo. A moldura sem a qual o espetáculo não seria o mesmo. E estamos falando de um texto que já conta com as formigas, outra forte metáfora de nossa condição em momentos de perplexidade total.




    Em "Jacy", o elemento de cena definitivo e definidor é uma frasqueira - uma pequena valise daquelas que as mulheres usavam nos anos dourados, caixa luxuosa de perfumes, espelhos e pó compacto. Sua mãe, sua avó ou sua tia há de ter tido uma. Mas o processo é outro: se as botas abraçam tudo em "Guerra", aqui a frasqueira é ponto de partida, elemento provocador do espetáculo inteiro. É a partir dela - encontrada num amontoado de lixo nas ruas de Natal, conforme contam os atores no espetáculo e fora dele - que se dá uma investigação minuciosa, nostálgica, irônica, política (sim!), sensível mas também em certos momentos quase festiva sobre sua proprietária - a Jaci do título. 

    O grupo Carmin de teatro montou um inventivo quebra-cabeças teatral a partir desse argumento. De dentro dessa frasqueira simbólica e arquetípica vai saindo não apenas a história de uma mulher potiguar - como tantas que você conhece, e invoco novamente, com todo respeito, sua mãe, sua avó ou sua tia - mas também a alma de uma cidade inteira, Natal. 

    A história de Natal, seus encantos e suas mancadas, cabe na frasqueira de Jacy, minha gente. De dentro desse antigo apetrecho feminino sai a Natal da II Guerra, uma extremamente bem montada reconstrução de nossa triste ancestralidade política, um pequeno e doloroso conto sobre a solidão da velhice e, acredite, até o vento do nosso litoral. Vide a cena final, quando ele mesmo, esse vento reproduzido com a ajuda de quatro ventiladores, espalha pelo teatro as folhas soltas desse quebra-cabeças que nós, plateia abençoada pela dádiva inesperada, remontamos guiados pela graça de Quitéria e pelas ironias de Henrique Fontes.

    É enciclopédico o prédio dramatúrgico que "Jacy" ergue sobre o palco, numa montagem cheia de excelentes ideias. E são tantas - os cartazes com slogans embaralhados; o jogo entre o Jacy homem e a Jacy mulher; as referências mil que embora digam respeito a Natal não tiram do texto o alcance geral - que, mal você teve tempo de deglutir uma e já lá vem outra. Eis um espetáculo para ser visto várias e várias vezes. Ao final, cada integrante do público leva para casa, para o bar ou para o restaurante pós-espetáculo sua Jacy particular, uma personagem - para usar uma palavra da moda - "customizada" conforme o potencial imaginativo - e sobretudo sentimental - de cada pessoa que assiste ao espetáculo. 

    Eu saí com a lembrança da minha mãe e da frasqueira que ela de fato tinha - e tudo o que elas são capazes de evocar. Saí com a saudade de uma cidade que adora se menosprezar mas para a qual todos, mais cedo ou mais tarde, voltam. Saí com uma explicação para esse retorno, que é cobrada em cena de maneira que nunca imaginei ser possível num espetáculo de teatro: - "Porque Natal, para além de tudo, é uma cidade doce"; essa seria a minha explicação, Quitéria e Henrique, Pabro Capistrano e Iracema Macedo (esses últimos, os autores que conseguem dar harmonia a essa bagunça toda que somos nós).

    E saí também com uma desconfiança: é crível que a frasqueira tenha sido encontrada no lixo, dando um pretexto documental para a peça; mas é mais crível ainda que tudo, absolutamente tudo, tenha sido inventado. Nessa hipótese, não haveria prejuízo algum: pelo contrário; ao ser capaz de revestir essa história com tamanha impressão de realidade, criando uma ficção pura a partir de um recheio ora falso ora decorrente de informações históricas verdadeiras, o espetáculo se torna ainda mais encantador ao revelar quem foi essa Jacy e dar pistas sobre quem somos, de fato, nós - seus conterrâneos da capital e do interior.


    Jacy pode até não ter existido, mas está por todo canto. Como as botas que brotam do chão da guerra.

    sábado, 16 de maio de 2015

    Memórias do alvorecer






    Quando a nostalgia se torna muito mais que um vício e um posfácio vale tanto quanto toda a tradução de um clássico beat


    Há frases que esmagam com carinho o coração do Leitor Bagunçado. Há trechos de textos que massageiam com dedos divinos as cordas de sua emoção. É o que ocorre, e acaba de ocorrer, quando ele depara com as rápidas memórias de Eduardo Bueno - o Peninha daquela série sobre a história do Brasil infelizmente interrompida - ao final do relançamento, pela L§PM, do On the road de Jack Kerouac. 


    Relembro que a edição resulta da tradução feita por Bueno e lançada originalmente em 1984, quando pela primeira vez o clássico beat foi vertido pra o português brasileiro (o máximo que havia antes era uma edição lusitana de título risonho - Pela estrada afora - como conta o próprio Peninha). 

    E chego ao ponto acrescentando que, além da tradução, o relançamento, já nem tão relançamento assim (que o Leitor Bagunçado segue fiel ao seu atraso regulamentar) traz prefácio e posfácio escrito pelo mesmíssimo Eduardo Bueno. Aí é que estão as tais cordas da tal emoção dedilhada de que se falou lá no início deste tortuoso texto: Bueno, a propósito de falar sobre as circunstâncias de sua tradução, traz de volta registros de um tempo que tanta falta faz aos tempos atuais. 

    Não é nem nostalgia, embora esse seja um dos meus mais deploráveis vícios: é cotejamento puro e simples de uma época com outra, dado o volume que tomou a carga conjunta de maldade, ignorância e arrogância que pisa sobre os nosso dias, como se vivêssemos qual formigas sob as botas de um ogro de manifestação reaça. Mas nunca chego ao ponto principal: ei-lo, a seguir, nas palavras contidas no dito posfácio, embora com ligeira edição para o melhor entendimento do que é dito aqui com infeliz inexatidão.

    "E tudo parecia maravilhoso (Bueno se refere ao lançamento de On the road, às séries da editora Brasiliense, como Cantadas Literárias e Circo de Letras, ao surto de edições no Brasil dos papas da literatura beat chegando a Bukoswki e John Fante). Era a época da abertura, das Diretas Já, do rock paulista, da geração saúde, do Circo Voador, do Carbono 14, do primeiro Rock in Rio, do Pra começo de conversa e de outros babados mais. Era o alvorecer dos anos 80, e havia muitas promessas no ar, com aquela gente voltando para a caserna de onde não deveria ter saído."





    Outro trecho, complementar:

    "Como eram bons os tempos do Plano Cruzado - aquele que mostrou que os brasileiros gostam de ler, sim; que só não compram livros quando custam meio salário mínimo, ou seja, quase sempre - e como ninguém que entenda alguma coisa de literatura dá bola para o que os críticos dizem, os beats continuaram sendo publicados e vendendo muito bem, obrigado. Mas aí acabou o Cruzado, Caio Graco (dono da editora Brasiliense) morreu, eu saí da L§PM, Lima e Ivan(L e PM, respectivamente) continuaram sua carreira editorial com outros títulos e outras trilhas, e a tardia onda beat no Brasil esmoreceu, como tudo um dia esmorece."

    Depois disso, só desejando, neste outro tempo deste outro Brasil, tão absurdamente diverso daquele: "esmorece, mediocridade; e rápido, antes que tudo esteja perdido."

    sexta-feira, 17 de abril de 2015

    O Sal, a Terra e o drama


    Muito mais do que um documentário convencional, "O Sal da Terra" divide com o público o encanto e o desespero por trás das fotografias de Sebastião Salgado 

    Quem for ao cinema para ver "O Sal da Terra" esperando uma mera cinebiografia do fotógrafo Sebastião Salgado vai tomar um susto. Um susto cinematográfico, caso os olhos estejam kubriquianamente bem abertos e a sensibilidade em ponto máximo. Ao contrário de "Revelando Sebastião Salgado", esta sim uma cinebiografia convencional no nível médio dos canais de tevê por assinatura (por acaso em exibição no Canal Brasil; e disponível na íntegra no YT - veja aqui), o filme de Wim Wenders (em parceria com o filho do fotógrafo; mas a mão do alemão por trás de tudo é dominante e evidente demais para que se dê crédito equilibrado à parceria) é o estudo de um artista sobre outro artista. Um encontro de sensibilidades sociais e estéticas, como raramente se pode testemunhar, uma vez que se sabe: talentos superiores geralmente tendem a rejeitar seus semelhantes, antes investindo na competição do que na cooperação.

    Mas estamos falando do mundo de Sebastião Salgado, onde a foto-celebridade do atentado a Ronald Reagan é apenas um ponto na trajetória - um êxtase da fama que o fotógrafo tem a grandeza de não hipervalorizar. Talvez por isso o episódio - menor na trajetória do mineiro que se notabilizou ao descobrir a fotografia enquanto trabalhava como uma espécie de economista social na Europa - esteja ausente do filme de Wenders, causando estranhamento em que esperava um trabalho linear, jornalístico - e com tudo o que o critério jornalístico tantas vezes tem de redutor e empobrecedor. 

    Portanto não espere de "O Sal da Terra" um trabalho tecnicamente considerado "documentário", porque vai muito além disso. Há ali uma dramaturgia em que a trajetória de Salgado é apenas espelho para o confronto entre um homem e o mundo atual. Poderia ser a descrição de como um antropolólogo se viu perdido e inseguro após estudar com profundidade as formas de vida das várias humanidades espalhadas por sobre o planeta. Poderia ser o mesmo fenômeno tendo como protagonista um economista, um cineasta, um artista plástico (algo que, só pra comparar, ocorreu também com rara felicidade em "Lixo Extraordinário"que o artista plástico Vik Muniz fez a partir dos catadores do Jardim Gramacho). O resultado dessa excursão aos limites da vida humana e do mergulho que um fotógrafo faz neles tem a dramaticidade conjunta de um "...E o vento levou" mais "Luzes da cidade" mais "Era uma vez na América" mais "O sol que nos protege" mais "Pixote" e muito outros títulos. Assistir a "O Sal da Terra" é como ver todos esses títulos juntos, porque a cordilheira de emoções que o filme lhe convida a percorrer é dessa enverdura pra cima. Reforçando: algo difícil de se esperar e de se ver num documentário - daí porque se trata de muito mais que isso.

    Dos dramas dos deserdados africanos à miséria do interior nordestino no início da década de 80, passando pelo esplendor de ambições enlameadas que foi Serra Pelada e culminando com a crise do artista depois de documentar tantas imperfeições humanas, tudo em "O Sal da Terra" exige entrega, sensibilidade, espírito desarmado e aquela espécie de subjetividade que o pobre jornalismo - essa academia mal construída de generalidades apresssadas - não tem condições de conter, quanto mais de compreender. Não se trata mais de um filme, mas de um daqueles eventos que só ocorrem de tempos em tempos. É é pra ser visto, na sua calma contemplativa e no seu impacto de empatias, em tela grande, no cinema propriamente dito.  

    sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

    "O rio chegando com água"




    Uma notícia que nada completamente contra corrente do noticiário atual pra encerrar bem a semana: o que o video mostra - as águas decorrentes da volta das chuvas no sertão paraibano tornando a preencher o leito seco do rio Taperoá, na cidade do mesmo nome, situada a 200 e poucos quilômetros de João Pessoa, ainda no chamado Seridó Paraibano; terras da origem da família do saudoso Ariano Suassuna - é, com o perdão da longa digressão entre travessões, o que a gente, no mesmo Seridó, porém potiguar, chamava em priscas eras de "o rio chegando com água", assim mesmo, nessa sintaxe que aparentemente embaralha a ordem das palavras no decurso da frase.

    Hoje eu vejo como era linguisticamente bonito dizer "o rio chegando com água", porque isso significa, numa construção popular absolutamente poética, que sem água não há rio. Pode parecer óbvio para você que é do litoral ou da zona da mata. Não para nós que viemos do sertão.

    O video, com toda sua beleza de flagrante inesperado, ainda pode ser visto como um comentário acidental, um chiste nordestino sem divisionismos ou sentimento de desforra, sobre a falta de água que atinge o sudeste do país. Como disse alguém outro dia aqui mesmo na internet, o problema da falta de água só se tornou realmente isso - um problema nacional - quando ocorreu onde as decisões econômicas do país são tomadas. Vejam que belas imagens, amigos sudestinos - sem ressentimentos, apenas observada, via essas mesmas imagens, a força daquela feia mas real constatação.

    quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

    Notícias de verão



    Três notícias movimentam este início de janeiro nos jornais de Natal: os moradores da praia de Pìrangi se organizando aos poucos para reagir à barulheira e às promoções de praia que tumultuam o que poderia ser um belo descanso por lá; as primeira providências do governador Robinson na área da segurança pública, convocando policiais que até ontem se recusavam a trabalhar em hora extra pra fazer policiamento nas áreas mais movimentadas; e - essa a que interessa aqui - a separação músico-vivencial da dupla Khrystal-Zé Dias. É o verão, é o fim do caminho, é o começo de outros, é a vida acontecendo no alvorecer do mais pessimista dos anos, este 2015, coitado, tão antecipado em previsões de ajustes, desgraças, contas a ajustar. A minha desconfiança interna diz que talvez, ao fim e ao cabo, não seja para tanto.

    Mas a separação Khystal-Zé Dias é um desses acontecimentos-espelho, que por um lado se lamenta, por outro se compreende, por outros se deseja que resulte em mais e melhores dias para ambos. Ocorre que as parcerias, no dia-a-dia, no trabalho, na cama e na mesa, no companheirismo de jornadas enfrentadas em conjunto têm disso mesmo: começo com aquela carga de entusiasmo sem a qual a vida perde o viço; um meio ponteado por essa palavra tão na moda - ajustes e adaptações ao que não estava previsto -; e em muitos casos um fim, quando fica claro e transparente que algo se esgotou e outro tanto urra por alguma forma de renovação.

    A vida acontece intensamente para todos quanto estejam atentos a ela e seus sinais, sejam relâmpagos ofuscantes de tão explícitos ou pequenas manifestações que se intrometem na rotina anunciando de mansinho que alguma coisa passou do prazo de validade e é preciso urgentemente repor os materiais nem sempre tangíveis com que se faz a existência. Sei que o recado aqui está resvalando para um certo tipo de auto-ajuda à qual, admito, sou bem suscetível. Devia ter avisado no início do post para não tomar o tempo de quem usa óculos de sol dentro de casa. Não o fiz, paciência. Nem tudo na vida sai como o esperado, o planejado, o imaginado. Feliz - na real - é quem compreende essas imperfeições e faz dela trampolim para verões possíveis.

    Em Pirangi, praia, moradores estão tentando refundar o seu local de veraneio, espanando incômodos que, num esforço conjunto, podem sim sair de cena. Na segurança pública, a descrença é grande quanto ao efeito das duplas de policiais nas ruas - mas o muro de incredulidade não vai ajudar em nada a reverter a situação que, só pra citar um exemplo, transformou a praia de Búzios numa cidade-fantasma em pedaço que até outro dia era privilegiado trecho do litoral sul de Natal. E a dupla Khrystal-Zé Dias já faz parte da história cultural da cidade, independente dos novos vôos que ambos, cada qual no seu canto, vai pilotar a partir das renovações deste belo verão.

    quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

    Woody vê o mundo



    "Crimes e Pecados é um daqueles filmes que as pessoas veem a primeira vez e, como acontece com os contos de Tchekov, não captam logo tudo o que têm a oferecer. Eu sempre achei que é um filme que mostra como Woody Allen vê o mundo - um lugar onde pessoas como seus vizinhos realmente se envolvem com assassinatos e acabam se safando, e onde bobalhões terminam com belas namoradas."

    David Gilmour, em O clube do filme, Intríseca.

    Normas arcaicas



    "Presenciei aquele universo. Meu avô era parecido. Não tinha o boi, o banguê, o cavalo. Era mais pobre. Agora, a moral dele era aquela. Aquilo é um patrimônio maléfico universal. A intolerância. A inibição do outro. O não reconhecimento da individualidade. Tenho capacidade de expressar isso em palavras. Seu Breves não tinha. Ao mesmo tempo era valor estratificado, era maneira de existir. Se não existissem esses valores no sertão, as pessoas sairiam se matando. Era uma forma deles de se organizar. Normas arcaicas, de colonizadores que vieram com o patrocínio da religião e da missão de quem chegou em um mundo maravilhoso como este. Consequentemente veio o empobrecimento."

    José Dumont, em Do cordel às telas, depoimento a Klecius Henrique, Ed. Imprensa Oficial-SP

    Palavras universais e sem sentido


    "A sátira é uma espécie ameaçada no cinema norte-americano e, quando ocorre, é vaga e vulgar como nos filmes de Mel Brooks. Muito além do jardim, dirigido por Hal Ashby, é uma ave rara e sutil, que encontra seu tom e o mantém. Possui o atrativo de um jogo intelectual engenhoso, onde o herói sobrevive a uma série de desafios sem entende-los, usando palavras ao mesmo tempo universais e sem sentido."

    Roger Ebert, em Grande Filmes, Ediouro.

    domingo, 16 de novembro de 2014

    Borges + Lhosa = Bolaño


    Roberto Bolaño não me põe mais medo. A intimidação cult  que é a mera visão de um exemplar do seu mais que venerado 2666, o livro - e não o código secreto de alguma seita literária como alguém pode supor diante deste tijolo em forma de romance ou vice-versa - perdeu o sentido. E nem precisei sequer abrir a folha de rosto do dito e prolixo romance. Pra quem  não lembra, 2666, com suas temeráveis 1.008 páginas, foi elevado ao altar da grande literatura tão logo se deu a morte de seu autor, o referido Bolaño. As velas do morto ainda nem haviam esfriado de todo quando foi decretado que quem jamais o lera meio que também poderia se considerar um leitor, digamos, defunto. 

    Foi um daqueles casos de ascensão fulminante ao panteão das entidades das letras - mais ou menos a mesma que se dá quando o Nobel de  literatura vai para um (até minutos antes) obscuro escritor belga, ou africano ou afro-americano cujo conhecimento público se limitava quando muito a um gueto universitário ou algo assim. O problema era encarar as horas de leituras exibidas pelo 2666 - que a muito custo a gente duvida que não se trate de um título autoexplicativo sobre o número de páginas em que se estende. O fato é que muita gente boa que se aventurou - incluindo os envergonhados pioneiros que muito rapidamente tinham que devorar o catatau e se mostrar atualizados com a nova seita - deu uma aliviada geral ao contar, diante de pasmos leitores escaldados, que, sim, é um grande livro.

    Por favor me situe entre os escaldados e os preguiçosos. Não é que eu torça a cara para livro grosso. Moby Dick e Grande Sertão até hoje me absolvem nesse quesito, lembrando que a grossura é o que menos importante no velho Guimarães e que a baleia de Melville pode muito bem ser entendida com uma versão ampliada de O velho e o mar de Hemingway. No fundo o que incomodava mesmo era essa pressão para que de um dia para o outro a gente se tornasse especialista num autor que, absurdo dos absurdos, fora ignorado em vida para ser celebrado mal deixou esse mundo. E logo de cara com todo mundo jogando nas fuças da gente esse 2666 que parece mais  um tomo de enciclopédia perfeito para escorar portas que rangem. 

    Mas está na hora de revelar como enfim me livrei desse medão sem sequer ter lido ao menos as orelhas de 2666. Simples: na base do acaso. Ganhei de Titina e Cezar, amantes declarados de tudo quanto venha da Latinoamerica, um outro livro do cara, As agruras do verdadeiro tira. Claro que, para manter a aura cult do Bolaño, tinha que ser um livro inacabado - na verdade os originais de um outro que poderia se tornar mais um infindável romance que a morte não permitiu ao escritor concluir. Descobri, lendo esse romance postumamente organizado por outrem, que Bolaño, não temam, é apenas, simplificando grosseiramente, um cruzamento de Jorge Luiz Borges com Mario Vargas Llosa. 

    Mais precisamente o Borges de Ficções - um livro tão precioso na minha memória de leitor que, por mais que tenha vontade, evito encarar um releitura, como que pra não quebrar aquele encanto - com o Conversa na Catedral de Lhosa (que somente este ano, há poucos meses, encarei a frio). Foi notar esse cruzamento na história do professor universitário que vaga entre América Latina e Europa perseguido pelos próprios fantasmas relacionados ora à militância esquerdista ora a uma homossexualidade tardia que acordei para tais conexões. De Lhosa, ele pegou a história picotada como que em quadrados que se encaixam um capítulo aqui com outro bem mais adiante. De Borges, enxertos como aquelas maravilhosas listas de livros inexistentes e ainda aquela maneira de narrar usando formatos diversos, como capítulos surpreendentes mínimos ou resumos de obras literárias que também só existem no próprio livro. Tudo muito aberto, esparso, ventilado como se fosse um grande escrito cujas folhas saíram voando por aí e um leitor - você, que por ventura esteja com o livro nas mãos - organizou para compreender minimamente o mundo daquele professor e seu entorno. 

    O prazer da leitura, que os primeiros desbravadoras pós-morte de Bolaño viram no 2666, está neste esgrimir de estratégias narrativas, neste organizar de estilos que embora aparentemente diversos guardam uma harmonia sugestiva como se vê no mais convencional romance linear. É verdade que você, leitor,  nem sempre estará à altura de decifrar, com seu repertório igualmente convencional, todas as referências que Bolaño espalha pelo livro - aliás, é bem possível que permaneça imune ao efeito da grande maioria delas. Mas, como numa letra de música de Luis Melodia, vai captar nem que seja pelo cheiro aquela matéria indistinta a que na falta de expressão melhor chamamos de "o espírito da coisa" - ou a coisa do espírito se melhor lhe aprouver. O fato é que, precedido pelo bem mais exato Ficções e pelo igualmente ambicioso Conversa na Catedral, a escrita de Bolaño não precisa mais intimidar ninguém.