domingo, 31 de março de 2013

CINE JOÃO BATISTA

Pra quem ficou na curiosidade depois de percorrer o post anterior, aqui vai uma mesa posta com filmes documentais feitos por João Batista de Andrade nos tempos da TV Cultura e do Globo Repórter pioneiro da Globo. Era um país emudecido abrindo brechas para se conhecer e se reconhecer na tela da sala de estar. Questões sociais que hoje, com tudo aberto, tudo declarado, tudo possível e tudo permitido, as leis de mercado nem sempre permitem que sejam expostas com o vigor daquela triste época. Coisas do tempo e das sociedades. Com vocês, João Batista: vejam comigo que eu também só conhecia esses títulos pelos nomes (a partir da leitura do livro-depoimento do cineasta, "Alguma solidão e muitas histórias", organizado por Maria do Rosário Caetano); é uma estreia atrasada mas viva. Vejam e passem para a frente: 

1.Wilsinho Galileia (sobre a construção narrativa de um bandido oficial)



2.Céu aberto: (a partir da agonia de um país acompanhando os boletins médicos sobre Tancredo Neves)


3.Migrantes: o título é auto-explicativo no Brasil dos anos 70


4. Greve! (primeira parte do doc sobre as greves no ABC paulista, primeiro movimento social de contestação a balançar as bases da dituradura no final na década de 70)

 

PECADOS DA SEMANA

  

Meu Domingo de Ramos foi uma bicicleta, pra me harmonizar cristianamente com os novos hábitos de consumo-esporte-deslocamento dos que estão muito além de Deus. Adquirida em supermercado a preço de ocasião que é pra não incorrer no pecado do farisaísmo professante.

Meu jejum de esmoler literário buscou o pão essencial da palavra no anti-santo Itamar Assunção, o músico-poeta que ganhou liturgia nova via o catecismo blues da não freira Zelia Duncan, no CD "Tudo Esclarecido". Do qual recomendo pelo menos a audição - de joelhos, por favor - de "Noite Torta". Coisa para contrastar com estes dias de paixão.

Meu lava-pés foi testar minhas crendices sociais assistindo ao mais recente filme de Cláudio Assis, uma absoluta antimissa marginal filmada em branco e preto com maestria comovente pelo Papa Walter Carvalho, interpretada e protagonizada pela figura natimorta de um poeta de rua do tipo que tanto denuncia os que estão à sua volta quanto lambe a suculenta pena que alimenta em relação à sua própria pessoa. Um Cristo de outra extração, feito pelo ator Irandir em transe glauberiano - uma estranheza que agora as leis de incentivo permitem sem que o realizador precise doar a sua vida pelo irmão, digo, pela arte. Se o público não vem atrás como apóstolo excitado deste evangelho ao avesso o problema é dele, dizem. 





Minha sexta-feira santa foi festiva se comparada àquela dos meus tempos de outrora. Nada de desligar a televisão, nada de música fúnebre no rádio, nada de casas não varridas, comidas não tocadas, banhos não tomados, nada de nada de nada de nada de antigamente - que, por sinal, parece que foi ontem. Agora tudo pode: graças a Deus, somos os novos deuses da liberdade individual. Claro que um bispo aqui outro acolá, às vezes onde menos se espera, onde menos cabe a presença de tais bispos, atrapalha um pouquinho: mas o que seria da vida sem um obstáculo pra gente remover? Então: minha sexta-feira não foi santa, foi comum. Melhor (digo, pior): foi bem pecadora. Repleta de sons, imagens, letras, notas (musicais), percepções, contemplações. Como a gente nunca se contenta, faltou nostalgia:  deu vontade ver a Paixão de Cristo na televisão em branco e preto. Mas nenhum canal exibiu.  Meu pecado supremo: ouvir Madeleine Perroux como quem prova uma hóstia ensanguentada no dia do sacrifício de Adonai. Madeleine é irresistível e Deus há de me perdoar. (Divida este pecado auditivo comigo dando um play num dos videos que acompanham esse não evangelho).





Meu sermão da montanha, o  pungente depoimento do quase padre de tão sofrido João Batista de Andrade, o cineasta que o Brasil parece ter esquecido lá nos anos 80. Sou seguidor de João desde que um dia, em 1984, entrei no Cine Veneza, em Recife, e esqueci quem era, quando era, onde era, o que era, ingressando sem lenço nem documento na história e nas histórias de "A Próxima Vítima", filme em que João Batista usa uma série de assassinatos de prostitutas no bairro do Braz, em São Paulo, para falar do que, diria ele, são questões sociais eternamente tratadas como se fossem problemas policiais. O filme mistura demandas sociais com telejornalismo viciado, uma pegada noir nunca oportunista com um ritmo de thriller que jamais perde a brasilidade. Vi e revi - e nunca mais vi outra vez porque é um desses títulos que não apareceu em DVD (desesperançado demais, só tem chance se virar cult). No filme, João insere todo o seu ideário falido, seu sofrimento professo diante dos obstáculos que a vida colocou na vida dele e do país dele - por acaso, o nosso; não olhe para o lado, leitor. O baque de 64 (golpe), a trava de 68(AI-5), o trauma de 75 (Vlado). E no livro, tudo isso está muito bem narrado, organizado, dissecado, estudado e só não posso dizer que está digerido, porque João Batista de Andrade (que também realizou o já clássico "O homem que vivou suco" e faria aqui em Brasília "O cego que gritava luz") tem o bom gosto de se declarar permanentemente em crise, sem nunca superar certas coisas. Um delas daria um filme que jamais foi feito - bem que ele tentou: "Vlado", a história do homem e do seu tempo. 




João foi amigo de Vladimir Herzog (outro Cristo, sacrificado na ceia dos nossos generais e civis de linha dura, como se vê na foto que abre o post) e integrou a equipe do telejornal revolucionário que o jornalista colocou  no ar pela TV Cultura de São Paulo. Alguém poderia retomar o projeto e filmar "Vlado": até mesmo alguém com um olhar tipo ano 2000, como Fernando Meirelles, que vem de outra tradição no cinema brasileiro. Outro dos novos realizadores poderia seguir a onda e tirar do papel o projeto "Os Demônios", outro filme que João Batista não conseguiu fazer, sobre um tema que palpita na ordem do dia: as limitações da lei de anistia expostas no roteiro feito com Lauro Cesar Muniz a partir da volta de um exilado ao país na brisa política de 1979. Filmes que não foram feitos, no livro de João Batista editado pela Imprensa Oficial de São Paulo e organizado por Maria do Rosário Caetano, ganham força muito maior do que tantos que já entraram e já saíram de cartaz sem deixar rastros. É preciso dar atenção a eles, esses outros sacrificados da semana das oferendas mais sofridas. 



Domingo de Páscoa, cá estou eu, esperando o suor da caminhada se evaporar do corpo pecador enquanto atualizo a sopa amarga que o jejum frequentemente me serve. Todos continuam sendo muito bem-vindos a tal banquete, meus irmãos em lástimas, glórias e registros docemente macerados.

quarta-feira, 20 de março de 2013

FEITO BONECAS RUSSAS


Livros que cabem dentro de livros, narrativas disfarçadas dentro de outras narrativas, metalinguagens enganosas como um filme de Alfred Hitchcock, surpresas formais à sua espera no último capítulo. Esses são um grande ponto em comum entre "Serena", de Ian McEwan, e "Relato de um certo Oriente", de Milton Hatoum, os dois livros que caíram como capas mágicas de letras, possibilidades, diálogos e ideias sobre a cabeça do Leitor Bagunçado aqui. Em ambos, tanto no caso do inglês quando no do amazônico brazuca, atravessamos com prazer umas tantas páginas para descobrir, no desfecho, que estamos lendo livros dentro de livros, narrativas disfarçadas dentro de outras narrativas, metalinguagens enganosas como, bem, vocês sabem.

No caso de McEwan, chega a parecer uma repetição: também no seu mais que conhecido "Reparação", singramos mares de culpa mal digerida e ressentimentos guardados nos bolsos dos personagens para apenas e somente ao final descobrir que o livro é, em si mesmo, um gigantesco e emocionado pedido de desculpas: a própria materialização deste reparo emocional que dá título ao romance. No filme feito a partir do livro essa resolução surge ainda mais afirmativa, forte, acachapante. Neste "Serena", cujo lançamento mundial se deu numa das festas literárias de Paraty, o batuta McEwan nos enrola da primeira até praticamente a última página - e o sabor dessa mistificação é a pimenta do livro, muito além da idéia de que se trata de uma brincadeira com o gênero do romance de espionagem, que é a forma como o título foi vendido no mercado editorial. Ao final da leitura, a gente percebe que esse papo de exercício de narrativa de guerra fria, essa emulação gaiata de John Le Carrè era mais uma piada de Ian McEwan pra despistar o leitor. Exatamente como Hitchcock fazia no lançamento dos seus filmes - ou ao menos do seu filme mais impactante (embora, certamente, não o melhor), o "Psicose" que está de volta à mesa dos assuntos (mas este é outro assunto, para um próximo livro das aventuras do Leitor Bagunçado).

O nosso Hatoum, naturalmente, ventila outras atmosferas nas suas histórias filtradas pelas memórias familiares de um clã libanês recontextualizando a vida na Amazônia brasileira. Sai Londres, entra Belém do Pará. "Relato de um certo Oriente" é um saboroso texto quase impressionista, que se lê como se estivesse fechando os olhos para entrar num sonho sonhado por outro alguém, uma dissertação onírica disfarçada de saga familiar. Não tem como não lembrar da Macondo de García Marquez lendo Milton Hatoum, mas não é bem disso que se trata. Onde o Nobel latino saturava páginas e páginas com pequenas e gigantescas lendas de aldeia, empanturrando nossos olhos de caminhos de contos, Hatoum investe muito mais no cheiro literário exalado pelos seus personagens. Dá-se muito pouco no seu "Relato", mas sente-se muito a cada vez que se vira uma página. Se o leitor de repente se ver envolvido por uma bruma de calor, umidade e cheiro de roupas velhas não será por acaso: é obra da escrita do autor.

A surpresa, que liga Hatoum a McEwan é o capítulo final. Uma surpresa previsível, se é que se pode dizer assim, já que a cada etapa do livro uma voz assume a narrativa, que vai passando como bastão de corrida em câmera lenta. Vamos montando o álbum de imagens desta família a partir dos indícios subjetivos que os vários narradores despejam nas páginas. Lá para a metade do livro começa a ficar clara uma estranheza: se temos vozes diferentes, como enquadrar o padrão do discurso, uniforme demais para abarcar a variedade de visões que a história oferece? Hatoum resolve bem, mas essa desconfiança mina um pouco da perplexidade que poderia despertar. Nada a lamentar muito:  aqui se trata de uma escultura sentimental construída com tal intimidade que as sombras da família que são o objeto do "Relato" encobrem qualquer artifício de abordagem literária.

Só não deixa de ser curiosa a equivalência metalinguística de dois livros tão distantes no tempo e no lugar e tão próximos na qualidade e no enlevo proporcionado.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

À SOMBRA DOS METEOROS



Parece que um meteoro caiu na Terra enquanto eu estava de férias. Ou teriam sido dois? Quando a gente volta pra casa depois de uma viagem, ou de uma série delas como é o caso agora, parece que foi tomado por uma espécie medicinal de amnésia social que nos deixa à parte de todos os acontecimentos transcorridos, sejam grandes, pequenos, verdadeiros ou inventados, promovidos ou fantasiados.

O fato é que, em termos astronômicos, o meteoro russo (não confundir com Tostói ou Putim) passou praticamente do meu lado enquanto eu me distraía com as piscinas naturais da Praia do Futuro e nem me dei conta. Outro astro parecido, que acabou de entrar para o sistema solar da política nativa, também quase cai na minha cabeça: um tal de “Rede”. Mas, qual nada, flanando pelo calorão de Fortaleza, a palavra “Rede” pra mim não soaria como mais do que aquele artigo para dormir à moda indígena que está à venda em nove entre dez barraquinhas de praia.

Não que as férias me transformem num autêntico marciano em temporada no planetinha das expiações infindas: até eu, no enfado matinal do meu quarto de hotel, estou sujeito a ligar a televisão na Globo News e ser informado da última catástrofe ocorrida no astro que habitamos – e, mais uma vez, é curioso como meu sexto sentido sempre liga na GNews em dias de catástrofes matinais. Ratzinger jogou a toalha e deixou meio mundo de mitra caída.

De uma hora pra outra, estando de férias ou no trabalho, viramos todos cardeais tanto quanto nos tornamos técnicos de seleção em véspera de Copa do Mundo. Volto pra casa e devoro a edição dominical do jornal “O Globo”, onde fico a par de tudo, inclusive da nova celebridade do mundo dos conflitos mundiais: Tarcísio Bertone. Tarcisão é o novo Ravengar do pedaço, o Zé Dirceu do Vaticano, o PC Farias de Roma, o Renan da Cúria. Ele é assim-assim com Ratzinger, mas foi quem botou Jeseph nessa enrascada, se eu entendi direito. O Globo foi muito mais claro – ocupou-se em explicar a farofa política do Vaticano; enquanto a “Veja” – que outrora era uma ótima fonte de esclarecimento em casos assim – esforçou-se tanto por comentar, à sua maneira, o acontecido, que tornou tudo muito mais confuso.  Reza uma verdadeira missa pra Bentinho, só faltou canonizar o cara – seu milagre justificatório à santidade seria a coragem da renúncia – mas se contradiz toda ao ter que afirmar sobre a ligação dele com Tarcisão. O conservadorismo não precisa de tamanha curva para conquistar seus adeptos, ou reforçar os que já tem, como deve ser mais o caso da “Veja” atual e seus leitores derradeiros. Melhor ser sincero, mas há tempos, reconheço, honestidade intelectual não faz a cabeça de ninguém.

Agora você imagine essas torções textuais quando se trata de matéria muito mais sensível como é o caso do  caso Yoani Sánchez. Acho que em algum momento eu falei, lá nos primórdios deste texto, sobre notícias verdadeiras ou não, inventadas ou fantasiadas. É por aí. Entre Ratzinger e Yoani canonizados, sou mais Bentinho explodindo de ciúmes por Capitu: em termos de fantasia, o noticiário de Machado é muito mais real.

CALDINHO DE FORTALEZA


 

A  capital de José de Alencar, urbe da índia Iracema, sucursal política dos Gomes, é um braseiro seco adornado por um verde mar. Quente, de uma qualidade de calor como não ser vê naquela parte do Nordeste que, junta, compõe o país RN-Paraíba-Pernambuco. Deve ser o vento atravessado – que não venta, de fato, na avenida à beira-mar – decorrente da posição geográfica que transmuda os habituais litorais norte-sul em leste-oeste.

O fato é que Fortaleza queima a pele e aspira a umidade, mesmo sendo o portal do Atlântico que também é. Soa estranho demais para a gente encontrar palavras. Quem sabe relendo Alencar – este primeiro autor verdadeiramente brasileiro, segundo nos vem nos alertando há tempos Ariano Suassuna, em contraponto ao domínio carioca de Machado, sem tirar, obviamente, os méritos deste último, que não são poucos.

Mas o calor seco de Fortaleza – que, comparação por comparação, lembra o de Brasília entre setembro e  novembro; mas aqui não tem mar, coração! – não é coisa de literatura. É vero, e só lhe dá um refresco, tão estranhamente quando a falta de vento nas praias urbanas, quando você está lá no alto da cidade, na agradável Praça do Ferreira. Quer se ventilar? Suba. Quer se fritar? Desça. Mas derreter não dá: embora a cidade conte com uma igreja gótica perfeita como ilustração daquele ditado sobre “o calor de derreter catedral”, a bela Notre Dame local, que não faria feio diante de nenhum corcunda, está livre deste risco. Porque não existe suor em Fortaleza, e sem essa substância que corre abundante nas peles que habitam ou visitam Natal, João Pessoa ou Recife, criatura alguma – sobretudo catedrais – é capaz de derreter frente ao calor ambiente.

Por fim, o cearense: a ele nada disso incomoda. E novamente ao contrário do cidadão de Natal, João Pessoa ou Recife, ele tá nem aí pra ar refrigerado. Não há, e por vontade própria, muitos “ambientes climatizados” em Fortaleza. No hotel, tomávamos café em temperatura ambiente – quase a do próprio café sorvido; de maneira que não dava nem pra se refrescar queimando a língua de propósito. Tudo bem que era um hotel temático, emulação dos anos 30 – mas não precisava exagerar. Disse a nossa guia amiga local Regina Luna que parte do específico calor local vem do fato de a cidade ser muito asfaltada – faltam os aprazíveis calçamentos de pedra de Natal (tá vendo, Natal? E vocês aí sempre se diminuindo diante do mundo...).

Certo mesmo é que o pessoal do Ceará não gosta de ar condicionado – nem os taxistas, acredite – e, quando usa, é numa potência bem baixinha. Entrar no quarto do hotel exigia uma espécie de despressurização da cabine aplicada à temperatura: só uma meia hora depois de trancado lá dentro é que o aparelho começava a fazer algum efeito.

Mais: calorento e bem resolvido, o cearense tem um defeitinho quase imperceptível – para eles, não para os visitantes: uma certa mania de soar o tempo inteiro como humorista. Precisa não: basta ser natural. Mas o pessoal força um pouco a barra – sobretudo guias turísticos e motoristas de táxis. Esses, em qualquer lugar aonde se vá, sabe-se: são os resmungões de sempre, juízes do mundo, palmatórias das misérias alheias. Agora você misture isso com um desejo não realizado de ser – mais um – humorista no pedaço e terá uma ideia.

Encontramos um que tentou tanto nos agradar insultando Lula – essa praga que se abateu sobre o país e daí pra frente – que não fosse o bigodinho extemporâneo  eu teria confundido facilmente com aquele menino, Diogo Maynard. Mas esse taxista, pelo menos, era avesso ao calor e ligou o ar condicionado no máximo – o máximo deles lá. Dizia que veio do sertão e já tinha passado calor demais na vida para andar em temperatura ambiente. Eu falei que a fixação no humor era uma constante. E Fortaleza, naturalmente cheia de graça, nem precisa apelar. 

sábado, 16 de fevereiro de 2013

Todos ao barracão



O barracão do grupo teatral Clowns de Shakespeare, no bairro de Nova Descoberta, em Natal, é um quadrado hermético e escurecido de portas que parecem fechar para o mundo lá fora quem estiver lá dentro quando descem fanhosas como as de uma sapataria em fim de expediente. É um espaço para o exercício intenso do ensaio e do estudo – não para o prazer da apresentação ao público. Pois não haveria lugar melhor para se começar a apresentar uma rara versão de um Hamlet forjado num recanto litorâneo nordestino do que tal barracão: basta o diretor do grupo Fernando Yamamoto arriar as portas e o ambiente sufocante, escuro e inescapável começa a fazer o resto: você está pronto para ser apresentado a um novo ator, um novo Hamet, um novo espetáculo dos Clowns de Shakespeare.
Seria uma injustiça chamar Joel Monteiro de “novo ator”, mas é que o protagonismo que ele assume na nova montagem dos Clowns, criada com o diretor convidado Marcio Aurélio, obviamente se impõe. Para quem não liga o nome à pessoa, Joel deu vida ao canalha-abilolado Pereira, na montagem que Yamamoto dirigiu para o primeiro texto teatral do polivalente Xico Sá, “A Mulher Revoltada”, apresentada brevemente num circuito Rio-Brasília. Mas a ascensão de Joel ao posto de personagem mais cobiçado da dramaturgia planetária não é a única novidade neste “Hamlet – Um Relato Dramático Medieval” que assombra as noites claras de Nova Descoberta e que, além de Yamamoto, tem também Lígia Pereira na assistência de direção. Temos ainda, ao menos neste início de temporada, uma encenação que tem feito alguns sentirem falta de certa leveza lúdica que já é parte do estilo Clowns de fazer teatro e recriar nas bandas de cá a dramaturgia do supremo bardo ocidental. Esses dois elementos, o Hamlet mais para incisivo do que para vulnerável que Joel nos apresenta – um Hamlet que visualmente remete mais ao Otelo, mas cuja revolta é tão marcante que já apresenta respingos de um Ricardo III – e o caráter enxuto, violentamente exato, implacavelmente seco da montagem são os marcos iniciais desta nova aventura do grupo. Quem aproveitar a temporada de apresentações no próprio barracão vai ter um ganho a mais: parte daquela atmosfera de claustro familiar habitado por intrigas, ressentimentos e ódios mal contidos vai se perder no esplendor de um Teatro Alberto Maranhão, por exemplo.
Essa claustrofobia é bem o oposto do que se costuma ver nos espetáculos dos Clowns, especialmente do último, esse sucesso popular que foi o “Sua Incelença Ricardo III”, germinado dionisiacamente sob a batuta conjunta de Yamamoto e Gabriel Villela. Os Clowns saem da profusão pop-festiva que marcou a temporada anterior para o seu inverso: a busca de uma exatidão que pede intensidade contida onde o espetáculo anterior era pura inventividade expandida. Mas não há como o germe criativo original dos nossos clowns não se inocular nas veias da revolta hamletiana: é claro que isso começa a acontecer quando o príncipe atormentado se aproveita da passagem pelo reino de um grupo de teatro mambembe para reencenar, provocativamente, o assassinato do pai. A respiração típica dos Clowns começa a surgir aqui – e a impressão que temos é de que, quanto mais o grupo vá cimentado a montagem, mais esse sopro vá se transformando no vento nordeste que caracteriza o seu trabalho. Por hora, ele se infiltra em algumas frestas, como os fiapos de ironia com que César Ferrario quebra a inflexibilidade pomposa de seu personagem; no colorido dos movimentos que a dupla Camille Carvalho e Paula Queiroz usa para emoldurar com leveza o peso do retrato encenado; na loucura translúcida, branca e percussiva da Ofélia de Titina Medeiros. E, é evidente, no aparelho vocal de Marcos França e no uso que ele faz deste instrumento músico-dramático, porque se houver uma trilha sonora capaz de identificar o grupo a quilômetros, será a voz deste ator, e a musicalidade é um adereço à parte da companhia, sejam em prosa ou em verso. Não à toa, cabe a Marcos França o rei usurpador – como lhe coube o próprio Ricardo III do espetáculo anterior e o mestre de cerimônias do “Roda Chico” de divertida memória. Com a elegância de costume de Renata Kaiser, não há Shakespeare que não esteja sujeito a ganhar uma nova descoberta pelas caravelas desta trupe.
Hoje e amanhã; e de 20 a 24 de fevereiro, no Barracão dos Clowns, rua Amintas Barros, 4673, Nova Descoberta, Natal RN. De quarta a sexta às 20h, sábados e domingos às 19h. Ingressos: R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia). Informações: (84) 3221-1816

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

DA VIDA DOS OUTROS


Biografias são espelhos. Nelas o leitor projeta suas anônimas e pequenas querelas diárias em busca do reflexo vindo de vidas trágicas, imensas, corajosas e desafiadoras. No Brasil recente, aprendemos com Fernando Moraes e Ruy Castro a ler biografias bem espanadas, em que a trajetória dos biografados, além de ilustrar o que pode uma vida no painel geral das circunstâncias, acentua o valor dessas últimas, construindo painéis históricos de irresistível força atrativa e informalidade narrativa. A gente abre o livro e tenta se ver no que for possível, seja diante de um músico que revolucionou a estética de um país como João Gilberto em “Chega de Saudade” ou no enfrentamento de uma ditadura exclusivista e ferrenha, como Fidel em “A Ilha”.
Desde então, a gente nunca mais parou de se mirar neste espelho. Um dos mais reluzentes que está atualmente na praça – digo, nas livrarias – é o primeiro volume da trilogia em que trabalha Lira Neto: seu “Getúlio – Dos anos de formação à conquista do poder” é um daqueles livros caleidoscópicos, uma biografia que não se exime de examinar cada episódio paralelo que se meteu no caminho do mais trágico, desafiador e corajoso líder político do país. Lendo “Getúlio”, a gente se mira no espelho do tempo histórico – no que colocamos o próprio país de hoje para se comparar diante dos conflitos recorrentes do século passado – e ainda fica muito mais ilustrado. Para citar alguns exemplos, há páginas e páginas sobre figuras como o “Leão de Caverá”, sobre fenômenos como o “Borgismo” no Rio Grande do Sul, sobre a mais que recorrente personalidade que é “Oswaldo Aranha”, uma visão mais transversal sobre Luiz Carlos Prestes do que nos deu outro clássico do gênero, “Olga”, de Fernando Moraes. O “Getúlio” de Lira Neto é este livro-espelho, essa biografia-totem que tanto quanto erige os detalhes que levaram à construção do mito também lhe desconstrói os pedaços de contradição que caracterizaram o homem.
Um corte brusco – nem tão brusco se você conseguir estabelecer certas conexões até meio óbvias – e caímos nas mãos de um novo produtor de espelhos. É o jornalista Ricardo Amaral que, aproveitando a proximidade com a pessoa e os acontecimentos que são a presidenta Dilma em sua ascensão de integrante da equipe de transição do então recém-eleito Lula até a substituição do próprio no Palácio do Planalto, construiu uma biografia cheia de raios luminosos que é a vida da ex-guerrilheira que virou a autoridade número um do país.  “A Vida quer é Coragem” refaz os passos dessa trajetória e a torna muito mais natural do que a gente sempre quis acreditar que pudesse ser.
Nada disso: o caminho de Dilma, descrito com a força dos fatos pessoais inseridos nas várias realidades do Brasil que a biografada viveu, soa coerente, progressivo, às vezes até meio automático. Amaral preenche os vazios da narrativa reconstruindo episódios recentes da vida política do país, como as mil e uma crises da campanha eleitoral que levou Dilma ao Planalto, no que ajuda o leitor a didaticamente reorganizar suas informações dispersas sobre o período – este, sabe-se, é outro dos efeitos das melhores biografias. O leitor sente falta de um pouco mais de proximidade com a Dilma dos bastidores, mas talvez isso se dê pelo fato de ela estar aí, no exercício de sua presidência e de seu poder político, o que sempre reforça a curiosidade em torno da pessoa, dos novos obstáculos que enfrenta, como enfrenta, com que lógica, o que pensa, onde quer chegar – enfim, é o resíduo natural de um livro como este.
O que mais sobressai na verdade são as frases e os raciocínios exatos da atual presidenta, em vários momentos da vida. Uma delas, das primeiras a produzir seus reflexos na página, diz que “A vida não é fácil. Nunca foi.” Aí está a essência do que diz a frase de abertura deste texto: biografias são espelhos – e é se vendo como reflexo anônimo nesta frase da célebre primeira mulher a ser presidente do Brasil que a máxima se confirma e se reinventa. Precisa chegar a presidente para entender aquela sentença? Há outras, tão marcantes quanto: “Sou uma mulher dura cercada de homens meigos”, lembra? E sobre aquela tendenciosa entrevista a William Bonner e Fátima Bernardes durante a campanha, na bancada do Jornal Nacional, que incomodou todo mundo por um excesso de cobrança que não se veria diante dos demais candidatos: “Eu achei que ia ser uma entrevista chochinha. Eles resolveram esquentar...” Pois é, ao contrário dos seus eleitores, Dilma nem ligou.


O terceiro livro a fazer parte desta conversa não é exatamente uma biografia, mais uma memória dos tempos infantis. Duros tempos infantis, bem diversos da maneira como o presente trata suas crianças – inclusive aquelas que já têm pra muito mais de 18 anos. Não importa: “Formosa És – Memórias do Internato”, em que Clotilde Tavares relembra seus tempos de criança de oito anos entre os muros de uma escola de freiras no interior de Pernambuco, na cidade de Bom Conselho, é um espelho vivo tanto quanto qualquer biografia – o que, como memória, ela também não deixa de ser. Estamos entre janeiro de 1956 e dezembro de 1957, o Brasil é outro, o Nordeste brasileiro nem se fala, a moralidade é imperativa, as possibilidades de uma família criar seus filhos com conforto e perspectiva é incerta, o mundo até parece ser em branco e preto ou sépia como um velho filme do tipo “Marcelino, Pão e Vinho”. Clotilde rememora a experiência de, tão criança, ver-se instalada num colégio interno de regras rígidas e hipócritas como a época, um tempo que hoje pode até parecer meio idílico, mas só é assim se a gente varrer da memória os padrões de comportamento quase talibânicos de tão bolorentamente religiosos e intolerantes que vigoravam então.
No espelho de “Formosa És” enxergamos os dias atuais por meio dos raios foscos que aquele tempo passado emitia: Clotilde é exata, e quanto mais dura, direta, sem rodeios mais soa forte, autêntica, dramática e impactante sua reconstituição. A bem da verdade, somente pela extensão – é um livro breve, que se lê muito rapidamente – o relato pode soar erroneamente leve. Não se trata disso: esqueça a face doce da autora e aproxime-se dela pelo seu lado mais cortante, aqui de longe o seu melhor. “Éramos famintas. Vivíamos famintas” é o tipo da frase que dá bem a medida do texto – e quem, como eu e muitos amigos, viveu em colégio interno saberá bem do que Clotilde está falando. Mas mesmo para quem nunca sentiu essa fome crônica e existencial do ser chamado “estudante de internato” este “Formosa És” será, a despeito da brevidade do volume editado pelos “Jovens Escribas” de Natal-RN, um espelho amplo como um painel na parede, projetando infâncias, carências e primeiras rebeldias de um Brasil a caminho de se tornar o complicado, mas muito mais arejado, país atual. Mirem-se nestes três livros e se deixem iluminar por tudo o que tais biografias são capazes em matéria de reflexão.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

SORTE, ARTE E FESTA


Assim como no CCBB, na Caixa Cultural 2013 também começa com uma série de exposições de artes plásticas perfeita para quem deseja iniciar o ano abrindo os poros da visão: a série “Sorte na Arte” traz para Brasília os trabalhos originais de Di Cavalcanti, Djanira (acima), Poteiro, Glauco Rodrigues, Carlos Scliar e outros artistas feitos para ilustrar bilhetes da loteria federal. São telas, gravuras e outras criações que reproduzem o colorido de festas populares como o São João e o Natal, além de outra série feita em 1967 para exaltar os heróis nacionais – mas embora o ano traia o propósito Brasil Grande de então, não feche os olhos de cara, que um Tiradentes sempre pode lhe aparecer em molduras muito mais pop art à brasileira do que poderiam desejar os sisudos generais do período. A exposição fica em cartaz na Caixa Cultural até 3 de março, de terça a domingo, das 9 às 21h. www.caixa.gov.br/caixacultural

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

HAMLET CHAMA


Hamlet em Nova Descoberta é realmente Hamlet em uma nova descoberta, sob o luar do litoral nordestino, aclimatando seus rancores familiares aos tabuleiros brazucas. Aqui, fiordes e gargantas dão lugar ao ventinho que nem com toda leveza é capaz de espanar completamente as cismas humanas dos irmãos mais ou menos torturados do príncipe dinamarquês – eu, você, nós. Hamlet em nova descoberta, com maiúsculas e com minúsculas, é a recriação potimundializada do texto clássico em costura fina pelas máquinas pensantes dos Clowns de Shakespeare. A temporada é no próprio barracão onde a montagem foi forjada em suores bálticos pelos artistas, no bairro de Natal onde o sol se reparte entre quartéis e universidades. A partir do próximo dia 13, de quarta a sexta às 20h e às 19 aos sábados e domingos. Ingressos a R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia). Convém não perder tempo que o espaço é apropriadamente pequeno -  mas há saída de segurança para quem não suportar, mais do que o medo das catástrofes, a claustrofobia da trama – e a lotação logo se completa. Não se aperreie se, ao sair do espetáculo, vier uma vontade de esfaquear os coqueiros nos muitos terrenos baldios do bairro. Pode ser o Hamlet nordestinizado produzindo seus explosivos deslocamentos de ar.

VAI PASSANDO A PROCISSÃO









Procissão de encerramento da festa de São Sebastião, padroeiro de Parelhas-RN, em 20 de janeiro de 2013.

domingo, 3 de fevereiro de 2013

VOAR, COM ARTE







O ano recomeça bem servido de arte visual em Brasília: no CCBB a tarde desse sábado, 2 de fevereiro, era de muitos preparativos para novas exposições. A que mais chama atenção é a do artista chinês Cai Guo-Qiang, cujos artefatos algo mecânico e desconcertantemente poéticos vai tomar conta de todos os espaços a partir de 5 de fevereiro (também no Museu Nacional dos Correios). Estivemos lá ontem para testar da melhor maneira possível os efeitos de uma cirurgia de correção de miopia e o que vimos, sem óculos e com a acuidade que a curiosidade também provê, foi uma algaravia interessante de máquinas, engrenagens, furadeiras e burburinhos ansiosos de vozes humanas que voltam a se integrar à vida da cidade em busca de trabalho e beleza. Também está sendo montada uma exposição cujo mote é o desejo humano de voar. Há protótipos pendurados em galpões ainda em montagem e deu pra ver, como se fora uma performance em si, os operários grudando no alto do prédio a frase que tenta deixar o visitante no clima dessa nova levitação. Acompanhe a montagem e voe você também: mas não esqueça de voltar ao CCBB quando o espetáculo de fato começar.

domingo, 13 de janeiro de 2013

PIRANGI, PRAIA


Para o natalense que por um tempo eu fui, Pirangi nunca passava do bairro. Pìrangi, o conjunto na zona sul, passagem para o Serrambi do amigo Jano Sérvio - ali onde Natal terminava num manto de matas. Nova Parnamirim não era nem uma possibilidade, quanto mais uma ocupação algo desordenada. Pirangi, Praia; essa era uma estranha tão distante quanto aquela mesma Nova Parnamirim ainda não edificada sobre a trilha de areia que viraria a ser a Maria Laderda. Isso quer dizer que levei anos, décadas para botar os pés na areia daquela Pirangi feita reduto da classe média. Precisamente, foi o que fiz nos últimos dias. Até então, Pirangi, Praia era um casario tumultuado perto de um grande cajueiro no caminho para outros lugares. E antes, bem antes, eu era estudante, de extirpe carente, morador da Residência Universitária Campos I, apartamento 11, onde cabiam outros cinco semelhantes a mim. Nossa praia era a Ponta Negra das antigas barracas, pré-CVC. Pirangi não era citada, não entrava nas conversas, não fazia parte do universo.

Pirangi, Praia era apenas um cartão postal - e mesmo desse eu lembrava tão pouco. Um negócio da era da infância, quando uma prima residente em Natal enviou pra nossa casa esse cartão onde se via uma enseada quase falsa de tão bonita, uma visão impossível bordada por areia branca, água calma e rio de desenho de escola. Aquilo existia? Quem podia ir até lá? Aquilo não podia ser pra gente. Durante anos o cartão com essa praia absolutamente mitológica ficou guardada na caixa de retratos, com dedicatória no verso, exemplar raro de algo incomum para a nossa rua sem calçamento, nossa casa de banheiro no quintal. E lá ficou, talvez ainda esteja entre nas pastas que habitam as gavetas da casa de minha mãe.

Agora, por uma gentileza sem preço do casal Lúcia e Lucas, tios de Rejane que mantêm um apartamento na colônia de veraneio da classe média natalense, lá fomos nós. No final do ano passado, numa festa de reveillon a que fomos convidado pelo mesmo gentil casal, já tínhamos tido uma prévia da areia fofa da praia, do estranho ar convidativo da parte de Pirangi que se nos apresenta em forma de mar aberto, de uma amplidão que a curva superpovoada de Ponta Negra nem sempre nos oferece mais. Agora, como fomos num meio de semana (algo me diz que entre sexta e domingo o padrão animatício é outro), pudemos descer tranquilamente à praia, respirar seu vento de fim de tarde, divertir o olhar com as manobras dos praticantes desses novos esportes que misturam empinar pipa com pendurar gente sobre as ondas do mar, dar um passeio a pé até passar por baixo do pier comprido da Marina Badauê. Os vendedores de CDs e picolés sempre dão um jeito de interferir na trilha sonora joãogilbertiana do vento puro com seus forrós liquefeitos em barulho, mas nada que chegue aos píncaros da tortura sonora que domina outras plagas e praias. Enfim, até essa interferência contribuiu para que enfim eu pudesse dissolver num copo de agradável  realidade o mito de Pirangi, Praia. Mito é importante pra guarneceer a imaginação, mas o Real é outra praia onde o nosso pé também precisa pisar. Obrigado, Tia Lúcia e Lucas.

NO BALANÇO DO POTE


Forró bom é que nem o da água dos sertões - do Pote. A casa de música regional de Pium, litoral sul de Natal, está fazendo nove anos neste 2013, e só agora Rejane conseguiu realizar um projeto que tem quase dez anos - justamente o de me levar lá. Fomos ontem à noite, guiados pelo Google Map numa estrada sem sinalização alguma: mineiramente escondido nos grotões altamente urbanizados da praia de Parnamirim, encontramos este simulacro de vila matuta em forma de quadrado fechado, com vendas de bebidas e acepipes nas beiradas, toldos com mesas de plástico pelo centro e um dancing tipo cassino na área nobre, abaixo de um palco nada espetaculoso mas de muito bom tamanho. O Forró do Pote tem as medidas certas, nem tão exagerado nem tão estreito, um público visivelmente cativo e nenhuma fila incômoda. Milagre nestes tempos de massificação geral e multidões em busca de diversão eletrocutada, tudo lá nos soou tranquilo, caseiro, arejado e espaçoso. Muito bom o Forró do Pote.

Mas, veja mesmo: tinha horas em que parecia que a gente estava em Brasília Citi, num soiré do Clube da Previ, reduto dos iniciados nas coisas da Velha Guarda que encontram uma música suave e um dancing tão cassino quanto em beiradas outras, as das quadras 700-900 da Asa Sul. O nome já entrega - abreviação de Clube dos Previdenciário, palavra-instituição cuja breve pronúncia já deixa transparecer o avançado da idade - o espírito do lugar. Lá no dancing candango temos, às noites de sexta-feira, casais descansados de filhos crescidos e netos buliçosos, músicos de camisas estampadas, música nunca posteriores à década de 80, e o atrativo extra de várias "individuais" exibindo-se na pista sem medo de ser ridículas - e não são, que alguma espécie de elegância noturna anima suas almas dançantes. Pois, uma vez no Forró do Pote, parecia que era no Clube da Previ que a gente estava: os mesmos casais experientes, cabeleiras grisalhas de rostinho colado com madeixas habituadas aos rituais da pintura, um ar doméstico, e várias "individuais" sobraçando braços, pernas e meneios de quadris entre os quatro cantos da murada. Mocreário de responsa, que esse também é um elemento obrigatório deste tipo de ambiente. A diferença era só o repertório: mas alguma coisa me diz que mesmo no Clube da Previ a banda da noite sempre arranja um jeito de encaixar uma sessão rítmica de forró, do tipo clássico, o que aproxima ainda mais os dois lugares.

Danceteria brejeira, com uma mestre de cerimônias de fala calorosa, o lugar recebeu ontem a presença do astro regional Geraldinho Lins, de quem temos um CD sumpimpa adquiro nas gôndolas oportunistas da incansáveis Lojas Americanas. Outros forrozeiros locais abriram a noite, frequentada por tipos tão caracteríticos que não havia como não designá-los por um apelido de uma noite que seja. Havia, então, bem perto da nossa mesa, um Joaquim Barbosa circunspecto acompanhado por uma ex-sílfide dos anos JK, hoje redimensionada pelas plásticas da idade. Casal calmo, de poucas danças, esparsas conversas, platonicamente admirando o show de forró. Animado era o clone de Lewandowski mais à frente: um velhinho que não se entregava fácil e dançava o tempo todo. Com um bela e espadaúda morena, Lewan estava nos cascos ontem à noite: dançou até no intervalo entre os shows, sem deixar de dispensar nem mesmo o play-back. Ôxe, e play-back né música não, menino? Data-vênia, forrozeiro!

O esquema de consumo é que nem em quermesse de São João em Brasília: você comprar as fichas e depois troca pela bebida ou comida que deseja adquirir. E o repertório? Onde é que eu iria imaginar que um clone metropolitano de forró de pé de serra iria tocar para o público dançar novos clássicos da música nordestina como "Banquete dos Signos", "Abri a Porta" (copiando milimetricamente o arranjo do disco original de Dominguinhos, um brinde extra à minha memória) ou - o hit inesperado na noite, que fez todo mundo levantar e sair em caminhadinha de passo de quadrilha para a pista - "Frevo Mulher". Ouvindo esta última e apreciando a animação geral que ela provocou, tirei minhas previ-conclusões: aquele pessoal todo tinha que ter 13 anos em 1979, quando o "Frevo Mulher" que Zé fez para a então mulher Amelinha gravar estourou no último carnaval da década da nossa tenra infância. Vida longa ao Forró do Pote: e dia 2 de março tem Flávio José - se a gente estivesse aqui, ia, se ia, e como ia.