domingo, 24 de junho de 2012

O canto dos cristais urbanos



Uma visita a um dos monumentos arquitetônicos e paisagísticos menos badalados de Brasilia e o que podem dizer seus oráculos emudecidos pela passagem do tempo histórico

Quem vê toda noite na tevê a arquitetura moderna de Brasília servindo de moldura para a crônica político-parlamentar do país, ou ainda se considera impactado pelas curvas em flor do  prédio da catedral de Niemeyer, e assim pensa ter uma visão total do diferencial urbano da capital brasileira está repleto de impressões mas incompleto de possibilidades. Como toda cidade minimamente turística, a exposição selecionada e exacerbada de seus cartões postais mais consagrados entrega para o conjunto dos brasileiros que não vive aqui em Brasília uma visão editada, um videoclipe sempre interessante, mas naturalmente nunca tão desconcertante quando a sensação de estar de fato aqui, entre uma curva do arquiteto e um tronco de cerrado, vendo-se ora refletido nas vidraças do Palácio do Itamaraty ora escorrendo pelas calhas do Palácio da Justiça.

Artifício e natureza bruta, vastidão e concentração, verde e cinza, aspirada das distrações urbanas que caracterizam qualquer aglomerado humano Brasília é esse espelho de contrastes extremos. Mas nem o Palácio do Congresso nem a catedral ou mesmo o menos conhecido interior azulado de vitrais da Igreja Dom Bosco é capaz de compactar tudo isso e, por um efeito de síntese, projetar no ar na forma de uma perplexidade tão vívida que parece construída em argamassa de concreto essa condição de cidade de pedra rígida, arvoredo torto e ar semirrarefeito de umidade contada em gotas, senão em partículas. Brasília é muito mais Brasilia aqui: no espaço situado entre a Praça dos Cristais e o prédio do Quartel-General do Exército, no Setor Militar Urbano, região noroeste sob as asas do Plano Piloto.

Nada a ver com o fato de a cidade ter sido a moradia dos generais que se impuseram sobre o país durante a longa noite de conhecimento geral. Ou antes: tudo a ver, mas aqui a gente espana do ar o eventual determinismo histórico tão necessário à compreensão total da praça e do QG – cuja suntuosidade inicial obviamente decorre da megalomania do projeto dos militares em tempos durante os quais tal gigantismo foi moda governamental de Brasília a Moscou, num corte estilístico indiferente à temperatura ideológica de cada qual nas febres da guerra fria. Acontece que, tomada hoje, visitada nestes dias, usufruída num passeio com as crianças neste além-ano 2000, a leitura, ainda que com a pulga histórica pilheriando suas ironias ao pé do ouvido, consolida uma percepção muito maior, que inclui elementos outros como o cinema de ficção científica, a natureza em crise nas consciências ambientais confusas, o uso do espaço urbano colocado em questão por enchentes e desabamentos, os novos rigores do clima redesenhando o solo urbano, a potência da cidade- espetáculo e a própria força da imagem num mundo saturado por elas.

 A Praça dos Cristais e o conjunto formado por ela e o QG do Exército, com seus jardins milimétricos, seus espelhos d’água de beleza quase metálica e seus salões cobertos por arcos de concreto recortado em curvas moles sugerem aos poucos visitantes que aparecem por lá numa tarde de sábado os frames vivos e em 4D de um filme de Ridley Scott, como podem fazer pensar sobre o falso controle do homem ecológico reunido em cúpulas presidenciais ou de mesa de bar sobre a força da natureza incontida – porque tudo nos jardins que Burle Marx projetou para a praça emana beleza, mas também domínio do homem sobre o verde. Outras conexões que a mente faz enquanto o olho mira o cristal de concreto no centro do lago e a pele sente o vento da vereda recriada entre as pedras da praça pelo jardineiro número um do país: a extensão de tudo, a escala do projeto, é de uma natureza quase escandalosa quanto se pensa as dimensões do mundo urbano atual, como moradias cada vez menores e espaços que, se maiores, são tanto mais inacessíveis à renda do cidadão comum.

A Praça dos Cristais, para além da beleza impactante por diferente com que se apresenta de cara ao visitante, consegue ainda nos distrair por algumas horas, ou enquanto se estiver lá, sobre as possibilidades que teríamos de manejar os elementos do clima e assim garantir a tranqüilidade do nosso cosmo, garantindo à atmosfera em volta o mesmo caráter bucólico que envolve o lugar e suas circunstâncias. E aqui chegamos ao elemento mais imediato, superficial mas potencialmente mais impactante, que é a primeira imagem do pai QG com seu obelisco fálico e seu domo feminino, casal arquitetônico que pariu o filho-praça ali em frente, com sua infância de verdejantes jardins e voadeiras garças. Este elemento é a visão em si, a imagem tão elaborada em componentes que realizam a plástica da beleza pelo contraste dos constituintes: a praça e o quartel, esquecidos dos roteiros turísticos rápidos que garantem ao visitante conhecer Brasília em 1 hora, são o tipo do lugar que recupera para olhares cansados de tanto ver a força da mera observação. Brasília se refaz aqui, livre das bacias que já não conseguem mais lavar os olhos saturados de quem não mais se incomoda  com os desvãos da arquitetura moderna; se é que ainda se dá conta dela.

Um lugar onde a opressão do espaço aberto pode causar algum tipo de dependência nos olhares mais sensíveis. Onde Alberto Moravia, o escritor-viajante, reconfirmaria todas as impressões que teve da Brasília inicial de quando visitou a cidade nos anos 60. Um recanto de natureza tão domada que causa inveja e faz jorrar interrogações na mente apressada do militante ambientalista. Um quadro adornado por lagos artificiais cuja água tanto se presta ao projeto do paisagista que sugere uma matéria metálica no limite da artificialidade. Onde até a garça – de verdade! – engana o primeiro olhar do incauto visitante: posta no alto dos falsos cristais de pedra, elas sugerem à primeira vista o aspecto congelado dos anões de jardim, mas logo se lançam em vôos e produzem um novo instante de perplexidade para o deleite do visitante.

Juntos, o QG e sua praça minam cada pedaço da expectativa que você construiu ao sair de casa ou do hotel para conhecer este espaço tão pouco badalado. Os clichês sobre militarismo, Brasil Grande, anos 70, repressão e resistência, cultura e natureza caem todos diante da estranha beleza de se estar neste lugar recontextualizado pela passagem do tempo. O grandioso tornou-se tão raro de lá pra cá que reencontrá-lo obriga o enfastiado das eras superplanejadas a repensar escala e estética.Por mais estridentes que tenham sido – e foram – não chegam aqui os gritos dos torturados pelos mandatários que tiveram a quase exclusividade de desfrutar do QG e sua praça. Chega, é verdade, um tipo incomum de silêncio que talvez contenha aqueles urros, remixados pelo túnel de tempo que percorrem para alcançar o presente.

Barulho mais forte vem mesmo é dos soldados armados no entorno da praça, afinal, não esqueça, estamos no Setor Militar Urbano. Pois se a grandiosidade do conjunto, passados tantos anos, pode não mais emular a violência do projeto militar que gerou esse lugar, a mera presença viva e só aparentemente sutil dos guardinhas tem tudo para trazer os anos 70 de volta. Mas logo o vôo de uma garça vai lhe arrebatar de novo e delicadamente do cerne da história para o sofá da arquitetura – e a recontextualização fará o resto. Porque, superadas as bases das condições que permitiram e estimularam a era dos generais, restaram esses museus que funcionam hoje como documentos de beleza inusitada, com sua praça que parece suspensa no ar dos acontecimentos (esteja lá e verifique como todo o noticiário político atual vira água soprada no ar da sua mente indiferente) e seu quartel-general adornado por intervenções arquitetônicas que lhe dão a impressão de estar dentro dos dutos de uma flor de melífluo concreto.



Por diferente, por aberto tanto ao céu quanto à terra – este é um dos tantos lugares em Brasília onde o liliputiano habitante se sente diretamente em transição entre o solo e o firmamento – , por respingar um verde contado no encardido geral do concreto, por abrir rombos derrapantes onde o convencional só prevê linhas retas, por reconstruir em matéria artificial e humanamente controlada as veredas do Grande Sertão não muito longínquo de Guimarães Rosa, por tudo isso o QG do Exército e a Praça dos Cristais podem ser uma subestimada síntese pouco conhecida dos mistérios urbanos e audiovisuais de Brasília. E você ainda pode dar migalhas de pão dormido aos peixes do lago, esses seres ainda mais inocentes do que nós das transformações históricas, econômicas e sociais que se passaram ao largo das pedras da praça.


terça-feira, 19 de junho de 2012

Rio + 20 é no sertão


No recinto, o conforto do ar condicionado e da poltrona macia. Lá fora, por trás da vidraça tipo cinemascope, o paisagem da cidade dadivosa. Do ladinho, um batalhão de assessores prontos a tropeçar ao menor pedido do mais reles copo de água - bem pura, por favor. E ainda tem quem estranhe que a nova edição da Conferência Mundial do Meio Ambiente, publicitariamente chamada de Rio + 20 (um nome que vale por uma tuitagem rapidinha), não apresente resultado. O problema é o ambiente. O problema é climático. Entendam bem: a referência não é exatamente aos problemas do planeta, mas da conferência mesmo. Quem for capaz de suar um milésimo da inhaca exalada por qualquer bom brasileiro durante um janeiro nordestino vai achar a solução para todos os impasses assim-assim, num passe de racionalidade. 

Está claro como o buraco da camada de burrice que recobre o planeta: bastava instalar a conferência num lugar menos aprazível do ponto de visto pop-ambiental. Bastava trocar o que (não) está sendo a Rio + 20 por alguma coisa como o Sertão - 10 (como aliás já sugere uma dessas piadas compartilhadas no Facebook). Imagine se a Rio + 20 (ok, por questão de convenção, vamos manter o nome) fosse realizada num pavilhão no interior da Bahia, com essa seca causticante que vem marcando com suas úlceras o sertão nordestino, num pavilhão coberto com telhas brasilit? Ou então num acampamento de barracas de lona nas margens do leito seco do rio Seridó, na região que leva este nome no interior do Rio Grande do Norte - um estado ainda melhor, visto que nem precisaria mesmo trocar o nome da conferêcia? Não preciso nem falar das opções mais, digamos, globais - como os rincões mais hostis das savanas africanas, preciso? Alguém duvida que, instalados em cadeiras dobráveis de bar, dessas invariavelmente pintadas de vermelho ou amarelo e com um Brahma bem grande pintado no tampo, tendo que se valer de precários ventiladores angariados na vizinhança, os senhores chefes de Estado não chegariam rapidinho a um consenso sobre o que precisam de fato mudar para que a Terra velha de guerra não vá a pique em função dos nossos desmandos comuns (sempre lembrando que neste grupo, como sempre, tem uns mais comuns do que outros)?

Li num desses romances populares sobre os bastidores do Vaticiano, um desse Morris West que é preferível não citar pra não passar vergonha, que durante a eleição do papa os senhores cardeiais reunidos em Roma são alimentados com um café terrível e mantidos trancados em condições não muito confortáveis. O objetivo é exatamente fazer com que não demorem muito a escolher o novo ocupante do trono de São Pedro. Pois é precisamente isso o que falta na Rio + 20, ainda mais tratando-se de uma conferência que não trata sobre algo etério e subjetivo como a definição sobre qual ser humano, entre tantos habitantes do planeta, está mais apto a servir como embaixador de Deus no plano dos depredadores aqui embaixo. Não, na Rio + 20 trata-se do planeta propriamente dito - e o dono da representação diplomática situada no país da bota  não tem nada a ver com o basquete. Aqui, os homens que se atem e se desatem, se quiserem continuar tendo onde morar. Pois até do ponto de vista metalinguístico, o sertão precário - precário mesmo, sem as facilidades que a tecnologia, essa danada, trouxe para lugares como o país do Seridó - é o lugar ideal para o pessoal que dá as ordens sentir o drama e não decidir com base apenas na suposição apressada dos assessores igualmente mantidos confortavelmente à margem do verdadeiro meio ambiente, aquele que queima sob o sol, fustiga com o vento, encandeia com a claridade, afoga na enchente e mata de sede e fome quando vem a seca.  

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Brasilia segundo Moravia


Entre a seca que aspira tudo, o concreto quebrado em curvas e as crispações do cerrado, Brasília é mesmo esse lugar à parte que desafia a percepção de quem nela vive. Nem se trata mais de gostar ou não gostar – a pergunta mais frequente feita a quem, não sendo originário daqui, aqui vive – mas de absorver, cada um à sua maneira, a distinta e reelaborada geografia urbana, ao mesmo tempo tão rural, que existe em volta do habitante. Sobre isso, destaca-se a visão do escritor-viajante Alberto Moravia, descrito pela escritora brasileira Ana Miranda como um “Rubem Fonseca italiano” na edição desse domingo do Correio Braziliense. Miranda usa o espaço semanal que tem no jornal para lembrar o impacto estético causado pela visão de Brasília – especialmente do alto do avião que o trouxe à cidade no instante de sua criação – para fazer pensar mais uma vez sobre a impressão que a cidade, parece, sempre nos causará. É mais uma tentativa de tradução ou enfrentamento diante da esfinge que é esta cidade, desde que você consiga, ironicamente em meio à mais previsível rotina que ela também propicia, suspender um pouco o olhar e captar a estranheza que está por toda parte. Seguem trechos da coluna de Ana Miranda, reproduzindo os textos de Moravia:


CIDADE METEORO
A cidade que “caiu como um meteoro em chamas, sacrificando a terra árida com sangue”.


ABSTRAÇÃO NO BARROCO
A cidade abstrata criada para arrancar das costas barrocas e preguiçosas do Brasil as classes dirigentes para retomarem a marcha dos antigos desbravadores no rumo do interior, e ocupar e povoar e enriquecer vastíssimos territórios. Mas, ao mesmo tempo que cidade desbravadora, cidade burocrática, a criar procedimentos padronizados para estruturar a organização da hierarquia, a divisão do poder e do trabalho.


ALUCINAÇÃO URBANA
Saberá Brasília “ser mais vivaz que essas cidades construídas pela força da vontade? Uma questão crucial para o destino da cidade. Até que ponto Brasília se deixaria massacrar pela presença monumental do poder? A cidade ainda se faz essa pergunta, diz o poeta. Como decifrar tua caligrafia de postes e ventos? Agora Moravia está num carro e percorre o Eixo Monumental, depara-se com as torres e sopeiras contra um céu azul, sente-se pequenino como um liliputiano, esmagado e aniquilado pela arquitetura, acha que os edifícios são alguma alucinação, pressente a atmosfera ditatorial, a solidão urbana, a desorientação que os pequenos habitantes sentem diante dos mistérios do poder que os governa.

Cadê Roger?



Neste domingo, respondeu à perguntas da sessão “O que eles pensam”, do Correio Braziliense, Roger de Renor, o pernambucano para sempre associado na cultura pop-rock-maracatu-nordestina ao movimento manguebeat, cujo manifesto Caranguejos com Cérebro está completando 20 anos. Roger era o dono do bar e espaço Soparia, plataforma de lançamento dos músicos pernambucanos que assumiam a estética da lama local como ingrediente fundamental para construir uma nova música, indiferente aos padrões do pop-rock “nacional” já então em fase de avançada perda de criatividade no início dos anos 90, além de transpor outra barreira de estilo, esta “local”, representada pela exigência de enraizamento cultural absoluto que faziam todos aqueles sombreados pelo movimento armorial, outro marco pernambucano anterior,  levantado pelas mãos não menos fundamentais do escritor Ariano Suassuna em conjunto com músicos que mesclavam a tradição erudita com o repertório de tinturas medievais que caracteriza a estética popular nordestina. Na entrevista ao Correio, Roger abre todos esses pacotes e, com a informalidade que este tipo de avaliação permite, empacota tudo novamente com os barbantes que o manguebeat legou à cultura musical pernambucana reformatada em estética & indústria, mídia & mensagem. Seguem os trechos:


MATUTICE ASSIMILADA
Chico Sciense e Nação Zumbi cantando com Gilberto Gil no Central Park é melhor que uma terapia de grupo como o estado inteiro. Com um megaterapeuta dizendo: “Fiquem tranquilos que não há nada de errado com o sotaque de vocês, com a forma como vocês se vestem. A matutice não é de vocês, é de quem tem o preconceito.”



LOCAL E NACIONAL
Não é uma questão de o músico ser descoberto nacionalmente, mas de envolver nacionalmente as pessoas. O principal sintoma da mudança foi esse, as pessoas começaram a se interessar por nós, saber que não paramos em Geraldo Azevedo, em música de voz e violão. Esse interesse do músico construir passou para uma geração nova que não está a fim apenas do sucesso. A moçada está a fim de êxito, de viver da música, escolher o lugar onde vai morar, não ser obrigada a morar no Rio de Janeiro.


ALÉM DO ARMORIAL
Queriam diversão como o que tem ali, com o que está perto, com o nosso repertório, o nosso quintal, sem essa culpa de ter que ser armorial. Hoje, a partir dessa história despretensiosa e até acidental do movimento manguebeat, foi possível liberar gente como Mestre Ambrósio e Siba.



A MORTE ESPETACULAR COMO CARTÃO DE VISITAS
Quando o jornal da tevê toca aquela musiquinha do plantão, até hoje me lembro da parada. A gente entrou pro mainstream da mídia pela porta mais funda e mais fúnebre que existe.  O que podia ter sido o fim da história talvez tenha sido um caminho mais rápido para o entendimento das novas gerações. Uma geração perdeu uma referência e as outras ganharam todas as referências.

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Verdade e Ficção


Romance-espionagem de Luiz Gutemberg pode até parecer livro de bolso, mas revela-se mais incisivo ao reconstituir o mundo dos generais-presidentes do que o painel documental de Élio Gaspari. E ainda vale por uma comissão da verdade informal.


O livro está fora de catálogo, mas a discussão está na ordem do dia. Agora que a Comissão da Verdade foi instalada e designada, toda vez que você ouvir um convertido de última hora dizer que é preciso também apurar os tais “crimes da esquerda”, pode muito bem lhe tacar na cabeça o romance de espionagem brazuca “O Jogo da Gata-Parida”, de Luiz Gutemberg, edição da Nórdica hoje só disponível em sebos, como o exemplar que encontrei no Sebinho de Brasília e tracei em velocidade bem maior do que a que o país levou para admitir a criação da Comissão da Verdade.

Mas qual o poder de fogo de um livro típico daqueles lançamentos da década de 80, quando jornalistas censurados durante anos finalmente botavam pra fora, como podiam, as histórias da violenta repressão política vivida pelo país até a noite anterior? O leitor pode achar que se trata de leitura datada, feita para dar vazão a um sentimento de época, coisa que o Brasil não leva mais que 15 anos para esquecer e tocar pra frente. Poderia ser, mas o diabo dos detalhes, aquele que mora onde menos se espera, trata de proporcionar uma outra leitura à ficção semidocumental que produziu Gutemberg, jornalista que habitou o vídeo dos telejornais da TV Bandeirantes durante anos, você lembra. Era o “Guti”, como gostava de abreviar Marília Gabriela.

O primeiro detalhe é uma ironia: o fato de uma ficção ter tanto a dizer sobre a página infeliz da nossa história. Sim, porque ao juntar as informações e o caldo de cultura do período da transição iniciado no governo Geisel até a indicação do general Figueiredo para sucedê-lo, Gutemberg até deu novos (codi)nomes aos personagens da já distante “abertura política”, mas o que está descrito na sua elaboração ficcional comporta, pela liberdade do gênero que aqui e ali beira o livro de bolso (e isso não é um defeito, ao contrário), uma reconstrução muito mais verdadeira do que, por exemplo, aquela série de livros documentais escritos por Elio Gaspari.

Não que o painel composto pelos livros de Gaspari seja ruim – é outra coisa que se lê afogando num pântano de curiosidade histórica das mais movediças. A questão é que, se Gaspari construiu toda sua elaboração do período militar a partir de notas e impressões do general Golbery – sua fonte pretérita que acabou definindo muito de sua visão, com a qual nem sempre o leitor atento tende a concordar – no caso de Gutemberg o ponto de vista é mais, digamos, “assumido” – e por tabela, intelectualmente mais honesto. Assiste-se à novela política e paramilitar da imposição do general Figueiredo como “candidato do sistema” – vencendo com as armas da época dois concorrentes de peso ombro a ombro nas mesmas fileiras do generalato, é lógico – por dentro do processo, entre quartéis, salas do “serviço” (SNI) e carros equipados com transmissores para ouvir  telefones e ambientes grampeados como jamais sonhou a inocência ética de um Gilmar Mendes.

Ou seja: enquanto a não ficção séria de Gaspari gargareja a voz oculta de Golbery, a ficção livresca de Gutemberg não tem pudor de contar tudo – ou ao menos o episódio da escolha de Figueiredo dentro do painel geral da ditadura – pela ótica interna dos generais no poder. Resultado da equação: o “inventado” , no caso, pode ser muito mais contundente do que o “recriado”. Sobras da equação: se, entre os própios militares da cúpula do poder, cada qual mais guarnecido de costas quentes do que o outro, as artimanhas competitivas contavam com chumbo para-oficial de tamanho poder de fogo – há até um sequestro na história de Gutemberg – imagine-se o que tal poder não chancelaria diante dos esfarrapados e ingênuos grupos de esquerda armada nas noites anteriores?

No  livro de Gutemberg não tem Marighella, Lamarca ou Yara. Não tem a Dilma da ficha publicada pela Folha. Tem Figueiredo, Octávio Medeiros, o próprio Golbery e os demais integrantes da távola militar de então. Não li, mas posso dizer por informações transversais que tem também o elevado grau de conspiração interna presente em outra não ficção marcante do período – a “Guerra das Estrelas” em que outro jornalista conhecido, Carlos Chagas, narra outra sucessão, a de Costa e Silva, de quem foi assessor.

Por oposição, e por não sair nunca dos limites verde-oliva do alto generalato brasiliense do final dos anos 70, o livro de Gutemberg serve de espelho à investigação da Comissão da Verdade recém-instalada. Toda vez que alguém vier falar em excessos da esquerda, sua chapa de vidro em forma de páginas impressas estará lá, refletindo e devolvendo em raios luminosos de fina ironia a desproporcionalidade da acusação. “O Jogo da Gata-Parida”, que poderia muito bem ser relançado à sombra desses novos acontecimentos, é uma comissão da verdade informal e à parte, que as novas gerações esquecidas ou mesmo ignorantes das coisas de então poderiam e deveriam conhecer.

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Um livro, muitos filmes



A narrativa sobre o Glauber Rocha pré-Deus e o Diabo feita pelo cronista do Leblon contém pelo menos três boas ideias de roteiro para filmes. E uma omissão típica de quem não enxerga além da Zona Sul do Rio de Janeiro

Um bom livro sobre cinema, cineastas ou de ensaios sobre a sétima arte pode ser aquele que contém um filme interno, com uma narrativa que mesmo sendo escrita produz um efeito visual irresistível, personagens que cativam ou trechos/cenas que impactam. Pois o livro que o mala-pop Nelson Motta escreveu sobre a juventude de Glauber Rocha, “A Primavera do Dragão”, consegue ser bem mais que isso. O que dizer de um livro que contém em suas econômicas 360 páginas – muitas delas ricamente ilustradas num projeto gráfico que lembra mais uma revista de bom gosto – três filmes possíveis? Ficam faltando somente cineastas dispostos a encarar a tarefa de tirar esses filmes do livro e colocá-los nas telas. Mas são absolutamente filmáveis e apreciáveis em sala escura ou DVD pelo menos três das histórias que o último cronista do Leblon garimpou ao pesquisar a vida de Glauber Rocha desde a infância até o momento da consagração no Festival de Cannes em 1964 (com a exibição de “Deus e o Diabo na Terra do Sol” que, embora perdendo para o francês “Os Guarda-Chuvas do Amor”, foi a grande sensação daquele ano) para este livro tão bonito quanto interessante – e ligeiro, o que conta muito para os leitores ditos impacientes.

As sinopses estão lá, à espera de quem se candidate a filmar: a mais fascinante delas poderia se chamar “A Princesa da Casa do Padre”. Iria narrar o fascínio que reinou entre os moradores do vilarejo onde um certo dia chegaram Glauber e sua tropa de artistas e técnicos para rodar “Deus e o Diabo”. Havia, entre todos, uma estrela – mas que estrela! Era Yoná Magalhães, que numa temporada teatral em Salvador virou a menina dos olhos do filho de um latifundiário local. E filho de latifundiário baiano nos anos 60, você sabe, pode tudo: até fazer com que Yoná, que já era uma atriz “nacional” na época, largasse tudo para casar com ele e viver na Bahia. Ocorre que o tal filho de latifundiário tornou-se também o principal financiador de “Deus e o Diabo” (essas contradições brasileiras, vá entender) e Yoná seu principal personagem feminino, a Rosa, como está cansado de saber quem assistiu ao filme. Pois bem: como já chegou estrela a Salvador, sempre houve em torno de Yoná um tratamento de celebridade à antiga. Agora você transfira isso pro lugarejo onde foi filmado “Deus e o Diabo”. O relato do livro é de que foi alugada apenas para Yoná a casa do vigário local – obviamente, a melhor da cidade. E lá vivia a atriz, protegida pelas janelas fechadas, gerando um rumor de curiosidade e veneração entre os habitantes locais que, coitados, mal sabiam o que era a produção e realização de um filme. Não demorou a se espalhar a história de que quem vivia na casa do padre era uma espécie de princesa. Dá ou não um filmaço? Pense nisso nas mãos de Guel Arraes, com um tratamento lírico-cômico-nordestino como só ele é capaz de fazer sem culpa?

A outra história é sobre a cena em que o personagem do beato Sebastião exorta sua multidão de seguidores e sobe com eles o monte santo do lugar. Essa multidão de quatrocentos figurantes foi recrutada entre os moradores do lugarejo mesmo. E recebia um salário para atuar no filme. Mas quem disse que eles estavam dispostos a subir o tal monte umas quatro vezes, debaixo dos gritos de Glauber e diante daqueles trambolhos esquisitos que eram as câmeras? Deviam se perguntar: pra que subir tanto – uma vez não basta? Enfim, houve resistência. Foi preciso que aquele mesmíssimo filho de latifundiário recorresse a um pagamento extra: latas de leite que ele retirou dos estoques do pai, que também tinha o costume de diversificar seus negócios. Com a promessa de duas latas de leite em pó para quem participasse da cena, choveu figurante. Veio gente dos vilarejos vizinhos, o beato brilhou e, como vem diz Nelson Motta no livro, “Glauber chorava atrás das câmaras”.  Mas como diz aquele personagem de Billy Wilder numa das falas mais célebres da história do cinema mundial, “ninguém é perfeito”. Pois um defeito na câmera melou a filmagem e foi preciso fazer tudo de novo. Sem estoques de leite em pó, restou a alternativa de rifar uma máquina de costura entre os figurantes pra ver se novamente era possível atrair outra multidão. Deu certo, como você pode ver alugando o DVD e vendo novamente  o filme. Uma história à parte que dava sozinha um outro filme, bastasse um Fernando Meirelles encarar a missão com a mesma energia de seu antecessor no posto de cineasta número um do país. “Os Figurantes de Deus e do Diabo” não seria um mau título. Até um documentário renderia, nas mãos de um cabra disposto a encontrar, hoje, os mesmos figurantes de então e ver como eles se encontram agora.

A última das três histórias contidas no livro “A Primavera do Dragão” que merecia ser filmada é de natureza mais poética, daria um filme mais singelo, uma produção mais Walter Salles: narraria a decisão de Glauber, muito antes de filmar qualquer coisa, de sair em expedição pelo interior do Nordeste para se inteirar melhor da realidade de sua gente e de seu país. É um road movie perfeito como foi, por exemplo, “Cinema, Aspirinas e Urubus”, de Marcelo Gomes – outro que poderia rodar com os pés nas costas essa terceira história. E seu momento culminante se dá quando Glauber encontra o poeta pernambucano Ascenso Ferreira num vagão de trem. Só a locação já é um poema visual em si: Ascenso, lembrem-se, é o autor daquele célebre poeminha cujo trecho todo mundo conhece e que repete, na sua métrica, o barulho do trem em movimento: “Vou danado pra Catende / Vou danado pra Catende / Vou danado pra Catende/ Vou danado pra Catende/ Com vontade de chegar” (o poema é o Trem das Alagoas). Sentiu alguma coisa meio “Diários de Motocicleta” no clima desse encontro? Então...

O livro é mais que conhecido; a capa, com uma foto de Glauber solarizada, lembra aquele disco de Caetano Veloso de 1981 (“Outras Palavras”); a leitura corre ligeira que nem o trem das Alagoas; as ilustrações dão a impressão de que você está lendo uma dessas revistas culturais; as histórias de bastidor são saborosas como é imprescindível neste tipo de livro; as letras são grandes para quem já está com a vista prejudicada e “A Primavera do Dragão” ainda contém esses três filmes embutidos. Dessa vez o mala-pop Nelson Motta matou a pau. Só cometeu um deslize: esqueceu de mencionar na introdução um outro livro, tão importante quanto (ou mais) que traz a biografia inteira de Glauber Rocha( “Glauber Rocha – Esse Vulcão”), escrito pelo baiano e companheiro de geração do cineasta João Carlos Teixeira Gomes. Mas, como o alcance da lente intelectual de Nelson Motta não vai além da Zona Sul do Rio de Janeiro (e, quando passa disso é sempre ali pros lados de Manhatã), o esquecimento fica explicado. O fato é que são livros diferentes – enquanto o do carioca de Manhatã vale como bate-papo divertido, o do baiano brazuza se sustenta nas suas 600 páginas como estudo de profundidade explicitada. Melhor ler os dois. Enquanto se espera que aqueles três filmes entrem em cartaz.

terça-feira, 8 de maio de 2012

SOS jornalismo!



A julgar pela manchete da edição de hoje, o jornal “Correio Braziliense” está seriamente empenhado em tomar o eventual lugar que a revista “Veja” deixe desocupado ao final desse processo de perda de credibilidade em que a publicação da editora Abril vai se afundando. O jornal que chegou aqui em casa hoje traz o seguinte destaque principal na sua primeira página: “Uma bolsa sob medida para o PT nas eleições”.  A notícia (que o jornal “O Globo”, só por efeito de comparação, deu numa mera nota de coluna na página 2 desse domingo) é sobre o lançamento do tal “Brasil Carinhoso” que vai reforçar ainda mais a política compensatória – e, por outra via, econômica mesmo, disse se falará mais adiante – de redistribuição de renda por meio do auxílio financeiro direto. O anúncio será feito a dois meses da eleição  municipal, daí a ilação editorial feita pelo Correio, que não é bem aqui o objeto da contestação.

A questão é o ódio antipetista que o fato de alçar tal notícia a manchete e com tamanha carga de rancor editorial (muito além do caráter, vá lá, “fiscalizatório” da imprensa quase sempre exercido com seletividade constrangedora) demonstra. Jamais vi – trabalhei no Correio e durante boa parte do tempo exatamente como redator desta mesmíssima primeira página – tamanha fúria fiscalizatória quando o PSDB estava no poder. Não lembro de o jornal investir de tal maneira, destacando o partido governista em particular com semelhante ênfase manifesta e latente ressentimento subtendido. Entendo que a grande parte do público leitor do Correio esta manchete causa um infeliz contentamento: é o vasto círculo de assinantes que compõem a classe média estabelecida de Brasília (uma classe que até a era Cristovam era petista de brigar na rua com cabos de bandeiras vermelhas contra as azuis de Roriz, veja a ironia) que tem completa ojeriza a qualquer forma de bolsa, compensação, cota e similares. Mesmo assim, botando na balança qualquer forma de adulação mútua entre editores e leitores, a manchete é um exagero que merece repúdio. Só se explica, repito, caso o “Correio” esteja com inveja da belicosidade editorial da “Veja”. Por que não recontratam logo para redator o tal Policarpo, que também já passou por lá?

Abre-se o jornal e na página 4 a colunista Denise Rothenburg mal consegue conter suas simpatias tucanas ao analisar o noticiário político de Brasília. Aqui é necessário um parênteses: é bom que os jornais, sobretudo o jornalismo impresso, contenha profissionais que naturalmente nutrem as mais variadas simpatias político-partidárias, até o ponto, igualmente natural, de saber administrá-las. Eu, por exemplo, que nunca tive sequer espaço para manifestar com destaque minhas simpatias idiossincráticas, sempre fui muito cioso de não estar fazendo isso sem pensar ao editar reportagens feitas pelos colegas. Faço isso diariamente como editor do telejornal da TV Câmara, onde trabalho. No caso do colunismo de jornal impresso, espera-se naturalmente uma análise. E concorda-se, num pacto informal entre leitor e jornalista, que este tenha uma afinidade maior com tal ou qual tendência ou partido. Se o jornal que o publica tem a saudável política de publicar também outros jornalistas com visões diversas daquele, está tudo no equilíbrio, na paz. O “Correio”, por exemplo, publica análises de Marcos Coimbra que eu aprecio muito mais. A questão aqui é quando o jornalista deseja vender para o leitor uma análise que é muito mais decorrente de suas afeições do que da configuração geral do país que deveria ser seu objeto de análise.

Sem mais circunvoluções: ao falar sobre o contentamento no Palácio do Planalto pela eleição do socialista François Hollande na França, a colunista empurra texto adentro, como se fora algo de senso comum (mas é assim, dessa forma aparentemente casual, que muitas vezes se forja o senso comum desejado) o comentário de que é errada a comparação entre o momento que a França vive agora com Hollande e o que o Brasil viveu em 2002 com a chegada de Lula ao poder. Por quê? Ora, porque segundo a analista, Lula não alterou as bases da política econômica de Fernando Henrique. Pois eu e milhares de milhares de brasileiros dotado de um mínimo de inteligência não dirigida pela grande imprensa e de uma porção qualquer de sensibilidade social discordamos: pra nós, tomar o caminho da redistribuição de renda, usar as tão renegadas bolsas em dinheiro como forma de movimentar a economia de regiões esquecidas na era tucana como o Nordeste, elevar o salário mínimo a patamares condizentes com o amplo espectro de bolsos brasileiros que dele dependem são sim, POLÍTICAS ECONÔMICAS. Reinstituir diretrizes mínimas de Estado onde antes só tinha vez a lógica absoluta do mercado é sim política econômica.  Se o jornalista acha que política econômica se resume à ata da reunião do Banco Central ele está viciado em números, acomodado nos gabinetes, intoxicado por uma ordem – a neoliberal dos anos 90 – que há muito deu sinais de enfado, pra dizer o mínimo. A economia, jornalista, realiza-se na realidade das ruas, do comércio, da renda que vai e vem, do saque que o aposentado faz no caixa eletrônico que acabou de ser instalado, do incremento que muda a realidade de cidades antes pouco mais que estagnadas. Esse é um paradigma que ninguém quer quebrar – e nisso a jornalista Denise Rothenburg, como muitos de seus colegas que parecem mal conseguir conter o entusiasmo diante da mera lembrança da era FHC, não está sozinha. É geral essa dificuldade, pra não dizer teimosia.

A cereja no bolo dessa leitura do “Correio” de hoje está ainda na coluna de Denise Rothenburg. É preciso transcrever a sentença para que não pareça que estou aqui torcendo as palavras da jornalista: “O que o governo brasileiro espera de Hollande é que ele tenha a mesma sorte para poder servir de inspiração a outros países europeus”. Semântica é tudo: repare na palavra escolhida: sorte. Foi, na análise final da jornalista, o que Lula teve. Mérito, nenhum. Sensibilidade social de entender as carências e desigualdades do Brasil, nada. Inteligência financeira para perceber que a saída poderia estar no mercado interno e no exercício da soberania no plano externo, necas. Lula teve... sorte. É assim que um jornalista que não consegue controlar sua simpatia tucana (e aqui deixo clara a minha simpatia petista) analisa um  governo como o anterior que, em muitas e muitas faces, continua no atual. É assim que um jornal se desconecta da realidade, ainda que alimente com migalhas apetitosas de  rancor partidário e preconceito social os leitores que mantém, como fez na manchete desta terça-feira, 8 de maio.  

Ao final da leitura, vi reforçado o meu desejo inicial que surgiu só de bater o olho na manchete: cancelar minha assinatura. Não posso fazer isso por questão contratual – paguei pelo pacote anual. E também não devo por questões profissionais: meio servidor público e meio jornalista, condição de que muito me orgulho no meu modesto posto de trabalho na redação da TV Câmara, infelizmente preciso estar a par da maneira como os colegas que tantas vezes me julgam chapa branca exercem o jornalismo chapa cinza, aquele que coloca uma nuvem de fumaça entre a realidade e o interior das redações.

domingo, 6 de maio de 2012

O veneno de Bethânia



A cantora devolve em forma de fino biscoito musical as agressões que sofreu quando do caso do site de poesia. A questão é: a virulência da resposta não a iguala à violência dos seus detratores? E mais: eles não tinham, sim, legitimidade para contestar o subsídio fiscal ao projeto?




Maria Bethânia queria fazer um site de poesia. Não deixaram, ela fez o de sempre – um disco. E não deixou barato, nem uma coisa nem outra. E sacramentou à revelia – quem, afinal, pode se considerar juiz ou réu quando se trata dos novíssimos tribunais de internet, atualização dos velhos tribunais de bar? – uma nova relação entre artista e público. Ou melhor: entre público e artista – e a ordem dos fatores, o internauta atento sabe, nunca fez tanta diferença. Quanto agora.


Pensou-se um site com uma poesia por dia, criou-se uma polêmica com um protesto por minuto. Algo muito propenso a, como de fato aconteceu, virar um insulto por segundo. Um mal entendido por milésimo de instante. Uma contramanada solta na velocidade dos clics. Curtiu/ Não curtiu. Cobrou, não pensou. Denunciou, condenou. O fenômeno do site de poesia de Bethânia foi um caso perfeito e acabado – por complexo e, pra usar um termo da moda, transversal – de crise de credibilidade algo além de público e artista, como já se disse. Entrou no caldeirão o oportunismo de atingir o consagrado no que ele tem de mais vulnerável – a leve crosta da fama que a certo jornalismo causa tamanho apetite a simples possibilidade de, entre dentes, quebrar. Jogou-se na receita uma pitada de ácido contra o bem-sucedido, seja ele quem for ou em que área estiver. E usaram-se porções generosas de determinados temperos bem próprios da nossa viciada cozinha: garrafadas de desmancha-reputação; purgantes para diluir hipocrisias há muito solidificadas; xaropes contra certa soberba que os baianos tossem com gosto na MPB de desde sempre.


Micou o site, morreu o projeto de uma poesia por dia a peso de ouro regiamente anotado no livro das subvenções tributárias nacionais. Enfim. Deu-se por esquecido. Calou-se a voz da cantora a não ser para cantar – voz que obviamente nem se deu ao trabalho de se pronunciar enquanto a arenga ocorreu. Passou. E quando ninguém mais lembrava, chegou o novo disco da mesmíssima voz calada no projeto de declamar poemas subsidiados. E no novo petardo que a cantora lançou no mercado, mais que sugestivamente chamado “Oásis de Bethânia”, veio aquilo que a Classe C muito pouco poeticamente chama de “o troco”. No oásis baiano da cantora de palestino nome bíblico, mina no aparelho de som a resposta líquida e certa para o caso arquivado. Está tudo lá, na faixa “Carta de Amor”, terno nome para uma ironia mais que declarada. Bethânia despeja imprecações musicadas contra quem a hostilizou em 140 toques. E o grau de ira dessa resposta é tal que, no limite, faz o ouvinte – ao menos este ouvinte aqui, que lhes fala – indagar-se se a virulência de tal retorno não justifica, nos finalmentes, os equívocos cometidos na ida.


Em claras palavras: Bethânia, como outros, é essa voz que não cansamos de admirar e de ouvir. E antes de concluir é preciso dizer que eu pessoalmente julgo que a dela é a mais brasileira das vozes, que se fosse o caso de mandar para um planeta de outro sistema alguma voz que representasse a nós, morenos filhos desta terra, não haveria de ser outra a não ser a dela. E a essa conclusão cheguei não ao ouvi-la cantar (o que seria  muito mais que o bastante), mas ao ouvi-la como narradora de uma série de documentários sobre países de língua e cultura portuguesa, exibida há alguns anos no canal GNT, mas isso, afinal, não passa de um parênteses.  O que se quer dizer, nesta sofrida tentativa de retratação de um brasileiro comum diante do retratado pela cantora em função do caso que envolveu seu nome é na verdade bem simples: por maiores que tenham sido as porções de ira gratuita despejadas nas time lines da vida, o brasileiro comum, o internauta distraído, o crítico de botequim, o ativista de shopping ou qualquer um outro desses tipos acabados da sociologia das novas relações sociais tinha, sim, o direito de contestar o emprego do instrumento da licença tributária como forma de financiamento cultural no projeto de uma poesia por dia criado pelo cineasta Andrucha Waddington e que seria estrelado pela voz que tanto amamos de Maria Bethânia.


Não que a legitimidade da contestação não existisse antes – como disse, ela sempre esteve posta mas só agora, por uma virada tecnológica que se não iguala ao menos reduz a distância entre produto e consumo, arte e público, pode ser exercida plenamente. Inclusive com seus subprodutos indesejáveis como o insulto, a incompreensão, o equívoco. Ao final do processo, fica a contestação pura e simples: o valor do site era alto e envolvia uma personalidade artística que o mercado  da música há muito consagrou – portanto e por princípio, alguém a quem seria demais oferecer mais uma subvenção governamental que, por uma questão de política pública, foi pensada para garantir um mínimo de visibilidade a setores prontamente barrados na porta do mesmo mercado que recebe Bethânia de braços abertos. E é melhor que Maria Bethânia e quem quer que seja – artista consagrado ou aspirante a celebridade na tevê – entenda isso, essa mudança, esse novo status conferido ao público, o mesmo público a quem ela e outros tantos tantas vezes atribuíram poderes muito maiores. Em teoria, porque a tecnologia social de então não permitia que tal poder efetivamente se manifestasse – exageros e abusos à parte.


Ocorre neste caso um paralelismo entre a arte musical industrializada – o disco, o show, o cantor, o artista – e o segmento da militância política tradicionalmente à esquerda: neste campo aqui, foi comum durante anos o sujeito minimamente na condição de líder abrir a boca e encher os pulmões para falar em defesa do povo. Pois este mesmo líder de outrora agora se estranha com o mesmo povo que declarou representar. Quem estava enganado: o povo ou o líder? Se botar na balança, é um  caso PPS demais para rivalizar com a tensão bem maior, que envolve mais sentimentos simbólicos, que toca em afetividades muito maiores, da relação artista-público. Mas o paralelismo está aí, claro como uma daqueles faixas de protesto tipo “Abaixo a ditadura” que a gente vê nas antigas fotos das manifestações do Rio de Janeiro de 1968. Também há outro jeito de demonstrar sua validade: tente imaginar aquele líder  arrogante dos anos 80, hoje convertido no mais incomodado conservador que perdeu seu lugar na história por falta de sensibilidade social gritando, no lugar de frases em defesa do “povo”, brados retumbantes em favor do “povão”.


Pronto: bastou um leve desajuste linguístico para desmascarar o falso consciente – aquele que usa o discurso da democracia política para justificar seu recorrente e jamais abandonado egoísmo de classe. O que Maria Bethânia tem a ver com isso? Palavras, que são matéria de poesia. O verbo a que ela recorre para compor sua resposta no CD da vez – aliás, belíssimo em tudo o mais; e lembrando um outro delicado e inspirado momento acústico a que poucos se referiram, o disco “Ciclo”, dos anos 80. As palavras estão aí, mudando de sentido, adquirindo novas colorações. E se Bethânia se vale do seu oásis para oferecer água venenosa a quem a desabonou talvez ela esteja repetindo o mesmo equívoco daqueles que lhe dirigiram baldes de lama sem antes se inteirar melhor do que se tratava. Inteirando-se, provavelmente manteriam a opinião – mas destilariam a virulência. A mesma virulência que a cantora devolve agora, em igual medida, embora com a elegância de um biscoito fino.

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Titina X Socorro



Yes, nos temos Titina. A frase adaptada poderia estar escrita em faixas estendidas entre o Morro do Careca,em Natal, e o Bico do Papagaio, na área rural de Acari-RN, tal a expectativa que se formou em torno da aparição da atriz potiguar (e seridoense, e acariense, convém acrescentar pra todo mundo se sentir representado) Titina Medeiros na nova novela global das sete, “Cheias de Charme”. Se quisesse cultivar o cinismo reinante e pretensamente superior, poderia dizer que o fenômeno que antecede a novela e a presença de Titina no folhetim é apenas mais uma manifestação do nosso provincianismo tosco. Que toda vez que alguém diz no tuite ou no facebook que sente orgulho só de ver Titina nas chamadas do programa está expondo mais uma vez a nossa própria pequenez cultural.

Mas acontece que aproveitar o “caso Titina” para referendar novamente – e agora em escala de comunicação de massa – o cultuado complexo de inferioridade local (no que, claro, quem o aponta sempre se coloca acima dele, escapando do panorama da mediocridade geral) será apenas trovejar na tempestade – e, visto de outra maneira, incorrer no equívoco situado no lado inverso daquele desdém anterior. Ou se peca por deslumbramento, ou por apatia. Não existe possibilidade de transcendência no país do elefante. Soa redutor, ou não? Numa linha mais transversal que abarque tanto o excesso de expectativa que realmente existe (e pesa, quando não deveria) quanto qualquer reserva intelectual que afinal de contas desprezará Titina no pacote da novela como um todo e como gênero menor, pode-se tentar “pensar” o fenômeno social em termos mais específicos.

A palavra é “representatividade”: assim que foi anunciado que a atriz potiguar iria para a tela consagrada e disputada e superexposta da dramaturgia global, Natal, Acari, o Seridó, a classe teatral local, os jornalistas culturais, eu, você, todo mundo que conhece ou admira a energia que Titina transmite e exala nos vimos tomados por uma legítima ânsia de representatividade. Os baianos têm seu lugar no veículo de comunicação mais influente e massivo do país; os paraibanos aqui e ali enxertam alguém na tela platinada; os cearenses fazem a zorra classe C dos humorísticos – e nós, os de Poti, por que não abrimos uma porta que seja por lá?

Com Titina na novela, abriu-se esta porta – ainda mais quando o noticiário especializado aponta que ela está sendo vista como uma “aposta” da nova teledramaturgia classe C que a emissora vem explicitamente buscando. O que acontece a partir daí  é uma confusão até previsível: a “representatividade” potiguar de Titina na tela global é apenas simbólica (com o perdão do “apenas”, mas  a palavra aqui é necessária para o entendimento da comparação). E da maneira como o processo vem se dando, a pobre da Titina está sendo tomada pela nossa “opinião pública” quase como uma representante “política” do que somos no canal de comunicação que faz – ou pelo menos proclama fazer – a média do brasileiro em geral.

Aí surgem os problemas: o compromisso de Titina é com um personagem engendrado numa narrativa presa aos padrões do gênero novela. Dane-se então o realismo, a coerência externa (a interna é a que importa) ou qualquer outra forma de compromisso com o esperado papel de “nos representar”. Titina representa Socorro – e não a mulher potiguar, ou a atriz potiguar, ou a simpatia seridoense, ou ainda os pintas natalenses. Na medida em que ela não corresponder a essa expectativa externa, pode até ser rejeitada – ironicamente, por aqueles que, a conhecendo fora do contexto da novela, como pessoa e como atriz a quem nos acostumamos a apreciar, são os que mais gostam dela e os que mais esperavam da sua participação na Globo. Sim, nós mesmos, os potiguares.

De qualquer maneira, pelo que se viu nos dois primeiros capítulos – singulares para dar uma inicial e importante pincelada no personagem mas atomicamente minúsculo quando se pensa na extensão geral da narrativa – já dá pra arriscar ao menos um palpite, que por sinal recoloca o papel de Titina na novela e na real. É que, sendo a menos reconhecida pelo star system que caracteriza a dramaturgia global, Titina surge, entre as empregadas todas de “Cheias de Charme”, como a mais próxima do real. É a menos retocada, a mais rústica, a menos glamourosa. As outras são cheias de charme; ela é cheia de arestas que podem vir tanto do batismo de fogo da atriz numa nova forma de representação estética quando do enredo da novela propriamente dito. Se há alguma chance de realismo na chanchada televisiva que a novela assumidamente quer ser, vem da Socorro/Titina que representa as empregadas “do mal”: aquelas erráticas, que aprontam e não param em emprego nenhum. Isso pode se dar pela via da comédia, da novidade e da própria imprevisibilidade – esse bônus com que nem sempre as protagonistas, muito mais vigiadas pela expectativa do público, podem contar.

Com todas as limitações formais que uma novela impõe, aquele olhar entre desconfiado e agressivo que Titina/Socorro faz quando a patroa lhe apresenta a proposta de trabalho é muito característico de uma categoria profissional que, muitas vezes morando na casa onde trabalha, precisa dosar disponibilidade com precaução – numa equação de comportamento que busca o mínimo de distanciamento entre patrões e empregados. As empregadas domésticas em geral têm essa postura (pense nas que já lhe atenderam e examine se não foi assim  ao menos no início; se você é uma delas, certifique-se de que esses elementos fazem ou não parte do seu pacote de características quando assume um emprego novo). Rosto novo no vídeo, estreante na casa de milhões de brasileiros, Titina, desconfio, em que pesem as maldades de Socorro (em busca de um raio de sol que seja na sua janela, como bem caracterizou sua primeira fala), produzirá entre o público do programa – especialmente entre as domésticas – uma identificação maior, porque menos comprometida com o glamour mínimo que o gênero coloca nos ombros das três protagonistas.


Se uma novela sobre empregadas – mas divertida, pop, musical e arejada – é a novidade, Titina e sua Socorro podem ser o novo dentro do novo. Isso para o público em geral que não conhece a atriz nem a pessoa. Pra nós, potiguares ansiosos, o fundamental agora é prestar mais atenção em Socorro – que ainda vai desfiar sua história nos próximos capítulos – e menos em Titina.  

segunda-feira, 26 de março de 2012

Leituras desabaladas



De Boni ao criador da literatura de Cordel, da Paris do Terror aos botequins cariocas, uma viagem regressiva aos primeiros livros apreciados com calma neste ano apressado

2012 está sendo um ano veloz, divertido, com mudanças engatilhadas e feriadões sem qualquer espécie de desperdício. Já tivemos o Ano Novo em Natal, o carnaval em Pernambuco e vem aí a já tradicional Semana Santa em Caldas Novas, onde o turismo de massa interiorano faz a gente botar a soberba de molho em águas quentes abastecidas de tranquilidade. Já fomos a Pipa, já passei uma semana com os meninos no janeiro parelhense, já visitei os cunhados Sandra e Novo nas fervuras do alto verão caicoense, já comecei o ano bronzeando manhãs e tardes na praia de Ponta Negra, enfim, se a promessa para os próximos doze meses feita na passagem de ano  – na praia, em Pirangi, no meio de uma multidão festiva e de uma família animada – era, digamos, aproveitar a vida, hedonisticamente falando ela está sendo cumprida até o último segundo de cada noite antes de dormir. Mas o assunto em questão, como é tão comum neste blogue e no seu associado Hamaca de Poti, não tem nada a ver, ao menos diretamente, com este parágrafo de abertura. Indiretamente, sim, há possibilidades de ligação.

Vejamos: talvez seja por isso, por este 2012 estar se saindo tão eficaz nas suas determinações de, sejam quais forem os problemas, fazer a da vida uma diversão possível em 365 dias sem culpa, que o leitor bagunçado que o escreve esteja desempilhando um livro após o outro desde que janeiro chegou. Dezembro, melhor dizendo, que se cronologicamente não faz sentido, do ponto de vista das repartições do tempo que a gente faz com a arbitrariedade que a vida de cada um permite ou exige, este 2012 começou um pouquinho antes. O que se quer dizer com tamanhos rodeios aqui  é que ainda nem acabamos março , o mês três do calendário, e este leitor bagunçado já sorveu sete títulos em leituras diria feriadas de tão divertidas e proveitosas quanto o ano que flui em desabalada carreira. Confira na lista atualizada na Hamaca: tem “O Livro do Boni”, do próprio; “Biografia Prematura”, de Fernando Meirelles; “O Verso e o Briefing”, de Clotilde Tavares; “TerraMarEAr”, por Ruy Castro e Heloisa Seixas; “Um Conto de Duas Cuidades”, o clássico de Charles Dickens e os recentes “Estórias Abensonhadas”, de Mia Couto, e “A Privavera do Dragão”, de Nelson Motta. Faltava deixar aqui umas notas atrasadas sobre quase todos eles – a exceção fica por conta dos dois últimos, um deles já tema de publicação anterior e apressada como tem que ser; o outro, guardado para texto mais à frente.


O LIVRO DO BONI
Desde janeiro, o risco de você ligar a televisão em sinal aberto ou a cabo e dar de cara com a carotonha do senhor José Bonifácio de Oliveira Sobrinho é quase igual à de esbarrar com as bochechas reduzidas de Fausto Silva ou com a voz cansada de Galvão Bueno. É curioso:  nunca antes na história da televisão brasileira aquele que foi seu mais poderoso homem apareceu tanto no próprio veículo que o consagrou quanto agora, quando está aposentado.

Boni, por causa do natural marketing de vendas do livro – tão bom por ter tanto o que contar  que dispensaria tudo isso, mas quem é louco? – tem sido presença constante em dez entre dez talquishows da tevê brazuca. O antes todo poderoso, que depois virou uma espécie de ressentido-mor pela exclusão do círculo do poder (rivalizando com o recém-falecido Chico Anísio) reaparece agora na figura do memorialista que dá bronca e ensina à rapaziada como é que as coisas têm que ser.

Abstraídas essas circunstâncias – e os momentos de soberba memorialística que não haveria como deixar de existir nas suas 500 tantas páginas – o “Livro do Boni” deveria ser leitura obrigatória em cursos de Comunicação, Televisão, Rádio, Multijornalismo, Publicidade e afins. Todo mundo que tem a menor ligação que seja com o trabalho em televisão deveria ter a humildade de ler o que a soberba – em grande parte justificada – do Boni imprimiu no papel de suas lembranças.

Porque o livro é, antes de qualquer coisa – claro que ler de olho nas histórias de bastidores do tempo em que ele reinou na Rede Globo é um pequeno prazer, confesse – uma gigantesca e informal aula sobre comunicação. E não apenas no que se refere à emissora de tevê mais poderosa do país. Porque ao longo de seu livro, Boni vai revelando ao leitor atento como é possível estabelecer uma comunicação cada vez mais gradativamente abrangente com o conjunto médio da população de um país grande, diversificado, multicultural e por tudo isso tão caótico quanto criativo. E isso se dá desde o início  na publicidade – cuja leitura me lembrou os tempos da Faz Propaganda, no artesanato diário com o mestre Solino em Natal – até os grandes marcos televisivos com que ele demarcou seu território neste governo à parte que se tornou a Rede Globo no Brasil.



BIOGRAFIA PREMATURA
Melhor do que ler o “Livro do Boni” é ler, logo depois dele, a “Biografia Prematura” que o cineasta – e também ex-diretor de filmes publicitários – Fernando Meirelles escreveu para a série publicada pela Imprensa Oficial de São Paulo (íntegra disponível, grátis, na internet. Dá um Google aí que acha). É como se você estivesse lendo o “Livro do Boni II”, uma espécie de continuação acidental, em que outro homem de comunicação, embora na área do cinema (e tendo vindo da mesma publicidade que gerou o executivo global), conta sua história, seus truques, suas circunstâncias.

Dá a impressão de que Meirelles – e não Boninho – é o verdadeiro filho do homem: mudaram os meios, mudou o público, alterou-se o caldo de cultura onde o elemento comunicativo (livro, filme, programa de tevê, site ou o que seja) vai tentar cravar sua flechas; mas tem gente nova aberta ao tal inconsciente coletivo brasileiro fazendo suas tentativas e tendo sucesso. A trajetória de Meirelles é muito menos ritual, menos formalística e absolutamente mais desprovida de de chances de acertos do que a do Boni da era da tevê zero ponto zero, mas a essência de um e outro é a mesma, nos dois livros: a capacidade de ouvir, processar e devolver para a audiência o resultado deste entendimento. Boni não é só um homem de televisão, Meirelles não é apenas um talento do cinema: ambos são dois brasileiro munidos de um atributo capaz de tocar corações e mentes: o poder da comunicação. (P.S: foi o primeiro livro que li em tablet, excelente, lúdica e ágil experiência; aprovado)



O VERSO E O BRIEFING

Comunicativa como ela só, Clotilde Tavares não tem compromisso com o Oscar e muito menos com a programação da tevê brasileira. Mas tem todo o comprometimento do mundo com a cultura nordestina e aquilo que ela tem de único, só nosso, engendrado e burilado no meio país ou país e meio que vai de Pernambuco ao RN, essa pátria à parte onde reinam Ariano, Cascudo e José Lins, pra ficar em apenas um representante de cada uma das etnias humanísticas dos distintos mas tão comuns territórios. Pois Clotilde Tavares, a partir da sua varanda na avenida Miguel Castro, cidade do Natal, estampou para quem quiser ver a figura de um outro homem de comunicação de feitos notórios; embora semidesconhecido.

O nome dele é Leandro Gomes de Barros e se isso não diz nada pra você não estranhe:  por ter nascido e vivido longe do circuito que gera e faz circular país afora seus conceitos e ideias, é quase natural – mas noutro sentido, será sempre um absurdo – que Leandro Gomes da Silva seja um desconhecido. Pois se trata aqui do nordestino que consolidou a chamada literatura de cordel, tema de “O Verso e o Briefing”, livro em que Clotilde Tavares examina como essa forma de comunicação abarca em si a publicidade regional. Uma curta mas saborosa viagem pelo mundo dos poetas e cantadores que a modernidade vai abduzindo da vida urbana nordestina.



TERRAMAREAR
Depois, veio o aguardado “TerraMarEAr”, coletânea de artigos sobre viagens do casal Ruy Castro e Heloisa Seixas, em que a dupla vai da Paris da Revolução Francesa – pra ver que no livro o conceito de viagem vai muito além do literal, o que é ótimo – aos botequins cariocas, onde os autores podem provar iguarias populares sem se dar ao trabalho de comprar passagens ou fazer as malas. Tudo é viagem no livro de Castro-Seixas: seja uma chegadinha às paisagens de Saint-Tropez consagradas pelo filme “...E Deus Criou a Mulher”, seja o mergulho de batismo nas grutas submersas de Fernando de Noronha.


Mas o filé, por incrível que pareça – e eu já avisei algumas linhas acima que o conceito de viagem aqui é mais elástico do que permite a leitura mais literal – é o passeio à cidade onde moram os personagens de desenho animado que já tiveram fama e fortuna e hoje curtem, tanto quanto possível, a decadência e o semi-anonimato. Ali onde Mickey Mouse comemorou com estardalhaço seu  sexagésimo aniversário ou onde o ex-bruto Brutus que infernizava Popeye recolheu-se à vida doméstica e fora do armário na companhia dos  Sobrinhos do Capitão. É uma viagem hilária, do tipo que não se pode ler quando se está a caminho de casa no ônibus – ao ouvir as risadas que não se consegue nem se está interessado em conter, vão pensar que você é um abilolado intelectual que ainda consome livros, se é que ainda se usa ir pra casa de ônibus.
UM CONTO DE DUAS CIDADES




Se você não é chegado a essas liberdades narrativas e prefere algo melhor encadernado pela costura do tempo, faça como eu, arrisque-se a ler um autêntico clássico e veja o que estava perdendo. “Um Conto de Duas Cidades” foi meu primeiro Dickens, a quem cheguei estimulado pela leitura de uma reportagem de revista sobre uma data comemorativa relacionada ao escritor inglês.
Ao lado de Shakespeare, Dickens é , como se sabe, o grande autor do país de Kate Midletown. E no mundo dos cultuadores contumazes dos grandes autores, quem gosta dos ingleses e não é fã de um é discípulo de outro. No filme “Além da Vida”, de Clint Eastwood, o médium vivido pelo ator Matt Damon é um aficionado por Dickens, autor mais conhecido por seu romance “David Coperfield”, difícil como diabo de se encontrar nas livrarias e até nos sebos.
Mas tudo isso é firula e perde completamente a relevância quando se inicia a leitura deste “Um Conto de Duas Cidades” – e, imagino, de qualquer outro dos seus livros. Abre-se diante do leitor um panorama de uma época grandiosa e sangrenta, a imediatamente antes e o logo depois da Revolução Francesa, com painéis paralelos que mostram, de um lado, a brutal exploração e a inimaginável miséria dela resultante entre os franceses dos dois lados deste muro antes de a revolta explodir; de outro, a sede de vingança que vem depois e anula, babando sangue em praça pública, toda a justificável mudança de ordem que a antecedeu. Falam muito da “Revolução dos Bichos”, de Orwell (que este leitor bagunçado não leu), mas isso aqui é cinema-verdade na tela leitora da sua mente. Muito além da mera metáfora.
“Um Conto de Duas Cidades” – o título se refere a Paris e Londres ao tempo em que esses acontecimentos históricos se davam – pareceu, aos meus olhos atuais, uma imensa reportagem sobre os fatos da época, com personagens incisivos colhidos no momento de suas ações e reações, escrito em prosa semi-ensaística de legível barroquismo, em frases tão extensas quanto ansiosas, como se Dickens fora um antepassado de José Saramago metido em querelas políticas de outras tonalidades e anteriores  à crítica da globalização que o português tornou um adesivo à sua figura de escritor.
A extensão não prevista da postagem não recomenda, mas quem chegou até aqui merece a reprodução de pelo menos um trecho para entender de que prosa se está a falar: o parágrafo em que Dickens entra com a gente nas masmorras onde os condenados pela fase que ficou conhecida como “O Terror” esperam o beijo da guilhotina em seus inúteis pescoços . “Na escura prisão de Conciergerie, os que deviam morrer aguardavam seu destino. Eram em número igual ao das semanas do ano. Dos vagalhões da cidade para o oceano eterno e infinito, cinquenta e duas cabeças rolariam naquela tarde.  Antes que esvaziassem suas celas, novos ocupantes eram designados; antes que seu sangue se misturasse ao sangue derramado na véspera, aqueles que se misturaria ao deles já estava separado.”

domingo, 18 de março de 2012

Meus diários sem motocicleta




Como fazer um filme render um pouco mais a cada vez que é visto. E ainda evocar os amigos que com quem a gente foi construindo as várias etapas de um negócio complicado, divertido, belo e surpreendente chamado vida




A primeira vez em que assisti a "Diários de Motocicleta" achei o filme propositadamente largado, como se fora essas bandas de rock atual que, copiando o desprendimento pop de Los Hermanos, apresentam-se em camisas quadriculadas e tá bom demais. Quanto menos glamour, mais verdade - o que, evidentemente, acabou virando outro clichê, ou seja, uma nova inverdade que acabou de ser inventada e assimilada. Ao filme: a culpa pela má impressão foi mais minha que dele. Já disse uma vez neste gasto blogue mal alimentado que a apreciação de um filme depende muito de um certo elemento exterior à luz, ao roteiro, à interpretação dos atores, ao estilo visual, ao ritmo e todos os outros quesitos pelos quais a fita na tela ou no DVD caseiro pode ou não nos atingir em cheio. Este estranho elemento somos nós mesmos, a nossa disposição naquele dia, o clima interno segundo a meteorologia pessoal do momento. Digo isso com base em minha recente (recente?) experiência de assistir a filmes (no cinema, em casa já houve avanços) quando posso e não exatamente quando quero. Sou do tempo - essa digressão vai longe mas já-já eu volto ao ponto - em que se tomava banho e se vestia uma roupinha legal para sair de casa naquele passeio quase ritual rumo ao cinema da rua. Isso aí ficou impregnado até hoje - não tem banho que tire ou pelo menos desbote. Como as circunstâncias mudaram, vejo-me procliticamente obrigado a ir ao cinema depois do trabalho - resultado: quem sofre é o filme, sobre cuja pessoa eu despejos meus incômodos. Pra resumir: um cansaço acumulado de uma jornada de trabalho é, pra mim, a melhor maneira de estragar um filme de que, de outra maneira, eu iria gostar muito.


Foi isso o que aconteceu com minha estreia em "Diários de Motocicleta" em sala escura e tela grande. Mas não apenas isso: havia uma expectativa por algo grandioso que o filme, obviamente, não é (e nem interessa se ele avisa isso num letreiro logo no início, que expectativa é que nem hábito, não sai no banho nem a poder de bucha seca). Enfim: esperava um painel latino de cores fortes, uma visão mais apaixonada de um homem por seu continente, algo mais apegado e menos distanciado do que o que me trouxe o filme. Intoxicado por essa expectativa, achei que Walter Salles quis fazer um filme "tipicamente independente", com aquela aura cool que acabou desprezando o calor de nosotros. Em parte, ele fez isso mesmo. A questão é que, ao fazer esta outra opção, ele também fez um filmão, embora com cara de filminho.


Só precisei rever "Diários de Motocicleta" mais uma vez para entender o engano em que caíra na primeira exibição. E passei a gostar cada vez mais do filme, progressivamente mais (permitam a redundância, mas preciso dela para dar conta do que pretendo dizer), abrindo novas portas a cada vez que o vejo e vejo de novo. E olhe que revejo muito este filme. Hoje mesmo o fiz. E depois de me deter, nas exibições anteriores, em aspectos como a forma intimista e quase sutil como o filme mostra o amor que o personagem devota à gente de seu continente, ou o tom quase documental de sequencias como aquela em que visita uma espécie de feira nos belos cafundós do Chile, ou ainda de passar o filme inteiro somente absorvido pela beleza deselegante e meio encabulada de campos e pequenas cidades por onde passam os amigos Ernesto e Alberto; depois de tudo isso, na exibição de hoje dei-me conta de que, além de ser um "filme de estrada" (se é o caso de catalogar e explicar seu fascínio para quem por ele se deixa fascinar), este é também um "filme de formação". Ok, tudo isso é muito óbvio, mas hoje, pra mim, sobressaiu, muito mais do que a juventude de um futuro mito, a convivência de uma dupla de amigos recriando a vida em aventuras em comum numa determinada fase da existência. Não sou Guevara, não desci de Sierra Madre, tampouco tomei Cuba para os braços do sonho da igualdade revolucionária mas hoje assistindo a "Diários de Motocicleta" me lembrei dos amigos em comum com quem dividi períodos ricos da minha vida pequenina e invisível.


Grandes amigos e dificílimas figurinhas premiadas como Ítalo, Gilton, Tonho, Augusto Cesar, Jano, Carlão, Adriano, Renato e Plácido - estes dois últimos já na fase atual em Brasília. Cada um deles foi um companheirão nas jornadas que vão da infância no interior à juventude na capital, da descoberta de uma profissão às vivências da maturidade. São personagens do meu diário sem motocicleta, mas cheio de bons momentos. Esse post é dedicado a eles, todos eles.