sexta-feira, 15 de maio de 2020

TESOUROS DO SOPÃO: As máquinas de A Máquina

Vamos nos aproveitar um pouco do isolamento social destes meses para recuperar aqui no Sopão postagens antigas (sim, este blog já pode ser considerado uma antiguidade, já tem arquivo pra isso) sobre livros, filmes, discos que o leitor pode usar como enchimento dos dias que por acaso possam lhe parecer vazios enquanto espera as coisas melhorarem (hão de, crê sem fanatismo). Pra começar, achei, de dezembro de 2007, este post sobre o filme "A Máquina" de João e Adriana Falcão, que eu havia acabado de assistir em DVD. Abaixo do texto principal, vai um adendo saboroso pra mim: um comentário* que a própria Adriana Falcão me mandou na época. 

As máquinas de "A Máquina"

"A Máquina" é um liquidificador de estilos onde cozinheiros de imagens colocaram para triturar nacos generosos de tubérculos visuais do tipo "O Auto da Compadecida", "Lisbela e o Prisioneiro", "A Invenção do Brasil", "Hoje é dia de Maria", um pouco até de "Armação Ilimitada" e outras manufaturas da fábrica de Guel Arraes, dos armazéns de Luiz Fernando Carvalho e dos depósitos de outros fabricantes de um imaginário afim, como o brincante teatral Antônio Nóbrega ou a alma popular que empresaria o Bloco da Saudade no carnaval pernambucano.

"A Máquina" é o processo de liquefazer tudo isso num sumo cinematográfico que resuma todos esses sabores visuais sem a preocupação restrita de ser tv, cinema, teatro ou festa interiorana.

"A Máquina" é Paulo Autran dizendo o texto genealógico de Adriana Falcão, que vai às últimas conseqüências para contar como nasceu seu herói Antônio. Um conto que escava as mais invisíveis raízes das narrativas para lembrar que, só pelo fato de existir, um simples personagem resume em si todo o mistério e o absurdo da existência da humanidade inteira.

"A Máquina" é um ator capaz de brilhar tanto e com tal falta de esforço que consegue apagar tudo em volta – o cenário, os coadjuvantes, as luzes, as cortinas, a própria sala de exibição com suas paredes e nosotros, espectadores. Wagner Moura é essa máquina instantânea de carisma e transfiguração, que faz de uma ponta um continente. O ator que transforma, pela farsa mais bretchiana, um colunista televisivo no seu avesso.

"A Máquina" é o artifício de João e Adriana Falção, que invertem o fluxo da globalização ao levar os microfones e as canoplas do mundo até o vilarejo de Nordestina – e não o contrário.

"A Máquina" é a quintessência da nova farsa cinematográfica nordestina, o supra-sumo da pilhéria, a saturação de sons e cores que as experiências anteriores formalmente se recusavam a admitir. É a peneira elétrico-popular da feira em oposição ao filtro climatizado do shopping. É o carro de som de interior enfeitado com pinturas berrantes anunciando bugigangas no cinza discreto da metrópole. É a nova parábola do êxodo forçado na era das fronteiras invisíveis só para os computadores.

"A Máquina" é o filme de João Falcão, baseado no livro de Adriana Falcão, que deu origem também a elogiada e bem sucedida peça teatral, e que, tendo sido esnobado pelos cinemas, pode ser visto agora em DVD.

*COMENTÁRIO QUE RECEBI DE ADRIANA FALCÃO:

"Há muito tempo não leio o que sai sobre o filme A máquina, porque geralmente não fico feliz quando faço isso. Hoje descobri o seu texto e o dia mudou. Ficou em mim a impressão que você entende melhor o que quisemos passar para os outros até melhor do que nós mesmos. Parabéns e obrigada

terça-feira, 5 de maio de 2020

GUERRA ESTÁ NA MODA

Descobri agora que Guerra e Paz, o livro de Tolstói, virou moda neste período de quarentena. Tem matéria na FSP de hoje, com Fernanda Torres, com quem não simpatizo nem um bocadinho, contando sua experiência de ter lido o clássico. O curioso é que, assim como ela, comecei a ler Guerra e Paz em um contexto completamente solto do atual. Peguei pra ler em dezembro do ano passado, ao encontrar uma edição barata - quase de graça - no kindle. 1 real. Guerra e Paz a 1 real. Por que não? Lá me fui.
Até eu descobrir que aquilo era uma edição condensada e em tradução para o português de Portugal levou um tempo. Mas eu não queria encarar a tradução célebre agora no Brasil, publicada primeiro pela Coscac Naif, que fechou, e comprada e relançada pela Cia das Letras. Porque cheguei a pegar um exemplar na Biblioteca da Câmara, levei pra casa e quem acabou lendo (isso acontece frequentemente) foi Rejane Medeiros antes de mim. E reclamou dos trechos em francês. Mais tarde, nossa querida Ana Luiza Camara me contaria que passou pelo mesmo problema. Ambas largaram o livro.
Lembrei então de uma outra tradução, baratinha também, pela L&PM em livros que eles chamam "de bolso". Vá lá. 4 volumes.Só que meio difíceis de achar todos na mesma livraria. Comprei o volume 2, que correspondia ao trecho em que me achava no falso-português do kindle. Foi como uma revelação. Num instante consegui distinguir as famílias, os agrupamentos, os conflitos e principalmente as ideias - porque Guerra e Paz é como um filme feito em vários formatos. É como Oliver Stone naquele filme sobre uma dupla de malfeitores pop-modernosos cujo nome me escapa. Ou como no JFK pra ficar no mesmo cineasta. De uma cena pra outra ele muda a fotografia, o enquadramento, a granulação, o uso ou não de cor.
Assim é Guerra e Paz, ora é romanção descarado (daí Fernanda Torres dizer que parece uma novela das oito, e em grande parte está certa), ora é um ensaio sobre questões militares, daqui a pouco passa a ser um texto absolutamente questionador sobre a teoria da História (viu, Flavia Assaf, vai lá, se é que já não foi), daqui a pouco pega um caminho algo místico elaborando toda uma filosofia sobre transcendência e moralidade e por aí vai. Isso às vezes assim de um capítulo para o outro (o formato geral é bem fragmentado, de capítulos curtos num livro longo), sem preparar o leitor com transição alguma. E tem essa coragem a que a atriz também se refere de fazer de figuras histórias como Napoleão - talvez o principal personagem do livro - em figuras ficcionáveis com base no que Tolstói achava não só dele, mas do que pensavam sobre ele, erroneamente ainda segundo o autor.
Mas voltando à vaca fria, comecei a lei por essa curiosidade, contando que teria bastante tempo por causa das férias que estavam começando, e num período em que ninguém ouvia falar em coronavírus. Veio a pandemia e eu lá preso no livro (não totalmente porque quem conhece o Leitor Bagunçado sabe que ele é tão impaciente que lê vários ao mesmo tempo), misturando fanatismo por Napoleão com nossa mais que primitiva atração brazuca por Bolsonero, o abandono de Moscou com o cerco da pandemia, as dúvidas adolescentes de Natasha com a lembrança também remota do drama da Anna Karenina cujo primeiro volume eu havia lido décadas atras (e a quem preciso, agora, reencontrar).
Só agora lendo não apenas Guerra e Paz mas sobretudo o comentário final que a edição da L&PM traz entendi melhor todo aquele ensaio desesperado que Dostoievski compõe em Memórias do Subsolo, e que me solapou totalmente também anos atrás. Neste posfácio, Tolstói comenta que a literatura russa jamais vai ser ater aos formatos consagrados do romance europeu, diz que aquilo que escreveu não é só uma narrativa, também não é só uma dissertação e por aí vai. Eles já eram assim, eu é que não notava. Minha curiosidade pelos autores russos foi às esferas e só por isso não devo sentir tanta falta assim de todo dia após o café da manhã ler um pouquinho do Guerra e Paz, guardando o ouro pra mais tarde à noite, após o trabalho.
E numa hora inesperada Rejane veio me dizer que o livro se tornara um dos mais procurados nas livrarias que entregam volumes em casa, segundo uma reportagem que ela leu no Globo. Foguetões soem na noite das letras. Em meio a tanta escuridão, há uma velha forma de luz sendo renovada. É pra comemorar em meio às trevas.

P.S . Não adianta eu colocar o link pra matéria de hoje da FSP porque nem todo mundo terá acesso. Lamentavelmente.

segunda-feira, 13 de abril de 2020

CARLÃO E O TELETRABALHO



Essa onda de trabalho em casa me lembra a todo momento o amigo querido, Carlão de Souza. Uma de suas manias, ao conversar comigo e se queixar quando precisava cruzar a cidade de Neópolis até a Ribeira pra pegar no batente na velha Tribuna do Norte, era sonhar com o dia em que o mundo se rendesse ao... teletrabalho. Esta palavrinha mágica frequentava o vocabulário de Carlão tanto quanto rock, uísque, poesia, lirismo e mundo cão. Se todo mundo tem um vocabulário próprio em que certos termos se repetem formando um estilo verbal, eis um grupo delas que combinava com as falas do amigo querido.

Ele sonhava, mesmo, assim falando com o olhar no céu, nas nuvens ou nas tempestades, não importa. Que a humanidade já deveria ter descoberto o teletrabalho, que era um desperdício esses deslocamentos, que trabalhando em casa ele dava perfeitamente conta de escrever sua crônica e assinar lindamente como a Linda Baptista cujos textos saboreávamos. Que enquanto escrevia em casa ele poderia beber algo – que nem hoje faz minha colega Mariana Monteiro na Asa Sul aqui em Brasília, enquanto lá era Natal, ali por 1988, 89, os melhores anos da minha convivência com o amigo querido que nos deixou daqui a pouco faz um ano, vejam só.

O tempo passa, os chavões escritos não caem, mas novidades surgem – e eis o teletrabalho com que sonhava Carlão se impondo por força da necessidade e fazendo uma pequena revolução caseira na vida de quem desempenha vários tipos de trabalho intelectual. O que Carlão não sabia – ele ficava no limite do sonho, e como o sonho é enganoso, hein? – é que o teletrabalho divide espaço com o filho pre-adolescente que não escolhe hora pra pedir sua ajuda (imagino o amigo querido fazendo teletrabalho pra TN na casa de Neópolis e Alex, 10, 12 anos, pentelhando querendo saber sobre um mito grego de que tanto já gostava naqueles tempos), assim como com o almoço atrasado e louça por lavar. O amigo querido tinha, naquela época, a culinária nota mil de Jô e o machismo reinante pra não ter que se preocupar com o destino dos pratos, panelas e talheres após uma lauta refeição. Mas, hoje... sei não, amigo querido. Daí de onde você está dá pra ver que o teletrabalho não tem sido a única novidade – em boa hora, sustento apesar dos dedos murchos de relaxar na pia. 

Mas desconfio que o teletrabalho deixaria o amigo querido muito mais produtivo. Sem ter que digirir a Banheira – esse era o apelido do carrão velho que ele usava na época – pela Salgado Filho e Hermes da Fonseca adentro ouvindo Marisa Monte cantando Speak low, teria sim mais tempo para adiantar os livros que viria a escrever no futuro, num momento em que só tinha nesta lista o mitológico Crônica da Banalidade. Poderia ouvir mais Nei Lisboa cantando Junkie ou a trilha sonora do filme Cal enquanto batucava nas pretinhas. Reunir mais amigos para turbinar os assuntos que movimentariam o caderno de fim de semana do jornal e jogar conversa fora entre um parágrafo e outro sem se preocupar com deadlines e quejandos.

É isso, amigo querido – o panorama aqui embaixo não melhorou nada, nada. Nem dá pra fazer uma carta como aquela que Chico enviou para Boal e que quando se viu estava sendo cantarolada na boca de todo mundo com algum juízo e moderada dose que fosse de sensibilidade poética e política. A Marieta sempre estará mandando aquele abraço de Gil para os seus e essas novas geografias astrais nunca vão nos separar de fato. Daí de onde você está, gracejando sem maldade mas com empatia das nossas perdições terráqueas, faz um teletrabalho de outra natureza entre tecnô e pajelô pra ver se a gente, na próxima missiva, tem algo melhor para contar. Alô, alô, querido amigo, aqui quem fala é da Terra, que roda, roda e permanece a mesma. E mais não digo porque o teletrabalho, esse bicho tão calado quanto ansioso, me chama.

sábado, 11 de abril de 2020

UM CLÁSSICO NA PANDEMIA

Cecília e eu acabamos de assistir (ela, pela primeira vez) a “E o vento levou”. DVD  no leitor, sofá em posição confortável, olhos e ouvidos atentos e prontos pra descolar um pouco – e só terapeuticamente - da realidade em volta e... alto lá. Que o velho filme se põe a conversar, do seu jeito, com a pandemia aqui fora e seus efeitos. Duvida? Confira na lista a seguir.

1-Scarlett O’hara é seguramente a primeira negacionista célebre do cinema. No início do filme, cercada por pretendente aduladores, fútil e caprichosa como certa pessoa dos meios políticos atuais, ela graceja quando os rapazes lhe falam  da possibilidade de guerra. Não vai ter guerra coisa nenhuma e se insistirem, eu deixo vocês falando sozinhos... Como se sabe, o pano de fundo do filme é a Guerra da Secessão americana que estourou duas sequências à frente desta no filme. Alguma semelhança com a gripezinha?

2-Rhett Buttler mostra o quanto os papéis sociais, mesmo os mais estabelecidos, podem mudar quando um evento de proporções trágicas ameaça grandes comunidades. No início do filme é visto como  pouco mais do que um pária, contrabandista que se vale de oportunidades fáceis para encher os bolsos. Quando a pandemia – ops, a guerra – explode, consegue levar mercadorias para Atlanta furando bloqueios militares dos yanques e, boom, torna-se um benquisto cidadão de bem admirado por todos. Quem será que vai mudar de papel social ao fim deste isolamento e seus efeitos?

3-Grande eventos traumáticos mudam padrões sociais. O que até ontem jamais seria aceito, mesmo em termos de hábitos e rituais cotidianos, passa a ser suportado agora, para um segundo depois ser admitido sem reservas, e mais uns meses após ser visto até como algo desejável. Numa cena de baile, em meio aos rumores da guerra, faz-se um leilão das garotas de família com quem os cavalheiros queiram dançar. Um diálogo entre velhinhas vai do espanto à justificativa em três breves falas (o roteirista é fera em concisão). Mas não fica nisso. O sempre ousado Rhett Buttler resolve quebrar a banca e oferecer 150 pratas em ouro puro pra tirar uma viúva para dançar. Inimaginável. Pois a proposta é aceita – especialmente pela viúva, a espevitada negacionista Scarlett – e segue o baile. De que pudores nos livraremos no futuro imediato, alguém arrisca? E quais serão os novos hábitos, além do majado teletrabalho?

4-Justamente por causa da impaciência de Scarlett por aquela dança, Rhett tira sarro do seu fake luto, decorrente do igualmente fake casamento. Os fakes estão por aí contaminando tudo há tanto tempo, por que a gente não  notava? Esse pessoal do gabinete do ódio não descobriu a roda, apenas a adaptou às tristes recentes circunstâncias brazucas.

5-Previsões apascentadoras para o conforto da platéia. Pois o proprio Rhett Buttler as comete quando gira feito mosca de padaria em torno do mel de Scarlett O’hara. Tasca-lhe numa cena ainda inicial a previsão de que a guerra civil estaria prestes a acabar, dependendo apenas de uma reles batalha. Estrategista, logo o cara se corrige e trata de transformar o evento em papel moeda, mas antes ele também teve seu momento “gripezinha”, numa das raras concordâncias com a megera desejada. A guerra estava só começando e as mais de duas horas de filme à frente seriam um mostruários de horrores, como bem  serve de exemplo a cena dos socorro aos feridos.

6-Falando nela, é outro momento que conversa aos gritos com a realidade atual, como se o filme clássico e a crise que o mundo vive hoje fossem duas pessoas tentando se comunicar cada qual de sua janela em prédios um de frente pro outro. Estamos em um descampado diante de uma espécie de hospital de campanha. É clássica a cena: Scarlett O’hara se aproxima em busca do médico para fazer o parto do anjo caído na Terra que é Olívia de Havilland. O quadro conduz tudo. Começa fechado no rosto preocupado da heroína e vai abrindo aos poucos, de maneira que tanto ela como a platéia se dão conta lentamente da extensão dos danos humanos causados pela guerra. Completamente aberta, a cena é um território de corpos em agonia espalhados por um vasto chão. Alguém falou em cadáveres aguardando sepultamento na Itália? Ou lembrou daqueles comboios de caminhões militares entulhados de caixões que viu no Jornal Nacional? Dentro do hospital, mais um diálogo tão curto quanto marcante – e que poderia ser dito hoje nos lugares da Espanha onde o atendimento médico não dá conta de socorrer a todos, como já começa a acontecer entre nós em Manaus. Scarlet pede ajuda ao médico para o parto e ele responde dizendo para ela ir atrás de uma mulher que dê conta, porque ali já está ocupado com muita gente morrendo. Quem disse que pegar um filminho antigo pra ver é garantia de esquecimento momentâneo do coronavírus lá fora?







7- Ainda tem a cena da lista de mortos, disputada por centenas de mãos certamente repletas de micróbios naqueles tempos em que a higiene era a última coisa com que se preocupar quando famílias perdiam pais e filhos nos campos de batalha e a comida em casa corria sempre o risco de acabar, quando não de ser saqueada. Não há como deixar de relacionar as listas dessas cenas com as já célebres curvas de casos e demais estatísticas sobre contaminados, casos suspeitos de Covid-19 e mortos pura e simplesmente.

8-Tem mais, mas a lista está ficando além do planejado e o objetivo do post é mais flagrar a curiosidade do que baixar a guarda do leitor por acaso mais influenciável a sinais ou qualquer coisa do tipo. Pra encerrar, vale registrar que, nesta epopéia toda, a curva (olha ela aí de novo, mas agora é outra) dramática da personagem Scarlett O’hara de alguma maneira tangencia a nossa aqui fora neste momento e lugar. Ela sai de uma zona de conforto absoluto, esnobando pretendentes e torrando supérfluos na sua plantation sulista sem necessidades primárias, para um quadro de falta de tudo, até comida – daí a célebre cena do torrão de barro erguido ao alto com a promessa de nunca mais passar fome. Aquilo somos nós, gente, a humanidade atual que até ontem estava atulhada de desnecessidades (permitam o neologismo) e desperdícios, arrotando uma soberba que alija quem não tem dinheiro ou condições dignas de vida, incinerando uma natureza com a qual há tempos não nos sentimos verdadeiramente conectados. “E o vento levou” é um épico de fundo histórico que trata da capacidade que o ser humano tem de se reconstruir. Scarlet O’hara se refaz inúmeras vezes ao longo do filme, nem sempre da forma mais ética – mas se refaz, busca, tateia e acha algum caminho. Neste percurso dramático, aprende algumas coisas e teima em não assimilar outras, construindo com essa desigualdade o seu destino final (embora termine fazendo uma nova promessa na famosa frase que resume o filme). Sim, a frase referida no parênteses nos cabe bem agora, se soubermos aprender a lição inteira e não somente pela metade como fez a personagem. “Amanhã será um outro dia” é a sentença precisa para suceder a outra frase dita por outra personagem, Ashley, o queridinho de O’hara. “É o fim do nosso mundo, Scarlett”, explica ele para a ainda e sempre teimosa protagonista. Tente assistir a “E o vento levou” sem sentir a sugestão invisível no ar como um novo vírus letal que lhe diz o quanto as duas coisas conversam.

quarta-feira, 8 de abril de 2020

O VÍRUS, SEGUNDO G.



O coronavírus mete medo, esvazia metrópoles, põe de joelho líderes mundiais apressadinhos, transforma seres comuns em super-homens de tanto que eles aparecem na tevê, causa revolta em subseres humanos mimados com as facilidades de um tempo astucioso, muda hábitos embutindo a promessa de nos fazer melhores nem que seja um tantinho assim, enfim, enfim, faz e acontece sem nem precisar ser visível ou tátil – é como uma intuição, uma interrogação atrás da orelha, um átomo impossível de ser explodido no ar, na matéria, nos organismos.

O Brasil é um país, enorme, implacavelmente visível, de uma extensão impossível de ser totalmente percorrida por gente que nele nasceu e habita por 80, cem anos, agigantado, uma mancha ampla se espalhando nos mapas geográficos da Terra inteira – é até mais tangível do que gostaríamos, na medida em que aqui e ali dá vontade de esquecer que estamos dentro dele, totalmente dominados.

A instabilidade não é, literalmente, nem um vírus e muito menos um país, mas é, sim, as duas coisas – e ambas temos sido há 500 e tantos anos. É o nosso vírus mais endêmico, nossa doença mais teimosa, nosso traço mais distinto. O vírus da instabilidade contém tudo o que fomos e somos, embala nossa história, desenha nosso perfil, resume nossa tão fugidia quanto mitificada identidade nacional. Nós, tente não ficar chocado, somos como um vírus inquieto e mutante que no entanto não consegue sair do lugar, tamanha a nossa instabilidade atávica e crônica. E se você acha que estou exagerando aproveite que está trancado em casa – assim esperamos – e veja, ou como foi o meu caso,  reveja, o grande “Terra em transe”, o filme síntese da filmografia do baiano Glauber, aquele dionisíaco desfile das nossas fraquezas estandartizadas para todo o mundo ver e nós mesmos se estivermos dispostos, atentos e desprevenidos.

Assistir a “Terra em transe” num momento como este é bastante propício, não só pela série de eventos políticos que tanto nos tem diminuído ainda mais nos últimos anos, numa sucessão que dificilmente poderíamos acreditar duas décadas atrás. Com os reflexos locais da crise mundial do coronavírus, a contemplação em tela caseira das crises sobre crises com que Glauber Rocha compõe sua sinfonia cinematográfica de uma nação de brincadeirinha chamada El Dorado só ganha, cresce e se amplifica em êxtase e anticelebração. Um filme normal, em cenários habituais com personagens bem delineadinhos e cenas convencionais jamais conseguiria espelhar o que o Brasil foi e continua sendo – ao contrário do que chegamos a pensar, numa ilusão civilizatória tipo 3D só dez minutos e três governos atrás.



Era preciso um filme em que cada personagem fosse assim como uma flâmula rubra se entortando em dobras escandalosas ao vento do Aterro do Flamengo ou no alto do Morro do Careca para dar a dimensão exata de quem somos, assim como aqueles a quem nos submetemos ou aqueles outros a quem endeusamos e entregamos tudo, tudo, tudo. Uma cena de um impasse político com campanha de desestabilização, risco de renúncia e ameaça de resistência com armas não poderia, para ficar à altura dos dramas brasileiros, ser filmada assim num set que reproduz um gabinete comum, de secretário, prefeito, governador, deputado, senador ou presidente. Não: Glauber pega seu magote de personagens emblemáticos que representam cada um um naco maior de brasileiros – o empresário, o poeta, o político, o aproveitador, o oportunista, o povo cego, espoliado e também Jeca total – e os coloca num pátio aberto para as matas de uma encosta carioca. Neste palco amplo, aberto, suspenso como que sobre a história do Brasil inteira coloca tais personagens para interagir nesta ciranda enlouquecida por poder, mesquinharia e falta de rumos que tem sido o país em tantos e tão duradouros momentos – como agora, um ápice como outros que já tivemos.

Os balcões do Parque Lage, cartão postal do Rio de Janeiro, são um gabinete aberto das veias rasgadas a peixeira da vida brasileira. Ao longo do filme, solilóquios shakespereanos de indecisão, dúvida e fraqueza polvilham as ações – melhor seria dizer não-ações – do condutor do filme, o Paulo Martins dividido entre a política e a poesia, entre líderes com caminhos políticos diferentes, entre a empatia triste de Glauce Rocha e a efusividade em olhos verdes que é Danusa Leão. Neste empacado caminho, seguem ou param, avançam um pouco e tropeçam de novo o poeta e o país – quantas vezes já vimos esse filme de progressos curtos solapados por retrocessos permanentes no Brasil de fato, aqui fora da tela, seu reflexo vivo que só reforça os traços  aparentemente caóticos da construção glauberiana?

O vírus da instabilidade é a nossa doença de estimação que o coronavírus vem abraçar e beijar na noite da virada dos tempos. Se vamos melhorar depois dele, como se espera que aconteça mundo afora no freio de arrumação em que esta crise pode se transformar para quem  olha para ela com olhos de alguma esperança resiliente, os antecedentes não são os melhores. É o que nos gritam os panoramas do filme que, feito nos anos 60 parece novinho em folha e segue inventivo até quando usa a ser favor o descompasso entre imagem e som, numa época em que o áudio direto ainda era novidade ou luxo na indústria do cinema. A sonoridade de “Terra em transe” é um item à parte neste carnaval antropológico que emoldura nossas realidades fora de qualquer esquadro. Há sempre um barulho marcante ao fundo, instabilizando tudo, seja um tambor ou tiros de metralhadora, elementos tão importante quanto os crucifixos hipocritamente empunhados ou as bandeiras em rebelião de cores saturadas – e pouco importa que o filme seja em branco e preto, que nada mais colorido foi feito no país em cinema, nem mesmo quando atingimos o esperado padrão americano dos anos 90 em diante.



A câmera pendente, o enquadramento de risco, a luz estourada que tanto cega quanto esclarece, o interior de palácios que nos infla o falso orgulho e nos entrega decadentes e deslumbrados, o vasto mar em volta de uma terra teimosa e imutável, nossos vulcões que se não compõem a geografia explicita das matas queimam todo o nosso território por dentro, cozinhando ambições desmedidas, carbonizando possibilidades e espalhando a cinza sobre as novas camadas de matas que surgem, numa história aprisionadas em ciclos de Getúlios, Jânios, Jangos, Médicis, Lulas e Bolsonaros. Parece impossível escapar dessa troça permanente, este baile viciado, antifolia de derradeira festa que nunca é de fato a última e sempre se perpetua no tempo e no espaço, angariando novos organismos e novos infectados.

O coronavírus, esse que está aí fora e nos mantém presos aqui dentro, logo vai encontrar sua cura. Do Brasil de “Terra em transe” não podemos dizer o mesmo – apenas desejar o impossível.

terça-feira, 7 de abril de 2020

DE REPENTE, NA MESMA ESQUINA




O título excelente, já dramaticamente conclusivo, não poderia antecipar melhor o que viria pela frente, especialmente em um livro voltado em reposicionar o passado. “De repente a vida acaba” poderia ser o epitáfio dos dias presentes, mas por uma dessas ironias que cercam tantas obras de arte ele na verdade remete ao estado de espírito urbano, jovem-adulto, ligeiramente acadêmico e totalmente pop, digamos assim, da década de 80.

Pelo título também se deduz tudo o mais básico, já que estamos obviamente falando do a esta altura bem conhecido romance lançado no final do ano passado por Clotilde Tavares. Pois é, de repente a vida acaba, como atualmente nos convencemos dia e noite sem precisar nem sequer sair às ruas, ou por isso mesmo – e já peço perdão pelo humor involuntário em hora tão delicada. Mas uma poção que seja de humor havemos de preservar, com o cuidado de não jogar mais ácido nas feridas dos que a doença derrubou, levou ou de seus amigos e parentes.

De repente a vida acaba é uma daquelas constatações de senso comum que, quando postas assim a seco na capa de um mais do que digno romance, repentinamente servem de referência para se avaliar tudo – do motivo pra levantar da cama todas as manhãs, ou todas as tardes para os boêmios de que já-já nos ocuparemos de que o livro se vale para descortinar a cultura de uma época em tantos momentos saudosa, até o medo do contágio por um novo, corona ou não, vírus letal.

Clotilde Tavares já nos deu crônicas incríveis, poemas sensíveis, livros brilhantes sobre assuntos tão diversos quanto a vida em escolas de freiras no cariri paraibano até as práticas holísticas aplicadas ao cotidiano. Já nos divertiu com performances teatrais que teimam em não deixar o teto da boa memória, como a tresloucada personagem da peça “Papai pirou nas ondas do rádio” que tivemos o prazer de ver no palco do Teatro Alberto Maranhão, em Natal. Já deu conselhos na televisão para quem anda com o astral meio apagadinho (e nisso, eu levo um pouco da culpa), já circulou de jornais a jornais do RN e da PB com suas tão simples quanto afiadas análises dos nossos cotidianos, já deu aulas na UFRN em dois departamentos completamente distintos,  já escreveu e montou seus textos teatrais.

O que mais faltava, senão um romance digno do nome, que não fosse um corriqueira construção de enredos e personagens, mas sim – e sem proclamar desnecessariamente essa ambição – um apurado e sensível painel de um tempo e lugar que tantos de nós, na faixa dos 40 anos pra frente, ou viveram diretamente, ou tomaram contato por tabela?

“De repente a vida acaba” tem, sim, claro, personagens bem construídos, diálogos exatos, situações inesperadas, conflitos estimulantes e tem até um desfecho com atmosfera de thriller, daqueles em que o leitor não consegue largar o livro e come palavras em busca de saber como aquilo tudo vai acabar. Mas o que o romance tem de mais notável é a recuperação de uma época, o registro magnífico do que eram as noites e noitadas de Natal a partir especialmente da segunda metade dos anos 80, num espelho óbvio do que se dava em outras capitais no mesmo período, numa configuração que de fato nunca mais se repetiria daquela forma.

Do Bar do Buraco ao Chernobyl, de uma Ponta Negra dark até uma Redinha em neblina e sombras, está tudo ali, nas aventuras e desventuras sem limites de uma geração que vivia tudo em intensidade máxima, sem saber do futuro distópico de um coronavírus e ainda prestes a ser informada sobre outra ameaça em aproximação,  o HIV precoroniano cujos grupos de riscos soavam muito mais convenientes a quem não fazia parte da tripulação daquele alegre barco a navegar madrugadas infindas.

No livro temos duas personagens que sustentam este Guernica de bares, noites, solidões, encontros e desencontros. Uma vive plenamente as explosões de tal período, a adorável Lady Night de quem o leitor sentirá severas saudades assim que encerrar a leitura afoito pra saber como tudo se resolveu – ou se concluiu, se é possível usar estes termos. Aline, este é seu nome, é uma referência na narrativa inteira que acessamos por meio dos originais do livro que deixou escrito e que caiu nas mãos da personagem viva – embora algo morta – que lê seus relatos e faz com eles a reconstrução daquele período. Maria Eulina é a outra face da moeda onde foi fundido o perfil de Aline, e de tal oposição Clotilde tira o máximo proveito, para deleite nosso aqui do outro lado das páginas. Com essas duas figuras e os figurantes com quem elas interagem no passado recente de Lady Nigh e no presente sem sentido de Maria Eulina é erguida a estrutura do livro e modelada a poesia de um tempo.



   
Muitos viveram aquele período e o retrataram à sua maneira, em Natal e alhures. Lembro da “Crônica da Banalidade” do querido amigo Carlão de Souza, como  lembro da poesia de Ana Cristina César, pra ficar em dois exemplos e não atazanar a pobre memória em decomposição. Mas o que faz de “De repende a vida acaba” algo tão especial é, para além de uma hoje muito aclamada voz literária feminina que décadas atras não era tão comum e fazia falta, é a entrada neste universo a partir de situações bem pouco idealizadas. Tudo é bem realista e de certa maneira comum nas situações de Clotilde engendra. A mente de Maria Eulina é absolutamente condizente com a pobreza dos tempos atuais, não há a busca por uma posição que a coloque na condição de personagem-mito. Nem mesmo com Aline, que se faz cercar o tempo todo de uma encenação que modifica todos os lugares onde chega, há esse tipo de mistificação. As duas são comuns, cada uma à sua maneira – e  é a partir de pessoas comuns, que trabalham burocraticamente na secretaria de alguma coisa sem evolar qualquer angústia kafquiana que este painel de uma vida adulta, emancipada, boêmia e entregue artisticamente à magia das possibilidades é delineado nas páginas do romance de Clotilde.

Quem lembra da autora circulando nos anos 80 no calçadão da avenida João Pessoa em Natal, com aquele seu riso impiedoso que tanto congrega quanto provoca, durante um evento cultural de rua qualquer aproveitando pra divulgar seu livro de poesias “Bilhetes de suicida” há de mesclar imediatamente sua imagem com a da Lady Nigh do livro. Mas como felizmente somos muito mais mútiplos do que imagina a míope classificação social, ali também há lugar para a ranzinice semi-idosa de uma Maria Eulina. As tintas autobiográfica sempre serão uma das matérias primas da boa ficçção e qualquer especulação é mera fuga do que realmente interessa para quem de fato não está entendendo nada. Esta lembrança está aqui dada à dificuldade que tenho em sugestionar o leitor quanto ao que foram aqueles anos, aquelas noites e aqueles grandes encontros numa Natal de fato muito mais disfarçadamente tranquila. Talvez essa imagem da poeta no calçadão diga alguma coisa pra quem me acompanhou até aqui e está incomodado se perguntando, mas de que este rapaz está mesmo falando?

Clotilde Tavares não tem este problema e “De repente a vida acaba” é a prova disso. Uma viagem ao espírito esquecido de uma época que ainda tem tanto a nos oferecer hoje e especialmente amanhã, quando o coronavírus passar. Quiçá muitos leiam seu livro e encontrem, para além do drama que ao fim e ao cabo purifica, a inspiração que de alguma maneira transforma. E eu não estou falando de um livro de auto-ajuda.

segunda-feira, 14 de maio de 2018

SINAL FECHADO



Não fique triste, amigo meu, mas a verdade é que tudo pode piorar. Não apenas o que está por vir, mas também o que já foi. Por esses dias, ficamos sabendo - belo momento pra esse tipo de revelação, mas quem pode escolher quando as verdades decidem sair desfilando nuas por aí? - que o general Geisel autorizou pessoalmente a continuação dos assassinatos de militantes que lutavam contra a ditadura durante os nossos anos de chumbo grosso - e que o adjetivo raspe da expressão o que ela possa ter de aceitável, pra não dizer (quem diria?) simpático. 

Antes de tomar posse no Palácio do Planalto ocupado por generais e de ser informado sobre as execuções, essas já passavam de 100 - e o novo general-presidente mandou seguir adiante. Detalhes aqui. A verdade é que, ao contrário do que sempre acreditamos, nunca houve propriamente uma "linha dura" como parte integrante dos grupos militares (e também civis, não convém esquecer) que mandaram e desmandaram no país durante a longa noite de 20 anos sem democracia formal. Tudo era "linha dura". 

O general Sylvio Frota não era a ponta de um radicalismo, não era um extremista no sistema que, quando passava do limite e limava do horizonte político um Manoel Fiel Filho ou um Vladimir Herzog, ganhava um puxão de orelha do velhinho bondoso Geisel, que deixou morrer o AI-5 na data marcada. Não, era tudo a mesma coisa - um amálgama de bordas imprecisas que decidia pela morte quanto julgava necessário. E assim se foram mais de 100 vidas. 

A revelação em papéis guardados em bibliotecas e bancos de dados norte-americanos gerou um noticiário que, de tão chocante, é capaz de furar até a sessão de notícias em que nos afundamos nos jamais previstos dias que correm. É triste porque funciona como um bumerangue ironicamente indesejado: sempre quisemos a verdade sobre a violência da ditadura brasileira, sempre foi importante contar o que aconteceu, expor, denunciar, levar às escolas, às novas gerações. Justamente para impedir o que vemos agora: legiões de novos ignorantes seguindo como pombinhos o defensor dessa violência. 

Mas agora, justo agora, soa pior: não parece fazer efeito para deter ou esclarecer os novos iludidos, que vivem numa bolha onde este tipo de informação nem entra - e, se entrar, é instantaneamente queimada pelo ácido da pós-verdade, como um foguete de papelão entrando na atmosfera da Terra. Já para os minimamente informados e conscientes dos elementos não só da física como da história, a revelação tem o poder de nos vedar mais um caminho, mais uma possível saída, ainda que de efeito apenas imaginário:  agora, nem adianta olhar para trás, se voltar para o passado, pois que o que imaginávamos ruim era mais terrível ainda. 

Assim que bati o olho na manchete da Folha de S. Paulo com essas revelações, lembrei imediatamente um mal estar que me dominava quando eu lia dois dos livros da série sobre a ditadura escrita por Elio Gaspari. O texto era ótimo, o arcabouço histórico estava ali, mas algo me incomodava - me fazia mesmo parar de ler de vez em quando. Pensava que era o fato de os livros terem sido construídos a partir dos cadernos do general Golbery, uma fonte que não tinha como turvar um pouco com algas de parcialidade o lago informativo escavado pelo jornalista. Mas isso não respondia totalmente minha pergunta, não disciplinava meu incômodo. Quando vi o noticiário sobre os documentos que mostram a autorização expressa de Geisel para a continuidade das execuções que atingiram sobretudo ex-guerrilheiros do Araguaia entendi imediatamente - mas com alguns anos de atraso - a razão daquele mal estar. Outro jornalista atento, Luis Costa Pinto, já disse aqui no Facebook que Gaspari vai ter que reavaliar o que escreveu. Vai ter um trabalhão. E com a soberba típica dos jornalistas, dificilmente o fará.

Mas o estrago está feito e um bolo de documentos amarelados mostrou que, longe da visão que vinha prevalecendo graças a monumentos consagrados como os  livros de Elio Gaspari e outras "contribuições" menos festejadas, agora sabemos que tudo era muito mais monolítico - e decidido com uma fria formalidade que nada tem a ver com o propagado espírito brasileiro. Ali, naquele triste momento, o Brasil era um gelado território de guerra sem ética ou limites. Muito mais germânico do que baiano. Um país de sinal fechado, olá, como vai, e agora, quem sabe?

sexta-feira, 4 de maio de 2018

DESORDEM


Essa história de "leitor bagunçado" às vezes me dá umas rasteiras. Começou com uma brincadeira - uma autopiada - com a falta de ordem, coerência, sequencia, linearidade ou o que seja nos livros que eu vou lendo dia após dia. Uma declaração aberta sobre a admiração que tenho pelos amigos que conseguem seguir um roteiro invisível mal botam o pé numa livraria ou biblioteca. Eu, não: what a mess! De um Ian MacEwan eu passo pra uma Isabel Allende, sem nem um Miguel Sousa Tavares pra atenuar a travessia. 

Mas - ah, o mas - ocorre, aqui e ali, a vingança da organização, digamos assim. Como agora: ainda com os olhos sujos de lama e óleo cru depois de me espojar nas traquinagens de Mr. Trump na White House por meio dos semidiários perpetrados por Mr. Wolff, lanço meu olhar sobre a estante dos livros esquecidos - aqueles que você compra agora mas sabe que só vai ler muito depois; o que não os diminui nem um pouco, ao contrário - e caio de amores tipo first sight pelo "Império" de Gore Vidal. Sou tributário de Mr. Vidal desde os tempos de "Criação", doce poeira dos anos 80 no ar, e há tempos vinha querendo aspirar de novo os ares de suas narrativas ricas, elegantes, deliciosamente esnobes e irresistivelmente irônicas. 

Onde está o link? Ora, "Império", como devem saber os meus amigos que são leitores organizadíssimos, volta aos zeua do século XIX para duelar sobre temas caros aos irmãos do norte com a esgrima afiada de Mr. Vidal - política, poder, rituais de Washington, sumidades literárias cruzando em campinas com heróis de guerra e míticos homens de imprensa daqueles primórdios. O livro começa assim que acaba a guerra entre EUA e Espanha, inundando os salões das conversas com as avaliações mais díspares desse noticiário, ingressando mesmo na construção das vitórias e derrotas por meio de uma novidade asfixiante - a grande imprensa de monumentos como Pulitzer and Hearst. 

Persiste a pergunta: e o link, man, adonde está? Nas verdades construídas, nas guerras produzidas, nos interesses capazes de dispor as peças do tabuleiro político e convencer a massa de que é aquilo mesmo e não adianta discutir. Parece que a pós-verdade sempre existiu - o que acontece é que agora essa dama suja foi batizada com um nome limpo. Ou pelo menos as sementes estavam há tempos no solo americano - que dirá o nosso cá embaixo, hein? O aguardado link, numa frase, está na semelhança, na permanência, na persistência de certos painéis que aos olhos de hoje parecem ter nascido ontem.  Mr. Trump e sua corte de maltrapilhos da extrema direita bem que poderiam entrar, sem pedir licença, nos gabinetes onde os irmãos Caroline e Blaise Sanford circulam dentro desse "Império". Ali estava o tal ovo da serpente de "Fogo e Fúria". 

E aqui está a derrota da desorganização do dito leitor desordenado. Sem querer, pontes se constroem entre os livros na estante. Tristes links, neste caso. Como no dia em que quis fugir do tóxico noticiário interessado brazuca e acabei buscando refúgio - ledo engano - no "Rio das Flores" do português Tavares, apenas para perceber ali pela página 30 que - estética e história à parte, claro - havia trocado seis por meia dúzia. O best seller do portuga, bom que só a gota, sufoca o personagem principal na angústia de ter de conviver com a recém implantada ditadura do burocrata Salazar. Quando o revoltado Diogo resolve fugir daquilo, pega o Zepellin rumo ao Brasil - que o deixa fascinado. Mas aqui também havia um Estado Novo em gestação. Enfim, valeu o prazer da travessia de mar e livro, mas a desorganização - descubro - pode ser bem difícil, quase impossível. Uma utopia como hoje parece ser tudo o mais. 

Jogo tudo para o alto e me jogo na épica e enciclopédica aventura política de "Império" - um livro do tipo que implora por completa imersão. O próximo livro a pular da estante pra minhas mãos dirá enfim se a organização é uma sina ou uma inútil negação.

quinta-feira, 15 de março de 2018

HAWKING, PUTIN, MARIELLE...





Esta semana aprendemos muito com Stephen Hawking, o cientista que, misturando astrofísica com superação pessoal, colocou em questão os limites do ser humano.  Acrescento que por estes dias também estamos tendo a oportunidade de aprender muito com Vladimir Putin. Isso mesmo, o homem forte da Rússia que, além de todos os defeitos que lhe são imputados, esta semana também passou a ser acusado de ter usado armas químicas na Inglaterra para matar um agente duplo de espionagem, colocando muito mais gente em perigo.

Qual seria o ensinamento de Putin, tão odiado ocidente afora, embora aclamado como ídolo pop entre os seus – especialmente entre os seus mais jovens eleitores russos? Justamente isso: a aclamação. O que dizem esses eleitores novinhos ou nem tanto para justificar a adoração por esse outro Vladimir? Entre várias outras palavras que usam, como “próximo do povo”, “forte” e “pratica esportes” (pra gente ver como o apelo político funciona segundo outras regras tão estranhas ao que pensa o jornalismo, a ciência política, a academia e alhures), os russos falam em “estabilidade”. Temem que, sem um cara valente como Putin, a Rússia volte aos dias de tumulto que viveu nos anos 90, quando, para além dos autoritarismos de sempre, o que havia no ar eram dúvidas, insegurança e outras características de um país à deriva.

Em um Brasil cheio de dúvidas, insegurança e vivendo praticamente à deriva, não custa ter humildade e reconhecer que “estabilidade” pode ser a palavra-chave – além do protesto puro e simples, claro – na definição do sr. Eleito ao final de outubro deste ano. Porque as pessoas, é mister reconhecer, apreciam a estabilidade, gostam de ter um parâmetro com o qual medir suas próprias possiblidades, veneram uma certa certeza – essa matéria enganadora que também, tantas vezes, impede tantas pessoas de progredir, tanta necessidade têm elas de garantias de que tudo dará certo. Nem sempre – a vida não se processa assim, e a ousadia é o outro lado da moeda da estabilidade.

Mas o anseio por estabilidade está lá, adormecido, dentro de cada um, esperando o momento de dar seu pitaco, fazer aquele gesto mínimo que diz tudo na hora mais inesperada, com – aí sim – os resultados mais imprevisíveis. Ou Donald Trump não é um produto dessa mistura química de emoções e projeções de camadas variadas de segmentos sociais unidos por uma mesma aspiração que não soa agradável ao ser ouvida?

Então, não desprezem Putin, não minimizem o sentimento dos russos. Procurem entendê-los dentro das circunstâncias deles, que em vários momentos podem ser também as nossas. Vivemos nos últimos dias momentos realmente turbinados de emoções fortes à sombra da morte e da longevidade não esperada de Hawking, assim como das novas denúncias de Madame May contra o vilão juramentado Putin. Não precisávamos nem um pouco do fuzilamento de uma vereadora negra dedicada à defesa dos direitos sociais e humanos para encerrar a semana.

Mas sobre a lição incontestável de Marielle Franco, temos uma palavra muito mais forte, rica e bela do que “superação” e “estabilidade”: coragem. Com um pouco de cada uma delas podemos reerguer a dignidade brasileira perdida.

terça-feira, 13 de março de 2018

TV PIRADA







Socorro! Tem uma televisão maluca me perseguindo! Eu corro prum lado, ela vem atrás; giro nos calcanhares pensando que vou escapar a tempo e eis que a TV pirada me aparece bem no meio do caminho. O que será? Um deus, um avião, um campeão de audiência, um supercomputador, o Superman? Não, é a NET que, agora associada à Claro, que empurrar aos clientes um pacote conjunto com o que parece ser o pior que as duas companhias têm – imagine uma montanha de defeitos, detritos, irritações, mudanças não previstas em contratos e afins empilhados até o limite do céu, qual uma torre de babel burocrático-comercial que faz você – o cliente – parecer um pontinho no chão, humilhado por esse gingante de arrogância empresarial.

Sou um fanático consumidor de televisão, que foi o computador e o videogame da minha geração. Hoje, vejo quase nada de televisão no horário e na grade convencional. Trabalho num canal de TV, o que já é meio caminho andado para sentir um quê de obrigação cada vez que ligo um aparelho. Mas gosto do “pacote” da NET porque ela me permite ao menos usar recursos do serviço on demand, distribuindo o que me interessa ao longo dos horários em que estou disponível pra mim mesmo – quem hoje pode dizer que é, va-lá, uns 50% disponíveis para si mesmo, hein?

Então: de uns tempos pra cá, dona Net, que era uma mulher moderna, cheia de GNTs, multishows e outros atrativos canais de sedução, caiu numa vala comum que a linguagem empresarial chama genericamente de “mudança de gestão”. Apossaram-se da outrora elegante dona Net uns executivos de pó de nada, do tipo que quanto mais vazios mais arrogantes são, e, firmando um acordo com a telefônica já citada aqui neste documento fracassado, passou a querer empurrar à força aos clientes o consumo associado das duas marcas. Anotem: além de não conseguir ampliar essa cartela de novos clientes, correm o risco de perderem os antigos, como eu, seduzidos há mais de uma década. (parênteses: converse com um desses garotos que trabalham na instalação do sistema em sua casa e veja se ele também não tem, de uns tempos pra cá, tanto motivo de reclamação quanto você. Fim do parênteses)

O que mais espanta – e preciso registrar aqui para mostrar que não se trata de mera reclamação de consumidor, mas daquele tal algo mais que merece ser dito com ênfase maior – é o treinamento que deram ao novo call center da NET-Claro, infelizmente instalado em Recife, o que nos obriga a ser grosseiros com aquela gente tão interessante como são os pernambucanos. Compadeço-me das moças e rapazes que por força da necessidade precisam desse emprego, mas quando um deles – como ocorreu hoje – liga pra me oferecer o pacote NET-Claro pela milésima vez (pacote que Rejane já tentou usar e revelou-se uma armadilha ao consumidor) – não há como não sentir o nível de irritação subir até o cliente de dez anos não ter outra saída a não ser bater o telefone diante do funcionário do call center.

Porque eles são condicionados a sempre ter uma pergunta engatilhada de forma a, apelando ao fim da paciência do interlocutor, acabar convencendo-o a aderir ao que quer que seja. Ou, bem pior: responder à sua resposta com nova pergunta que jamais deveria ser feita quando se trata de seduzir quem está do outro lado da linha – “por que não deseja o novo serviço?” (em tom de cobrança absoluta, por favor). E vai além: “se não conhece o serviço como é que pode dizer que é ruim?”

É a massa classe C empregada pelo novo estrategista empresarial do Brasil almofadinha dando aula grátis de como subestimar o seu mercado potencial. Para ele, não existe vida inteligente do outro lado do balcão que resista a uma conversinha toda codificada previamente. Ao cliente não resta alternativa a não ser revalidar aquela resposta que no mundo infantil não terá qualquer validade mas aqui ressurge coberta de motivos: “porque não”. E chega.

E é isso o que o registro deseja cravar: chegamos a tal ponto nas relações de mercado, na seara da compra e venda, no vale tudo das liquidações do bom senso que, em terreno completamente livre de regulação e absolutamente liberado de fiscalização, viramos todos reféns da nossas diversões eletrônicas, das nossas relações virtuais, do grande cerco do irmão capital. A NET-Claro é só um braço, another brick in the wall.


domingo, 11 de março de 2018

ÉPICOS DE ONTEM E DE HOJE




Há quanto tempo o amigo não assiste a um filme com milhares de figurantes espalhados por todos os cantos da tela? Ok, não vale citar Christopher Nolan, pois que senão a ideia aqui vai toda por água abaixo – sobre esse moço aí a gente fala mais à frente. O assunto agora é mais para trás, bem para trás. Pense numa tela absurdamente grande, numa projeção lavada e cheia de bolor, num elenco estelar da era em que astros e estrelas ainda eram misteriosamente inacessíveis e complete com... justamente, uma legião de figurantes de verdade, corpo, alma, sangue e suor. Nada de efeito multiplicador das novas tecnologias.

Estamos no tempo dos filmes épicos. Uma época em que a maior tecnologia com que um diretor de um mastodonte em imagem e som desses podia contar era um reles megafone – pra bradar aos quatro ventos e fazer funcionar aquela balbúrdia de judeus em êxodo, ou soldados romanos, ou ainda indianos miseráveis – desde quando indiano em filme épico pode reivindicar alguma respeitabilidade? Isso aqui é porque eu acabei de ver, pela primeira vez com o meu famoso atraso regulamentar, o espetacular, megalômano  e ambicioso “El Cid”, um épico com quem eu estava em dívida há séculos.

Esta semana, achei uma copia num sebo – de tão gigantescos, coitados, hoje os pletóricos épicos de outrora se escondem, meio envergonhados, em prateleiras de DVDs promocionais nos sebos mais recônditos da cidade, pra ver o que é a vida. Há pouquíssimos épicos dignos do nome na Netflix, por exemplo. Paguei a merreca habitual e levei o DVD pra casa, numa sacolinha de plástico, aquilo que num passado nem tão remoto assim tinha um peso de ouro e mal cabia nas telas de todo os cinemas disponíveis, dado não só a amplidão do formato, aquele cinemascope “in tecnicholor” que nas mãos do músico potiguar Babal virou uma bela canção, mas também à própria pretensão.

Porque épico digno do nome é, no mínimo, o máximo. Se não for pelo menos pretensioso, não vale. Ainda que fracasse na bilheteria – mas há fracassos que, convenhamos, são um sucesso. Vide “A queda do império romano”, o último de uma linha de filmes sobre aquele pessoal de sandália no pé, sainha na cintura e uma ideia permanente de guerra na cabeça que rendeu  muitos épicos. Nunca esquecerei da noite quase inteira que varei hipnotizado diante de uma TV em branco e preto assistindo a “Quo Vadis” pela primeira vez, no desconforto dos bancos de um salão de um colégio interno. Como também tenho gravada na memória afetiva a dureza que foi assistir a “Passagem para a Índia” no grande salão que era o Cine Rio Grande, no centro de Natal – um cinema tão confiante em si mesmo que se permitia ter cobogós nas paredes, mesmo situado ao lado de uma avenida com um trânsito bem barulhento. Você comprava sua passagem para a Índia, testemunhava todo aquele conflito gerado pelo choque cultural e psicanalítico entre uma burguesa britânica e um rapaz indiano tendo como trilha sonora adicional o zum-zum-zum dos ônibus lotados na avenida ao lado. Pensando bem, não deixava de ser bem indiano. Duro devia ser quando passavam um drama de Bergman.

Ah, sim, sobre Christopher Nolan que, para quem não ligou o épico – digo, o nome – à pessoa é esse novo cineasta que vem causando furor entre os críticos mais exigentes. Ainda não me convenci que ele seja o “novo” Stanley Kubrick. Admito que o cinema dele  procura fugir da média do cinemão atual sem sair de dentro do star system. Mas o cara está aqui porque é sabido que se nega a duplicar e quadruplicar figurantes eletronicamente em seus filmes. Tem que ser gente de carne, osso, mandíbula e saco cheio quando a filmagem demora demais, assim como acontecia com os antigos.

E foi isso o que fez em “Dunkirk”, seu mais recente e elogiado filme, que mostra o difícil resgate de soldados britânicos cercados numa praia por alemães durante a II Guerra Mundial. Vi no cinema, mas pretendo rever em casa – porque o filme, digamos assim um épico mais contido, se é que isso é possível, pareceu-me no cinema um exercício brilhante de uso das técnicas cinematográfica até o ponto onde elas suportam serem exercitadas. Incrível, mas a emoção, pra mim, foi-se embora na bacia de água suja que Nolan jogou fora pra atingir seu objetivo. E para um épico, mesmo um épico que não quer assumir plenamente sua condição como parece ser o caso de “Dunkirk”, não basta reunir a população do Canadá – excluídos os imigrantes – na locação. É preciso que esse povo todo faça a gente se emocionar sem se dar conta de que está chorando no meio de uma multidão.

sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

Crime sem castigo


Ao contrário do que se disse durante anos, não há mais mistério algum em torno do assassinato da menina Ana Lídia, que foi sequestrada de um colégio na Asa Norte na Brasília de 1973 e depois encontrada morta num terreno onde hoje fica a UnB. O caso é conhecido e está para a capital do país como o sumiço de Carlinhos para o Rio de Janeiro e o assassinato da menina Araceli para o Espírito Santo. O Brasil mais novo parece querer ignorar, e parte do Brasil mais velho faz questão de esquecer na marra, mas vivíamos sob uma ditadura militar onde crimes, sobretudo contra crianças indefesas, não combinavam com o mundo de desenvolvimento cor-de-rosa que os militares faziam questão de afirmar.


Essa história já foi contada mil vezes – nos jornais, a cada vez que o crime faz “aniversário”, na série da TV Globo que relembrava os mistérios policiais mais conhecidos do país, nos sites sensacionalistas e, todo ano, no dia de finados, quando o túmulo de Ana Lídia é um dos mais visitados no principal cemitério de Brasília. Mas essa história ainda não havia sido contada da maneira como está sendo agora. Primeiro, troque os nomes dos personagens por precaução jurídica – até porque, lembre-se, ainda há arquivos secretos sob o caso que não podem ser abertos -, depois transforme o que poderia ser um relato apenas documental em uma ficção construída de maneira a esclarecer pontos que a investigação do crime, feita propositadamente de maneira falha, não cobriu ou deixou de lado ou simplesmente ocultou. Por fim – e aqui está o mais importante – abra a janela dessa narrativa o máximo que conseguir, para que o pano de fundo do momento político e histórico do país se torne um personagem tão forte quanto a própria Ana Lídia – digo, Ana Clara.

O jornalista Roberto Seabra fez tudo isso, tendo ainda o cuidado de alterar ligeiramente o nome da vítima desse assassinato recoberto de camadas de circunstâncias que tornam a investigação – ainda que falha, ou justamente por isso – tão representativa daquele tempo e lugar quando o próprio crime. O que nosso amigo Beto faz é, mais do que construir uma ficção para preencher os espaços que faltavam (embora a essência do que houve seja até bem conhedido), situar o caso Ana Lídia  no painel histórico tomando todo o cuidado para que as peças se encaixem com a máxima proximidade do que se deu de fato. O grande mérito de “Silêncio na cidade”, o livro de Roberto Seabra lançado no final do ano passado, é não deixar que esse crime seja visto como um episódio específico e isolado – tudo nessa história remete a algo bem maior, o que faz com que Beto, ainda que  indiretamente, “decifre” os outros dois casos similares já citados aqui, Carlinhos e Araceli.

Você termina a leitura ansiosa de “Silêncio na cidade” entendendo que havia, naquele triste momento brasileiro, uma tendência criminal, digamos assim, que associava o consumo de drogas com a impunidade de que tanto se reclama hoje em dia, fermentado pela farra dos filhos de “autoridades” e especialmente pela censura à imprensa. Hoje em dia, mesmo com a imprensa padecendo de outros problemas não menos graves, uma série de crimes daquela natureza logo seria associada, como acontece com o noticiário em ondas sobre o assédio na indústria do cinema americano, por exemplo, ou com os casos de bulling nas nossas escolas. Com isso, ao menos um leitura sociológica inicial já seria feita dando oportunidade ao debate público, à revisão de leis ou a uma postura diferente e mais rígida da sociedade diante dos fatos, contribuindo para combater abertamente esse ou outro tipo de violência. Enfim, um caso tão triste e violento seria um instrumento para o exercício da cidadania – palavra proibida naqueles tempos.


Transparência, cobrança, mobilização foi exatamente o que não houve em 1973 – e não poderia mesmo haver, como entende qualquer pessoa razoavelmente informada sobre o Brasil daquela época. “Silêncio na cidade”, ao reforçar no próprio título essa limitação, tem o mérito de colocar um tijolo a mais no muro narrativo que desde então vem sendo erguido em torno do martírio da menina brasiliense. É um livro que, a partir de um crime “popular”, exalta a importância do exercício político onde menos se espera. Um legado involuntário do Brasil de 1973 para o país dos dias que correm. 

terça-feira, 21 de novembro de 2017

LEO NO SERIDÓ

Leonard Cohen foi

encontrado ontem,
assobiando um blues,
num banco de praça
em Carnaúba dos Dantas.
Vendo ao longe barracas de feira
cobertas com plásticos azuis
que brilhavam ao sol da uma da tarde.
E, mais perto, em disparada diante do banco,
rumo sabe-se lá para onde, levas de bicicletas
Monark com selin gasto e aros já meio entortados.


Leonard Cohen viu bares com pouca luz
e muitos pinguços, mesas de sinuca de arestas
desgastadas, moças de short, alpercatas estragadas,
caminhonetes pintadas com as cores da bandeira
do Brasil e um sem número de lembrancinhas 
de N. S. das Vitórias. Desencontrado do momento e
do lugar, Leonard Cohen estranhamente 
combinava com tudo - a luz de filme do cinema novo,
o ruge-ruge da tarde de feira, a velha barbearia na esquina.


Não havia highway nem dinners ao alcance
da visão de Leonard Cohen sentado num banco
de praça em Carnaúba dos Dantas.
Talvez houvesse, quando muito, quem sabe?
um resto de solo de sax de alguém 
ensaiando Royal Cinema num quarto inexato
coberto de telhas cruas e encarnadas.
E Leonard Cohen, entre marchantes, feirantes,
sernatejos e flores de plástico, pensou ter visto
Edward Hooper tomando uma lapada num
morre-em-pé, vulgo boinho, ali na esplanada
que se abre como uma big farm de vento
aos pés do Monte do Galo.