quarta-feira, 8 de abril de 2020

O VÍRUS, SEGUNDO G.



O coronavírus mete medo, esvazia metrópoles, põe de joelho líderes mundiais apressadinhos, transforma seres comuns em super-homens de tanto que eles aparecem na tevê, causa revolta em subseres humanos mimados com as facilidades de um tempo astucioso, muda hábitos embutindo a promessa de nos fazer melhores nem que seja um tantinho assim, enfim, enfim, faz e acontece sem nem precisar ser visível ou tátil – é como uma intuição, uma interrogação atrás da orelha, um átomo impossível de ser explodido no ar, na matéria, nos organismos.

O Brasil é um país, enorme, implacavelmente visível, de uma extensão impossível de ser totalmente percorrida por gente que nele nasceu e habita por 80, cem anos, agigantado, uma mancha ampla se espalhando nos mapas geográficos da Terra inteira – é até mais tangível do que gostaríamos, na medida em que aqui e ali dá vontade de esquecer que estamos dentro dele, totalmente dominados.

A instabilidade não é, literalmente, nem um vírus e muito menos um país, mas é, sim, as duas coisas – e ambas temos sido há 500 e tantos anos. É o nosso vírus mais endêmico, nossa doença mais teimosa, nosso traço mais distinto. O vírus da instabilidade contém tudo o que fomos e somos, embala nossa história, desenha nosso perfil, resume nossa tão fugidia quanto mitificada identidade nacional. Nós, tente não ficar chocado, somos como um vírus inquieto e mutante que no entanto não consegue sair do lugar, tamanha a nossa instabilidade atávica e crônica. E se você acha que estou exagerando aproveite que está trancado em casa – assim esperamos – e veja, ou como foi o meu caso,  reveja, o grande “Terra em transe”, o filme síntese da filmografia do baiano Glauber, aquele dionisíaco desfile das nossas fraquezas estandartizadas para todo o mundo ver e nós mesmos se estivermos dispostos, atentos e desprevenidos.

Assistir a “Terra em transe” num momento como este é bastante propício, não só pela série de eventos políticos que tanto nos tem diminuído ainda mais nos últimos anos, numa sucessão que dificilmente poderíamos acreditar duas décadas atrás. Com os reflexos locais da crise mundial do coronavírus, a contemplação em tela caseira das crises sobre crises com que Glauber Rocha compõe sua sinfonia cinematográfica de uma nação de brincadeirinha chamada El Dorado só ganha, cresce e se amplifica em êxtase e anticelebração. Um filme normal, em cenários habituais com personagens bem delineadinhos e cenas convencionais jamais conseguiria espelhar o que o Brasil foi e continua sendo – ao contrário do que chegamos a pensar, numa ilusão civilizatória tipo 3D só dez minutos e três governos atrás.



Era preciso um filme em que cada personagem fosse assim como uma flâmula rubra se entortando em dobras escandalosas ao vento do Aterro do Flamengo ou no alto do Morro do Careca para dar a dimensão exata de quem somos, assim como aqueles a quem nos submetemos ou aqueles outros a quem endeusamos e entregamos tudo, tudo, tudo. Uma cena de um impasse político com campanha de desestabilização, risco de renúncia e ameaça de resistência com armas não poderia, para ficar à altura dos dramas brasileiros, ser filmada assim num set que reproduz um gabinete comum, de secretário, prefeito, governador, deputado, senador ou presidente. Não: Glauber pega seu magote de personagens emblemáticos que representam cada um um naco maior de brasileiros – o empresário, o poeta, o político, o aproveitador, o oportunista, o povo cego, espoliado e também Jeca total – e os coloca num pátio aberto para as matas de uma encosta carioca. Neste palco amplo, aberto, suspenso como que sobre a história do Brasil inteira coloca tais personagens para interagir nesta ciranda enlouquecida por poder, mesquinharia e falta de rumos que tem sido o país em tantos e tão duradouros momentos – como agora, um ápice como outros que já tivemos.

Os balcões do Parque Lage, cartão postal do Rio de Janeiro, são um gabinete aberto das veias rasgadas a peixeira da vida brasileira. Ao longo do filme, solilóquios shakespereanos de indecisão, dúvida e fraqueza polvilham as ações – melhor seria dizer não-ações – do condutor do filme, o Paulo Martins dividido entre a política e a poesia, entre líderes com caminhos políticos diferentes, entre a empatia triste de Glauce Rocha e a efusividade em olhos verdes que é Danusa Leão. Neste empacado caminho, seguem ou param, avançam um pouco e tropeçam de novo o poeta e o país – quantas vezes já vimos esse filme de progressos curtos solapados por retrocessos permanentes no Brasil de fato, aqui fora da tela, seu reflexo vivo que só reforça os traços  aparentemente caóticos da construção glauberiana?

O vírus da instabilidade é a nossa doença de estimação que o coronavírus vem abraçar e beijar na noite da virada dos tempos. Se vamos melhorar depois dele, como se espera que aconteça mundo afora no freio de arrumação em que esta crise pode se transformar para quem  olha para ela com olhos de alguma esperança resiliente, os antecedentes não são os melhores. É o que nos gritam os panoramas do filme que, feito nos anos 60 parece novinho em folha e segue inventivo até quando usa a ser favor o descompasso entre imagem e som, numa época em que o áudio direto ainda era novidade ou luxo na indústria do cinema. A sonoridade de “Terra em transe” é um item à parte neste carnaval antropológico que emoldura nossas realidades fora de qualquer esquadro. Há sempre um barulho marcante ao fundo, instabilizando tudo, seja um tambor ou tiros de metralhadora, elementos tão importante quanto os crucifixos hipocritamente empunhados ou as bandeiras em rebelião de cores saturadas – e pouco importa que o filme seja em branco e preto, que nada mais colorido foi feito no país em cinema, nem mesmo quando atingimos o esperado padrão americano dos anos 90 em diante.



A câmera pendente, o enquadramento de risco, a luz estourada que tanto cega quanto esclarece, o interior de palácios que nos infla o falso orgulho e nos entrega decadentes e deslumbrados, o vasto mar em volta de uma terra teimosa e imutável, nossos vulcões que se não compõem a geografia explicita das matas queimam todo o nosso território por dentro, cozinhando ambições desmedidas, carbonizando possibilidades e espalhando a cinza sobre as novas camadas de matas que surgem, numa história aprisionadas em ciclos de Getúlios, Jânios, Jangos, Médicis, Lulas e Bolsonaros. Parece impossível escapar dessa troça permanente, este baile viciado, antifolia de derradeira festa que nunca é de fato a última e sempre se perpetua no tempo e no espaço, angariando novos organismos e novos infectados.

O coronavírus, esse que está aí fora e nos mantém presos aqui dentro, logo vai encontrar sua cura. Do Brasil de “Terra em transe” não podemos dizer o mesmo – apenas desejar o impossível.

terça-feira, 7 de abril de 2020

DE REPENTE, NA MESMA ESQUINA




O título excelente, já dramaticamente conclusivo, não poderia antecipar melhor o que viria pela frente, especialmente em um livro voltado em reposicionar o passado. “De repente a vida acaba” poderia ser o epitáfio dos dias presentes, mas por uma dessas ironias que cercam tantas obras de arte ele na verdade remete ao estado de espírito urbano, jovem-adulto, ligeiramente acadêmico e totalmente pop, digamos assim, da década de 80.

Pelo título também se deduz tudo o mais básico, já que estamos obviamente falando do a esta altura bem conhecido romance lançado no final do ano passado por Clotilde Tavares. Pois é, de repente a vida acaba, como atualmente nos convencemos dia e noite sem precisar nem sequer sair às ruas, ou por isso mesmo – e já peço perdão pelo humor involuntário em hora tão delicada. Mas uma poção que seja de humor havemos de preservar, com o cuidado de não jogar mais ácido nas feridas dos que a doença derrubou, levou ou de seus amigos e parentes.

De repente a vida acaba é uma daquelas constatações de senso comum que, quando postas assim a seco na capa de um mais do que digno romance, repentinamente servem de referência para se avaliar tudo – do motivo pra levantar da cama todas as manhãs, ou todas as tardes para os boêmios de que já-já nos ocuparemos de que o livro se vale para descortinar a cultura de uma época em tantos momentos saudosa, até o medo do contágio por um novo, corona ou não, vírus letal.

Clotilde Tavares já nos deu crônicas incríveis, poemas sensíveis, livros brilhantes sobre assuntos tão diversos quanto a vida em escolas de freiras no cariri paraibano até as práticas holísticas aplicadas ao cotidiano. Já nos divertiu com performances teatrais que teimam em não deixar o teto da boa memória, como a tresloucada personagem da peça “Papai pirou nas ondas do rádio” que tivemos o prazer de ver no palco do Teatro Alberto Maranhão, em Natal. Já deu conselhos na televisão para quem anda com o astral meio apagadinho (e nisso, eu levo um pouco da culpa), já circulou de jornais a jornais do RN e da PB com suas tão simples quanto afiadas análises dos nossos cotidianos, já deu aulas na UFRN em dois departamentos completamente distintos,  já escreveu e montou seus textos teatrais.

O que mais faltava, senão um romance digno do nome, que não fosse um corriqueira construção de enredos e personagens, mas sim – e sem proclamar desnecessariamente essa ambição – um apurado e sensível painel de um tempo e lugar que tantos de nós, na faixa dos 40 anos pra frente, ou viveram diretamente, ou tomaram contato por tabela?

“De repente a vida acaba” tem, sim, claro, personagens bem construídos, diálogos exatos, situações inesperadas, conflitos estimulantes e tem até um desfecho com atmosfera de thriller, daqueles em que o leitor não consegue largar o livro e come palavras em busca de saber como aquilo tudo vai acabar. Mas o que o romance tem de mais notável é a recuperação de uma época, o registro magnífico do que eram as noites e noitadas de Natal a partir especialmente da segunda metade dos anos 80, num espelho óbvio do que se dava em outras capitais no mesmo período, numa configuração que de fato nunca mais se repetiria daquela forma.

Do Bar do Buraco ao Chernobyl, de uma Ponta Negra dark até uma Redinha em neblina e sombras, está tudo ali, nas aventuras e desventuras sem limites de uma geração que vivia tudo em intensidade máxima, sem saber do futuro distópico de um coronavírus e ainda prestes a ser informada sobre outra ameaça em aproximação,  o HIV precoroniano cujos grupos de riscos soavam muito mais convenientes a quem não fazia parte da tripulação daquele alegre barco a navegar madrugadas infindas.

No livro temos duas personagens que sustentam este Guernica de bares, noites, solidões, encontros e desencontros. Uma vive plenamente as explosões de tal período, a adorável Lady Night de quem o leitor sentirá severas saudades assim que encerrar a leitura afoito pra saber como tudo se resolveu – ou se concluiu, se é possível usar estes termos. Aline, este é seu nome, é uma referência na narrativa inteira que acessamos por meio dos originais do livro que deixou escrito e que caiu nas mãos da personagem viva – embora algo morta – que lê seus relatos e faz com eles a reconstrução daquele período. Maria Eulina é a outra face da moeda onde foi fundido o perfil de Aline, e de tal oposição Clotilde tira o máximo proveito, para deleite nosso aqui do outro lado das páginas. Com essas duas figuras e os figurantes com quem elas interagem no passado recente de Lady Nigh e no presente sem sentido de Maria Eulina é erguida a estrutura do livro e modelada a poesia de um tempo.



   
Muitos viveram aquele período e o retrataram à sua maneira, em Natal e alhures. Lembro da “Crônica da Banalidade” do querido amigo Carlão de Souza, como  lembro da poesia de Ana Cristina César, pra ficar em dois exemplos e não atazanar a pobre memória em decomposição. Mas o que faz de “De repende a vida acaba” algo tão especial é, para além de uma hoje muito aclamada voz literária feminina que décadas atras não era tão comum e fazia falta, é a entrada neste universo a partir de situações bem pouco idealizadas. Tudo é bem realista e de certa maneira comum nas situações de Clotilde engendra. A mente de Maria Eulina é absolutamente condizente com a pobreza dos tempos atuais, não há a busca por uma posição que a coloque na condição de personagem-mito. Nem mesmo com Aline, que se faz cercar o tempo todo de uma encenação que modifica todos os lugares onde chega, há esse tipo de mistificação. As duas são comuns, cada uma à sua maneira – e  é a partir de pessoas comuns, que trabalham burocraticamente na secretaria de alguma coisa sem evolar qualquer angústia kafquiana que este painel de uma vida adulta, emancipada, boêmia e entregue artisticamente à magia das possibilidades é delineado nas páginas do romance de Clotilde.

Quem lembra da autora circulando nos anos 80 no calçadão da avenida João Pessoa em Natal, com aquele seu riso impiedoso que tanto congrega quanto provoca, durante um evento cultural de rua qualquer aproveitando pra divulgar seu livro de poesias “Bilhetes de suicida” há de mesclar imediatamente sua imagem com a da Lady Nigh do livro. Mas como felizmente somos muito mais mútiplos do que imagina a míope classificação social, ali também há lugar para a ranzinice semi-idosa de uma Maria Eulina. As tintas autobiográfica sempre serão uma das matérias primas da boa ficçção e qualquer especulação é mera fuga do que realmente interessa para quem de fato não está entendendo nada. Esta lembrança está aqui dada à dificuldade que tenho em sugestionar o leitor quanto ao que foram aqueles anos, aquelas noites e aqueles grandes encontros numa Natal de fato muito mais disfarçadamente tranquila. Talvez essa imagem da poeta no calçadão diga alguma coisa pra quem me acompanhou até aqui e está incomodado se perguntando, mas de que este rapaz está mesmo falando?

Clotilde Tavares não tem este problema e “De repente a vida acaba” é a prova disso. Uma viagem ao espírito esquecido de uma época que ainda tem tanto a nos oferecer hoje e especialmente amanhã, quando o coronavírus passar. Quiçá muitos leiam seu livro e encontrem, para além do drama que ao fim e ao cabo purifica, a inspiração que de alguma maneira transforma. E eu não estou falando de um livro de auto-ajuda.

segunda-feira, 14 de maio de 2018

SINAL FECHADO



Não fique triste, amigo meu, mas a verdade é que tudo pode piorar. Não apenas o que está por vir, mas também o que já foi. Por esses dias, ficamos sabendo - belo momento pra esse tipo de revelação, mas quem pode escolher quando as verdades decidem sair desfilando nuas por aí? - que o general Geisel autorizou pessoalmente a continuação dos assassinatos de militantes que lutavam contra a ditadura durante os nossos anos de chumbo grosso - e que o adjetivo raspe da expressão o que ela possa ter de aceitável, pra não dizer (quem diria?) simpático. 

Antes de tomar posse no Palácio do Planalto ocupado por generais e de ser informado sobre as execuções, essas já passavam de 100 - e o novo general-presidente mandou seguir adiante. Detalhes aqui. A verdade é que, ao contrário do que sempre acreditamos, nunca houve propriamente uma "linha dura" como parte integrante dos grupos militares (e também civis, não convém esquecer) que mandaram e desmandaram no país durante a longa noite de 20 anos sem democracia formal. Tudo era "linha dura". 

O general Sylvio Frota não era a ponta de um radicalismo, não era um extremista no sistema que, quando passava do limite e limava do horizonte político um Manoel Fiel Filho ou um Vladimir Herzog, ganhava um puxão de orelha do velhinho bondoso Geisel, que deixou morrer o AI-5 na data marcada. Não, era tudo a mesma coisa - um amálgama de bordas imprecisas que decidia pela morte quanto julgava necessário. E assim se foram mais de 100 vidas. 

A revelação em papéis guardados em bibliotecas e bancos de dados norte-americanos gerou um noticiário que, de tão chocante, é capaz de furar até a sessão de notícias em que nos afundamos nos jamais previstos dias que correm. É triste porque funciona como um bumerangue ironicamente indesejado: sempre quisemos a verdade sobre a violência da ditadura brasileira, sempre foi importante contar o que aconteceu, expor, denunciar, levar às escolas, às novas gerações. Justamente para impedir o que vemos agora: legiões de novos ignorantes seguindo como pombinhos o defensor dessa violência. 

Mas agora, justo agora, soa pior: não parece fazer efeito para deter ou esclarecer os novos iludidos, que vivem numa bolha onde este tipo de informação nem entra - e, se entrar, é instantaneamente queimada pelo ácido da pós-verdade, como um foguete de papelão entrando na atmosfera da Terra. Já para os minimamente informados e conscientes dos elementos não só da física como da história, a revelação tem o poder de nos vedar mais um caminho, mais uma possível saída, ainda que de efeito apenas imaginário:  agora, nem adianta olhar para trás, se voltar para o passado, pois que o que imaginávamos ruim era mais terrível ainda. 

Assim que bati o olho na manchete da Folha de S. Paulo com essas revelações, lembrei imediatamente um mal estar que me dominava quando eu lia dois dos livros da série sobre a ditadura escrita por Elio Gaspari. O texto era ótimo, o arcabouço histórico estava ali, mas algo me incomodava - me fazia mesmo parar de ler de vez em quando. Pensava que era o fato de os livros terem sido construídos a partir dos cadernos do general Golbery, uma fonte que não tinha como turvar um pouco com algas de parcialidade o lago informativo escavado pelo jornalista. Mas isso não respondia totalmente minha pergunta, não disciplinava meu incômodo. Quando vi o noticiário sobre os documentos que mostram a autorização expressa de Geisel para a continuidade das execuções que atingiram sobretudo ex-guerrilheiros do Araguaia entendi imediatamente - mas com alguns anos de atraso - a razão daquele mal estar. Outro jornalista atento, Luis Costa Pinto, já disse aqui no Facebook que Gaspari vai ter que reavaliar o que escreveu. Vai ter um trabalhão. E com a soberba típica dos jornalistas, dificilmente o fará.

Mas o estrago está feito e um bolo de documentos amarelados mostrou que, longe da visão que vinha prevalecendo graças a monumentos consagrados como os  livros de Elio Gaspari e outras "contribuições" menos festejadas, agora sabemos que tudo era muito mais monolítico - e decidido com uma fria formalidade que nada tem a ver com o propagado espírito brasileiro. Ali, naquele triste momento, o Brasil era um gelado território de guerra sem ética ou limites. Muito mais germânico do que baiano. Um país de sinal fechado, olá, como vai, e agora, quem sabe?

sexta-feira, 4 de maio de 2018

DESORDEM


Essa história de "leitor bagunçado" às vezes me dá umas rasteiras. Começou com uma brincadeira - uma autopiada - com a falta de ordem, coerência, sequencia, linearidade ou o que seja nos livros que eu vou lendo dia após dia. Uma declaração aberta sobre a admiração que tenho pelos amigos que conseguem seguir um roteiro invisível mal botam o pé numa livraria ou biblioteca. Eu, não: what a mess! De um Ian MacEwan eu passo pra uma Isabel Allende, sem nem um Miguel Sousa Tavares pra atenuar a travessia. 

Mas - ah, o mas - ocorre, aqui e ali, a vingança da organização, digamos assim. Como agora: ainda com os olhos sujos de lama e óleo cru depois de me espojar nas traquinagens de Mr. Trump na White House por meio dos semidiários perpetrados por Mr. Wolff, lanço meu olhar sobre a estante dos livros esquecidos - aqueles que você compra agora mas sabe que só vai ler muito depois; o que não os diminui nem um pouco, ao contrário - e caio de amores tipo first sight pelo "Império" de Gore Vidal. Sou tributário de Mr. Vidal desde os tempos de "Criação", doce poeira dos anos 80 no ar, e há tempos vinha querendo aspirar de novo os ares de suas narrativas ricas, elegantes, deliciosamente esnobes e irresistivelmente irônicas. 

Onde está o link? Ora, "Império", como devem saber os meus amigos que são leitores organizadíssimos, volta aos zeua do século XIX para duelar sobre temas caros aos irmãos do norte com a esgrima afiada de Mr. Vidal - política, poder, rituais de Washington, sumidades literárias cruzando em campinas com heróis de guerra e míticos homens de imprensa daqueles primórdios. O livro começa assim que acaba a guerra entre EUA e Espanha, inundando os salões das conversas com as avaliações mais díspares desse noticiário, ingressando mesmo na construção das vitórias e derrotas por meio de uma novidade asfixiante - a grande imprensa de monumentos como Pulitzer and Hearst. 

Persiste a pergunta: e o link, man, adonde está? Nas verdades construídas, nas guerras produzidas, nos interesses capazes de dispor as peças do tabuleiro político e convencer a massa de que é aquilo mesmo e não adianta discutir. Parece que a pós-verdade sempre existiu - o que acontece é que agora essa dama suja foi batizada com um nome limpo. Ou pelo menos as sementes estavam há tempos no solo americano - que dirá o nosso cá embaixo, hein? O aguardado link, numa frase, está na semelhança, na permanência, na persistência de certos painéis que aos olhos de hoje parecem ter nascido ontem.  Mr. Trump e sua corte de maltrapilhos da extrema direita bem que poderiam entrar, sem pedir licença, nos gabinetes onde os irmãos Caroline e Blaise Sanford circulam dentro desse "Império". Ali estava o tal ovo da serpente de "Fogo e Fúria". 

E aqui está a derrota da desorganização do dito leitor desordenado. Sem querer, pontes se constroem entre os livros na estante. Tristes links, neste caso. Como no dia em que quis fugir do tóxico noticiário interessado brazuca e acabei buscando refúgio - ledo engano - no "Rio das Flores" do português Tavares, apenas para perceber ali pela página 30 que - estética e história à parte, claro - havia trocado seis por meia dúzia. O best seller do portuga, bom que só a gota, sufoca o personagem principal na angústia de ter de conviver com a recém implantada ditadura do burocrata Salazar. Quando o revoltado Diogo resolve fugir daquilo, pega o Zepellin rumo ao Brasil - que o deixa fascinado. Mas aqui também havia um Estado Novo em gestação. Enfim, valeu o prazer da travessia de mar e livro, mas a desorganização - descubro - pode ser bem difícil, quase impossível. Uma utopia como hoje parece ser tudo o mais. 

Jogo tudo para o alto e me jogo na épica e enciclopédica aventura política de "Império" - um livro do tipo que implora por completa imersão. O próximo livro a pular da estante pra minhas mãos dirá enfim se a organização é uma sina ou uma inútil negação.

quinta-feira, 15 de março de 2018

HAWKING, PUTIN, MARIELLE...





Esta semana aprendemos muito com Stephen Hawking, o cientista que, misturando astrofísica com superação pessoal, colocou em questão os limites do ser humano.  Acrescento que por estes dias também estamos tendo a oportunidade de aprender muito com Vladimir Putin. Isso mesmo, o homem forte da Rússia que, além de todos os defeitos que lhe são imputados, esta semana também passou a ser acusado de ter usado armas químicas na Inglaterra para matar um agente duplo de espionagem, colocando muito mais gente em perigo.

Qual seria o ensinamento de Putin, tão odiado ocidente afora, embora aclamado como ídolo pop entre os seus – especialmente entre os seus mais jovens eleitores russos? Justamente isso: a aclamação. O que dizem esses eleitores novinhos ou nem tanto para justificar a adoração por esse outro Vladimir? Entre várias outras palavras que usam, como “próximo do povo”, “forte” e “pratica esportes” (pra gente ver como o apelo político funciona segundo outras regras tão estranhas ao que pensa o jornalismo, a ciência política, a academia e alhures), os russos falam em “estabilidade”. Temem que, sem um cara valente como Putin, a Rússia volte aos dias de tumulto que viveu nos anos 90, quando, para além dos autoritarismos de sempre, o que havia no ar eram dúvidas, insegurança e outras características de um país à deriva.

Em um Brasil cheio de dúvidas, insegurança e vivendo praticamente à deriva, não custa ter humildade e reconhecer que “estabilidade” pode ser a palavra-chave – além do protesto puro e simples, claro – na definição do sr. Eleito ao final de outubro deste ano. Porque as pessoas, é mister reconhecer, apreciam a estabilidade, gostam de ter um parâmetro com o qual medir suas próprias possiblidades, veneram uma certa certeza – essa matéria enganadora que também, tantas vezes, impede tantas pessoas de progredir, tanta necessidade têm elas de garantias de que tudo dará certo. Nem sempre – a vida não se processa assim, e a ousadia é o outro lado da moeda da estabilidade.

Mas o anseio por estabilidade está lá, adormecido, dentro de cada um, esperando o momento de dar seu pitaco, fazer aquele gesto mínimo que diz tudo na hora mais inesperada, com – aí sim – os resultados mais imprevisíveis. Ou Donald Trump não é um produto dessa mistura química de emoções e projeções de camadas variadas de segmentos sociais unidos por uma mesma aspiração que não soa agradável ao ser ouvida?

Então, não desprezem Putin, não minimizem o sentimento dos russos. Procurem entendê-los dentro das circunstâncias deles, que em vários momentos podem ser também as nossas. Vivemos nos últimos dias momentos realmente turbinados de emoções fortes à sombra da morte e da longevidade não esperada de Hawking, assim como das novas denúncias de Madame May contra o vilão juramentado Putin. Não precisávamos nem um pouco do fuzilamento de uma vereadora negra dedicada à defesa dos direitos sociais e humanos para encerrar a semana.

Mas sobre a lição incontestável de Marielle Franco, temos uma palavra muito mais forte, rica e bela do que “superação” e “estabilidade”: coragem. Com um pouco de cada uma delas podemos reerguer a dignidade brasileira perdida.

terça-feira, 13 de março de 2018

TV PIRADA







Socorro! Tem uma televisão maluca me perseguindo! Eu corro prum lado, ela vem atrás; giro nos calcanhares pensando que vou escapar a tempo e eis que a TV pirada me aparece bem no meio do caminho. O que será? Um deus, um avião, um campeão de audiência, um supercomputador, o Superman? Não, é a NET que, agora associada à Claro, que empurrar aos clientes um pacote conjunto com o que parece ser o pior que as duas companhias têm – imagine uma montanha de defeitos, detritos, irritações, mudanças não previstas em contratos e afins empilhados até o limite do céu, qual uma torre de babel burocrático-comercial que faz você – o cliente – parecer um pontinho no chão, humilhado por esse gingante de arrogância empresarial.

Sou um fanático consumidor de televisão, que foi o computador e o videogame da minha geração. Hoje, vejo quase nada de televisão no horário e na grade convencional. Trabalho num canal de TV, o que já é meio caminho andado para sentir um quê de obrigação cada vez que ligo um aparelho. Mas gosto do “pacote” da NET porque ela me permite ao menos usar recursos do serviço on demand, distribuindo o que me interessa ao longo dos horários em que estou disponível pra mim mesmo – quem hoje pode dizer que é, va-lá, uns 50% disponíveis para si mesmo, hein?

Então: de uns tempos pra cá, dona Net, que era uma mulher moderna, cheia de GNTs, multishows e outros atrativos canais de sedução, caiu numa vala comum que a linguagem empresarial chama genericamente de “mudança de gestão”. Apossaram-se da outrora elegante dona Net uns executivos de pó de nada, do tipo que quanto mais vazios mais arrogantes são, e, firmando um acordo com a telefônica já citada aqui neste documento fracassado, passou a querer empurrar à força aos clientes o consumo associado das duas marcas. Anotem: além de não conseguir ampliar essa cartela de novos clientes, correm o risco de perderem os antigos, como eu, seduzidos há mais de uma década. (parênteses: converse com um desses garotos que trabalham na instalação do sistema em sua casa e veja se ele também não tem, de uns tempos pra cá, tanto motivo de reclamação quanto você. Fim do parênteses)

O que mais espanta – e preciso registrar aqui para mostrar que não se trata de mera reclamação de consumidor, mas daquele tal algo mais que merece ser dito com ênfase maior – é o treinamento que deram ao novo call center da NET-Claro, infelizmente instalado em Recife, o que nos obriga a ser grosseiros com aquela gente tão interessante como são os pernambucanos. Compadeço-me das moças e rapazes que por força da necessidade precisam desse emprego, mas quando um deles – como ocorreu hoje – liga pra me oferecer o pacote NET-Claro pela milésima vez (pacote que Rejane já tentou usar e revelou-se uma armadilha ao consumidor) – não há como não sentir o nível de irritação subir até o cliente de dez anos não ter outra saída a não ser bater o telefone diante do funcionário do call center.

Porque eles são condicionados a sempre ter uma pergunta engatilhada de forma a, apelando ao fim da paciência do interlocutor, acabar convencendo-o a aderir ao que quer que seja. Ou, bem pior: responder à sua resposta com nova pergunta que jamais deveria ser feita quando se trata de seduzir quem está do outro lado da linha – “por que não deseja o novo serviço?” (em tom de cobrança absoluta, por favor). E vai além: “se não conhece o serviço como é que pode dizer que é ruim?”

É a massa classe C empregada pelo novo estrategista empresarial do Brasil almofadinha dando aula grátis de como subestimar o seu mercado potencial. Para ele, não existe vida inteligente do outro lado do balcão que resista a uma conversinha toda codificada previamente. Ao cliente não resta alternativa a não ser revalidar aquela resposta que no mundo infantil não terá qualquer validade mas aqui ressurge coberta de motivos: “porque não”. E chega.

E é isso o que o registro deseja cravar: chegamos a tal ponto nas relações de mercado, na seara da compra e venda, no vale tudo das liquidações do bom senso que, em terreno completamente livre de regulação e absolutamente liberado de fiscalização, viramos todos reféns da nossas diversões eletrônicas, das nossas relações virtuais, do grande cerco do irmão capital. A NET-Claro é só um braço, another brick in the wall.


domingo, 11 de março de 2018

ÉPICOS DE ONTEM E DE HOJE




Há quanto tempo o amigo não assiste a um filme com milhares de figurantes espalhados por todos os cantos da tela? Ok, não vale citar Christopher Nolan, pois que senão a ideia aqui vai toda por água abaixo – sobre esse moço aí a gente fala mais à frente. O assunto agora é mais para trás, bem para trás. Pense numa tela absurdamente grande, numa projeção lavada e cheia de bolor, num elenco estelar da era em que astros e estrelas ainda eram misteriosamente inacessíveis e complete com... justamente, uma legião de figurantes de verdade, corpo, alma, sangue e suor. Nada de efeito multiplicador das novas tecnologias.

Estamos no tempo dos filmes épicos. Uma época em que a maior tecnologia com que um diretor de um mastodonte em imagem e som desses podia contar era um reles megafone – pra bradar aos quatro ventos e fazer funcionar aquela balbúrdia de judeus em êxodo, ou soldados romanos, ou ainda indianos miseráveis – desde quando indiano em filme épico pode reivindicar alguma respeitabilidade? Isso aqui é porque eu acabei de ver, pela primeira vez com o meu famoso atraso regulamentar, o espetacular, megalômano  e ambicioso “El Cid”, um épico com quem eu estava em dívida há séculos.

Esta semana, achei uma copia num sebo – de tão gigantescos, coitados, hoje os pletóricos épicos de outrora se escondem, meio envergonhados, em prateleiras de DVDs promocionais nos sebos mais recônditos da cidade, pra ver o que é a vida. Há pouquíssimos épicos dignos do nome na Netflix, por exemplo. Paguei a merreca habitual e levei o DVD pra casa, numa sacolinha de plástico, aquilo que num passado nem tão remoto assim tinha um peso de ouro e mal cabia nas telas de todo os cinemas disponíveis, dado não só a amplidão do formato, aquele cinemascope “in tecnicholor” que nas mãos do músico potiguar Babal virou uma bela canção, mas também à própria pretensão.

Porque épico digno do nome é, no mínimo, o máximo. Se não for pelo menos pretensioso, não vale. Ainda que fracasse na bilheteria – mas há fracassos que, convenhamos, são um sucesso. Vide “A queda do império romano”, o último de uma linha de filmes sobre aquele pessoal de sandália no pé, sainha na cintura e uma ideia permanente de guerra na cabeça que rendeu  muitos épicos. Nunca esquecerei da noite quase inteira que varei hipnotizado diante de uma TV em branco e preto assistindo a “Quo Vadis” pela primeira vez, no desconforto dos bancos de um salão de um colégio interno. Como também tenho gravada na memória afetiva a dureza que foi assistir a “Passagem para a Índia” no grande salão que era o Cine Rio Grande, no centro de Natal – um cinema tão confiante em si mesmo que se permitia ter cobogós nas paredes, mesmo situado ao lado de uma avenida com um trânsito bem barulhento. Você comprava sua passagem para a Índia, testemunhava todo aquele conflito gerado pelo choque cultural e psicanalítico entre uma burguesa britânica e um rapaz indiano tendo como trilha sonora adicional o zum-zum-zum dos ônibus lotados na avenida ao lado. Pensando bem, não deixava de ser bem indiano. Duro devia ser quando passavam um drama de Bergman.

Ah, sim, sobre Christopher Nolan que, para quem não ligou o épico – digo, o nome – à pessoa é esse novo cineasta que vem causando furor entre os críticos mais exigentes. Ainda não me convenci que ele seja o “novo” Stanley Kubrick. Admito que o cinema dele  procura fugir da média do cinemão atual sem sair de dentro do star system. Mas o cara está aqui porque é sabido que se nega a duplicar e quadruplicar figurantes eletronicamente em seus filmes. Tem que ser gente de carne, osso, mandíbula e saco cheio quando a filmagem demora demais, assim como acontecia com os antigos.

E foi isso o que fez em “Dunkirk”, seu mais recente e elogiado filme, que mostra o difícil resgate de soldados britânicos cercados numa praia por alemães durante a II Guerra Mundial. Vi no cinema, mas pretendo rever em casa – porque o filme, digamos assim um épico mais contido, se é que isso é possível, pareceu-me no cinema um exercício brilhante de uso das técnicas cinematográfica até o ponto onde elas suportam serem exercitadas. Incrível, mas a emoção, pra mim, foi-se embora na bacia de água suja que Nolan jogou fora pra atingir seu objetivo. E para um épico, mesmo um épico que não quer assumir plenamente sua condição como parece ser o caso de “Dunkirk”, não basta reunir a população do Canadá – excluídos os imigrantes – na locação. É preciso que esse povo todo faça a gente se emocionar sem se dar conta de que está chorando no meio de uma multidão.

sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

Crime sem castigo


Ao contrário do que se disse durante anos, não há mais mistério algum em torno do assassinato da menina Ana Lídia, que foi sequestrada de um colégio na Asa Norte na Brasília de 1973 e depois encontrada morta num terreno onde hoje fica a UnB. O caso é conhecido e está para a capital do país como o sumiço de Carlinhos para o Rio de Janeiro e o assassinato da menina Araceli para o Espírito Santo. O Brasil mais novo parece querer ignorar, e parte do Brasil mais velho faz questão de esquecer na marra, mas vivíamos sob uma ditadura militar onde crimes, sobretudo contra crianças indefesas, não combinavam com o mundo de desenvolvimento cor-de-rosa que os militares faziam questão de afirmar.


Essa história já foi contada mil vezes – nos jornais, a cada vez que o crime faz “aniversário”, na série da TV Globo que relembrava os mistérios policiais mais conhecidos do país, nos sites sensacionalistas e, todo ano, no dia de finados, quando o túmulo de Ana Lídia é um dos mais visitados no principal cemitério de Brasília. Mas essa história ainda não havia sido contada da maneira como está sendo agora. Primeiro, troque os nomes dos personagens por precaução jurídica – até porque, lembre-se, ainda há arquivos secretos sob o caso que não podem ser abertos -, depois transforme o que poderia ser um relato apenas documental em uma ficção construída de maneira a esclarecer pontos que a investigação do crime, feita propositadamente de maneira falha, não cobriu ou deixou de lado ou simplesmente ocultou. Por fim – e aqui está o mais importante – abra a janela dessa narrativa o máximo que conseguir, para que o pano de fundo do momento político e histórico do país se torne um personagem tão forte quanto a própria Ana Lídia – digo, Ana Clara.

O jornalista Roberto Seabra fez tudo isso, tendo ainda o cuidado de alterar ligeiramente o nome da vítima desse assassinato recoberto de camadas de circunstâncias que tornam a investigação – ainda que falha, ou justamente por isso – tão representativa daquele tempo e lugar quando o próprio crime. O que nosso amigo Beto faz é, mais do que construir uma ficção para preencher os espaços que faltavam (embora a essência do que houve seja até bem conhedido), situar o caso Ana Lídia  no painel histórico tomando todo o cuidado para que as peças se encaixem com a máxima proximidade do que se deu de fato. O grande mérito de “Silêncio na cidade”, o livro de Roberto Seabra lançado no final do ano passado, é não deixar que esse crime seja visto como um episódio específico e isolado – tudo nessa história remete a algo bem maior, o que faz com que Beto, ainda que  indiretamente, “decifre” os outros dois casos similares já citados aqui, Carlinhos e Araceli.

Você termina a leitura ansiosa de “Silêncio na cidade” entendendo que havia, naquele triste momento brasileiro, uma tendência criminal, digamos assim, que associava o consumo de drogas com a impunidade de que tanto se reclama hoje em dia, fermentado pela farra dos filhos de “autoridades” e especialmente pela censura à imprensa. Hoje em dia, mesmo com a imprensa padecendo de outros problemas não menos graves, uma série de crimes daquela natureza logo seria associada, como acontece com o noticiário em ondas sobre o assédio na indústria do cinema americano, por exemplo, ou com os casos de bulling nas nossas escolas. Com isso, ao menos um leitura sociológica inicial já seria feita dando oportunidade ao debate público, à revisão de leis ou a uma postura diferente e mais rígida da sociedade diante dos fatos, contribuindo para combater abertamente esse ou outro tipo de violência. Enfim, um caso tão triste e violento seria um instrumento para o exercício da cidadania – palavra proibida naqueles tempos.


Transparência, cobrança, mobilização foi exatamente o que não houve em 1973 – e não poderia mesmo haver, como entende qualquer pessoa razoavelmente informada sobre o Brasil daquela época. “Silêncio na cidade”, ao reforçar no próprio título essa limitação, tem o mérito de colocar um tijolo a mais no muro narrativo que desde então vem sendo erguido em torno do martírio da menina brasiliense. É um livro que, a partir de um crime “popular”, exalta a importância do exercício político onde menos se espera. Um legado involuntário do Brasil de 1973 para o país dos dias que correm. 

terça-feira, 21 de novembro de 2017

LEO NO SERIDÓ

Leonard Cohen foi

encontrado ontem,
assobiando um blues,
num banco de praça
em Carnaúba dos Dantas.
Vendo ao longe barracas de feira
cobertas com plásticos azuis
que brilhavam ao sol da uma da tarde.
E, mais perto, em disparada diante do banco,
rumo sabe-se lá para onde, levas de bicicletas
Monark com selin gasto e aros já meio entortados.


Leonard Cohen viu bares com pouca luz
e muitos pinguços, mesas de sinuca de arestas
desgastadas, moças de short, alpercatas estragadas,
caminhonetes pintadas com as cores da bandeira
do Brasil e um sem número de lembrancinhas 
de N. S. das Vitórias. Desencontrado do momento e
do lugar, Leonard Cohen estranhamente 
combinava com tudo - a luz de filme do cinema novo,
o ruge-ruge da tarde de feira, a velha barbearia na esquina.


Não havia highway nem dinners ao alcance
da visão de Leonard Cohen sentado num banco
de praça em Carnaúba dos Dantas.
Talvez houvesse, quando muito, quem sabe?
um resto de solo de sax de alguém 
ensaiando Royal Cinema num quarto inexato
coberto de telhas cruas e encarnadas.
E Leonard Cohen, entre marchantes, feirantes,
sernatejos e flores de plástico, pensou ter visto
Edward Hooper tomando uma lapada num
morre-em-pé, vulgo boinho, ali na esplanada
que se abre como uma big farm de vento
aos pés do Monte do Galo. 


segunda-feira, 16 de outubro de 2017

NÓS E OS ESPANHÓIS


A propósito do nosso sombrio momento histórico e de uma série de livros da editora Contexto

É certo que estamos todos tristes. Não que certa melancolia não nos acrescente algo. Mas é de outra natureza essa sombra sobre nossos sentimentos - nada  a ver com a estranha alegria de ser triste de que falava o poeta português. É – esperamos – um desapontamento demarcado, uma apatia ocasional, uma escuridão cercada por um muro cheio de cacos de vidro chamado momento histórico.

Tudo é cinza em torno do verde/amarelo que nos roubaram pra enfeitar Patos de Tróia. E chutamos pelo caminho restos de projetos de país, papéis amassados com planos grandiosos que, entre retas e círculos, de alguma maneira vínhamos desenhando com algum sucesso. Faliu o Brasil Grande, quebrou o País do Futuro, furou-se o balão do Milagre Consumista, travou a máquina do Gigante Acordado. Tudo se esvaiu num ralo que mistura descrença ideológica com hipocrisia política, num escorrer rápido e precipitado como jamais imagináramos – sem nos dar tempo sequer de parar a correnteza para segurar algum elemento primordial que não precisa ser jogado fora junto com a água suja do banho do continental bebê.

Foi bem neste clima que me caiu às mãos um livro – sempre eles – capaz de, se não restaurar o que a realidade suja destruiu, ao menos lembrar que esse tipo de processo pode não ser propriedade particular de nosso apego infantil ao subdesenvolvimento. Foi um dos livros da série sobre nacionalidades que a editora Contexto publica. Uma bela série, onde se pode ler “tudo sobre” Os Ingleses, Os Espanhóis, Os Portugueses, Os Franceses, Os Russos – e outros, num total, acho, de dez título. Vá ao site, escolha os que lhe interessam e é capaz de, comprando uns cinco, ganhar o sexto. Vale cada centavo: cada livro traz uma síntese histórica, social e cultural de cada povo, como ele se uniu e como ameaça se desunir no dia a dia, vantagens e fraquezas, momentos de alta e de baixa.

Digo isso com base em Os Espanhóis, o único que li até agora – mas que foi justamente o livro que me devolveu um pouco de – como dizer, esperança? Não, caça aí outra palavra nas vizinhanças dessas – no errático Brasil de 2017. Descobri – ignorante como sou, e isso não é piada autodepreciativa pra me elevar o conceito em efeito contrário – que em certos aspectos, estamos bem à frente. O recente imbróglio em torno da independência da Catalunha não me deixa mentir.

O livrinho vai fundo nas bases desse e de outros movimentos separatistas hispânicos, além de cutucar as feridas espanholas como quem abre a golpes de foice as veias abertas da América Latina. Suportar um regime como o do general Franco por décadas – e só ver este regime cair quando seu patrono de fato morreu, bateu as botas – é de triturar qualquer coração civil, só pra deixar a coisa num clima bem Milton Nascimento dos anos 80. Desculpe, mas fomos ligeiramente melhores, se é possível traçar escalas de valores em matéria de ditadura. O fato é que nossos déspotas (os mais recentes) caíram antes – ou, melhor dizendo, duraram menos em termos de paciência cidadã. Os espanhóis tiveram que velar o presunto de Franco para poder pedir a palavra e dizer “ai”.


O efeito Guerra Civil é de uma absurda capacidade de gerar dor. Basta lembra a expulsão ou o sacrifício puro e simples de toda a boa inteligência  do país – escritores, artistas, cientistas – vitimada pelas botas dos seguidores de Franco. Sem falar nas levas de guerreiros republicanos entregues aos campos nazistas. É tanto sofrimento condensado que, por um instante, entre uma página e outra, a gente até acalenta a ideia de que o Brasil não terá sido tão cruel com sua gente. Será? E a nossa singela escravidão?

O fato é que, fechando a exposição do que é ser espanhol – e a síntese revela-se tão difícil quando a nossa eterna busca pela “identidade nacional” – o autor não se faz de bonzinho: diz, pura e simplesmente, que o que mantém a Espanha unida (porque, segundo ele, há camadas inteiras da população incapazes de se comunicar minimamente com outras; e a divisão pro e anti-independência da Catalunha taí pra provar) é alguma coisa como o medo... de outra guerra civil.


O que une os espanhóis é algo como a consciência de que tempos muito piores já foram vividos. É uma mistura de temor ancestral com conforto possível. Bem classe média brasileira com medo de não ter dinheiro pra pagar o colégio do filho, não? Mas é a isso mesmo que se chega após umas tantas trezentas páginas que passam por figuras tão distintas quanto Don Juan e El Cid, Felipe González e a cigana Carmem. O amigo arrisca aí uma síntese entre Chacrinha e, argh, Jair Bolsonaro? Pobre Espanha, miserável Brasil. Talvez o grande problema seja o mundo inteiro. Toc, toc, toc.

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

SÓ NOS RESTA O VERÃO






Este ano, vamos cobrar uma velha dívida dos cariocas

Os cariocas são minha última esperança. O verão carioca. Os modismos do verão carioca. Nunca eles foram tão necessários - porque ousados, irreverentes, loucos e irresponsáveis. É disso que a família brasileira mais precisa agora, nesta triste reta final não apenas de um ano, mas de uma série deles ao longo dos quais fomos atingidos por péssimas notícias encadeadas, ondas de intolerância compactadas e um bafo de atraso como jamais imaginamos. Pois ninguém melhor do que os cariocas para dar um chega pra lá nisso aí.

E eles nos devem isso: durante anos, décadas, séculos, fomos obedientes e fiéis seguidores das invenções que os cariocas nos traziam a cada verão: teve o do topless, o da lata, o do primeiro Rock in Rio, o do "Carnaval no fogo", que foi tão bom que virou livro, com esse título aí, escrito por Ruy Castro. Se durante tanto tempo fomos leais súditos dos verões cariocas mesmo morando a quilômetros de distância - em lugares onde havia outros modismos mas sem a menor chance de concorrer com aqueles propagados pela máquina de informações que vinha do Jardim Botânico, o bairro - então não será abuso nenhum cobrar a conta agora.

É assim mesmo: contas se cobram em momentos difíceis, quando tá todo mundo por um fio. E nesta hora em que nossa malemolência tropical está sendo ameaçada como nunca imaginamos pela rigidez de pastores milionários ou aspirantes a tanto, por arremedos de políticos que tisnam uma atividade que originalmente é das mais necessárias e por subcelebridades que não se conformam com o anonimato depois de famas fúteis justo naqueles libertários anos 80, então vamos passar a régua e exigir a conta: cariocas, ao trabalho, já – que dezembro está estourando aí.


Que nos apresentem, como contrapartida a tanta agressividade autorizada, burrice proclamada e moralismo de ocasião um verão escandaloso, performático, fútil como tem que ser mas divertido como se espera – numa palavra, bárbaro, para espantar os caretas de uma vez.

Um verão selvagem é o que pode nos salvar – ou, pra também não falar em termos tão definitivos que de fato não combinam com a estação – ao menos deter um pouco o neonazismo brazuca como um bloco de carnaval que para o trânsito impaciente da avenida Presidente Vargas.

Então, cariocas, vocês nos devem um baita de um verão. Usem o que for preciso: um novo biquíni, um point inesperado, um movimento que coloque aquela gente toda na praia diante de um adversário comum  (apitos sempre podem ser recuperados), o Cristo, o calçadão, Leila Diniz, a Rocinha, a Globo, o diabo. Mas nos entreguem aquele verão atrevido, barulhento e determinado a fazer a diferença que fez valer ao Rio a fama de capital cultural de um país em ruínas.



sexta-feira, 28 de abril de 2017

Pare

Enquanto é tempo. Mais será que ainda dá?

Na verdade, a gente devia ter parado há muito tempo. Logo na primeira hora, quando o português inicial abordou o índio original. Diante dos espelhinhos reluzentes, este poderia ter respondido àquele: - No, thanks. Além de antecipadamente bilíngue, seria um eticamente excelente ponto de partida para o que se chamaria Brazil - ops, Brasil.

Outras oportunidades de parar vieram e não aproveitamos. Na independência, ante aquele arranjo que se de um lado continha as arrogantes cortes de Lisboa mas por outro mantinha aqui um dos seus principais representantes, poderíamos ter dito: - Peraí, Pedro. Para tudo e vamos organizar essa soberania direito.

Muito antes disso, quando D. João III inventou aquelas que seriam a semente de tanto patrimonialismo no futuro Brasil - as tais Capitanias Hereditárias - algum conselheiro real, se não por interesse próprio ao menos por algum desconfiômetro natural, poderia ter tido: - Para, meu rey. Além de não dar certo, isso pode dar muito errado. Na escola aprendemos que só duas deram certo - Pernambuco e São Vicente, pois não? E por aí paramos. Neste caso, deveríamos ter ido adiante e estudado mais para ver se, no futuro, homens e mulheres feitos e estudados, conseguiríamos parar a roda que as capitanias puderam para, por assim dizer, funcionar. 

Quando as Diretas Já não passaram no Legislativo, em 25 de abril de 1984, o que deveríamos ter feito ao invés de embarcar na canoa parada da tal Nova República? Parado tudo. Naquela época nem era tão estanho assim - faltava foco, para usar uma palavra muito ao gosto de gente que não gosta de parar. 

Quando Tancredo parou de funcionar como organismo vivo e ser humano pensante em cima do momento da posse como presidente escolhido indiretamente num arranjo que não fora parado em tempo o quê deveríamos ter feito? Parado tudo. Quando Sarney emburrou e bateu o pezinho amuado exigindo 5 anos de mantato? Para tudo.
Quando o Plano Real começou a fazer água na confluência nem um pouco parada dos interesses do galinheiro das finanças com a nossa eterna bagunça política em tempos de ACM, era pra gente fazer o quê? Parar tudo. Vamos repensar. Neste caso, de certa forma, até que o fizemos.

Lula se elegeu finalmente - fora "parado" tantas vezes antes - e veio o processo geral da redistribuição de renda. Mas nem Lula foi capaz de parar os mecanismos gerais do sistema - e se não fora ele, não dá pra acreditar que nem um dos demais seria. Porque, se a velha ordem definitivamente está morrendo, Lula foi o que de melhor ela produziu. Faltou o quê a Lula e ao PT? Fazer mais? Necas. Faltou parar.

Parar certos mecanismos que se para outros - falo dos demais partidos, tradicionais grupos políticos e econômicos - eram aceitos, jamais o seriam para uma legenda partidária que veio da pobre base social do país. Faltou Lula e o PT dizerem, no primeiro dia de governo: - Parou. 

Antes mesmo, já na primeira negociação do primeiro custo de campanha: - Para, para, para que desse jeito não é mais possível.

E assim fomos, sem parar.

Até o dia de hoje. 

quarta-feira, 8 de março de 2017

OS INFERNOS DE ROTH





Ok, pode se escandalizar. Mas admita que você também pode se divertir com duas das mais nefastas criaturas literárias dos EUA


Dante que me perdoe, mas ninguém sabe construir um inferno melhor do que Philip Roth. Inferninhos, pra ser mais exato. Não daqueles de arrebalde ou beira de estrada. Não do tipo mal iluminado e cheio de figuras estranhas. Nada de bares suspeitos. Outro inferninho – pessoal, interno, internalizado, mas igualmente inferninho, pois que acelerado, disparado, caótico, sem limites. Um inferninho que faz da própria sordidez uma festa dionisíaca de misérias morais expostas. Você, eu, o leitor, nós nos divertimos em meio à repugnância – e, nisso, dissecamos o processo do sórdido da vez.

Que começou sendo Portnoy e, alguns anos depois, burilou seu próprio (mau) caráter a tal ponto que se tornou ainda pior – ou melhor, conforme a perspectiva de quem lê de fato o personagem. Virou Sabbath. Se o primeiro começava como um adolescente equipado com uma mente masturbatória insaciável – na medida exata da reação à repressão da cultura judaica ainda que não tão ortodoxa mas tanto pior quanto mais relativizada pelo meio (no caso, a classe média americana) – o segundo, com o perdão da extensão da frase (que quem já leu Roth não vai estranhar tanto, aposto) termina com o ocaso da mesma alma nefasta nos dias de velhice safada. Só mudaram o nome e ligeiras circunstâncias de endereço e profissão, se é que se pode falar assim.

Nem Bukowski foi tão longe. O caso é que Bukowski meio que se comprazia nas suas orgias, sugeria uma espécie de prazer superior em meio às maratonas alcóolico-sexuais. Deixava um certo rastro de superioridade em meio à miséria da raça, apesar de nem sempre se preocupar em reduzi-la ou julgá-la (muito pelo contrário). E ainda por cima fechava o porre com uma boa dose de niilismo que parecia justificar tudo. Não é o que acontece com Alex Pornoll e Mickey Sabbath, os personagens de dois dos principais livros de Phillip Roth, “O Complexo de Portnoy” e “O Teatro de Sabbath”. Eles não enxergam redenção alguma no que fazem, nem no nível existencial de sarjeta, se vocês me entendem. Pra eles, nada daquilo faz sentido algum. Daí os livros fazerem muito sentido pra quem os lê aqui do outro lado.





Como se sabe, ou não (eu não sabia até a velha biblioteca da Câmara dos deputados, logo ele; e uns vídeos banais de YouTube me informarem gentilmente), “O Complexo do Potnoy” é o primeiro dos mais importantes livros de Roth – e também o primeiro em que críticos literários que foram seus primeiros apoiadores tiveram imediatamente a providência primeira de lhe retirar aquele mesmo esteio inicial. Porque não suportavam as taras do monstruoso personagem. Curioso que justo críticos literários não tenham conseguido descolar o personagem do livro em si – ou, muito mais grave, do autor. Levaram tudo e todos a sério demais – e é preciso dizer que os dois livros aqui referidos são, antes de qualquer coisa, autênticas catedrais do bom humor.

Roth ficou na dele e escreveu uma série de outros livros sem tocar no assunto, como quem assovia uma valsa vienense em meio a um bacanal romano. Pois bem. Anos depois, sai-se com “O Teatro de Sabbath”, um compêndio de memórias e registros de um personagem ainda mais perverso, sexual e socialmente falando. Sabbath soa como Portnoy na velhice, como já disse aqui. Os livros se encadeiam perfeitamente, de maneira que o segundo foi uma espécie de resposta de Roth a quem se escandalizou com aquilo que parecia um escritor promissor até o lançamento do primeiro.
Confundiram o próprio Roth com Portnoy e com Sabbatn – o que não é tão difícil, já que a biografia dos três tem pontos em comum. Mas, para além de olhos esbugalhados de indignação letrada, por trás de cordilheiras de trepadas e rios de sêmen derramados por páginas e páginas, o que parece mesmo incomodar ambos – Portnoy e Sabbath – é a repressão cultural (muito além do murinho sexual, embora esse faça parte do pacote todo). É contra a convenção da tradição judaica, por sua vez cimentada pelos padrões do american away of life contra o qual os redutos em que vivem só aparentemente parecem se confrontar, que nossos dois tarados de estimação se põem a reagir.



E nisso, por serem tal qual são, imperdoáveis que nem um Trump enfurecido diante do quadrado em branco do twitter, é que podemos, junto com Roth, projetar neles todo o nosso potencial de malfeitos. Portnoy e Sabbath são como aqueles cadáveres sem nome que os estudantes de medicina usam para estudar o funcionamento do organismo humano. Eis a medicina da literatura – tantas vezes mais honesta que a de fato. E este último comentário bem que poderia vir de um dos dois personagens. Mas, como não sou nenhum deles, melhor parar por aqui.