quinta-feira, 23 de junho de 2016

O prisioneiro de Saul


Tem uns caras que um dia, determinado dia, na sua vida de leitor, você vai ter que enfrentar. Não tem data, nenhuma previsão, segurança alguma, nada. Mas ele / ou ela / estará lá, esperando, calmamente como um serial killer astucioso que sabe como ninguém cozinhar e degustar miolos de leitores incautos. 

Por estes dias, nas rondas que me arrisco a fazer entre as ruas de prateleiras da biblioteca pública que frequento, fui capturado por um tipo desses. Era um canto de estante, uma esquina mal iluminada onde poderia estar escondido um Goethe, um Becket, um Thomas Mann, este último pronto pra me ferir mortalmente com um golpe de "José e Seus Irmãos" direto no cocoruto. Escapei desses todos.

Escapei por pouco, apenas para me ver refém do não menos tenebroso Saul Bellow - um senhor de cara de cavalo, cabelos ralos e brancos, postura de vampiro curvado e, o que é pior, cérebro completamente imune a qualquer tipo de conciliação com a vida e com o mundo. Esse tal Saul é tipo um Paulo de Tarso às avessas, um Saulo bíblico que, depois de um tombo causado por um livro que se suicidasse de uma prateleira de biblioteca, renegasse novamente tudo o que passou a ser, voltando a viver como um perseguidor de crentes.  

O Sr. Bellow, consagrado até dizer chega graças a livros como "O Legado de Humboudt" e "Herzog", mora naquela rua onde a América examina seu pecadões e pecadinhos com um rigor de quem tem um império a construir e não pode perder tempo. 
O livro que ele usou pra me manter preso na sua rede é - como não poderia deixar de ser, em casos assim? - um baita monólogo disfarçado, que só mesmo pra lhe enganar começa a narrar na terceira pessoa para logo logo desandar num fluxo de pensamento capaz de deixar o Dostoiéviski de "Memórias do Subsolo" sem fôlego - ou, no mínimo, com soluço. 

Não me identifico com "Crime e Castigo" - falta empatia, e não é propriamente com a referida infração e posterior punição, mas com a atmosfera completa do livro - mas sou fã das Memórias subterrâneas do moço de Moscow (ou seria São Petesburgo, pré ou pós-Leningrado?) . Talvez por isso esses monólogos, ainda que (mal) disfarçados, têm o poder de me pegar. É dura a travessia, há horas em que você quer sacudir livro, pensador e (ralos) personagens janela abaixo, mas a civilização sempre dá um jeito de lhe conter os impulsos. 


O livro - só agora me dou conta de que ainda não dei o título - é "O Planeta do Sr. Sammler", um desabafo tipo Riobaldo em Nova York, assombrado não com os mistérios do sertão humano e sobre-humano, mas com as armadilhas urbanas e ao mesmo tempo quase selvagens da grande maçã. Isso nos anos 70: lembre de toda a cinematografia local do período, com vapor escapando de becos escuros, tiras corruptos e pós-hippies a um passo do apocalipse e você vai entender melhor.  

Judeu polonês, sobrevivente da matança nazista, saudoso de uma Londres intelectualizada, o Sr. Semmler do título navega pela Nova York dos anos setenta como alguém que, tendo sobrevivido, não consegue pisar no chão dos mortais propriamente ditos. Oscila, vaga, permanece em suspensão sobre esse mundo que enxerga como tão terminal quando os nefastos episódios históricos de que tomou parte antes de ali chegar. 

A julgar por este livro, a impiedade de Saul Bellow não deve ser menor nos outros - exatamente os que o consagraram. Veremos, porque volta e meia eu não resisto e dou umas incertas nas mesmas ruas de prateleiras onde já me deixei uma vez capturar. Ao amigo, à amiga, sugiro que pense duas vezes. Mas se começar a ouvir os lamentos do Sr. Sammler, vá até o fim. Persista, insista, não se entregue, estrebuche mas chegue ao final. 

Não que haja alguma surpresa do gênero spoiler que eu não cometerei o supremo crime de revelar - nada disso; o que por si só já representa um tipo de spoiler - mas é que é preciso esgotar o pensamento sobrevivente desse narrador enviesado. Porque este tipo de relato só tem sentido se começar e terminar assim, sem deixar pela metade seu ponto de saturação. Planetas como esses precisam ser habitados por todas as páginas. Quem pular trechos por excessos de enjoo estará cometendo outro crime, bem mais grave embora não muito frequente em ruas sinistras formadas por quarteirões de estantes de bibliotecas públicas.  

segunda-feira, 13 de junho de 2016

Visões do Varilux



Dois filmes que recuperam para o olhar a força do cinema sem apelar para super-herói ou explosões – a não ser aquelas que se dão na alma contemplativa e silenciosa do espectador


Não poderia haver dois filmes tão distintos e opostos – e tão bons, de um tipo de cinema que definitivamente os americanos deixaram para trás. E de um tipo que sequer os seriados de televisão, com toda sua excelência, praticam. Tinha que ser o cinema francês – agora num formato até mais próximo do americano dos anos 80, mas sem perder a subjetividade que lhe é característica, embora também sem fazer dessa qualidade um fetiche para a indefinição. Não sendo mais o “cinema de arte” de antanho, consegue ser o cinema da objetividade bem praticada e colocar-se distante também do espetáculo vazio que o cinema de super-herói inflou até as raias da banalidade. 

Isso tudo é apenas porque eu assisti a apenas dois dos tantos filmes do Festival Varilux de cinema francês. Bastaram dois para escancarar o alcance deste cinema atual e diversificado – e que, a julgar por esses dois exemplares, não abre mão da profundidade. Nem mesmo quando se trata de algo absolutamente leve, como é o caso do primeiro filme que vi, “Um Doce Refúgio” (título brasileiro tipo água-morna para o original “Comme um avion”). É um cinema-crônica que desde os primeiros quinze minutos já lhe remete aos filmes do italiano Nanni Moretti (Caro Diário e afins). Ao final dos créditos, você confirma: o ator, protagonista tão importante que leva o filme todo nas costas sem acusar peso algum, é também o diretor - Bruno Podalydès. Um Woody Allen europeu e, assim como Moretti, sem o ranço nova-iorquino às vezes algo postiço do ex-marido de Mia Farrow.


“Um Doce Refúgio” é aquele filme que, ao parecer supérfluo na abordagem e no tema, na verdade constrói um consistente e articulado discurso sobre a necessidade de se deixar levar pelo acaso em uma era marcada pela exigência neurótica de controle, sucesso e ostentação. Você passa duas horas apreciando as viagens reais e imaginárias de um sujeito que admite se deixar levar pela fantasia a ponto de se jogar em rios pilotando um caiaque comprado aos poucos pela internet. A metáfora visual é absoluta e, além de dispensar explicações, ainda proporciona um fluxo de imagens, um ritmo cinematográfico que não poderia ser mais inerente à velha sétima arte.

Já o outro filme, “Os Cowboys”, é uma jornada rumo ao inferno de um fenômeno mundial que, na época em que a história se inicia, estava apenas começando. O tema é atualíssimo – a adesão de jovens europeus se não bem nascidos, ao menos bem estabelecidos, ao mundo dos extremistas islâmicos. O filme como que coloca uma lente de aumento ainda mais potente sobre esse tema, ao situar a adolescente que foge de casa e some sem deixar vestígios numa família francesa que elege como modelo de vida toda a simbologia do oeste americano (o sumiço se dá durante um festival que emula, na França, uma festa country norte-americana). Dois extremos já estão juntos aí – o isolacionismo conservador algo texano que a família admira por tabela e o extremismo islâmico que captura sua filha e se opõe violentamente àquela mesma América estandartizada.

Mas “Os Cowboys” é um daqueles filmes que pulam por diversas fases, transformando-se praticamente em dois filmes em um – e o espectador vai junto, embarcando numa jornada de busca à garota desaparecida que descortina um mundo arriscado, violento, inseguro e ameaçador não apenas do ponto de vista da segurança pessoal, ou de um povo ou de uma nação. Entramos, numa incursão muito bem realizada pela direção do filme, no terreno movediço das viradas pessoais, atingindo pontos irreversíveis tanto na paisagem estranha dos desertos orientais quando nas vastidões interiores de quem faz esse tipo de travessia sem volta. Quem personifica tudo isso – algo de que nem se desconfia na primeira hora do filme – é o irmão da menina desaparecida, um ator pleno de poderes em expressar um mundo de emoções, carências e potenciais ousadias praticamente sem usar palavras. É um daqueles rostos que o grande cinema, no tempo em que esta arte teve espaço para ser realmente grande, gravava para sempre na tela da memória coletiva.


Mas “Os Cowboys” é apenas um filme francês sem maiores estratégias de marketing e divulgação, sem sombra de super-herói ou campanha viral na internet. Um grande filme, para um tempo que insiste em ser pequeno. Ainda bem que existe o Festival Varilux pra gente poder assistir a filmes como esses.

No Festival Varilux




domingo, 22 de maio de 2016

Um Brasil meio seriado do Netflix





Enfim vamos matar a saudade de Peninha, nosso historiador mais rock and roll

 
De tempos em tempos, a ansiedade do desapego me pega e – menos por moda do que por falta de espaço – sou forçado a me desfazer de pilhas de livros. Melhor pros sebos e, ao menos da última vez em que isso se deu, pras duas garotas com cara de estudante sem dinheiro que estavam na porta do Sebinho, na Asa Norte, e dividiram entre si todo o refugo que nem o estabelecimento de livros usados queria mais. Não porque fossem livros ruins (sim, eles existem), mas por serem, digamos, manjados demais – e comercialmente sem valor. O fato é que, nos desbastes periódicos de livros aqui de casa, tem uma série de três que sempre se recusa a ir embora. Por mais que eu tente – e, no caso dessa trilogia, admito que nem isso faço mais. Os intocáveis me olham do alto da estante cientes de que não correm risco algum. 

É a série Terra Brasilis, de Peninha – não o cantor, mas o jornalista e escritor Eduardo Bueno, um gaúcho com cara de carioca espevitado que está sempre tramando alguma coisa. Trama tanto que, às vezes – e é o caso aqui – deixa um desses trampos pelo meio do caminho, assim sem mais nem menos. Pois foi exatamente o que ele fez com a Terra Brasilis: lançou de um jato só os três primeiros volumes, que quem leu e gostou leu e gostou praticamente no mesmo ritmo em que Peninha os escreveu, e... pausa, intervalo, trégua... Como assim?

Depois de ler e nunca mais esquecer “A Viagem do Descobrimento”, “Náufragos, Traficantes e Degredados” e “Capitães do Brasil” – sobretudo o “Náufragos...” – o leitor da série de Peninha se viu obrigado a uma crise de abstinência mais cruel do que aquela que se abateu sobre um hipotético hippie que o escritor também foi depois de supostamente ter sido expulso de Woodstock ao final do primeiro show, sem direito de viver todo o resto. Como diria John Lennn, imagine.  

Voltando aos dias atuais, somente hoje descobri, lendo minha saraivada de jornais dominicais – e a cereja do bolo aqui também veio desta mesma maratona, abro logo mais – que houve, sim, um quarto volume. Que eu pelo menos nunca vi em livraria alguma. Peninha explicou à reportagem que o motivo da pausa foi o fato de ele já ter enchido os bolsos de dinheiro o suficiente graças às vendas dos três primeiros (que escreveu tão rapidamente devido à falta desesperadora do mesmo dinheiro que viria a provocar a interrupção; coisas de Peninha). Agora não tem mais importância; importa, sim, a novidade que o jornal me conta: o tal quarto volume vai ser relançado (assim como os três primeiros) e, cereja do bolo, Peninha está escrevendo um quinto volume, intitulado “França Antártica”, sobre toda aquela querela provocada pelos invasores franceses às voltas com Tamoios e Tupiniquins – o que, de uma forma muito Peninha de recontar a história, explica por exemplo a eterna rivalidade entre cariocas e paulistas. 

Faça como eu: aguarde o novo livro da série, que por sinal foi rebatizada apenas como “Brasilis”. E se a síndrome de abstinência voltar – você querendo ler de novo coisas como a explicação para D. João III ter demorado tanto a mandar um colonizador digno do nome ao Brasil, que seria Martim Afonso; sendo que, como em tudo em história, havia um objetivo não revelado por trás – o jeito é reler os três  primeiros. E o quarto, pra quem tem. De um jeito ou de outro, essa série é coisa digna de seriado do Netflix. Daqueles que lhe deixam a ponto de destruir a casa inteira se o sinal do wi-fi der uma oscilada bem no final do episódio.

terça-feira, 3 de maio de 2016

A luneta de Alceu

Inquieto como um frevo de rua, o filme mistura cangaço e circo numa maratona de alegorias 


O filme de Alceu Valença é um rock-xaxado de imagens inquietas, colhidas por uma câmera que dança o tempo todo, construindo um cinema movimentado como o músico, cantor e compositor que se arrisca em outra linguagem. Nada fica quieto muito tempo no filme que aposta em gênero consagrado o bastante no cinema brasileiro para não trazer riscos ao realizador: o cangaço. Claro que nesta “Luneta do Tempo” temos o cangaço alegórico, como se o filme todo fosse uma ópera popular movida a um programa  musical aplicado sobre os signos mais caros dos sertões nordestinos. 


Alceu mixa o mito do cangaço com o mundo dos circos mambembes mais pobres, extraindo disso um suco cultural que fala muito próximo a quem guarda os marcos daquilo que se convencionou chamar de Brasil profundo. E não faz feio quando se trata dos recursos técnicos que o cinema precisa saber usar. Vide as cenas de tiroteio, que podem levar o espectador à lembrança de faroeste americano de soberania técnica, deixando na poeira das caatingas os truques manjados do cinema novo mais decadente (não do inaugural, onde a precariedade técnica era, por si só, uma nova linguagem reconstruída).


Alegórico, colorido, festivo, dionisíaco, algumas vezes violento como a realidade que afinal também evoca, em muitas outras também lírico como se espera de um Alceu Valença, “A Luneta do Tempo” tem ainda o carisma instantâneo, imediato, direto e envolvente de nossa (para os potiguares) Khrystal, que, cantora magnífica que conhecemos, no filma mal precisa abrir a boca para expressar o que vai dentro de uma cangaceira ferida não no corpo mas no amor-próprio do sentimento ultrajado. Belo desempenho mudo de uma das nossas mais potentes vozes. Verás que mesmo sem lançar mão do seu instrumento vocal Khrystal preenche a tela inteira – e olhe que vi na tela generosa do Cine Brasília – com sua máscara de mulher tão magoada quanto decidida – e veja que ela está rodeada por ninguém menos do que Irandhir Santos e Hermila Guedes.



“A Luneta do Tempo”, como o próprio nome sugere, ainda brinca com a forma como a passagem do tempo faz pouco das realidades humanas, reconstruindo as tais narrativas conforme as circunstâncias. É o momento de metalinguagem do filme, quando uma sequencia da “realidade” do cangaço é refeita em forma de drama circense, estabelecendo, como sempre acontece nesses casos, um interessante diálogo interno do filme com o próprio filme. Com um desfecho não menos interessante.


Breve, exato, em grande parte convencional, sim, o filme de Alceu soa como um cordel redondinho, uma canção como essas que contam uma história emocionante, um drama de circo feito com os recursos de uma arte tecnicamente mais elaborada. Vai tocar você como boa música – mas é cinema, sim, senhor.

sábado, 20 de fevereiro de 2016

Nosso amigo Umberto

 


Vai-se o escritor inacessível com quem tínhamos a maior intimidade

Encontrei Umberto Eco pela primeira vez num aeroporto. O de Recife,  certamente em 1985, quando espiava títulos numa livraria com o amigo Ítalo Dantas. O Nome da Rosa já era aquilo tudo - campeão de vendas, número um na lista então muito respeitada daquela revista idem. Sempre tive uma queda por primeiros parágrafos. Se me conquistar ali, já foi. Capitulei em festa ante as primeiras palavras da narrativa do noviço Adso, variação e citação do célebre "meu caro Watson", já idoso, ao apresentar de maneira irresistível a aventura medieval de seu mestre Guilherme de Baskerville. 

Eu já sabia quem era aquele Umberto, claro. Como todo estudante de Comunicação, ouvira falar dele vagamente, nas aulas do não menos saudoso Rogério Cadengue, por causa de Apocalípticos e Integrados - que nunca li, como tantos outros; mas cuja metáfora qualificativa será para sempre um ponto de referência toda vez que surge um novo meio, um facebook, um twitter e quem sabe mais o que virá por aí.

Leituras de estudante: ao lado, a edição que eu viria a comprar e ler, mais barata, vendida nas bancas, depois do sucesso do lançamento original.








Umberto, como muito bem estabeleceu a colega Sandra Crespo num post no facebook (leia aqui), será sempre para essa nossa geração aquele farol iluminando caminhos lá do alto, com o perdão de tão gasta imagem (mas é isso mesmo, paciência). Como um amigo - um mestre, tanto quanto Baskerville foi para Adso - que vez em quando, nos momentos precisos, reaparece com uma novidade para nos orientar nos movimentos intelectuais que a vida exige, sugere, propõe. É o tipo da pessoa inacessível com quem temos a maior intimidade. 

É como Ítalo Calvino para Gustavo de Castro, como Drummond pra Rejane, como Paulo Freire para Guia Bezerra, como Hilda Hilst para Jeanne Araújo, como Ariano Suassuna para Renato Ferraz e por aí vai. Essa citação festiva de tantos amigos é pra isso mesmo: pra que fique clara a sugestão de como Umberto Eco estava próximo, mesmo sendo um celebridade (a merecer o nome) tão remota.

Vieram O Pêndulo de Focaut, que tive o prazer de ler duas vezes - a primeira durante um período de crise brava (essa de que tanto falam hoje é fichinha) no início dos anos 90 quando trabalhava na agência de Ricardo Rosado e Solino, em Natal (faltava dinheiro para anúncios e anunciantes, a sede da agência estava sendo construída e enquanto isso a gente se esbaldava na biblioteca particular de Ricardo, na casa do próprio em Capim Macio, em Natal). A Ilha do Dia Anterior já foi justo na transição para Brasília: horas de recolhimento em meio à mudança de cidade num dos quartos do apartamento de Adriano e Flávia na 216 Norte. Era maio, na alta noite a temperatura descia para 15 graus e a leitura de Umberto Eco me aquecia. 

Nas jornadas mais acadêmicas, já havia passado em Natal pelas ideias de Sobre o Espelho e Outros Ensaios e Viagem na Irrealidade Cotidiana (da biblioteca sempre aberta de Caro de Souza) - inspeções semiológicas em que ele demole parques e simulacros do mundo do entretenimento tipicamente americano, como o shopping center - inexistente em Natal naquele momento. Serviu-me de empurrão, de referência sociológica, para muito texto nos jornais locais. Inclusive para o Natal Shopping logo que ele foi inaugurado. Acho até que exagerei, mas esse arrebatamento era próprio do momento e da idade.


Os ensaios de semiologia que destruíam shoppings e simulacros: empurrão para analisar cidades em mudança no final dos anos 80.













Em Brasília vieram outros (Segundo Diário Mínimo; Como Fazer uma Tese; Seis Passeios pelos Bosques da Ficção), mas Umberto Eco me deixou dois livros em casa ainda não lidos - Baldolino e A Misteriosa Chama da Rainha Loana - além de outros que ainda nem peguei na livraria, como O Cemitério de Praga e esse interessante O Número Zero, espelho do jornalismo embaçado que temos hoje em dia. 

De maneira que o escrito vai continuar vivinho aqui, à distância curta que separa um braço de uma estante de livros. Vivo também no rosto do amigo Ítalo, que gosto de dizer brincando que a idade transformou num sósia do semiólogo italiano. Vivo na memória que cada livro evoca, assim como nas associações que existem entre esses livros, essas memórias e os meus próprios amigos. 

Amigos a gente encontra, ao mesmo tempo em que grandes escritores a gente lê. Esse é o legado pessoal que Umberto Eco deixa pra mim. Examine aí o que ele deixou pra você: não tem homenagem melhor para um escritor que se vai ao mesmo tempo em que se deixa ficar, com firmeza e saudade, nessa matéria passageira por excelência que é a nossa imaginação individual e coletiva. Obrigado, Umberto Eco.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

O listão do Leitor Bagunçado




De Muirakitan a Fritjof Capra, de Padura a Oliver Sacks, foram muitas e diversas as vozes que me distraíram da crise em 2015

Nem os agraciados do Enem, tampouco os aprovados para o Oscar. Antes que janeiro feche as portas, é preciso que o Leitor Bagunçado aqui - o apelido auto-aplicado, para os recém-chegados no blog, decorre de autopiadas feitas no Twitter em priscas eras - precisa fazer cumprir uma outra tradição em forma de lista: publicar a relação dos livros que leu no ano anterior; aquela mesma que pode ser consultada a qualquer hora enquanto o tempo escorre na ampulheta lá na template da Hamaca, o blog irmão (neste 2016 já temos dois registros).

Pois bem, em 2015 não houve crise na economia decodificativa do Leitor Bagunçado. Manteve-se o caos (com exceção da trilogia de Lira Neto, notável sobretudo no volume 2, pra se entender como se engendra uma ditadura; e isso é mais sutilmente e menos organizadamente do que se supõe; eis pra mim o grande mérito da série biográfica); regatou-se antigos autores (como sempre, de vulgares reputações, mas fazer o quê, se o vínculo sentimental é maior que tudo?); leu-se ao léu como convém à justificativa da alcunha.

Assim a título de avaliação mínima desse balaio de escritos, pode-se dizer que Leonardo Padura e Amos Oz foram boas descobertas, que uma releitura de J. D Salinger veio bem a calhar nesses tempos de desinteligência obtusa, que Oliver Sacks merece continuar sendo explorado em sua feliz mistura de ciência, letras e senso de humanidade, que Morris West será sempre uma lembrança recorrente, que Fritjof Capra precisava ter sido lido há mais tempo (mas combinou bem com minha crise de hérnia de disco), que Fernando Morais continua fera (e me deu assunto pros papos com meus amigos cubanos do Mais Médicos de Acari-RN), que é uma emoção a cada página ler Muirakitan Macedo contando pra cada seridoense a nossa própria história e finalmente que José de Alencar é mesmo aquele potentado, com já alertava há mais de vinte anos o saudoso Ariano Suassuna. Direto à lista, sem mais quês e tais:


.  GETÚLIO 3 - Lira Neto
  • GETÚLIO 2 - Lira Neto
  • GETÚLIO 1 - Lira Neto
  • FRANNY E ZOOEY - J.D. Salinger
  • A ILHA DOS DALTÔNICOS - Oliver Sacks
  • OS ÚLTIMOS SOLDADOS DA GUERRA FRIA - Fernando Morais
  • PROTEU - Morris West
  • RÚSTICOS CABEDAIS - Muirakytan K. de Macêdo
  • DA MINHA TERRA À TERRA - Sebastião Salgado
  • ERA NO TEMPO DO REI - Ruy Castro
  • O PREÇO - Arthur Miller
  • O PONTO DE MUTAÇÃO - Fritjof Capra
  • PAVÕES MISTERIOSOS - André Barcinski
  • CIDADES DE PAPEL - John Green
  • AS MINAS DE PRATA - José de Alencar
  • CARNAVAL NO FOGO - Ruy Castro
  • PILATOS - Carlos Heitor Cony
  • ON THE ROAD - Jack Kerouac
  • O VIAJANTE DO TEMPO - Ray Bradbury
  • 24 CONTOS - F. Scott Fitzgerald (trad.: Ruy Castro)
  • CINCO MAIS CINCO (OS MAIORES FILMES BRASILEIROS EM BILHETERIA E CRÍTICA) - Carlos Diegues, Luiz Carlos Merten e Rodrigo Fonseca
  • UMA CERTA PAZ - Amós Oz
  • O HOMEM QUE AMAVA OS CACHORROS - Leonardo Padura

  • segunda-feira, 24 de agosto de 2015

    Uma frasqueira entre muitas botas




    Dois festivais de teatro em Brasília trouxeram para o potiguar que vive aqui duas oportunidade de ver dois dos espetáculos mais comentados feitos na cidade de Poti em tempos recentes. Primeiro foi "Guerra, formiga e palhaços"; depois, "Jacy". Duas imersões na nossa fala, duas contemplações nos nossos rostos, dois prazeres espelhados com um intervalo de tão poucos dias que é como se estivéssemos nos tempos de "Papai pirou nas ondas do rádio" ou de "Quem beliscou Paulinho?", nas poltronas do TAM (Teatro Alberto Maranhão para os não-iniciados ou esquecidos). Mas foi aqui, Brasília, Teatro Goldoni e Teatro do Sesc, meados de 2015, um ano difícil. 

    Fácil é acionar os botões da memória e da empatia. Sobretudo pela qualidade do que vimos. Muito já foi dito, aqui e alhures, sobre os dois espetáculos: da feliz incursão de César Ferrario no texto - que o povo do teatro diria "na dramaturgia" - ou do retorno ao palco de Quitéria Kelly. Para os não-locais, preciso dizer que César é ator, do grupo Clowns de Shakespeare, cujos integrantes, depois de praticamente construírem uma plateia própria com uma série de espetáculos primorosos, parecem estar buscando novos caminhos. E que Quitéria é um bom-bom de chocolate amargo em forma de pessoa, mulher e atriz - uma outra referência do nosso teatro. Mas que referência!

    "Guerra, Formiga e Palhaços" é uma alegoria feita a partir de um tema até batido, que é o absurdo da guerra. Daí para atingir o patético do ser humano é um tiro. Sobretudo quando se coloca um palhaço no campo de batalha: está armado o acampamento que agiganta cada uma das nossas minúsculas fraquezas. "Jacy" é um bric-a-brac que convida o público a montar junto com os atores o espetáculo - sem recorrer a certa empulhação do teatro interativo; o papo é outro. Reconstitui-se, camada por camada, a vida de uma mulher potiguar com esmero, deleite e perícia cênica a partir de um texto a princípio meio testemunhal, semidocumental que, pressente-se e o espetáculo felizmente confirma com celebração, vai desaguar na mais plena ficção.

    Há um elemento em comum entre os dois espetáculos, embora de temática tão diversa - quase opostas. Não são os atores, nem o texto, nem o ritmo - embora esse elemento interfira e enriqueça todos esses outros. O que há em comum entre "Guerra, formiga e palhaços" e "Jacy" é um elemento de cena - extremamente presente no primeiro e apenas referencial no segundo. 

    Em "Guerra" são as botas cobrem o chão do palco e caem como bombas sobre os atores, espalhando uma infinidade de sentidos conforme se assiste ao espetáculo, servindo aos atores como verdadeiras formas móveis, tristes Lego que eles usam para fazer a peça se deslocar para lá e para cá. As botas, em "Guerra..." só faltam falar - garanto que você jamais viu um elemento de cena tão marcante no palco de um teatro (especialmente se tratando de palco de arena; num palco italiano talvez o efeito não seja tão intenso). 

    As botas são ali o chão irregular em que se movimentam os personagens, o piso hostil que sustenta a guerra, o relevo nada confortável em que se finca nossa débil humanidade, o testemunho mudo das caminhadas do soldado sem rumo, a memória que se gruda como lama nas solas furadas de quem não tem mais para onde ir. Trata-se de um elemento de cena que, presente o tempo inteiro, caindo do céu ou revirando-se em terra, envolve tudo. A moldura sem a qual o espetáculo não seria o mesmo. E estamos falando de um texto que já conta com as formigas, outra forte metáfora de nossa condição em momentos de perplexidade total.




    Em "Jacy", o elemento de cena definitivo e definidor é uma frasqueira - uma pequena valise daquelas que as mulheres usavam nos anos dourados, caixa luxuosa de perfumes, espelhos e pó compacto. Sua mãe, sua avó ou sua tia há de ter tido uma. Mas o processo é outro: se as botas abraçam tudo em "Guerra", aqui a frasqueira é ponto de partida, elemento provocador do espetáculo inteiro. É a partir dela - encontrada num amontoado de lixo nas ruas de Natal, conforme contam os atores no espetáculo e fora dele - que se dá uma investigação minuciosa, nostálgica, irônica, política (sim!), sensível mas também em certos momentos quase festiva sobre sua proprietária - a Jaci do título. 

    O grupo Carmin de teatro montou um inventivo quebra-cabeças teatral a partir desse argumento. De dentro dessa frasqueira simbólica e arquetípica vai saindo não apenas a história de uma mulher potiguar - como tantas que você conhece, e invoco novamente, com todo respeito, sua mãe, sua avó ou sua tia - mas também a alma de uma cidade inteira, Natal. 

    A história de Natal, seus encantos e suas mancadas, cabe na frasqueira de Jacy, minha gente. De dentro desse antigo apetrecho feminino sai a Natal da II Guerra, uma extremamente bem montada reconstrução de nossa triste ancestralidade política, um pequeno e doloroso conto sobre a solidão da velhice e, acredite, até o vento do nosso litoral. Vide a cena final, quando ele mesmo, esse vento reproduzido com a ajuda de quatro ventiladores, espalha pelo teatro as folhas soltas desse quebra-cabeças que nós, plateia abençoada pela dádiva inesperada, remontamos guiados pela graça de Quitéria e pelas ironias de Henrique Fontes.

    É enciclopédico o prédio dramatúrgico que "Jacy" ergue sobre o palco, numa montagem cheia de excelentes ideias. E são tantas - os cartazes com slogans embaralhados; o jogo entre o Jacy homem e a Jacy mulher; as referências mil que embora digam respeito a Natal não tiram do texto o alcance geral - que, mal você teve tempo de deglutir uma e já lá vem outra. Eis um espetáculo para ser visto várias e várias vezes. Ao final, cada integrante do público leva para casa, para o bar ou para o restaurante pós-espetáculo sua Jacy particular, uma personagem - para usar uma palavra da moda - "customizada" conforme o potencial imaginativo - e sobretudo sentimental - de cada pessoa que assiste ao espetáculo. 

    Eu saí com a lembrança da minha mãe e da frasqueira que ela de fato tinha - e tudo o que elas são capazes de evocar. Saí com a saudade de uma cidade que adora se menosprezar mas para a qual todos, mais cedo ou mais tarde, voltam. Saí com uma explicação para esse retorno, que é cobrada em cena de maneira que nunca imaginei ser possível num espetáculo de teatro: - "Porque Natal, para além de tudo, é uma cidade doce"; essa seria a minha explicação, Quitéria e Henrique, Pabro Capistrano e Iracema Macedo (esses últimos, os autores que conseguem dar harmonia a essa bagunça toda que somos nós).

    E saí também com uma desconfiança: é crível que a frasqueira tenha sido encontrada no lixo, dando um pretexto documental para a peça; mas é mais crível ainda que tudo, absolutamente tudo, tenha sido inventado. Nessa hipótese, não haveria prejuízo algum: pelo contrário; ao ser capaz de revestir essa história com tamanha impressão de realidade, criando uma ficção pura a partir de um recheio ora falso ora decorrente de informações históricas verdadeiras, o espetáculo se torna ainda mais encantador ao revelar quem foi essa Jacy e dar pistas sobre quem somos, de fato, nós - seus conterrâneos da capital e do interior.


    Jacy pode até não ter existido, mas está por todo canto. Como as botas que brotam do chão da guerra.

    sábado, 16 de maio de 2015

    Memórias do alvorecer






    Quando a nostalgia se torna muito mais que um vício e um posfácio vale tanto quanto toda a tradução de um clássico beat


    Há frases que esmagam com carinho o coração do Leitor Bagunçado. Há trechos de textos que massageiam com dedos divinos as cordas de sua emoção. É o que ocorre, e acaba de ocorrer, quando ele depara com as rápidas memórias de Eduardo Bueno - o Peninha daquela série sobre a história do Brasil infelizmente interrompida - ao final do relançamento, pela L§PM, do On the road de Jack Kerouac. 


    Relembro que a edição resulta da tradução feita por Bueno e lançada originalmente em 1984, quando pela primeira vez o clássico beat foi vertido pra o português brasileiro (o máximo que havia antes era uma edição lusitana de título risonho - Pela estrada afora - como conta o próprio Peninha). 

    E chego ao ponto acrescentando que, além da tradução, o relançamento, já nem tão relançamento assim (que o Leitor Bagunçado segue fiel ao seu atraso regulamentar) traz prefácio e posfácio escrito pelo mesmíssimo Eduardo Bueno. Aí é que estão as tais cordas da tal emoção dedilhada de que se falou lá no início deste tortuoso texto: Bueno, a propósito de falar sobre as circunstâncias de sua tradução, traz de volta registros de um tempo que tanta falta faz aos tempos atuais. 

    Não é nem nostalgia, embora esse seja um dos meus mais deploráveis vícios: é cotejamento puro e simples de uma época com outra, dado o volume que tomou a carga conjunta de maldade, ignorância e arrogância que pisa sobre os nosso dias, como se vivêssemos qual formigas sob as botas de um ogro de manifestação reaça. Mas nunca chego ao ponto principal: ei-lo, a seguir, nas palavras contidas no dito posfácio, embora com ligeira edição para o melhor entendimento do que é dito aqui com infeliz inexatidão.

    "E tudo parecia maravilhoso (Bueno se refere ao lançamento de On the road, às séries da editora Brasiliense, como Cantadas Literárias e Circo de Letras, ao surto de edições no Brasil dos papas da literatura beat chegando a Bukoswki e John Fante). Era a época da abertura, das Diretas Já, do rock paulista, da geração saúde, do Circo Voador, do Carbono 14, do primeiro Rock in Rio, do Pra começo de conversa e de outros babados mais. Era o alvorecer dos anos 80, e havia muitas promessas no ar, com aquela gente voltando para a caserna de onde não deveria ter saído."





    Outro trecho, complementar:

    "Como eram bons os tempos do Plano Cruzado - aquele que mostrou que os brasileiros gostam de ler, sim; que só não compram livros quando custam meio salário mínimo, ou seja, quase sempre - e como ninguém que entenda alguma coisa de literatura dá bola para o que os críticos dizem, os beats continuaram sendo publicados e vendendo muito bem, obrigado. Mas aí acabou o Cruzado, Caio Graco (dono da editora Brasiliense) morreu, eu saí da L§PM, Lima e Ivan(L e PM, respectivamente) continuaram sua carreira editorial com outros títulos e outras trilhas, e a tardia onda beat no Brasil esmoreceu, como tudo um dia esmorece."

    Depois disso, só desejando, neste outro tempo deste outro Brasil, tão absurdamente diverso daquele: "esmorece, mediocridade; e rápido, antes que tudo esteja perdido."