segunda-feira, 13 de junho de 2016
domingo, 22 de maio de 2016
Um Brasil meio seriado do Netflix
Enfim vamos matar a saudade de Peninha, nosso historiador mais rock and roll
De tempos em tempos, a ansiedade do desapego me pega e –
menos por moda do que por falta de espaço – sou forçado a me desfazer de pilhas
de livros. Melhor pros sebos e, ao menos da última vez em que isso se deu, pras
duas garotas com cara de estudante sem dinheiro que estavam na porta do
Sebinho, na Asa Norte, e dividiram entre si todo o refugo que nem o
estabelecimento de livros usados queria mais. Não porque fossem livros ruins
(sim, eles existem), mas por serem, digamos, manjados demais – e comercialmente
sem valor. O fato é que, nos desbastes periódicos de livros aqui de casa, tem
uma série de três que sempre se recusa a ir embora. Por mais que eu tente – e,
no caso dessa trilogia, admito que nem isso faço mais. Os intocáveis me olham
do alto da estante cientes de que não correm risco algum.
É a série Terra Brasilis, de Peninha – não o cantor, mas
o jornalista e escritor Eduardo Bueno, um gaúcho com cara de carioca espevitado
que está sempre tramando alguma coisa. Trama tanto que, às vezes – e é o caso
aqui – deixa um desses trampos pelo meio do caminho, assim sem mais nem menos.
Pois foi exatamente o que ele fez com a Terra Brasilis: lançou de um jato só os
três primeiros volumes, que quem leu e gostou leu e gostou praticamente no
mesmo ritmo em que Peninha os escreveu, e... pausa, intervalo, trégua... Como
assim?
Depois de ler e nunca mais esquecer “A Viagem do
Descobrimento”, “Náufragos, Traficantes e Degredados” e “Capitães do Brasil” –
sobretudo o “Náufragos...” – o leitor da série de Peninha se viu obrigado a uma
crise de abstinência mais cruel do que aquela que se abateu sobre um hipotético
hippie que o escritor também foi depois de supostamente ter sido expulso de
Woodstock ao final do primeiro show, sem direito de viver todo o resto. Como
diria John Lennn, imagine.
Faça como eu: aguarde o novo livro da série, que por
sinal foi rebatizada apenas como “Brasilis”. E se a síndrome de abstinência
voltar – você querendo ler de novo coisas como a explicação para D. João III ter
demorado tanto a mandar um colonizador digno do nome ao Brasil, que seria
Martim Afonso; sendo que, como em tudo em história, havia um objetivo não
revelado por trás – o jeito é reler os três
primeiros. E o quarto, pra quem tem. De um jeito ou de outro, essa série
é coisa digna de seriado do Netflix. Daqueles que lhe deixam a ponto de
destruir a casa inteira se o sinal do wi-fi der uma oscilada bem no final do
episódio.
terça-feira, 3 de maio de 2016
A luneta de Alceu
Inquieto como um frevo de rua, o filme mistura cangaço e circo numa maratona de alegorias
O filme de Alceu Valença é um rock-xaxado de imagens inquietas, colhidas por uma câmera que dança o tempo todo, construindo um
cinema movimentado como o músico, cantor e compositor que se arrisca em outra linguagem.
Nada fica quieto muito tempo no filme que aposta em gênero consagrado o
bastante no cinema brasileiro para não trazer riscos ao realizador: o cangaço.
Claro que nesta “Luneta do Tempo” temos o cangaço alegórico, como se o filme
todo fosse uma ópera popular movida a um programa musical aplicado sobre os
signos mais caros dos sertões nordestinos.
Alceu mixa o mito do cangaço com o mundo dos circos
mambembes mais pobres, extraindo disso um suco cultural que fala muito próximo
a quem guarda os marcos daquilo que se convencionou chamar de Brasil profundo.
E não faz feio quando se trata dos recursos técnicos que o cinema precisa saber
usar. Vide as cenas de tiroteio, que podem levar o espectador à lembrança de
faroeste americano de soberania técnica, deixando na poeira das caatingas os
truques manjados do cinema novo mais decadente (não do inaugural, onde a
precariedade técnica era, por si só, uma nova linguagem reconstruída).
Alegórico, colorido, festivo, dionisíaco, algumas
vezes violento como a realidade que afinal também evoca, em muitas outras também
lírico como se espera de um Alceu Valença, “A Luneta do Tempo” tem ainda o
carisma instantâneo, imediato, direto e envolvente de nossa (para os potiguares)
Khrystal, que, cantora magnífica que conhecemos, no filma mal precisa abrir a
boca para expressar o que vai dentro de uma cangaceira ferida não no corpo mas
no amor-próprio do sentimento ultrajado. Belo desempenho mudo de uma das nossas
mais potentes vozes. Verás que mesmo sem lançar mão do seu instrumento vocal
Khrystal preenche a tela inteira – e olhe que vi na tela generosa do Cine
Brasília – com sua máscara de mulher tão magoada quanto decidida – e veja que
ela está rodeada por ninguém menos do que Irandhir Santos e Hermila Guedes.
Breve, exato, em grande parte convencional, sim, o
filme de Alceu soa como um cordel redondinho, uma canção como essas que contam
uma história emocionante, um drama de circo feito com os recursos de uma arte
tecnicamente mais elaborada. Vai tocar você como boa música – mas é cinema, sim,
senhor.
sábado, 20 de fevereiro de 2016
Nosso amigo Umberto
Vai-se o escritor inacessível com quem tínhamos a maior intimidade
Encontrei Umberto Eco pela primeira vez num aeroporto. O de Recife, certamente em 1985, quando espiava títulos numa livraria com o amigo Ítalo Dantas. O Nome da Rosa já era aquilo tudo - campeão de vendas, número um na lista então muito respeitada daquela revista idem. Sempre tive uma queda por primeiros parágrafos. Se me conquistar ali, já foi. Capitulei em festa ante as primeiras palavras da narrativa do noviço Adso, variação e citação do célebre "meu caro Watson", já idoso, ao apresentar de maneira irresistível a aventura medieval de seu mestre Guilherme de Baskerville.
Eu já sabia quem era aquele Umberto, claro. Como todo estudante de Comunicação, ouvira falar dele vagamente, nas aulas do não menos saudoso Rogério Cadengue, por causa de Apocalípticos e Integrados - que nunca li, como tantos outros; mas cuja metáfora qualificativa será para sempre um ponto de referência toda vez que surge um novo meio, um facebook, um twitter e quem sabe mais o que virá por aí.
Leituras de estudante: ao lado, a edição que eu viria a comprar e ler, mais barata, vendida nas bancas, depois do sucesso do lançamento original.
Umberto, como muito bem estabeleceu a colega Sandra Crespo num post no facebook (leia aqui), será sempre para essa nossa geração aquele farol iluminando caminhos lá do alto, com o perdão de tão gasta imagem (mas é isso mesmo, paciência). Como um amigo - um mestre, tanto quanto Baskerville foi para Adso - que vez em quando, nos momentos precisos, reaparece com uma novidade para nos orientar nos movimentos intelectuais que a vida exige, sugere, propõe. É o tipo da pessoa inacessível com quem temos a maior intimidade.
É como Ítalo Calvino para Gustavo de Castro, como Drummond pra Rejane, como Paulo Freire para Guia Bezerra, como Hilda Hilst para Jeanne Araújo, como Ariano Suassuna para Renato Ferraz e por aí vai. Essa citação festiva de tantos amigos é pra isso mesmo: pra que fique clara a sugestão de como Umberto Eco estava próximo, mesmo sendo um celebridade (a merecer o nome) tão remota.
Vieram O Pêndulo de Focaut, que tive o prazer de ler duas vezes - a primeira durante um período de crise brava (essa de que tanto falam hoje é fichinha) no início dos anos 90 quando trabalhava na agência de Ricardo Rosado e Solino, em Natal (faltava dinheiro para anúncios e anunciantes, a sede da agência estava sendo construída e enquanto isso a gente se esbaldava na biblioteca particular de Ricardo, na casa do próprio em Capim Macio, em Natal). A Ilha do Dia Anterior já foi justo na transição para Brasília: horas de recolhimento em meio à mudança de cidade num dos quartos do apartamento de Adriano e Flávia na 216 Norte. Era maio, na alta noite a temperatura descia para 15 graus e a leitura de Umberto Eco me aquecia.
Nas jornadas mais acadêmicas, já havia passado em Natal pelas ideias de Sobre o Espelho e Outros Ensaios e Viagem na Irrealidade Cotidiana (da biblioteca sempre aberta de Carlão de Souza) - inspeções semiológicas em que ele demole parques e simulacros do mundo do entretenimento tipicamente americano, como o shopping center - inexistente em Natal naquele momento. Serviu-me de empurrão, de referência sociológica, para muito texto nos jornais locais. Inclusive para o Natal Shopping logo que ele foi inaugurado. Acho até que exagerei, mas esse arrebatamento era próprio do momento e da idade.
Em Brasília vieram outros (Segundo Diário Mínimo; Como Fazer uma Tese; Seis Passeios pelos Bosques da Ficção), mas Umberto Eco me deixou dois livros em casa ainda não lidos - Baldolino e A Misteriosa Chama da Rainha Loana - além de outros que ainda nem peguei na livraria, como O Cemitério de Praga e esse interessante O Número Zero, espelho do jornalismo embaçado que temos hoje em dia.
De maneira que o escrito vai continuar vivinho aqui, à distância curta que separa um braço de uma estante de livros. Vivo também no rosto do amigo Ítalo, que gosto de dizer brincando que a idade transformou num sósia do semiólogo italiano. Vivo na memória que cada livro evoca, assim como nas associações que existem entre esses livros, essas memórias e os meus próprios amigos.
Amigos a gente encontra, ao mesmo tempo em que grandes escritores a gente lê. Esse é o legado pessoal que Umberto Eco deixa pra mim. Examine aí o que ele deixou pra você: não tem homenagem melhor para um escritor que se vai ao mesmo tempo em que se deixa ficar, com firmeza e saudade, nessa matéria passageira por excelência que é a nossa imaginação individual e coletiva. Obrigado, Umberto Eco.
sexta-feira, 29 de janeiro de 2016
O listão do Leitor Bagunçado
De Muirakitan a Fritjof Capra, de Padura a Oliver Sacks, foram muitas e diversas as vozes que me distraíram da crise em 2015
Nem os agraciados do Enem, tampouco os aprovados para o Oscar. Antes que janeiro feche as portas, é preciso que o Leitor Bagunçado aqui - o apelido auto-aplicado, para os recém-chegados no blog, decorre de autopiadas feitas no Twitter em priscas eras - precisa fazer cumprir uma outra tradição em forma de lista: publicar a relação dos livros que leu no ano anterior; aquela mesma que pode ser consultada a qualquer hora enquanto o tempo escorre na ampulheta lá na template da Hamaca, o blog irmão (neste 2016 já temos dois registros).
Pois bem, em 2015 não houve crise na economia decodificativa do Leitor Bagunçado. Manteve-se o caos (com exceção da trilogia de Lira Neto, notável sobretudo no volume 2, pra se entender como se engendra uma ditadura; e isso é mais sutilmente e menos organizadamente do que se supõe; eis pra mim o grande mérito da série biográfica); regatou-se antigos autores (como sempre, de vulgares reputações, mas fazer o quê, se o vínculo sentimental é maior que tudo?); leu-se ao léu como convém à justificativa da alcunha.
Assim a título de avaliação mínima desse balaio de escritos, pode-se dizer que Leonardo Padura e Amos Oz foram boas descobertas, que uma releitura de J. D Salinger veio bem a calhar nesses tempos de desinteligência obtusa, que Oliver Sacks merece continuar sendo explorado em sua feliz mistura de ciência, letras e senso de humanidade, que Morris West será sempre uma lembrança recorrente, que Fritjof Capra precisava ter sido lido há mais tempo (mas combinou bem com minha crise de hérnia de disco), que Fernando Morais continua fera (e me deu assunto pros papos com meus amigos cubanos do Mais Médicos de Acari-RN), que é uma emoção a cada página ler Muirakitan Macedo contando pra cada seridoense a nossa própria história e finalmente que José de Alencar é mesmo aquele potentado, com já alertava há mais de vinte anos o saudoso Ariano Suassuna. Direto à lista, sem mais quês e tais:
. GETÚLIO 3 - Lira Neto
segunda-feira, 24 de agosto de 2015
Uma frasqueira entre muitas botas
Dois festivais de teatro em Brasília trouxeram para o potiguar que vive aqui duas oportunidade de ver dois dos espetáculos mais comentados feitos na cidade de Poti em tempos recentes. Primeiro foi "Guerra, formiga e palhaços"; depois, "Jacy". Duas imersões na nossa fala, duas contemplações nos nossos rostos, dois prazeres espelhados com um intervalo de tão poucos dias que é como se estivéssemos nos tempos de "Papai pirou nas ondas do rádio" ou de "Quem beliscou Paulinho?", nas poltronas do TAM (Teatro Alberto Maranhão para os não-iniciados ou esquecidos). Mas foi aqui, Brasília, Teatro Goldoni e Teatro do Sesc, meados de 2015, um ano difícil.
Fácil é acionar os botões da memória e da empatia. Sobretudo pela qualidade do que vimos. Muito já foi dito, aqui e alhures, sobre os dois espetáculos: da feliz incursão de César Ferrario no texto - que o povo do teatro diria "na dramaturgia" - ou do retorno ao palco de Quitéria Kelly. Para os não-locais, preciso dizer que César é ator, do grupo Clowns de Shakespeare, cujos integrantes, depois de praticamente construírem uma plateia própria com uma série de espetáculos primorosos, parecem estar buscando novos caminhos. E que Quitéria é um bom-bom de chocolate amargo em forma de pessoa, mulher e atriz - uma outra referência do nosso teatro. Mas que referência!
"Guerra, Formiga e Palhaços" é uma alegoria feita a partir de um tema até batido, que é o absurdo da guerra. Daí para atingir o patético do ser humano é um tiro. Sobretudo quando se coloca um palhaço no campo de batalha: está armado o acampamento que agiganta cada uma das nossas minúsculas fraquezas. "Jacy" é um bric-a-brac que convida o público a montar junto com os atores o espetáculo - sem recorrer a certa empulhação do teatro interativo; o papo é outro. Reconstitui-se, camada por camada, a vida de uma mulher potiguar com esmero, deleite e perícia cênica a partir de um texto a princípio meio testemunhal, semidocumental que, pressente-se e o espetáculo felizmente confirma com celebração, vai desaguar na mais plena ficção.
Há um elemento em comum entre os dois espetáculos, embora de temática tão diversa - quase opostas. Não são os atores, nem o texto, nem o ritmo - embora esse elemento interfira e enriqueça todos esses outros. O que há em comum entre "Guerra, formiga e palhaços" e "Jacy" é um elemento de cena - extremamente presente no primeiro e apenas referencial no segundo.
Em "Guerra" são as botas cobrem o chão do palco e caem como bombas sobre os atores, espalhando uma infinidade de sentidos conforme se assiste ao espetáculo, servindo aos atores como verdadeiras formas móveis, tristes Lego que eles usam para fazer a peça se deslocar para lá e para cá. As botas, em "Guerra..." só faltam falar - garanto que você jamais viu um elemento de cena tão marcante no palco de um teatro (especialmente se tratando de palco de arena; num palco italiano talvez o efeito não seja tão intenso).
As botas são ali o chão irregular em que se movimentam os personagens, o piso hostil que sustenta a guerra, o relevo nada confortável em que se finca nossa débil humanidade, o testemunho mudo das caminhadas do soldado sem rumo, a memória que se gruda como lama nas solas furadas de quem não tem mais para onde ir. Trata-se de um elemento de cena que, presente o tempo inteiro, caindo do céu ou revirando-se em terra, envolve tudo. A moldura sem a qual o espetáculo não seria o mesmo. E estamos falando de um texto que já conta com as formigas, outra forte metáfora de nossa condição em momentos de perplexidade total.
Em "Jacy", o elemento de cena definitivo e definidor é uma frasqueira - uma pequena valise daquelas que as mulheres usavam nos anos dourados, caixa luxuosa de perfumes, espelhos e pó compacto. Sua mãe, sua avó ou sua tia há de ter tido uma. Mas o processo é outro: se as botas abraçam tudo em "Guerra", aqui a frasqueira é ponto de partida, elemento provocador do espetáculo inteiro. É a partir dela - encontrada num amontoado de lixo nas ruas de Natal, conforme contam os atores no espetáculo e fora dele - que se dá uma investigação minuciosa, nostálgica, irônica, política (sim!), sensível mas também em certos momentos quase festiva sobre sua proprietária - a Jaci do título.
O grupo Carmin de teatro montou um inventivo quebra-cabeças teatral a partir desse argumento. De dentro dessa frasqueira simbólica e arquetípica vai saindo não apenas a história de uma mulher potiguar - como tantas que você conhece, e invoco novamente, com todo respeito, sua mãe, sua avó ou sua tia - mas também a alma de uma cidade inteira, Natal.
A história de Natal, seus encantos e suas mancadas, cabe na frasqueira de Jacy, minha gente. De dentro desse antigo apetrecho feminino sai a Natal da II Guerra, uma extremamente bem montada reconstrução de nossa triste ancestralidade política, um pequeno e doloroso conto sobre a solidão da velhice e, acredite, até o vento do nosso litoral. Vide a cena final, quando ele mesmo, esse vento reproduzido com a ajuda de quatro ventiladores, espalha pelo teatro as folhas soltas desse quebra-cabeças que nós, plateia abençoada pela dádiva inesperada, remontamos guiados pela graça de Quitéria e pelas ironias de Henrique Fontes.
É enciclopédico o prédio dramatúrgico que "Jacy" ergue sobre o palco, numa montagem cheia de excelentes ideias. E são tantas - os cartazes com slogans embaralhados; o jogo entre o Jacy homem e a Jacy mulher; as referências mil que embora digam respeito a Natal não tiram do texto o alcance geral - que, mal você teve tempo de deglutir uma e já lá vem outra. Eis um espetáculo para ser visto várias e várias vezes. Ao final, cada integrante do público leva para casa, para o bar ou para o restaurante pós-espetáculo sua Jacy particular, uma personagem - para usar uma palavra da moda - "customizada" conforme o potencial imaginativo - e sobretudo sentimental - de cada pessoa que assiste ao espetáculo.
Eu saí com a lembrança da minha mãe e da frasqueira que ela de fato tinha - e tudo o que elas são capazes de evocar. Saí com a saudade de uma cidade que adora se menosprezar mas para a qual todos, mais cedo ou mais tarde, voltam. Saí com uma explicação para esse retorno, que é cobrada em cena de maneira que nunca imaginei ser possível num espetáculo de teatro: - "Porque Natal, para além de tudo, é uma cidade doce"; essa seria a minha explicação, Quitéria e Henrique, Pabro Capistrano e Iracema Macedo (esses últimos, os autores que conseguem dar harmonia a essa bagunça toda que somos nós).
E saí também com uma desconfiança: é crível que a frasqueira tenha sido encontrada no lixo, dando um pretexto documental para a peça; mas é mais crível ainda que tudo, absolutamente tudo, tenha sido inventado. Nessa hipótese, não haveria prejuízo algum: pelo contrário; ao ser capaz de revestir essa história com tamanha impressão de realidade, criando uma ficção pura a partir de um recheio ora falso ora decorrente de informações históricas verdadeiras, o espetáculo se torna ainda mais encantador ao revelar quem foi essa Jacy e dar pistas sobre quem somos, de fato, nós - seus conterrâneos da capital e do interior.
Jacy pode até não ter existido, mas está por todo canto. Como as botas que brotam do chão da guerra.
sábado, 16 de maio de 2015
Memórias do alvorecer
Quando a nostalgia se torna muito mais que um vício e um posfácio vale tanto quanto toda a tradução de um clássico beat
Relembro que a edição resulta da tradução feita por Bueno e lançada originalmente em 1984, quando pela primeira vez o clássico beat foi vertido pra o português brasileiro (o máximo que havia antes era uma edição lusitana de título risonho - Pela estrada afora - como conta o próprio Peninha).
E chego ao ponto acrescentando que, além da tradução, o relançamento, já nem tão relançamento assim (que o Leitor Bagunçado segue fiel ao seu atraso regulamentar) traz prefácio e posfácio escrito pelo mesmíssimo Eduardo Bueno. Aí é que estão as tais cordas da tal emoção dedilhada de que se falou lá no início deste tortuoso texto: Bueno, a propósito de falar sobre as circunstâncias de sua tradução, traz de volta registros de um tempo que tanta falta faz aos tempos atuais.
Não é nem nostalgia, embora esse seja um dos meus mais deploráveis vícios: é cotejamento puro e simples de uma época com outra, dado o volume que tomou a carga conjunta de maldade, ignorância e arrogância que pisa sobre os nosso dias, como se vivêssemos qual formigas sob as botas de um ogro de manifestação reaça. Mas nunca chego ao ponto principal: ei-lo, a seguir, nas palavras contidas no dito posfácio, embora com ligeira edição para o melhor entendimento do que é dito aqui com infeliz inexatidão.
"E tudo parecia maravilhoso (Bueno se refere ao lançamento de On the road, às séries da editora Brasiliense, como Cantadas Literárias e Circo de Letras, ao surto de edições no Brasil dos papas da literatura beat chegando a Bukoswki e John Fante). Era a época da abertura, das Diretas Já, do rock paulista, da geração saúde, do Circo Voador, do Carbono 14, do primeiro Rock in Rio, do Pra começo de conversa e de outros babados mais. Era o alvorecer dos anos 80, e havia muitas promessas no ar, com aquela gente voltando para a caserna de onde não deveria ter saído."
Outro trecho, complementar:
"Como eram bons os tempos do Plano Cruzado - aquele que mostrou que os brasileiros gostam de ler, sim; que só não compram livros quando custam meio salário mínimo, ou seja, quase sempre - e como ninguém que entenda alguma coisa de literatura dá bola para o que os críticos dizem, os beats continuaram sendo publicados e vendendo muito bem, obrigado. Mas aí acabou o Cruzado, Caio Graco (dono da editora Brasiliense) morreu, eu saí da L§PM, Lima e Ivan(L e PM, respectivamente) continuaram sua carreira editorial com outros títulos e outras trilhas, e a tardia onda beat no Brasil esmoreceu, como tudo um dia esmorece."
Depois disso, só desejando, neste outro tempo deste outro Brasil, tão absurdamente diverso daquele: "esmorece, mediocridade; e rápido, antes que tudo esteja perdido."
sexta-feira, 17 de abril de 2015
O Sal, a Terra e o drama
Muito mais do que um documentário convencional, "O Sal da Terra" divide com o público o encanto e o desespero por trás das fotografias de Sebastião Salgado
Quem for ao cinema para ver "O Sal da Terra" esperando uma mera cinebiografia do fotógrafo Sebastião Salgado vai tomar um susto. Um susto cinematográfico, caso os olhos estejam kubriquianamente bem abertos e a sensibilidade em ponto máximo. Ao contrário de "Revelando Sebastião Salgado", esta sim uma cinebiografia convencional no nível médio dos canais de tevê por assinatura (por acaso em exibição no Canal Brasil; e disponível na íntegra no YT - veja aqui), o filme de Wim Wenders (em parceria com o filho do fotógrafo; mas a mão do alemão por trás de tudo é dominante e evidente demais para que se dê crédito equilibrado à parceria) é o estudo de um artista sobre outro artista. Um encontro de sensibilidades sociais e estéticas, como raramente se pode testemunhar, uma vez que se sabe: talentos superiores geralmente tendem a rejeitar seus semelhantes, antes investindo na competição do que na cooperação.
Mas estamos falando do mundo de Sebastião Salgado, onde a foto-celebridade do atentado a Ronald Reagan é apenas um ponto na trajetória - um êxtase da fama que o fotógrafo tem a grandeza de não hipervalorizar. Talvez por isso o episódio - menor na trajetória do mineiro que se notabilizou ao descobrir a fotografia enquanto trabalhava como uma espécie de economista social na Europa - esteja ausente do filme de Wenders, causando estranhamento em que esperava um trabalho linear, jornalístico - e com tudo o que o critério jornalístico tantas vezes tem de redutor e empobrecedor.
Portanto não espere de "O Sal da Terra" um trabalho tecnicamente considerado "documentário", porque vai muito além disso. Há ali uma dramaturgia em que a trajetória de Salgado é apenas espelho para o confronto entre um homem e o mundo atual. Poderia ser a descrição de como um antropolólogo se viu perdido e inseguro após estudar com profundidade as formas de vida das várias humanidades espalhadas por sobre o planeta. Poderia ser o mesmo fenômeno tendo como protagonista um economista, um cineasta, um artista plástico (algo que, só pra comparar, ocorreu também com rara felicidade em "Lixo Extraordinário"que o artista plástico Vik Muniz fez a partir dos catadores do Jardim Gramacho). O resultado dessa excursão aos limites da vida humana e do mergulho que um fotógrafo faz neles tem a dramaticidade conjunta de um "...E o vento levou" mais "Luzes da cidade" mais "Era uma vez na América" mais "O sol que nos protege" mais "Pixote" e muito outros títulos. Assistir a "O Sal da Terra" é como ver todos esses títulos juntos, porque a cordilheira de emoções que o filme lhe convida a percorrer é dessa enverdura pra cima. Reforçando: algo difícil de se esperar e de se ver num documentário - daí porque se trata de muito mais que isso.
Dos dramas dos deserdados africanos à miséria do interior nordestino no início da década de 80, passando pelo esplendor de ambições enlameadas que foi Serra Pelada e culminando com a crise do artista depois de documentar tantas imperfeições humanas, tudo em "O Sal da Terra" exige entrega, sensibilidade, espírito desarmado e aquela espécie de subjetividade que o pobre jornalismo - essa academia mal construída de generalidades apresssadas - não tem condições de conter, quanto mais de compreender. Não se trata mais de um filme, mas de um daqueles eventos que só ocorrem de tempos em tempos. É é pra ser visto, na sua calma contemplativa e no seu impacto de empatias, em tela grande, no cinema propriamente dito.
sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015
"O rio chegando com água"
Uma notícia que nada completamente contra corrente do noticiário atual pra encerrar bem a semana: o que o video mostra - as águas decorrentes da volta das chuvas no sertão paraibano tornando a preencher o leito seco do rio Taperoá, na cidade do mesmo nome, situada a 200 e poucos quilômetros de João Pessoa, ainda no chamado Seridó Paraibano; terras da origem da família do saudoso Ariano Suassuna - é, com o perdão da longa digressão entre travessões, o que a gente, no mesmo Seridó, porém potiguar, chamava em priscas eras de "o rio chegando com água", assim mesmo, nessa sintaxe que aparentemente embaralha a ordem das palavras no decurso da frase.
Hoje eu vejo como era linguisticamente bonito dizer "o rio chegando com água", porque isso significa, numa construção popular absolutamente poética, que sem água não há rio. Pode parecer óbvio para você que é do litoral ou da zona da mata. Não para nós que viemos do sertão.
O video, com toda sua beleza de flagrante inesperado, ainda pode ser visto como um comentário acidental, um chiste nordestino sem divisionismos ou sentimento de desforra, sobre a falta de água que atinge o sudeste do país. Como disse alguém outro dia aqui mesmo na internet, o problema da falta de água só se tornou realmente isso - um problema nacional - quando ocorreu onde as decisões econômicas do país são tomadas. Vejam que belas imagens, amigos sudestinos - sem ressentimentos, apenas observada, via essas mesmas imagens, a força daquela feia mas real constatação.
quarta-feira, 7 de janeiro de 2015
Notícias de verão
Três notícias movimentam este início de janeiro nos jornais de Natal: os moradores da praia de Pìrangi se organizando aos poucos para reagir à barulheira e às promoções de praia que tumultuam o que poderia ser um belo descanso por lá; as primeira providências do governador Robinson na área da segurança pública, convocando policiais que até ontem se recusavam a trabalhar em hora extra pra fazer policiamento nas áreas mais movimentadas; e - essa a que interessa aqui - a separação músico-vivencial da dupla Khrystal-Zé Dias. É o verão, é o fim do caminho, é o começo de outros, é a vida acontecendo no alvorecer do mais pessimista dos anos, este 2015, coitado, tão antecipado em previsões de ajustes, desgraças, contas a ajustar. A minha desconfiança interna diz que talvez, ao fim e ao cabo, não seja para tanto.
Mas a separação Khystal-Zé Dias é um desses acontecimentos-espelho, que por um lado se lamenta, por outro se compreende, por outros se deseja que resulte em mais e melhores dias para ambos. Ocorre que as parcerias, no dia-a-dia, no trabalho, na cama e na mesa, no companheirismo de jornadas enfrentadas em conjunto têm disso mesmo: começo com aquela carga de entusiasmo sem a qual a vida perde o viço; um meio ponteado por essa palavra tão na moda - ajustes e adaptações ao que não estava previsto -; e em muitos casos um fim, quando fica claro e transparente que algo se esgotou e outro tanto urra por alguma forma de renovação.
A vida acontece intensamente para todos quanto estejam atentos a ela e seus sinais, sejam relâmpagos ofuscantes de tão explícitos ou pequenas manifestações que se intrometem na rotina anunciando de mansinho que alguma coisa passou do prazo de validade e é preciso urgentemente repor os materiais nem sempre tangíveis com que se faz a existência. Sei que o recado aqui está resvalando para um certo tipo de auto-ajuda à qual, admito, sou bem suscetível. Devia ter avisado no início do post para não tomar o tempo de quem usa óculos de sol dentro de casa. Não o fiz, paciência. Nem tudo na vida sai como o esperado, o planejado, o imaginado. Feliz - na real - é quem compreende essas imperfeições e faz dela trampolim para verões possíveis.
Em Pirangi, praia, moradores estão tentando refundar o seu local de veraneio, espanando incômodos que, num esforço conjunto, podem sim sair de cena. Na segurança pública, a descrença é grande quanto ao efeito das duplas de policiais nas ruas - mas o muro de incredulidade não vai ajudar em nada a reverter a situação que, só pra citar um exemplo, transformou a praia de Búzios numa cidade-fantasma em pedaço que até outro dia era privilegiado trecho do litoral sul de Natal. E a dupla Khrystal-Zé Dias já faz parte da história cultural da cidade, independente dos novos vôos que ambos, cada qual no seu canto, vai pilotar a partir das renovações deste belo verão.
quinta-feira, 11 de dezembro de 2014
Woody vê o mundo
"Crimes e Pecados é um daqueles filmes que as pessoas veem a primeira vez e, como acontece com os contos de Tchekov, não captam logo tudo o que têm a oferecer. Eu sempre achei que é um filme que mostra como Woody Allen vê o mundo - um lugar onde pessoas como seus vizinhos realmente se envolvem com assassinatos e acabam se safando, e onde bobalhões terminam com belas namoradas."
David Gilmour, em O clube do filme, Intríseca.
Normas arcaicas
"Presenciei aquele universo. Meu avô era parecido. Não tinha o boi, o banguê, o cavalo. Era mais pobre. Agora, a moral dele era aquela. Aquilo é um patrimônio maléfico universal. A intolerância. A inibição do outro. O não reconhecimento da individualidade. Tenho capacidade de expressar isso em palavras. Seu Breves não tinha. Ao mesmo tempo era valor estratificado, era maneira de existir. Se não existissem esses valores no sertão, as pessoas sairiam se matando. Era uma forma deles de se organizar. Normas arcaicas, de colonizadores que vieram com o patrocínio da religião e da missão de quem chegou em um mundo maravilhoso como este. Consequentemente veio o empobrecimento."
José Dumont, em Do cordel às telas, depoimento a Klecius Henrique, Ed. Imprensa Oficial-SP
Palavras universais e sem sentido
"A sátira é uma espécie ameaçada no cinema norte-americano e, quando ocorre, é vaga e vulgar como nos filmes de Mel Brooks. Muito além do jardim, dirigido por Hal Ashby, é uma ave rara e sutil, que encontra seu tom e o mantém. Possui o atrativo de um jogo intelectual engenhoso, onde o herói sobrevive a uma série de desafios sem entende-los, usando palavras ao mesmo tempo universais e sem sentido."
Roger Ebert, em Grande Filmes, Ediouro.
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